Para o meu primeiro post de viagens, acabei escolhendo essa que foi meu primeiro contato com um país que se afastava um tanto das tradições ocidentais, embora fique ali literalmente “na fronteira” entre o Ocidente e o Oriente. Onde coloquei o “pé” na Ásia pela primeira vez… Como fiz essa viagem há bastante tempo, algumas coisas podem ser traídas pela memória, mas ainda consigo me lembrar de boa parte delas. Istambul é a maior cidade e a mais conhecida da Turquia (mas não é sua capital, a capital turca é Ankara!), cortada ao meio pelo Estreito de Bósforo, o que faz com que a cidade fique parte na Europa, parte na Ásia, oficialmente. Uma cidade com arquitetura magnífica, e com muita História, muitos locais e fatos que influenciaram civilizações ao longo do tempo.
Essa viagem à Turquia foi a última escala do giro pela Europa em abril de 2008 (depois de Berlim, Barcelona e Atenas). No planejamento da viagem, procurando por dicas na internet, em um site sobre viagens, encontrei um brasileiro (Dilermando) que já tinha ido para Istambul, e pegamos várias dicas preciosas. Entrei em contato, e aí eu descobri que eu, que programo bastante as viagens, na verdade sou um amador… ele me passou uma planilha onde planejava dia-a-dia uma estadia completa de uma semana em Istambul, com horários, locais e detalhes… Achei meio exagerado, mas é uma solução quando se tem pouco tempo. De qualquer forma, tirei informações importantes para montar o roteiro.
A hospedagem foi no Hotel Antique, que é bem simples porém extremamente bem localizado, muito próximo ao centro turístico da cidade, vizinho da Mesquita Azul e da Hagia Sophia, duas construções magníficas e principais pontos turísticos da cidade.

A chegada em Istambul foi no dia 5, no aeroporto Ataturk, vindo de Atenas, na Grécia – Aqui já cabe uma dica: indo para Istambul de avião, verifique se o aeroporto de destino é esse, algumas empresas, notadamente as low cost, costumam fazer vôos para outro aeroporto, distante uns 60 km da cidade, o que pode lhe fazer gastar um tanto a mais e perder um tempo precioso -, o acesso a partir do aeroporto de Ataturk é fácil, via metrô e tram chega-se facilmente ao bairro de Sultanahmet, o centro turístico. A primeira impressão sobre a cidade, ainda vista do avião, foi a quantidade de mesquitas na cidade(são quase 3000, depois fiquei sabendo), identificadas pelos minaretes, que são as torres, mais finas do que as torres das igrejas cristãs. Destes minaretes saem o som com versos em árabe chamando todos para a hora da reza. Junto com os chás servidos em pequenos “shots”, são as imagens que mais me remetem a Istambul…


E pelo caminho do aeroporto para a cidade, pode-se ver esses templos, de todos os tamanhos e por todos os lados. Chegando ao hotel, mochila descarregada e já iniciei a caminhada pela cidade. A primeira escolha foi ir caminhando de Sultanhamet até o Grande Bazar, passando pela praça em frente a Hagia Sophia e à Mesquita Azul. O Grande Bazar é um mercado antigo, onde se vende praticamente de tudo. O que espanta nele é o tamanho, enorme, gigante. Dificilmente você consegue entrar por onde saiu ou ter a noção de onde está quando sai. Dezenas de ruas apertadas, vendedores pulando à sua frente oferecendo todo tipo de quinquilharias e, é claro, os maravilhosos doces de Istambul… 😛 Uma delícia a parte, simplesmente maravilhosos. Na saída do Grande Bazar, fomos caminhando pelas ruas tortuosas do bairro para chegarmos ao Mercado Egípcio, ponto de venda de especiarias (e doces também), que fica um pouco mais ao norte do Grande Bazar. Era sábado e as ruas estavam lotadas de gente, o comércio local fervilhando. Cuidados normais quando se está no meio de aglomerações: cuidado com bolsas, carteiras, qualquer coisa que possa ser sorrateiramente retirada de você quando estiver distraído. Nada de pânico, mas é uma dica saudável. Ali e em qualquer outro lugar de comércio, vai uma dica: pechinche e negocie, sempre. Eles aparentemente até gostam disso, ficam um pouco decepcionados quando você leva o produto pelo preço anunciado, sem barganhar… vai entender…



Passeios imperdíveis
Dentre os passeios imperdíveis, posso destacar: Hagia Sophia, Mesquita Azul, Museu Militar, Palácio Topikapi, a apresentação dos Dervixes Rodopiantes (dança sufi), além de um passeio de barco pelo Bósforo, até o Mar Negro. Passeios pelas ruas são altamente recomendáveis, o grande número de mulheres de burca pode lhe chamar a atenção se for a primeira vez num país com predominância muçulmana. De qualquer forma, a boa educação manda ter discrição, e evitar fotos.
Hagia Sophia
A visita a esse local, por si só, já valia a viagem. É uma das construções mais impressionantes e bonitas que já vi. Foi erguida no século VI para ser a catedral de (na época) Constantinopla, no Império Bizantino. Com a queda de Constantinopla em 1453 (retomada pelos turcos, fato que marcou o fim da Idade Média), passou a ser uma mesquita, e assim permaneceu até o século passado, quando virou um museu, na década de 1930. Essas mudanças geraram um fato curioso, que faz desse um lugar tão único: o interior da catedral foi originalmente decorado todo com mosaicos feitos de milhares de pedaços de vidro e folhas de ouro. Várias representações de figuras bíblicas, imperadores, imperatrizes e herdeiros. A questão é que a religião muçulmana não permite a reprodução de figuras humanas, assim, quando a catedral foi transformada em mesquita no século XV, todos os mosaicos foram “tampados”, cimentados e pintados com motivos islâmicos. Esse tesouro artístico ficou assim por séculos, até que quando ela foi “secularizada” e transformada em museu no século XX, os mosaicos com imagens cristãs de 15 séculos atrás apareceram, e passaram a conviver lado a lado com a decoração muçulmana, criando uma atmosfera única no mundo, emoldurada pela grandeza de seu domo central.
Recentemente, em julho de 2020, o presidente turco revogou a lei do século passado que a transformou em museu, e agora ela passa a ser novamente uma mesquita. Não tenho informações a respeito de como ficarão as visitas e os mosaicos descritos acima. Espero que continue sendo um local de visitação onde símbolos de ambas as religiões possam conviver de alguma forma. Mas não sei se isso vai ocorrer.



É uma construção magnífica, que realmente vale a pena passar horas visitando, entendendo sua História e admirando seu interior.
Mesquita Azul

A Mesquita Azul (Blue Mosque) ou Mesquita do Sultão Amade (em turco: Sultanahmet Camii) foi construída no século XVII pelo Sultão Amade para fazer frente à Hagia Sophia. Fica praticamente em frente, separadas por uma praça florida. É uma peça também única da arquitetura no estilo clássico otomano, e mosaicos de cor predominantemente azul

Todas as mesquitas têm um código de vestimenta para serem visitadas: é necessário deixar o sapato do lado de fora para entrar. Shorts, minissaias, bermudas ou camisetas sem mangas não são recomendados. Mulheres devem cobrir os cabelos. No geral, nas mesquitas que são frequentadas por turistas, há funcionários distribuindo panos e véus para que as pessoas cubram as partes que – segundo eles – desrespeitam o lugar. Respeito e empatia fazem bem, aqui e em qualquer lugar do mundo, sempre.




Palácio Topikapi
Esse palácio (hoje um enorme museu) foi construído logo após a (re)tomada de Constantinopla(Istambul) pelos turcos, no século XV, ordenada pelo Sultão Mehmet, “O conquistador”, e foi o mais importante palácio até o início do século XVII. Uma das principais atrações é o harém, onde viviam as mulheres da família do Sultão. Segundo consta, todas as noites ele ia até lá para escolher dentre as suas dezenas de mulheres qual passaria a noite com ele. A maior parte da exposição do palácio não permite fotos, mas tirei algumas do harém (permitidas) e da entrada do palácio, onde antigamente ficavam lanças que expunham cabeças dos condenados executados bem ali, na praça em frete.
Mesmo sem fotos, as coisas de que mais me lembro de ter visto lá dentro foram: um relicário que continha as barbas do profeta (sim, o próprio, Maomé) e o cajado de Moisés, bem conservado e guardado atrás de um vidro. Outras duas peças importantes são a famosa Adaga Topikapi, cravejada de esmeraldas, e o Diamante Spoonmaker’s, considerado o quarto maior diamante do mundo. Uma outra coisa que me chamou a atenção tem a ver com a História da Religião Muçulmana: lá vi a estória de que Maomé, quando teve sua primeira revelação onde Deus, através do anjo Gabriel teria lhe revelado coisas que seriam a base do Corão, iniciou sua pregação e teria enviado uma carta ao Papa, explicando as revelações. Se essa carta existiu provavelmente nunca foi levada a sério, mas já imaginaram como o mundo seria diferente hoje se tivesse sido?



Museu Militar
O que mais me chamou a atenção nesse museu é como é interessante ver como a História é contada “pelo outro lado”. Para nós, nas aulas de História na escola, o marco do final da Idade Média foi a “tomada de Constantinopla pelos turcos”, e pronto. Sem detalhes. Indo nesse museu (e também no Topikapi) a batalha épica é contada com detalhes, e ali descobrimos que a cidade foi tomada “de volta”, considerando que durante séculos ficou sob o domínio cristão do Império Romano do Oriente (ou Império Bizantino), e os muçulmanos estariam a tomando de volta, após anos de perseguição no contexto das Cruzadas. A campanha do Sultão Maomé II, “O conquistador”, e explicada com minúcias, está lá exposta a corrente que “fechava” o Estreito de Bósforo para evitar invasões por barcos. É contado como ele conseguiu transportar os barcos via terra, para invadir pelo outro lado do Bósforo. Uma coisa imperdível é a apresentação da banda do exército Otomano, com instrumentos e trajes típicos. Vale a pena se informar para saber datas e horários das apresentações (são frequentes mas não diárias).


Passeio ao Mar Negro
Essa foi uma dica espetacular do Dilermando: pegar o barco de linha (não é um barco turístico) no cais de Eminönü, para fazer o trajeto de Istambul a Anadolu Kavagi, já na extremidade norte do estreito do Bósforo – descer em Anadolu Kavagi, subir à pé às ruínas da fortaleza bizantina do século XIV no alto do morro, de onde pode-se ver o Mar Negro – maravilhoso !




Dança Sufi
Como última dica imperdível de Istambul, fica o espetáculo dos Dervixes Rodopiantes. Os dervixes são uma confraria religiosa muçulmana de caráter ascético ou místico (sufi). A ordem dos Dervixes Rodopiantes fundou-se no século XIII e é a mais conhecida da Turquia. Eles entram em uma espécie de transe durante a dança, e (obviamente) rodopiam durante vários minutos que parecem não ter fim… um espetáculo bonito, de pouco menos de uma hora, vale a pena.

Se você chegou até aqui, obrigado… Foi ficando meio grande esse post, pensei até na possibilidade de dividir em duas partes, mas acabei desistindo… Espero que tenha gostado.
Até a próxima!
Bela aula de história. Adoorei… Até que para tantos ´seculos, o post ficou pequeno rs…
No passeio de barco… aquilo sim que são casas germinadas…. uma quase dentro da outra.
obrigada por compartilhar.