Pequim, História e muralhas
Nos dois primeiros textos desta série, falei sobre as pessoas que encontrei na China e sobre a forma como a tecnologia estava integrada ao cotidiano, à infraestrutura e aos processos industriais. Para encerrar o relato, falta contar um pouco dos dias em que deixei a parte profissional da viagem para trás e fui conhecer alguns dos lugares históricos mais conhecidos do país.

Depois dos compromissos de trabalho, tirei alguns dias para passear e peguei um voo de Shanghai para Pequim. Antes mesmo de chegar, porém, a viagem já começou com uma pequena complicação envolvendo um equipamento que normalmente me acompanha em trilhas e viagens: um powerbank de 30.000 mAh

Um powerbank grande demais
Uso esse powerbank principalmente quando vou para a montanha e preciso manter o celular funcionando por vários dias sem acesso a uma tomada. Ele é grande e pesado, mas bastante útil nessas situações. O que eu não sabia era que, na China, existiam restrições para transportar baterias daquele tamanho em alguns meios de transporte.
Descobri isso pela primeira vez durante uma viagem de trem entre Changzhou e Shanghai. Na ida, passei normalmente pelo controle de segurança. Na volta, porém, minha mochila foi separada durante o raio-X e uma agente começou a me explicar, em chinês, que eu não poderia embarcar com o equipamento.
Eu havia entendido mais ou menos o que estava acontecendo, mas resolvi me fazer de desentendido e ligar para uma colega da fábrica que havia me acompanhado durante a visita.
Expliquei que estavam me impedindo de passar e que eu não conseguia compreender o motivo. Ela então falou diretamente com a agente e confirmou o que eu já suspeitava: o powerbank excedia o limite permitido e não poderia seguir comigo naquele trem.
Perguntei o que faria com ele e, depois de conversar novamente com a colega ao telefone, ela me disse que passaria na estação mais tarde para buscá-lo. Poderia enviá-lo para mim em Shanghai ou guardá-lo até a semana seguinte, quando eu voltaria a Changzhou.
Preferi a segunda opção e, alguns dias depois, recuperei o equipamento.
Achei que o problema estivesse resolvido, até chegar ao aeroporto para voar de Shanghai a Pequim.
Mais uma vez, minha bagagem foi desviada no raio-X e fui chamado para conversar com os agentes. Dessa vez, disseram que eu poderia embarcar com o powerbank, mas antes precisaria ir até o balcão da companhia aérea e assinar um termo de responsabilidade.
O documento dizia, em resumo, que eu assumia a responsabilidade por qualquer incidente relacionado ao equipamento durante o voo. Na interpretação um pouco dramática que fiz naquele momento, se o powerbank pegasse fogo, explodisse e derrubasse o avião, seria melhor que eu não sobrevivesse, porque as consequências poderiam ser bastante complicadas…

Assinei o termo e embarquei normalmente. Na viagem de volta, ao deixar Pequim, aconteceu exatamente a mesma coisa e precisei assinar outro documento.
O curioso é que um equipamento que eu usava no Brasil sem pensar muito sobre o assunto havia se transformado numa espécie de personagem recorrente da viagem.
Uma praça fechada
Superado o problema com o powerbank, cheguei a Pequim com um passeio de um dia já reservado. O roteiro incluía a Praça da Paz Celestial, a Cidade Proibida e a Grande Muralha, com transporte e almoço. A ideia era simples: me buscariam pela manhã no hotel e me devolveriam no final da tarde, depois de passar por alguns dos lugares mais conhecidos da cidade.
Na véspera, porém, recebi uma mensagem pelo WeChat — o WhatsApp da China — enviada pelo responsável da agência. Ele pedia desculpas e dizia que, no dia seguinte, não seria possível visitar a Praça da Paz Celestial porque ela estaria fechada devido a “atividades governamentais” e sob o que ele chamou de martial law. Lei Marcial, em português. Achei que era algo muito sério.
Ele pediu desculpas e compreensão, e me explicou que ainda passaríamos de carro ao redor da praça e que o restante do passeio seguiria normalmente. No dia seguinte, a guia e o motorista chegaram ao hotel e, para minha surpresa, o passeio acabou sendo privado: apenas nós três em um carro.
Foi aí que resolvi perguntar diretamente à guia:
— O que é esse negócio de “lei marcial” na praça?
Ela respondeu com uma pergunta:
— Você sabe de alguma coisa que aconteceu nessa praça muitos anos atrás e sobre a qual a gente não costuma falar?
Imediatamente pensei nos acontecimentos de 1989 e naquela imagem que ficou conhecida no mundo inteiro, do homem parado diante de uma coluna de tanques.
Disse que sim.
Ela então explicou que no dia seguinte seria o aniversário daqueles acontecimentos e que, por isso, nos dias anteriores o governo costumava restringir o acesso à praça para evitar manifestações ou qualquer tipo de ato relacionado à data.
Aquilo me marcou bastante. Não apenas pela praça estar fechada, mas pela forma como ela falou sobre o assunto: “uma coisa que aconteceu aqui e sobre a qual a gente não fala”. Era uma frase simples, dita de maneira bastante natural, mas que dizia muita coisa sobre a relação do país com determinados episódios da própria História.
E aí aconteceu uma coincidência que eu achei, ao mesmo tempo, curiosa e quase engraçada.
Doze anos antes, em 2013, eu havia viajado para a Rússia. Em Moscou, deixei um dia reservado justamente para visitar a Praça Vermelha e o mausoléu de Lenin. Quando cheguei lá, a praça estava fechada porque haveria um desfile militar no dia seguinte.
Resultado: saí de Moscou sem conseguir visitar a Praça Vermelha nem o mausoléu de Lenin.
Agora, doze anos depois, estava em Pequim e novamente não conseguia visitar uma das praças mais famosas do mundo, justamente a praça onde fica o mausoléu de Mao Tsé-Tung.
Pensei comigo que talvez eu simplesmente não tivesse muita sorte com grandes praças de países comunistas…
Passamos de carro ao redor da Praça da Paz Celestial. Mesmo sem poder entrar, já dava para perceber a dimensão do lugar. Depois seguimos para a Cidade Proibida, e aí começava uma parte bem diferente do passeio.



A Cidade Proibida
Depois de contornar a Praça da Paz Celestial de carro, seguimos para a Cidade Proibida. Saía de uma discussão muito contemporânea sobre memória, censura e controle para entrar em um espaço que concentra séculos de História chinesa.
Dei sorte porque o lugar estava relativamente vazio naquele dia. Era logo depois de um feriado prolongado e, pelo que me explicaram, o movimento costuma ser muito maior. Isso fez bastante diferença, porque consegui caminhar com calma, observar os detalhes e tirar fotos sem aquela multidão que normalmente aparece nas imagens dos pontos turísticos mais famosos da China.
O que mais me chamou a atenção ali foi a quantidade de rituais e simbolismos associados à vida imperial. Não era simplesmente um palácio enorme: cada porta, cada ponte e cada espaço tinha uma função muito específica, e muitas vezes existiam regras claras sobre quem podia ou não passar por determinado lugar.


Havia, por exemplo, uma ponte reservada ao imperador e outra que só podia ser utilizada pela imperatriz. Algumas entradas também tinham hierarquias próprias, de acordo com a posição de quem circulava por ali. Era interessante perceber como a arquitetura, por si só, já organizava o poder.
Outro detalhe que achei bastante curioso estava relacionado aos aposentos do imperador. Segundo a explicação da guia, havia dezenas de quartos disponíveis e ele não dormia sempre no mesmo lugar. A escolha variava justamente por uma questão de segurança, já que ninguém deveria saber com antecedência onde o imperador passaria a noite.
A história ficou marcada porque mostrava uma dimensão muito concreta do que significava ocupar aquela posição. Poder absoluto, sim, mas também medo constante de conspirações e assassinatos.



Os tronos e os grandes salões também impressionavam bastante. É um daqueles lugares em que a escala ajuda a entender a importância simbólica do poder imperial: tudo parece construído para reforçar hierarquia, distância e solenidade.

Ao mesmo tempo, caminhar pela Cidade Proibida é um exercício curioso de imaginação. Hoje você vê turistas andando livremente por espaços que, durante séculos, eram restritos a um grupo muito pequeno de pessoas. Lugares que já foram inacessíveis para quase toda a população chinesa se tornaram parte de um dos circuitos turísticos mais conhecidos do país.
Outros cantos de Pequim
Além desse passeio guiado, aproveitei os outros dias para conhecer Pequim por conta própria. E uma coisa que me chamou bastante a atenção foi a dimensão dos parques e dos antigos jardins imperiais.
Não estamos falando simplesmente de algumas áreas verdes no meio da cidade. Em alguns casos são complexos enormes, com lagos, pontes, templos, palácios e barcos circulando pela água. É possível passar muitas horas caminhando sem ter a sensação de ter conhecido tudo.
Dois lugares que me marcaram particularmente foram o Temple of Heaven, ou Templo do Céu.




No Templo do Céu, além da arquitetura muito característica, chamou minha atenção novamente a escala dos espaços. É um daqueles lugares em que você percebe que os edifícios são apenas parte da experiência: todo o entorno, os caminhos, os jardins e a forma como as construções estão posicionadas fazem parte do conjunto.
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Mais uma vez aparecia aquela mistura entre natureza, intervenção humana e História.
E Pequim tinha muito disso: você saía de uma avenida moderna, pegava o metrô e, pouco depois, estava caminhando por um jardim imperial construído séculos atrás. Era outra versão daquele contraste entre a China contemporânea e sua História que havia aparecido durante toda a viagem.
A Grande Muralha
Depois da Cidade Proibida, seguimos para a parte mais longa do passeio. A Grande Muralha fica mais afastada de Pequim e, no caminho, fizemos uma parada para almoçar. Sentei com a guia, enquanto o motorista ficou em outra mesa, numa separação de funções que me chamou a atenção mais uma vez ao longo da viagem.
Chegando à Muralha, havia a opção de subir caminhando ou de teleférico. Como o tempo era limitado, escolhemos o teleférico — decisão prática, embora não exatamente confortável para alguém como eu, que nunca teve uma relação muito amigável com altura.
Subimos até um dos antigos postos de controle e, a partir dali, comecei a caminhar pela Muralha. A guia preferiu ficar me esperando enquanto eu seguia sozinho por uma sequência de torres e trechos bastante íngremes, com muitas escadas, subidas e descidas.

Foi aí que tive bastante sorte novamente. Assim como havia acontecido na Cidade Proibida, o movimento estava muito abaixo do normal por conta do período logo após o feriado. Em vários momentos, havia tão pouca gente que consegui tirar fotos da Muralha praticamente vazia, com apenas eu no meio daquela paisagem gigantesca.



E acho que é justamente ali que se começa a ter alguma dimensão do tamanho daquilo.

Quando dizemos “visitar a Grande Muralha”, na verdade estamos falando de conhecer um pequeno trecho de uma construção que se estende por uma distância difícil até de imaginar. Você caminha por uma parte, olha para frente e vê a Muralha seguindo pelas montanhas, desaparecendo e reaparecendo nas cristas, até onde a vista alcança.
A paisagem dos dois lados também me chamou muito a atenção. De um lado, ao longe, era possível enxergar Pequim e reconhecer alguns dos edifícios mais altos da cidade. Do outro, havia montanhas e vales praticamente sem fim, justamente a região que, em diferentes períodos da História, representava o território de onde vinham invasões e ameaças ao império.
Era curioso estar sobre uma estrutura construída justamente para separar esses dois mundos e, séculos depois, poder observar os dois lados ao mesmo tempo.
As fotos ajudam bastante a transmitir a beleza do lugar, mas não dão conta da dimensão. Estar ali, caminhando praticamente sozinho por alguns trechos, cercado por montanhas e com a Muralha serpenteando pela paisagem, foi uma das experiências mais marcantes que tive na China.
E talvez também tenha sido um bom lugar para começar a juntar tudo aquilo que eu havia vivido durante a viagem: a China moderna e tecnológica, a China imperial, o país extremamente organizado, as contradições políticas e, principalmente, a sensação constante de estar vendo uma realidade muito distante da minha por um ângulo que eu nunca teria em casa.
Olhar de outro lugar
Talvez o que mais tenha ficado dessa viagem não seja uma imagem específica, um monumento ou uma tecnologia. Foi a sensação de ter passado alguns dias dentro de uma realidade muito diferente da minha, convivendo com outra língua, outros hábitos, outra forma de trabalhar, de se deslocar, de organizar as cidades e até de lidar com a própria História.
Ao longo daqueles dias, várias coisas me causaram estranhamento. Algumas me impressionaram, outras me fizeram questionar, outras simplesmente despertaram curiosidade. E acho que esse é justamente um dos maiores valores de viajar para lugares assim: sair, ainda que por pouco tempo, do enquadramento que usamos normalmente para interpretar o mundo.
Uma viagem à China, ou para qualquer lugar que seja afastado do seu próprio país, metafórica e fisicamente, lhe força a ver o mundo sob um enquadramento diferente. E isso é muito rico, é aprendizado puro.






































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