
Li esse livro (na verdade “ouvi” na sua versão audiolivro) após ouvir um comentário em uma mesa redonda num evento recente. Fiquei curioso de como seria uma história narrada durante o que chamamos de pré-história.
Os Imortais nos leva a um tempo muito anterior ao que costumamos reconhecer como civilização, quando neandertais e Homo sapiens ainda dividiam o mesmo mundo. A história acompanha a caminhada de um pequeno clã de neandertais, num ambiente em que quase tudo aquilo que hoje usamos para definir uma pessoa desaparece: profissão, posição social, bens, rotina, identidade formal. Restam o corpo, a fome, o frio, o abrigo, a caça, o medo, o grupo e a necessidade de continuar vivendo. Em alguns momentos, essa redução ao essencial me lembrou Vidas Secas, de Graciliano Ramos, embora aqui o deslocamento seja ainda mais radical: somos levados para perto de uma humanidade ainda anterior ao homem moderno, quase na fronteira entre aquilo que reconhecemos como humano e aquilo que ainda nos parece ancestral.
O que torna esse mundo ainda mais interessante é a forma como os personagens tentam explicar aquilo que não compreendem. Eles sabem o que é fome, frio, cansaço, perigo, abrigo ou morte, mas, quando alguma coisa foge desse repertório, entram o medo, o mito e a superstição. Há uma cena que me marcou bastante, quando o grupo encontra um potro recém-nascido, morto e com duas cabeças. Para nós, leitores, é relativamente fácil entender que se trata de uma deformação; para eles, aquilo assume a forma de um monstro, de um sinal ou de uma punição por alguma coisa que fizeram. E acho especialmente interessante como o narrador, em terceira pessoa e conhecendo os pensamentos dos personagens, nos coloca exatamente nesse ponto intermediário: acompanhamos sentimentos que reconhecemos imediatamente, mas surgidos de um mundo em que ainda não existem as explicações que hoje usamos para dar sentido às coisas.
Mas essa vida guiada pelo instinto e pela sobrevivência não significa ausência de organização. Ao contrário, o clã tem funções bastante definidas, e cada uma delas parece carregar um sentido claro de responsabilidade. Há quem cuide do fogo, quem prepare a comida, quem saia para caçar, quem conduza o grupo nas mudanças de lugar e quem, pela idade e pela experiência, seja ouvido com respeito. As decisões importantes são compartilhadas, embora exista uma figura de liderança que organiza e conduz o grupo. Isso me chamou atenção porque desmonta um pouco a ideia simplista que muitas vezes associamos à palavra “primitivo”: falta tecnologia, falta conhecimento sobre o mundo, mas não falta estrutura social, cooperação ou reconhecimento da experiência acumulada. A sobrevivência daquele grupo depende justamente de cada um entender o seu papel e de todos saberem que precisam uns dos outros.
Isso me fez lembrar de uma história que li muitos anos atrás, numa discussão sobre qual teria sido um dos primeiros sinais daquilo que hoje chamaríamos de civilização. A resposta não era uma ferramenta, uma construção ou alguma forma de escrita, mas a descoberta de ossos com fraturas que haviam cicatrizado. A ideia por trás disso sempre me pareceu muito bonita: um ferimento grave que teve tempo de se curar indica que, em algum momento, aquele indivíduo provavelmente não foi simplesmente abandonado. Alguém precisou protegê-lo, alimentá-lo ou ajudá-lo enquanto ele não conseguia fazer sozinho aquilo que normalmente faria. Talvez exista algo profundamente civilizado justamente aí: na capacidade de cuidar de alguém que, naquele momento, não consegue contribuir da mesma forma para a sobrevivência do grupo. E isso aparece várias vezes em Os Imortais, quando os neandertais cuidam dos feridos, dos mais velhos e uns dos outros.
E é justamente aí que aparece uma das contradições mais fortes do livro. O mesmo grupo capaz de cuidar dos feridos, respeitar os mais velhos e organizar a própria sobrevivência em torno da cooperação também reage com medo e violência quando encontra aquilo que considera diferente. O estranho, o desconhecido, o que não pertence ao clã, rapidamente pode ser associado à ameaça, à má sorte ou a alguma espécie de desequilíbrio. Em alguns momentos, isso aparece nos encontros com os Homo sapiens: a diferença física e comportamental basta para transformar o outro em algo suspeito, quase como se não estivesse sujeito às mesmas regras de proteção e respeito que valem dentro do grupo. Foi impossível não fazer um paralelo com mecanismos que continuam presentes hoje em preconceitos, xenofobia, racismo e conflitos entre grupos. Evidentemente, não se trata de dizer que as situações sejam equivalentes, mas o mecanismo parece familiar demais: primeiro vem o estranhamento, depois o medo, e então a construção de uma justificativa para tratar o outro de uma forma que provavelmente não aceitaríamos se ele fosse reconhecido como “um dos nossos”.
A menina Homo sapiens talvez seja a personagem que torna esse conflito mais concreto. Criada pelo grupo de neandertais, ela cresce cercada por eles, aprende seus hábitos e depende daquela comunidade, mas nunca deixa de ser percebida como diferente. A própria aparência física a separa dos demais, e em alguns momentos essa diferença basta para que seja associada à má sorte ou vista como alguém que não pertence inteiramente ao grupo. Ao longo do livro, há nela uma busca por pertencimento que talvez nem seja completamente consciente: quem são os seus, de onde ela veio, como seria encontrar alguém parecido com ela? Essa inquietação atravessa boa parte da narrativa e dá à personagem uma dimensão muito humana. É a necessidade de saber onde se pertence, de encontrar no outro algum reflexo de si mesmo — uma necessidade que continua bastante familiar, apesar de toda a distância que separa aquele mundo do nosso.
O homem que ocupa a posição de líder do grupo e que, de certa forma, assume para ela um papel paterno, também me parece um personagem muito importante por outro motivo. Ele percebe coisas que não consegue explicar, desconfia, hesita, tenta compreender situações para as quais não tem repertório, linguagem ou conhecimento suficiente. E é justamente essa limitação que o torna tão humano. Não é alguém que tenha respostas, mas alguém que sente que existe algo além daquilo que consegue alcançar.
Talvez isso também não esteja tão distante de nós quanto gostaríamos de imaginar. Hoje temos ciência, conhecimento acumulado, instrumentos para observar o mundo e explicações para coisas que durante milênios foram entendidas como sinais, castigos ou manifestações do desconhecido. Ainda assim, continuamos convivendo com crenças, dogmas, tradições e certezas que muitas vezes aceitamos sem questionar completamente. Em maior ou menor grau, parece existir em nós essa necessidade de preencher aquilo que não compreendemos com alguma explicação que torne o mundo mais suportável ou inteligível.
Nesse sentido, ele e a menina acabam funcionando quase como espelhos invertidos: ela parece buscar, ainda que sem saber exatamente como formular isso, o lugar a que pertence; ele parece buscar uma compreensão maior do próprio mundo em que vive. Em ambos existe uma inquietação que não depende de ciência, filosofia ou qualquer elaboração mais sofisticada para existir. Existe apenas a sensação de que há algo que ainda não se entende.
Talvez seja justamente por isso que, paradoxalmente, quanto mais o livro nos leva para um mundo que parece distante daquilo que reconhecemos como civilização, mais próximos aqueles personagens acabam ficando. Eles vivem num universo governado por necessidades muito básicas, medo, instinto, superstição e sobrevivência, mas também por afeto, proteção, curiosidade, desejo de pertencimento, dúvida, violência e cuidado. Em alguns momentos, a distância temporal parece enorme; em outros, quase desaparece. E foi isso que mais me chamou a atenção ao longo da leitura: perceber que certas estruturas talvez tenham mudado muito menos do que imaginamos. As ferramentas mudaram, as explicações ficaram mais sofisticadas, as sociedades se tornaram infinitamente mais complexas, mas alguns impulsos continuam reconhecíveis demais.
E essa proximidade nem sempre é confortável. Há momentos em que o comportamento dos personagens nos aproxima não pelo que temos de melhor, mas justamente pelo contrário. A tentativa de estupro da menina por um dos neandertais é provavelmente o exemplo mais brutal disso. Não porque aquela violência seja necessária para explicar o que é humano, mas porque ela expõe impulsos de dominação, desejo, força e abuso que continuamos reconhecendo milhares de anos depois. O mesmo grupo que protege, acolhe e cuida também é capaz de excluir, agredir e violentar. Talvez seja justamente aí que o livro provoque mais incômodo: quanto mais tentamos enxergar aqueles seres como primitivos e distantes de nós, mais encontramos comportamentos que persistiram, apenas revestidos por outras regras, instituições e discursos. A civilização nos deu formas mais sofisticadas de organizar a convivência, mas não necessariamente eliminou tudo aquilo que havia de mais instintivo em nós.
Talvez tenha sido justamente isso que mais me marcou em Os Imortais. Quanto mais a história me afastava do mundo que reconheço como civilizado, mais familiar aquele mundo começava a parecer. Medo do desconhecido, necessidade de pertencer, respeito, cuidado, superstição, violência, preconceito, curiosidade, busca por respostas… tudo isso já estava ali, em formas mais simples e mais expostas, mas ainda perfeitamente reconhecíveis. É estranho perceber nossa própria humanidade aparecendo com tanta força justamente quando acompanhamos personagens tão próximos das nossas origens mais primitivas. Talvez tenhamos mudado muito mais as ferramentas, as explicações e a maneira de organizar o mundo do que alguns dos sentimentos e impulsos que carregamos dentro dele. E, no fim, talvez essa tenha sido a pergunta que o livro deixou comigo: quanto de nós já estava ali?































































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