Os Imortais (livro)

4 10 2026

Li esse livro (na verdade “ouvi” na sua versão audiolivro) após ouvir um comentário em uma mesa redonda num evento recente. Fiquei curioso de como seria uma história narrada durante o que chamamos de pré-história.

Os Imortais nos leva a um tempo muito anterior ao que costumamos reconhecer como civilização, quando neandertais e Homo sapiens ainda dividiam o mesmo mundo. A história acompanha a caminhada de um pequeno clã de neandertais, num ambiente em que quase tudo aquilo que hoje usamos para definir uma pessoa desaparece: profissão, posição social, bens, rotina, identidade formal. Restam o corpo, a fome, o frio, o abrigo, a caça, o medo, o grupo e a necessidade de continuar vivendo. Em alguns momentos, essa redução ao essencial me lembrou Vidas Secas, de Graciliano Ramos, embora aqui o deslocamento seja ainda mais radical: somos levados para perto de uma humanidade ainda anterior ao homem moderno, quase na fronteira entre aquilo que reconhecemos como humano e aquilo que ainda nos parece ancestral.

O que torna esse mundo ainda mais interessante é a forma como os personagens tentam explicar aquilo que não compreendem. Eles sabem o que é fome, frio, cansaço, perigo, abrigo ou morte, mas, quando alguma coisa foge desse repertório, entram o medo, o mito e a superstição. Há uma cena que me marcou bastante, quando o grupo encontra um potro recém-nascido, morto e com duas cabeças. Para nós, leitores, é relativamente fácil entender que se trata de uma deformação; para eles, aquilo assume a forma de um monstro, de um sinal ou de uma punição por alguma coisa que fizeram. E acho especialmente interessante como o narrador, em terceira pessoa e conhecendo os pensamentos dos personagens, nos coloca exatamente nesse ponto intermediário: acompanhamos sentimentos que reconhecemos imediatamente, mas surgidos de um mundo em que ainda não existem as explicações que hoje usamos para dar sentido às coisas.

Mas essa vida guiada pelo instinto e pela sobrevivência não significa ausência de organização. Ao contrário, o clã tem funções bastante definidas, e cada uma delas parece carregar um sentido claro de responsabilidade. Há quem cuide do fogo, quem prepare a comida, quem saia para caçar, quem conduza o grupo nas mudanças de lugar e quem, pela idade e pela experiência, seja ouvido com respeito. As decisões importantes são compartilhadas, embora exista uma figura de liderança que organiza e conduz o grupo. Isso me chamou atenção porque desmonta um pouco a ideia simplista que muitas vezes associamos à palavra “primitivo”: falta tecnologia, falta conhecimento sobre o mundo, mas não falta estrutura social, cooperação ou reconhecimento da experiência acumulada. A sobrevivência daquele grupo depende justamente de cada um entender o seu papel e de todos saberem que precisam uns dos outros.
Isso me fez lembrar de uma história que li muitos anos atrás, numa discussão sobre qual teria sido um dos primeiros sinais daquilo que hoje chamaríamos de civilização. A resposta não era uma ferramenta, uma construção ou alguma forma de escrita, mas a descoberta de ossos com fraturas que haviam cicatrizado. A ideia por trás disso sempre me pareceu muito bonita: um ferimento grave que teve tempo de se curar indica que, em algum momento, aquele indivíduo provavelmente não foi simplesmente abandonado. Alguém precisou protegê-lo, alimentá-lo ou ajudá-lo enquanto ele não conseguia fazer sozinho aquilo que normalmente faria. Talvez exista algo profundamente civilizado justamente aí: na capacidade de cuidar de alguém que, naquele momento, não consegue contribuir da mesma forma para a sobrevivência do grupo. E isso aparece várias vezes em Os Imortais, quando os neandertais cuidam dos feridos, dos mais velhos e uns dos outros.

E é justamente aí que aparece uma das contradições mais fortes do livro. O mesmo grupo capaz de cuidar dos feridos, respeitar os mais velhos e organizar a própria sobrevivência em torno da cooperação também reage com medo e violência quando encontra aquilo que considera diferente. O estranho, o desconhecido, o que não pertence ao clã, rapidamente pode ser associado à ameaça, à má sorte ou a alguma espécie de desequilíbrio. Em alguns momentos, isso aparece nos encontros com os Homo sapiens: a diferença física e comportamental basta para transformar o outro em algo suspeito, quase como se não estivesse sujeito às mesmas regras de proteção e respeito que valem dentro do grupo. Foi impossível não fazer um paralelo com mecanismos que continuam presentes hoje em preconceitos, xenofobia, racismo e conflitos entre grupos. Evidentemente, não se trata de dizer que as situações sejam equivalentes, mas o mecanismo parece familiar demais: primeiro vem o estranhamento, depois o medo, e então a construção de uma justificativa para tratar o outro de uma forma que provavelmente não aceitaríamos se ele fosse reconhecido como “um dos nossos”.

A menina Homo sapiens talvez seja a personagem que torna esse conflito mais concreto. Criada pelo grupo de neandertais, ela cresce cercada por eles, aprende seus hábitos e depende daquela comunidade, mas nunca deixa de ser percebida como diferente. A própria aparência física a separa dos demais, e em alguns momentos essa diferença basta para que seja associada à má sorte ou vista como alguém que não pertence inteiramente ao grupo. Ao longo do livro, há nela uma busca por pertencimento que talvez nem seja completamente consciente: quem são os seus, de onde ela veio, como seria encontrar alguém parecido com ela? Essa inquietação atravessa boa parte da narrativa e dá à personagem uma dimensão muito humana. É a necessidade de saber onde se pertence, de encontrar no outro algum reflexo de si mesmo — uma necessidade que continua bastante familiar, apesar de toda a distância que separa aquele mundo do nosso.

O homem que ocupa a posição de líder do grupo e que, de certa forma, assume para ela um papel paterno, também me parece um personagem muito importante por outro motivo. Ele percebe coisas que não consegue explicar, desconfia, hesita, tenta compreender situações para as quais não tem repertório, linguagem ou conhecimento suficiente. E é justamente essa limitação que o torna tão humano. Não é alguém que tenha respostas, mas alguém que sente que existe algo além daquilo que consegue alcançar.

Talvez isso também não esteja tão distante de nós quanto gostaríamos de imaginar. Hoje temos ciência, conhecimento acumulado, instrumentos para observar o mundo e explicações para coisas que durante milênios foram entendidas como sinais, castigos ou manifestações do desconhecido. Ainda assim, continuamos convivendo com crenças, dogmas, tradições e certezas que muitas vezes aceitamos sem questionar completamente. Em maior ou menor grau, parece existir em nós essa necessidade de preencher aquilo que não compreendemos com alguma explicação que torne o mundo mais suportável ou inteligível.

Nesse sentido, ele e a menina acabam funcionando quase como espelhos invertidos: ela parece buscar, ainda que sem saber exatamente como formular isso, o lugar a que pertence; ele parece buscar uma compreensão maior do próprio mundo em que vive. Em ambos existe uma inquietação que não depende de ciência, filosofia ou qualquer elaboração mais sofisticada para existir. Existe apenas a sensação de que há algo que ainda não se entende.

Talvez seja justamente por isso que, paradoxalmente, quanto mais o livro nos leva para um mundo que parece distante daquilo que reconhecemos como civilização, mais próximos aqueles personagens acabam ficando. Eles vivem num universo governado por necessidades muito básicas, medo, instinto, superstição e sobrevivência, mas também por afeto, proteção, curiosidade, desejo de pertencimento, dúvida, violência e cuidado. Em alguns momentos, a distância temporal parece enorme; em outros, quase desaparece. E foi isso que mais me chamou a atenção ao longo da leitura: perceber que certas estruturas talvez tenham mudado muito menos do que imaginamos. As ferramentas mudaram, as explicações ficaram mais sofisticadas, as sociedades se tornaram infinitamente mais complexas, mas alguns impulsos continuam reconhecíveis demais.

E essa proximidade nem sempre é confortável. Há momentos em que o comportamento dos personagens nos aproxima não pelo que temos de melhor, mas justamente pelo contrário. A tentativa de estupro da menina por um dos neandertais é provavelmente o exemplo mais brutal disso. Não porque aquela violência seja necessária para explicar o que é humano, mas porque ela expõe impulsos de dominação, desejo, força e abuso que continuamos reconhecendo milhares de anos depois. O mesmo grupo que protege, acolhe e cuida também é capaz de excluir, agredir e violentar. Talvez seja justamente aí que o livro provoque mais incômodo: quanto mais tentamos enxergar aqueles seres como primitivos e distantes de nós, mais encontramos comportamentos que persistiram, apenas revestidos por outras regras, instituições e discursos. A civilização nos deu formas mais sofisticadas de organizar a convivência, mas não necessariamente eliminou tudo aquilo que havia de mais instintivo em nós.

Talvez tenha sido justamente isso que mais me marcou em Os Imortais. Quanto mais a história me afastava do mundo que reconheço como civilizado, mais familiar aquele mundo começava a parecer. Medo do desconhecido, necessidade de pertencer, respeito, cuidado, superstição, violência, preconceito, curiosidade, busca por respostas… tudo isso já estava ali, em formas mais simples e mais expostas, mas ainda perfeitamente reconhecíveis. É estranho perceber nossa própria humanidade aparecendo com tanta força justamente quando acompanhamos personagens tão próximos das nossas origens mais primitivas. Talvez tenhamos mudado muito mais as ferramentas, as explicações e a maneira de organizar o mundo do que alguns dos sentimentos e impulsos que carregamos dentro dele. E, no fim, talvez essa tenha sido a pergunta que o livro deixou comigo: quanto de nós já estava ali?





Às vésperas dos 50…

23 08 2026
Imagem trabalhada com ajuda da IA.

Recentemente, numa conversa com uma das minhas sobrinhas sobre livros que eu estava recomendando para ela ler nas férias, acabei revisitando mentalmente algumas leituras da adolescência. Entre elas, voltaram Richard Bach, Fernão Capelo Gaivota, Ilusões, A Ponte para o Sempre e, especialmente, Um. Nesse último, há uma imagem que ficou guardada comigo por anos: a de um voo sobre linhas imaginárias, que poderiam ser rios ou estradas, representando metaforicamente caminhos que teríamos tomado ao longo da vida, que se bifurcam infinitamente, como se cada decisão abrisse um caminho possível e, ao mesmo tempo, fechasse outros.

Talvez essa imagem tenha voltado agora porque estou às vésperas dos cinquenta anos, que completo em novembro. É apenas um número, claro, mas seria desonesto dizer que ele não carrega um simbolismo. Com ele, vem também uma constatação difícil de ignorar: muito provavelmente, o tempo que tenho pela frente é menor do que o tempo que já deixei pra trás. Não é desespero, é uma lucidez nova. Essa percepção fica ainda mais forte quando olho ao redor. Amigos de muitos anos começam a perder seus pais, pessoas próximas passam por doenças relacionadas à idade, despedidas, mudanças duras de rota. Alguns amigos eu mesmo perdi ao longo do caminho. Há uma fase da vida em que o tempo deixa de ser calendário e vira falta. E isso torna tudo mais concreto.

Ao mesmo tempo, quando olho para trás, percebo o quanto fui agraciado, ou abençoado, no sentido mais amplo e menos religioso possível – até mesmo porque sigo sendo ateu agnóstico. Isso justamente por ter podido fazer escolhas em muitos momentos da minha vida. Muita gente não tem essa margem: é empurrada pelas circunstâncias, pela falta de oportunidade, pela urgência da sobrevivência. Eu, com todos os medos e limitações, com um início de vida com alguma dificuldade, mas sempre com muito apoio da família, pude escolher muitas vezes. E escolher também é arcar com as consequências. Algumas me levaram por caminhos mais leves, outras por caminhos mais duros, e todas vão igualmente trilhando o caminho…

Algumas dessas escolhas eu talvez não repetisse. Mas todas elas fazem parte do percurso e do que me tornei hoje. Penso então naquele adolescente que sofreu como se cada dor fosse definitiva. Lembro de decepções, vergonhas, amores terminados, cartas dramáticas e hoje algumas dessas dores parecem menores, mas não eram pequenas para quem eu era naquele momento. Por isso não olho para trás com deboche, olho com ternura. Aquele menino também sou eu. E as dores que passaram e as que ficaram, os erros, os acertos, as cicatrizes que ficaram em mim e que acabei deixando em pessoas ao longo do caminho… Tudo isso foi ajudando a formar quem eu sou. Talvez este texto seja uma revisitação de coisas que já tentei elaborar antes, nesse mesmo blog, aqui, aqui e aqui. O tempo que não existe no depois, as escolhas que não podem ser refeitas, as perdas que transformam presença em memória. Eu poderia ter sido outro, mas eu sou este resultado dessas bifurcações. E, do alto dos quase cinquenta anos, com defeitos, virtudes e algumas cicatrizes, consigo olhar para o caminho percorrido com gratidão. Há muito que ficou para trás, sim, mas ainda há estrada. Ainda há escolhas. Ainda há vida a ser vivida.





Cris na China (parte 3 – final)

16 08 2026

Pequim, História e muralhas

Nos dois primeiros textos desta série, falei sobre as pessoas que encontrei na China e sobre a forma como a tecnologia estava integrada ao cotidiano, à infraestrutura e aos processos industriais. Para encerrar o relato, falta contar um pouco dos dias em que deixei a parte profissional da viagem para trás e fui conhecer alguns dos lugares históricos mais conhecidos do país.

Depois dos compromissos de trabalho, tirei alguns dias para passear e peguei um voo de Shanghai para Pequim. Antes mesmo de chegar, porém, a viagem já começou com uma pequena complicação envolvendo um equipamento que normalmente me acompanha em trilhas e viagens: um powerbank de 30.000 mAh

Um powerbank grande demais

Uso esse powerbank principalmente quando vou para a montanha e preciso manter o celular funcionando por vários dias sem acesso a uma tomada. Ele é grande e pesado, mas bastante útil nessas situações. O que eu não sabia era que, na China, existiam restrições para transportar baterias daquele tamanho em alguns meios de transporte.

Descobri isso pela primeira vez durante uma viagem de trem entre Changzhou e Shanghai. Na ida, passei normalmente pelo controle de segurança. Na volta, porém, minha mochila foi separada durante o raio-X e uma agente começou a me explicar, em chinês, que eu não poderia embarcar com o equipamento.

Eu havia entendido mais ou menos o que estava acontecendo, mas resolvi me fazer de desentendido e ligar para uma colega da fábrica que havia me acompanhado durante a visita.

Expliquei que estavam me impedindo de passar e que eu não conseguia compreender o motivo. Ela então falou diretamente com a agente e confirmou o que eu já suspeitava: o powerbank excedia o limite permitido e não poderia seguir comigo naquele trem.

Perguntei o que faria com ele e, depois de conversar novamente com a colega ao telefone, ela me disse que passaria na estação mais tarde para buscá-lo. Poderia enviá-lo para mim em Shanghai ou guardá-lo até a semana seguinte, quando eu voltaria a Changzhou.

Preferi a segunda opção e, alguns dias depois, recuperei o equipamento.

Achei que o problema estivesse resolvido, até chegar ao aeroporto para voar de Shanghai a Pequim.

Mais uma vez, minha bagagem foi desviada no raio-X e fui chamado para conversar com os agentes. Dessa vez, disseram que eu poderia embarcar com o powerbank, mas antes precisaria ir até o balcão da companhia aérea e assinar um termo de responsabilidade.

O documento dizia, em resumo, que eu assumia a responsabilidade por qualquer incidente relacionado ao equipamento durante o voo. Na interpretação um pouco dramática que fiz naquele momento, se o powerbank pegasse fogo, explodisse e derrubasse o avião, seria melhor que eu não sobrevivesse, porque as consequências poderiam ser bastante complicadas…

Assinei o termo e embarquei normalmente. Na viagem de volta, ao deixar Pequim, aconteceu exatamente a mesma coisa e precisei assinar outro documento.

O curioso é que um equipamento que eu usava no Brasil sem pensar muito sobre o assunto havia se transformado numa espécie de personagem recorrente da viagem.

Uma praça fechada

Superado o problema com o powerbank, cheguei a Pequim com um passeio de um dia já reservado. O roteiro incluía a Praça da Paz Celestial, a Cidade Proibida e a Grande Muralha, com transporte e almoço. A ideia era simples: me buscariam pela manhã no hotel e me devolveriam no final da tarde, depois de passar por alguns dos lugares mais conhecidos da cidade.

Na véspera, porém, recebi uma mensagem pelo WeChat — o WhatsApp da China — enviada pelo responsável da agência. Ele pedia desculpas e dizia que, no dia seguinte, não seria possível visitar a Praça da Paz Celestial porque ela estaria fechada devido a “atividades governamentais” e sob o que ele chamou de martial law. Lei Marcial, em português. Achei que era algo muito sério.

Ele pediu desculpas e compreensão, e me explicou que ainda passaríamos de carro ao redor da praça e que o restante do passeio seguiria normalmente. No dia seguinte, a guia e o motorista chegaram ao hotel e, para minha surpresa, o passeio acabou sendo privado: apenas nós três em um carro.

Foi aí que resolvi perguntar diretamente à guia:

— O que é esse negócio de “lei marcial” na praça?

Ela respondeu com uma pergunta:

— Você sabe de alguma coisa que aconteceu nessa praça muitos anos atrás e sobre a qual a gente não costuma falar?

Imediatamente pensei nos acontecimentos de 1989 e naquela imagem que ficou conhecida no mundo inteiro, do homem parado diante de uma coluna de tanques.

Disse que sim.

Ela então explicou que no dia seguinte seria o aniversário daqueles acontecimentos e que, por isso, nos dias anteriores o governo costumava restringir o acesso à praça para evitar manifestações ou qualquer tipo de ato relacionado à data.

Aquilo me marcou bastante. Não apenas pela praça estar fechada, mas pela forma como ela falou sobre o assunto: “uma coisa que aconteceu aqui e sobre a qual a gente não fala”. Era uma frase simples, dita de maneira bastante natural, mas que dizia muita coisa sobre a relação do país com determinados episódios da própria História.

E aí aconteceu uma coincidência que eu achei, ao mesmo tempo, curiosa e quase engraçada.

Doze anos antes, em 2013, eu havia viajado para a Rússia. Em Moscou, deixei um dia reservado justamente para visitar a Praça Vermelha e o mausoléu de Lenin. Quando cheguei lá, a praça estava fechada porque haveria um desfile militar no dia seguinte.

Resultado: saí de Moscou sem conseguir visitar a Praça Vermelha nem o mausoléu de Lenin.

Agora, doze anos depois, estava em Pequim e novamente não conseguia visitar uma das praças mais famosas do mundo, justamente a praça onde fica o mausoléu de Mao Tsé-Tung.

Pensei comigo que talvez eu simplesmente não tivesse muita sorte com grandes praças de países comunistas…

Passamos de carro ao redor da Praça da Paz Celestial. Mesmo sem poder entrar, já dava para perceber a dimensão do lugar. Depois seguimos para a Cidade Proibida, e aí começava uma parte bem diferente do passeio.

A Cidade Proibida

Depois de contornar a Praça da Paz Celestial de carro, seguimos para a Cidade Proibida. Saía de uma discussão muito contemporânea sobre memória, censura e controle para entrar em um espaço que concentra séculos de História chinesa.

Dei sorte porque o lugar estava relativamente vazio naquele dia. Era logo depois de um feriado prolongado e, pelo que me explicaram, o movimento costuma ser muito maior. Isso fez bastante diferença, porque consegui caminhar com calma, observar os detalhes e tirar fotos sem aquela multidão que normalmente aparece nas imagens dos pontos turísticos mais famosos da China.

O que mais me chamou a atenção ali foi a quantidade de rituais e simbolismos associados à vida imperial. Não era simplesmente um palácio enorme: cada porta, cada ponte e cada espaço tinha uma função muito específica, e muitas vezes existiam regras claras sobre quem podia ou não passar por determinado lugar.

Havia, por exemplo, uma ponte reservada ao imperador e outra que só podia ser utilizada pela imperatriz. Algumas entradas também tinham hierarquias próprias, de acordo com a posição de quem circulava por ali. Era interessante perceber como a arquitetura, por si só, já organizava o poder.

Outro detalhe que achei bastante curioso estava relacionado aos aposentos do imperador. Segundo a explicação da guia, havia dezenas de quartos disponíveis e ele não dormia sempre no mesmo lugar. A escolha variava justamente por uma questão de segurança, já que ninguém deveria saber com antecedência onde o imperador passaria a noite.

A história ficou marcada porque mostrava uma dimensão muito concreta do que significava ocupar aquela posição. Poder absoluto, sim, mas também medo constante de conspirações e assassinatos.

Os tronos e os grandes salões também impressionavam bastante. É um daqueles lugares em que a escala ajuda a entender a importância simbólica do poder imperial: tudo parece construído para reforçar hierarquia, distância e solenidade.

Ao mesmo tempo, caminhar pela Cidade Proibida é um exercício curioso de imaginação. Hoje você vê turistas andando livremente por espaços que, durante séculos, eram restritos a um grupo muito pequeno de pessoas. Lugares que já foram inacessíveis para quase toda a população chinesa se tornaram parte de um dos circuitos turísticos mais conhecidos do país.

Outros cantos de Pequim

Além desse passeio guiado, aproveitei os outros dias para conhecer Pequim por conta própria. E uma coisa que me chamou bastante a atenção foi a dimensão dos parques e dos antigos jardins imperiais.

Não estamos falando simplesmente de algumas áreas verdes no meio da cidade. Em alguns casos são complexos enormes, com lagos, pontes, templos, palácios e barcos circulando pela água. É possível passar muitas horas caminhando sem ter a sensação de ter conhecido tudo.

Dois lugares que me marcaram particularmente foram o Temple of Heaven, ou Templo do Céu.

No Templo do Céu, além da arquitetura muito característica, chamou minha atenção novamente a escala dos espaços. É um daqueles lugares em que você percebe que os edifícios são apenas parte da experiência: todo o entorno, os caminhos, os jardins e a forma como as construções estão posicionadas fazem parte do conjunto.

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Mais uma vez aparecia aquela mistura entre natureza, intervenção humana e História.

E Pequim tinha muito disso: você saía de uma avenida moderna, pegava o metrô e, pouco depois, estava caminhando por um jardim imperial construído séculos atrás. Era outra versão daquele contraste entre a China contemporânea e sua História que havia aparecido durante toda a viagem.

A Grande Muralha

Depois da Cidade Proibida, seguimos para a parte mais longa do passeio. A Grande Muralha fica mais afastada de Pequim e, no caminho, fizemos uma parada para almoçar. Sentei com a guia, enquanto o motorista ficou em outra mesa, numa separação de funções que me chamou a atenção mais uma vez ao longo da viagem.

Chegando à Muralha, havia a opção de subir caminhando ou de teleférico. Como o tempo era limitado, escolhemos o teleférico — decisão prática, embora não exatamente confortável para alguém como eu, que nunca teve uma relação muito amigável com altura.

Subimos até um dos antigos postos de controle e, a partir dali, comecei a caminhar pela Muralha. A guia preferiu ficar me esperando enquanto eu seguia sozinho por uma sequência de torres e trechos bastante íngremes, com muitas escadas, subidas e descidas.

Foi aí que tive bastante sorte novamente. Assim como havia acontecido na Cidade Proibida, o movimento estava muito abaixo do normal por conta do período logo após o feriado. Em vários momentos, havia tão pouca gente que consegui tirar fotos da Muralha praticamente vazia, com apenas eu no meio daquela paisagem gigantesca.

E acho que é justamente ali que se começa a ter alguma dimensão do tamanho daquilo.

Quando dizemos “visitar a Grande Muralha”, na verdade estamos falando de conhecer um pequeno trecho de uma construção que se estende por uma distância difícil até de imaginar. Você caminha por uma parte, olha para frente e vê a Muralha seguindo pelas montanhas, desaparecendo e reaparecendo nas cristas, até onde a vista alcança.

A paisagem dos dois lados também me chamou muito a atenção. De um lado, ao longe, era possível enxergar Pequim e reconhecer alguns dos edifícios mais altos da cidade. Do outro, havia montanhas e vales praticamente sem fim, justamente a região que, em diferentes períodos da História, representava o território de onde vinham invasões e ameaças ao império.

Era curioso estar sobre uma estrutura construída justamente para separar esses dois mundos e, séculos depois, poder observar os dois lados ao mesmo tempo.

As fotos ajudam bastante a transmitir a beleza do lugar, mas não dão conta da dimensão. Estar ali, caminhando praticamente sozinho por alguns trechos, cercado por montanhas e com a Muralha serpenteando pela paisagem, foi uma das experiências mais marcantes que tive na China.

E talvez também tenha sido um bom lugar para começar a juntar tudo aquilo que eu havia vivido durante a viagem: a China moderna e tecnológica, a China imperial, o país extremamente organizado, as contradições políticas e, principalmente, a sensação constante de estar vendo uma realidade muito distante da minha por um ângulo que eu nunca teria em casa.

Olhar de outro lugar

Talvez o que mais tenha ficado dessa viagem não seja uma imagem específica, um monumento ou uma tecnologia. Foi a sensação de ter passado alguns dias dentro de uma realidade muito diferente da minha, convivendo com outra língua, outros hábitos, outra forma de trabalhar, de se deslocar, de organizar as cidades e até de lidar com a própria História.

Ao longo daqueles dias, várias coisas me causaram estranhamento. Algumas me impressionaram, outras me fizeram questionar, outras simplesmente despertaram curiosidade. E acho que esse é justamente um dos maiores valores de viajar para lugares assim: sair, ainda que por pouco tempo, do enquadramento que usamos normalmente para interpretar o mundo.

Uma viagem à China, ou para qualquer lugar que seja afastado do seu próprio país, metafórica e fisicamente, lhe força a ver o mundo sob um enquadramento diferente. E isso é muito rico, é aprendizado puro.





Cris na China (parte 2)

9 08 2026

Tecnologia no cotidiano

No primeiro post sobre a China, falei principalmente sobre as pessoas que encontrei durante a viagem e sobre como elas me pareceram muito mais próximas e acolhedoras do que a distância cultural, a barreira da língua e até certo senso comum poderiam sugerir à primeira vista.

Terminei aquele relato em Shanghai, descrevendo os arranha-céus iluminados de Pudong vistos a partir do Bund. É provavelmente uma das imagens mais conhecidas da China moderna: prédios enormes, luzes coloridas e uma paisagem que parece ter sido desenhada de propósito para representar o futuro.

Mas a modernidade chinesa não estava apenas naquela paisagem.

Ela aparecia em coisas muito mais cotidianas: na maneira de viajar, de pagar uma compra, de entrar numa estação, de recarregar um carro e até de fabricar os produtos que usamos. Para mim, como entusiasta de tecnologia desde sempre, essa foi uma das partes mais interessantes da viagem.

Aeroporto de Beijing (Pequim)

Viajar sem passagem

Na China se viaja muito de trem. Assim como na Europa, esse costuma ser o meio mais prático, porque geralmente nos leva a regiões mais centrais das cidades, reduzindo o tempo de deslocamento — sem contar as burocracias envolvidas no embarque aéreo. Fiz de trem os trajetos de ida e volta entre Shanghai e Changzhou. Em Shanghai fica a sede da empresa, enquanto em Changzhou está localizada a fábrica.

As estações são enormes, organizadas e possuem controles de segurança semelhantes aos dos aeroportos. Antes de entrar, passageiros e bagagens passam pelo raio-X — algo que acontece inclusive nas estações de metrô — e o acesso às plataformas é controlado.

Comprei as passagens pelo aplicativo Trip.com, mas uma coisa me chamou a atenção: não existia propriamente uma passagem para apresentar.

O meu passaporte era a passagem.

Na hora do embarque, eu me dirigia à porta indicada, colocava o passaporte na máquina e o sistema autorizava minha entrada. Sem papel, sem código impresso e, na maior parte das vezes, sem qualquer interação humana.

Pode parecer apenas um detalhe, mas é o tipo de detalhe que revela um sistema inteiro funcionando por trás. A compra feita pelo aplicativo já estava associada ao meu documento, e todas as etapas seguintes reconheciam aquela informação.

E então havia os próprios trens.

Viajar em alta velocidade, com conforto e pontualidade, entre cidades separadas por centenas de quilômetros ajuda a compreender por que o sistema ferroviário tem um papel tão importante no país. Não era apenas uma atração tecnológica para impressionar visitantes. Era parte da rotina de milhões de pessoas.

Lá estava eu, chegando a quase 300 km/h sem realmente sentir a velocidade e pensando em como aquilo se repetia por um país de proporções continentais como a China. Literalmente milhões de pessoas sendo transportadas a todo momento por uma malha logística gigantesca.

E mesmo nas cidades. O metrô de Shanghai, com mais de 830km de extensão – mais do que o dobro do que Londres ou Nova york – é um espetáculo à parte, bem com o de Beijing (Pequim). Felizmente há nomes das estações em inglês para facilitar um pouco a vida do estrangeiro que se aventura por ali… mas os apps ajudam muito também para se achar, eu não conseguiria sem a ajuda do AMAPS (o equivalente do Google Maps deles).

Um país sem notas e moedas — e quase sem cartões

Outra coisa que causa certo choque em quem chega à China é a ausência de dinheiro físico.

Na verdade, não era apenas o dinheiro que praticamente não aparecia. Os cartões também pareciam ter um papel muito menor do que estamos acostumados a ver no Brasil e em outros países. Quase tudo era feito pelo celular, por meio de aplicativos.

Durante cerca de duas semanas, lembro de ter visto dinheiro físico apenas duas vezes.

Uma delas foi numa loja de doces, quando vi um homem abrir a carteira e retirar algumas notas. A cena foi tão incomum durante a viagem que acabou chamando minha atenção.

A outra aconteceu em um templo onde havia a possibilidade de fazer uma doação com moedas. Mas até ali existia uma solução digital: uma máquina permitia comprá-las usando o celular.

Ou seja, para participar de um ritual tradicional utilizando moedas físicas, primeiro era necessário adquiri-las digitalmente.

Usei meu aplicativo chinês de pagamento para pegar algumas como souvenir, obviamente.

Talvez poucas cenas resumam tão bem a convivência entre tradição e tecnologia que encontrei por lá.

E os carros elétricos?

Uma coisa que me impressionou foi a quantidade de carros elétricos que vi nas ruas da China. Havia marcas que eu já conhecia e muitas outras das quais nunca tinha ouvido falar — depois descobri que existem mais de uma centena de fabricantes por lá.

Nos primeiros dias, fiquei tentando identificar os modelos elétricos observando os escapamentos: com escapamento, provavelmente um carro a combustão ou híbrido; sem escapamento, elétrico.

Até que, durante uma caminhada, um engenheiro mais experiente da empresa comentou que os carros elétricos tinham placas verdes, enquanto os demais usavam placas azuis.

É… depois ficou óbvio. Mas confesso que me senti um pouco estúpido por ter passado vários dias contabilizando escapamentos.

Foi numa dessas caminhadas que ele me mostrou uma unidade da NIO, uma fabricante chinesa de veículos elétricos que utiliza um sistema bastante interessante de troca de baterias. Em vez de esperar o carro carregar, o motorista pode parar em uma estação automatizada e substituir a bateria descarregada por outra já carregada.

O modelo funciona como uma espécie de serviço por assinatura. Além de reduzir o tempo de espera, a empresa acompanha a condição das baterias e faz a manutenção necessária. Em teoria, você está sempre rodando com uma bateria em boas condições, sem precisar se preocupar individualmente com o envelhecimento dela.

Achei uma solução bastante prática.

No meio dessa caminhada, ele me fez outra pergunta:

— Você reparou que não há carros estacionados nas ruas?

Eu ainda não tinha prestado atenção, mas era verdade. Havia muitas bicicletas e motocicletas — principalmente elétricas, que são extremamente comuns por lá. Carros parados junto às calçadas, porém, não havia nenhum.

Então perguntei:

— Onde estão os carros?

A resposta estava embaixo dos nossos pés.

Ele me levou até um dos prédios e mostrou que os edifícios daquela região possuíam vários andares subterrâneos de estacionamento. Seis, sete, às vezes oito subsolos.

Até aí, tudo bem.

O que realmente me chamou a atenção foi perceber que todas as vagas tinham um ponto de recarga para veículos elétricos.

Para quem olha de fora, pode parecer apenas uma garagem com muitos carregadores. Mas, para quem conhece um pouco de engenharia elétrica e distribuição de energia, aquilo representa muito mais.

Não basta instalar um equipamento na parede e ligar alguns cabos. É necessário garantir que exista potência disponível para alimentar simultaneamente centenas ou até milhares de veículos, dependendo da escala do empreendimento. Isso envolve redes de distribuição, transformadores, sistemas de controle, investimentos elevados e uma infraestrutura planejada muito antes de os carros chegarem àquelas vagas.

Cada vaga, um carregador!

E tudo fica ainda mais impressionante quando penso em comparar aquela realidade com o que temos no Brasil.

A infraestrutura necessária para fazer aquilo funcionar não surgiu de uma hora para outra. Em algum momento, anos antes, o governo chinês decidiu que o país deveria avançar na transição para uma frota predominantemente elétrica. Foram definidos objetivos, prazos, investimentos e ações necessárias — e o plano começou a ser executado.

Obviamente, algo assim depende da capacidade de manter estratégias de longo prazo. E, mais uma vez, foi inevitável pensar na realidade brasileira nesse sentido…

Muitas vezes discutimos novas tecnologias olhando apenas para o produto final. Vemos o carro elétrico, mas não necessariamente a rede de energia, os pontos de recarga, a política industrial, os fabricantes de baterias e todos os investimentos necessários para que ele possa ser usado em grande escala.

Na China, pelo menos naquela região de Shanghai, essa infraestrutura já não parecia uma promessa para o futuro.

Ela simplesmente fazia parte dos prédios, das garagens e da rotina das pessoas.

A fábrica chinesa

Talvez um dos lugares em que essa combinação entre planejamento, escala e tecnologia tenha ficado mais evidente para mim tenha sido a fábrica que visitei em Changzhou.

Como engenheiro, foi uma experiência especialmente interessante, não apenas por conhecer o lugar onde os produtos eram fabricados, mas também por observar de perto o nível de automação de todo o processo.

A primeira coisa que me chamou a atenção foi a quantidade relativamente pequena de pessoas trabalhando diretamente nas linhas de produção. A fábrica funciona em dois turnos de doze horas, algo que também causa certo impacto em quem está acostumado com uma realidade trabalhista diferente da chinesa.

Ainda assim, quem realmente comandava o ritmo da produção eram as máquinas. No início da linha, eram colocados os componentes que formariam os módulos e os demais produtos. A partir dali, eles percorriam uma sequência de equipamentos automatizados, passando por montagem, inspeções, testes, movimentação entre as etapas e, finalmente, embalagem. Praticamente tudo acontecia sem contato humano.

Era impressionante observar as máquinas trabalhando de forma sincronizada, cada uma executando uma parte específica do processo enquanto os produtos avançavam pela linha. Tudo extremamente limpe e organizado. Os poucos operadores presentes estavam muito mais envolvidos no acompanhamento e na supervisão dos equipamentos do que na montagem propriamente dita.

No começo, entravam componentes separados; no final, saíam produtos prontos, testados, embalados e colocados em caixas. Brinquei comigo mesmo que, depois de entrar naquela linha de produção, o produto só voltaria a ver a luz do sol quando a embalagem fosse aberta pelo cliente, em algum lugar do mundo.

Para alguém que sempre gostou de tecnologia, ver aquilo funcionando ao vivo foi muito diferente de assistir a um vídeo institucional ou simplesmente ler sobre automação industrial. Era possível perceber a precisão, a velocidade e, principalmente, a escala necessária para produzir milhões de unidades mantendo um processo consistente.

Ao mesmo tempo, aquela fábrica era mais um exemplo de algo que apareceu diversas vezes durante a viagem: a tecnologia chinesa não se limitava a um equipamento sofisticado ou a uma novidade isolada, mas fazia parte de sistemas completos. Os trens dependiam de uma enorme malha ferroviária; os pagamentos digitais, de aplicativos amplamente adotados; os carros elétricos, de energia, carregadores e planejamento urbano; e a produção em larga escala, de fábricas automatizadas, logística e processos cuidadosamente integrados.

Foi justamente isso que mais me impressionou: não eram apenas ideias sobre o futuro. Em muitos casos, o futuro já estava funcionando diante de mim.





Cris na China (parte 1)

2 08 2026

As pessoas…

Depois de muito tempo sem postar aqui, estou de volta… já nem conto quantas vezes comecei e interrompi as coisas por aqui, desde meus primeiros textos que até hoje andam perdidos no ciberespaço…

Bom, mas vamos lá: A China sempre foi um daqueles lugares que eu pensava que um dia desejava conhecer. Estava na minha lista havia bastante tempo, embora nunca tivesse aparecido uma oportunidade concreta — e também não ocupasse exatamente o topo dela, como já aconteceu com outros destinos, como São Petersburgo ou o Nepal.

Até que, no ano passado, uma viagem de trabalho acabou me levando para lá. E, como sempre procuro fazer quando viajo a trabalho, aproveitei a oportunidade para conhecer um pouco do país além dos escritórios, reuniões e visitas profissionais.

Já faz algum tempo que voltei, mas resolvi finalmente escrever sobre essa experiência. E, como foram muitos dias, lugares, descobertas e situações diferentes, achei melhor dividir o relato em três textos. Neste primeiro, quero falar principalmente sobre as pessoas — talvez uma das maiores surpresas que tive durante a viagem.

Geograficamente, a China foi o lugar mais distante (até hoje) que já visitei. E talvez também tenha sido um dos mais distantes do ponto de vista cultural, ao lado de países como o Butão e a Rússia. Ainda assim, uma das primeiras coisas que me chamou a atenção foi justamente a proximidade das pessoas.

Vendo de longe, muitas vezes temos a impressão de que os chineses são fechados ou distantes. Depois de passar alguns dias por lá, fiquei com a sensação de que boa parte dessa imagem vem simplesmente da barreira do idioma.

O inglês não é tão difundido quanto em outros países e, quando não existe uma língua em comum, uma pessoa pode parecer menos acessível do que realmente é. Mas bastava surgir alguma oportunidade de interação para essa impressão mudar rapidamente.

Eu havia tido aulas de mandarim durante algum tempo, mas nunca tinha utilizado. Em alguns momentos, eu tentava falar as poucas palavras e frases em mandarim das quais ainda lembrava. Nada muito elaborado, longe disso. Era muito básico, mas a reação das pessoas quase sempre era de surpresa e simpatia, como se não esperassem que um estrangeiro fizesse aquele esforço. Primeiro vinha uma expressão de espanto e, logo depois, normalmente um sorriso.

Isso acontecia também no trabalho. As reuniões começavam sempre em inglês, naturalmente, mas, de vez em quando, quando as pessoas conversavam entre si em mandarim, eu brincava dizendo:

— Essa parte eu entendi.

Nem sempre era verdade. Ou, pelo menos, eu havia entendido muito menos do que deixava parecer. Mas eles riam, e aquilo ajudava a quebrar um pouco a formalidade. E nós, brasileiros, adoramos uma conversa informal, não é verdade? Muito mais do que a média de qualquer outro país, atrevo-me a dizer.

Em uma das visitas que fiz, cumprimentei uma executiva da empresa em mandarim, dizendo que era um prazer conhecê-la. Ela ficou surpresa e perguntou por que eu havia estudado chinês.

Selfie no aeroporto… aeroportos são todos iguais… rs

Respondi que, no Brasil, as pessoas também me faziam aquela pergunta. E que eu normalmente respondia com outra:

— Por que você ainda não está estudando mandarim?

Ela riu e disse que era uma resposta inteligente.

É claro que eu não falo mandarim. Estudei muito pouco e conheço apenas algumas frases. Mas, especialmente para quem trabalha com tecnologia e mantém contato frequente com empresas chinesas, sempre me pareceu natural tentar compreender um pouco. Naturalmente já me interesso por estudar línguas, e essa língua é um tremendo desafio intelectual, certamente.

Mais do que a utilidade prática, percebi que o esforço era visto como uma demonstração de respeito. E bastavam algumas palavras para diminuir uma distância que, à primeira vista, parecia muito maior.

Essa receptividade não apareceu apenas nas relações profissionais.

Em uma estação de metrô, uma senhora percebeu que eu estava olhando para o mapa e começou a tentar me ajudar. Ela não falava inglês, eu não tinha mandarim suficiente para explicar muita coisa, mas, ainda assim, apontava as linhas e as estações para mostrar qual direção eu deveria seguir.

O mais curioso é que eu nem estava propriamente perdido. Mas ela imaginou que eu pudesse precisar de ajuda e decidiu se aproximar mesmo assim.

Em pontos turísticos, também tive várias pequenas interações desse tipo. Algumas vezes eu pedia para alguém tirar uma foto minha; em outras, eu me oferecia para fotografar pessoas ou grupos. Mesmo sem uma língua em comum, quase sempre havia sorrisos, gestos e alguma tentativa de comunicação.

Talvez a cordialidade chinesa não se manifeste exatamente da mesma maneira que a brasileira. Nós costumamos falar com desconhecidos, fazer comentários, cumprimentar todo mundo e criar intimidade rapidamente. Lá, pelo menos na minha experiência, a aproximação parecia mais discreta. Mas ela existia.

Outra coisa que me chamou bastante a atenção foi a quantidade de pessoas usando roupas tradicionais nos parques, nas ruas e em pontos turísticos. Para um olhar ocidental, às vezes parecia quase uma espécie de cosplay histórico.

Muitas estavam completamente produzidas, com roupas elaboradas, penteados, maquiagem e acessórios, aparentemente apenas para passear e fazer fotografias. Era comum encontrá-las posando em jardins, diante de templos ou em construções antigas, como se fizessem parte da própria paisagem. Aquilo me pareceu ao mesmo tempo curioso e bonito. Em vez de as roupas tradicionais aparecerem somente em cerimônias ou apresentações turísticas, elas estavam ali sendo usadas por pessoas comuns, muitas vezes jovens, que pareciam se divertir muito com aquilo.

No ambiente de trabalho, as diferenças culturais ficavam ainda mais evidentes.

Durante alguns dias, tive um posto de trabalho no meio do escritório. Em uma das manhãs, cheguei cerca de dez minutos antes do início do expediente. O local estava praticamente vazio, as luzes apagadas e tudo em silêncio. Quando deu exatamente o horário, as pessoas começaram a chegar quase ao mesmo tempo. Entravam, iam diretamente para suas mesas e começavam a trabalhar.

Não havia aquela sequência tão brasileira de “bom dia” para todo mundo, conversa no café, comentários sobre o trânsito ou pequenas conversas no corredor. Para uma pessoa extrovertida como eu, aquilo parecia bastante estranho.

Ao meio-dia, acontecia algo parecido. Todos levantavam e saíam para almoçar, quase simultaneamente. As luzes eram apagadas ou bastante reduzidas durante o intervalo, como uma forma de deixar claro que aquele era o momento de descanso, e não de continuar trabalhando.

Havia uma separação muito mais evidente entre o tempo profissional e o pessoal, mas isso não significava falta de simpatia. Com o tempo, por meio das brincadeiras, das conversas e das minhas tentativas de falar mandarim, fui criando uma relação mais informal com algumas pessoas. Era apenas uma informalidade construída de outra maneira e em outro ritmo.

A comida também teve um papel importante nessa aproximação.

Os chineses da empresa que estavam me acompanhando (foram pessoas diferentes ao longo dos dias) demonstravam bastante preocupação com o que um visitante ocidental gostaria de comer. Perguntavam se eu preferia um restaurante chinês ou algum lugar com comida ocidental.

Minha resposta normalmente era:

— I’m wide open. (estou bastante aberto a experimentar)

Eu estava realmente aberto a experimentar praticamente qualquer coisa, com a única ressalva em relação à pimenta, que realmente não gosto, atrapalha meu paladar e me estraga qualquer refeição.

Quando percebiam que eu queria provar a comida local, ficavam bastante animados. E as refeições eram uma experiência à parte.

Em uma mesma mesa, podiam aparecer camarão, peixe, pato, porco, boi, frango e até pombo. Para nós, brasileiros, acostumados normalmente a uma organização um pouco diferente dos pratos, aquela diversidade toda em uma única refeição causava certo espanto.

Havia muita fartura, muitos pratos compartilhados e uma grande preocupação para que eu experimentasse tudo.

O pombo foi provavelmente a experiência mais diferente. Não diria que se tornou meu prato preferido, mas fazia parte da proposta de estar aberto ao que aparecesse pela frente.

Curiosamente, a refeição menos divertida aconteceu justamente em uma noite em que estávamos acompanhados por outros brasileiros e fomos a uma hamburgueria. Não estava ruim, evidentemente, mas, depois de atravessar metade do mundo, comer hambúrguer não parecia exatamente a maior das aventuras gastronômicas.

Ao final da parte profissional da viagem, passei também algum tempo conhecendo Shanghai. É uma cidade extremamente moderna e cosmopolita, frequentemente comparada a lugares como Nova York ou Paris.

Um dos seus pontos mais conhecidos é o Bund, uma região às margens do rio onde se vê, de um lado, uma sequência de edifícios históricos e, do outro, o horizonte moderno de Pudong, com seus arranha-céus iluminados e coloridos, talvez a imagem mais conhecida de Shanghai e da China moderna.

É um contraste muito bonito entre duas margens e também entre duas épocas.

Talvez aquela paisagem resumisse um pouco do que eu havia encontrado até ali: um país com uma história muito antiga, uma cultura bastante diferente da nossa e, ao mesmo tempo, uma modernidade impressionante.

Mas essa modernidade não estava apenas nos arranha-céus de Xangai. Ela aparecia nos trens, nos pagamentos, nos veículos elétricos, na infraestrutura e até na forma como as fábricas funcionam.

Mas essa parte fica para o próximo post…