Os Imortais (livro)

4 10 2026

Li esse livro (na verdade “ouvi” na sua versão audiolivro) após ouvir um comentário em uma mesa redonda num evento recente. Fiquei curioso de como seria uma história narrada durante o que chamamos de pré-história.

Os Imortais nos leva a um tempo muito anterior ao que costumamos reconhecer como civilização, quando neandertais e Homo sapiens ainda dividiam o mesmo mundo. A história acompanha a caminhada de um pequeno clã de neandertais, num ambiente em que quase tudo aquilo que hoje usamos para definir uma pessoa desaparece: profissão, posição social, bens, rotina, identidade formal. Restam o corpo, a fome, o frio, o abrigo, a caça, o medo, o grupo e a necessidade de continuar vivendo. Em alguns momentos, essa redução ao essencial me lembrou Vidas Secas, de Graciliano Ramos, embora aqui o deslocamento seja ainda mais radical: somos levados para perto de uma humanidade ainda anterior ao homem moderno, quase na fronteira entre aquilo que reconhecemos como humano e aquilo que ainda nos parece ancestral.

O que torna esse mundo ainda mais interessante é a forma como os personagens tentam explicar aquilo que não compreendem. Eles sabem o que é fome, frio, cansaço, perigo, abrigo ou morte, mas, quando alguma coisa foge desse repertório, entram o medo, o mito e a superstição. Há uma cena que me marcou bastante, quando o grupo encontra um potro recém-nascido, morto e com duas cabeças. Para nós, leitores, é relativamente fácil entender que se trata de uma deformação; para eles, aquilo assume a forma de um monstro, de um sinal ou de uma punição por alguma coisa que fizeram. E acho especialmente interessante como o narrador, em terceira pessoa e conhecendo os pensamentos dos personagens, nos coloca exatamente nesse ponto intermediário: acompanhamos sentimentos que reconhecemos imediatamente, mas surgidos de um mundo em que ainda não existem as explicações que hoje usamos para dar sentido às coisas.

Mas essa vida guiada pelo instinto e pela sobrevivência não significa ausência de organização. Ao contrário, o clã tem funções bastante definidas, e cada uma delas parece carregar um sentido claro de responsabilidade. Há quem cuide do fogo, quem prepare a comida, quem saia para caçar, quem conduza o grupo nas mudanças de lugar e quem, pela idade e pela experiência, seja ouvido com respeito. As decisões importantes são compartilhadas, embora exista uma figura de liderança que organiza e conduz o grupo. Isso me chamou atenção porque desmonta um pouco a ideia simplista que muitas vezes associamos à palavra “primitivo”: falta tecnologia, falta conhecimento sobre o mundo, mas não falta estrutura social, cooperação ou reconhecimento da experiência acumulada. A sobrevivência daquele grupo depende justamente de cada um entender o seu papel e de todos saberem que precisam uns dos outros.
Isso me fez lembrar de uma história que li muitos anos atrás, numa discussão sobre qual teria sido um dos primeiros sinais daquilo que hoje chamaríamos de civilização. A resposta não era uma ferramenta, uma construção ou alguma forma de escrita, mas a descoberta de ossos com fraturas que haviam cicatrizado. A ideia por trás disso sempre me pareceu muito bonita: um ferimento grave que teve tempo de se curar indica que, em algum momento, aquele indivíduo provavelmente não foi simplesmente abandonado. Alguém precisou protegê-lo, alimentá-lo ou ajudá-lo enquanto ele não conseguia fazer sozinho aquilo que normalmente faria. Talvez exista algo profundamente civilizado justamente aí: na capacidade de cuidar de alguém que, naquele momento, não consegue contribuir da mesma forma para a sobrevivência do grupo. E isso aparece várias vezes em Os Imortais, quando os neandertais cuidam dos feridos, dos mais velhos e uns dos outros.

E é justamente aí que aparece uma das contradições mais fortes do livro. O mesmo grupo capaz de cuidar dos feridos, respeitar os mais velhos e organizar a própria sobrevivência em torno da cooperação também reage com medo e violência quando encontra aquilo que considera diferente. O estranho, o desconhecido, o que não pertence ao clã, rapidamente pode ser associado à ameaça, à má sorte ou a alguma espécie de desequilíbrio. Em alguns momentos, isso aparece nos encontros com os Homo sapiens: a diferença física e comportamental basta para transformar o outro em algo suspeito, quase como se não estivesse sujeito às mesmas regras de proteção e respeito que valem dentro do grupo. Foi impossível não fazer um paralelo com mecanismos que continuam presentes hoje em preconceitos, xenofobia, racismo e conflitos entre grupos. Evidentemente, não se trata de dizer que as situações sejam equivalentes, mas o mecanismo parece familiar demais: primeiro vem o estranhamento, depois o medo, e então a construção de uma justificativa para tratar o outro de uma forma que provavelmente não aceitaríamos se ele fosse reconhecido como “um dos nossos”.

A menina Homo sapiens talvez seja a personagem que torna esse conflito mais concreto. Criada pelo grupo de neandertais, ela cresce cercada por eles, aprende seus hábitos e depende daquela comunidade, mas nunca deixa de ser percebida como diferente. A própria aparência física a separa dos demais, e em alguns momentos essa diferença basta para que seja associada à má sorte ou vista como alguém que não pertence inteiramente ao grupo. Ao longo do livro, há nela uma busca por pertencimento que talvez nem seja completamente consciente: quem são os seus, de onde ela veio, como seria encontrar alguém parecido com ela? Essa inquietação atravessa boa parte da narrativa e dá à personagem uma dimensão muito humana. É a necessidade de saber onde se pertence, de encontrar no outro algum reflexo de si mesmo — uma necessidade que continua bastante familiar, apesar de toda a distância que separa aquele mundo do nosso.

O homem que ocupa a posição de líder do grupo e que, de certa forma, assume para ela um papel paterno, também me parece um personagem muito importante por outro motivo. Ele percebe coisas que não consegue explicar, desconfia, hesita, tenta compreender situações para as quais não tem repertório, linguagem ou conhecimento suficiente. E é justamente essa limitação que o torna tão humano. Não é alguém que tenha respostas, mas alguém que sente que existe algo além daquilo que consegue alcançar.

Talvez isso também não esteja tão distante de nós quanto gostaríamos de imaginar. Hoje temos ciência, conhecimento acumulado, instrumentos para observar o mundo e explicações para coisas que durante milênios foram entendidas como sinais, castigos ou manifestações do desconhecido. Ainda assim, continuamos convivendo com crenças, dogmas, tradições e certezas que muitas vezes aceitamos sem questionar completamente. Em maior ou menor grau, parece existir em nós essa necessidade de preencher aquilo que não compreendemos com alguma explicação que torne o mundo mais suportável ou inteligível.

Nesse sentido, ele e a menina acabam funcionando quase como espelhos invertidos: ela parece buscar, ainda que sem saber exatamente como formular isso, o lugar a que pertence; ele parece buscar uma compreensão maior do próprio mundo em que vive. Em ambos existe uma inquietação que não depende de ciência, filosofia ou qualquer elaboração mais sofisticada para existir. Existe apenas a sensação de que há algo que ainda não se entende.

Talvez seja justamente por isso que, paradoxalmente, quanto mais o livro nos leva para um mundo que parece distante daquilo que reconhecemos como civilização, mais próximos aqueles personagens acabam ficando. Eles vivem num universo governado por necessidades muito básicas, medo, instinto, superstição e sobrevivência, mas também por afeto, proteção, curiosidade, desejo de pertencimento, dúvida, violência e cuidado. Em alguns momentos, a distância temporal parece enorme; em outros, quase desaparece. E foi isso que mais me chamou a atenção ao longo da leitura: perceber que certas estruturas talvez tenham mudado muito menos do que imaginamos. As ferramentas mudaram, as explicações ficaram mais sofisticadas, as sociedades se tornaram infinitamente mais complexas, mas alguns impulsos continuam reconhecíveis demais.

E essa proximidade nem sempre é confortável. Há momentos em que o comportamento dos personagens nos aproxima não pelo que temos de melhor, mas justamente pelo contrário. A tentativa de estupro da menina por um dos neandertais é provavelmente o exemplo mais brutal disso. Não porque aquela violência seja necessária para explicar o que é humano, mas porque ela expõe impulsos de dominação, desejo, força e abuso que continuamos reconhecendo milhares de anos depois. O mesmo grupo que protege, acolhe e cuida também é capaz de excluir, agredir e violentar. Talvez seja justamente aí que o livro provoque mais incômodo: quanto mais tentamos enxergar aqueles seres como primitivos e distantes de nós, mais encontramos comportamentos que persistiram, apenas revestidos por outras regras, instituições e discursos. A civilização nos deu formas mais sofisticadas de organizar a convivência, mas não necessariamente eliminou tudo aquilo que havia de mais instintivo em nós.

Talvez tenha sido justamente isso que mais me marcou em Os Imortais. Quanto mais a história me afastava do mundo que reconheço como civilizado, mais familiar aquele mundo começava a parecer. Medo do desconhecido, necessidade de pertencer, respeito, cuidado, superstição, violência, preconceito, curiosidade, busca por respostas… tudo isso já estava ali, em formas mais simples e mais expostas, mas ainda perfeitamente reconhecíveis. É estranho perceber nossa própria humanidade aparecendo com tanta força justamente quando acompanhamos personagens tão próximos das nossas origens mais primitivas. Talvez tenhamos mudado muito mais as ferramentas, as explicações e a maneira de organizar o mundo do que alguns dos sentimentos e impulsos que carregamos dentro dele. E, no fim, talvez essa tenha sido a pergunta que o livro deixou comigo: quanto de nós já estava ali?





Às vésperas dos 50…

23 08 2026
Imagem trabalhada com ajuda da IA.

Recentemente, numa conversa com uma das minhas sobrinhas sobre livros que eu estava recomendando para ela ler nas férias, acabei revisitando mentalmente algumas leituras da adolescência. Entre elas, voltaram Richard Bach, Fernão Capelo Gaivota, Ilusões, A Ponte para o Sempre e, especialmente, Um. Nesse último, há uma imagem que ficou guardada comigo por anos: a de um voo sobre linhas imaginárias, que poderiam ser rios ou estradas, representando metaforicamente caminhos que teríamos tomado ao longo da vida, que se bifurcam infinitamente, como se cada decisão abrisse um caminho possível e, ao mesmo tempo, fechasse outros.

Talvez essa imagem tenha voltado agora porque estou às vésperas dos cinquenta anos, que completo em novembro. É apenas um número, claro, mas seria desonesto dizer que ele não carrega um simbolismo. Com ele, vem também uma constatação difícil de ignorar: muito provavelmente, o tempo que tenho pela frente é menor do que o tempo que já deixei pra trás. Não é desespero, é uma lucidez nova. Essa percepção fica ainda mais forte quando olho ao redor. Amigos de muitos anos começam a perder seus pais, pessoas próximas passam por doenças relacionadas à idade, despedidas, mudanças duras de rota. Alguns amigos eu mesmo perdi ao longo do caminho. Há uma fase da vida em que o tempo deixa de ser calendário e vira falta. E isso torna tudo mais concreto.

Ao mesmo tempo, quando olho para trás, percebo o quanto fui agraciado, ou abençoado, no sentido mais amplo e menos religioso possível – até mesmo porque sigo sendo ateu agnóstico. Isso justamente por ter podido fazer escolhas em muitos momentos da minha vida. Muita gente não tem essa margem: é empurrada pelas circunstâncias, pela falta de oportunidade, pela urgência da sobrevivência. Eu, com todos os medos e limitações, com um início de vida com alguma dificuldade, mas sempre com muito apoio da família, pude escolher muitas vezes. E escolher também é arcar com as consequências. Algumas me levaram por caminhos mais leves, outras por caminhos mais duros, e todas vão igualmente trilhando o caminho…

Algumas dessas escolhas eu talvez não repetisse. Mas todas elas fazem parte do percurso e do que me tornei hoje. Penso então naquele adolescente que sofreu como se cada dor fosse definitiva. Lembro de decepções, vergonhas, amores terminados, cartas dramáticas e hoje algumas dessas dores parecem menores, mas não eram pequenas para quem eu era naquele momento. Por isso não olho para trás com deboche, olho com ternura. Aquele menino também sou eu. E as dores que passaram e as que ficaram, os erros, os acertos, as cicatrizes que ficaram em mim e que acabei deixando em pessoas ao longo do caminho… Tudo isso foi ajudando a formar quem eu sou. Talvez este texto seja uma revisitação de coisas que já tentei elaborar antes, nesse mesmo blog, aqui, aqui e aqui. O tempo que não existe no depois, as escolhas que não podem ser refeitas, as perdas que transformam presença em memória. Eu poderia ter sido outro, mas eu sou este resultado dessas bifurcações. E, do alto dos quase cinquenta anos, com defeitos, virtudes e algumas cicatrizes, consigo olhar para o caminho percorrido com gratidão. Há muito que ficou para trás, sim, mas ainda há estrada. Ainda há escolhas. Ainda há vida a ser vivida.





Sissi, a imperatriz solitária

7 08 2022

Terminei há alguns dias a leitura desse livro. É interessante ler algo que nos leva para algo completamente distante, alheio do nosso dia-a-dia e da nossa realidade. No caso, para a realidade histórica da Europa do século XIX, o último século das grandes monarquias e impérios. Conhecia muito pouco sobre a vida dela, menos ainda do que sabia sobre o Império Austro-Húngaro. A autora, Allison Pataki, escritora de romances históricos, tem um cuidado enorme em mesclar pitadas de ficção sem fugir dos registros históricos, e inclusive ao final do livro ela cita todos os registros históricos das situações em que foi fiel à realidade. Como boa parte do livro é narrado pela própria imperatriz, obviamente não haveriam registros de seus pensamentos, é a parte onde a licença poética pode atuar. E na minha opinião, atua muito bem, nos aproximando com muita empatia dessa personagem histórica.

Sissi, a imperatriz Elisabeth, era um símbolo máximo da beleza, do luxo e do poder da realeza. Mas na sua intimidade passou boa parte da vida sozinha, refém da sua posição e das obrigações que vinham dela. Casou-se cedo, aos 16 com o já imperador Franz Joseph, de 23, da família dos Hasburgos, a então mais poderosa e tradicional das famílias reais europeias. O imperador estava prometido para a irmã mais velha de Sissi, mas ficou realmente apaixonado pela bela irmã mais nova quando as conheceu, e acabou casando-se com ela. Após tornar-se imperatriz, numa posição de alto poder e influência, sofre muito com a rigidez imposta principalmente pela sua sogra, mãe do imperador. Teve quatro filhos, três meninas e um menino: Teve duas filhas meninas (uma morreu criança ainda) antes de ter o tão desejado príncipe herdeiro, todos os três criados praticamente à sua revelia pela sogra, que a considerava imatura para ser mãe. Somente com sua caçula, que nasceu após o menino, conseguiu conviver e participar de sua criação. Foi se afastando do marido, procurando sempre viajar para lugares diferentes, onde pudesse minimamente sair dos protocolos da corte e eventualmente interagir com plebeus, viver mais livremente e mais feliz. Era muito criticada pela sociedade e pela imprensa por ser tão “independente” e distante de seu marido, mesmo estando com ele quando as obrigações importantes lhe exigiam. Ela teve participação importante na pacificação com os húngaros, em um momento em que a Europa inteira era uma panela de pressão por conta de guerras, intrigas e revoluções que pululavam para desespero dos monarcas de então. Ao longo da vida ela e o imperador acabaram se tornando muito mais parceiros protocolares com respeito mútuo do que marido e mulher. Perderam o filho herdeiro, já adulto, de forma trágica, tragédia essa que além de ter marcado a família, acabou criando situações sucessórias que algumas décadas depois desencadearam no estopim para a I Guerra mundial, com o assassinato do então herdeiro Franz Ferdinand em Sarajevo, que só era herdeiro por conta da morte do primo, filho de Franz Joseph e Sissi.

O que me chama muita atenção na história é a forma como ela conseguiu, naquele momento histórico onde as mulheres eram relegadas a posições sem importância, de certa forma sair do lugar comum de esposa submissa aos caprichos e desejos do marido, e até em certo grau um nível de independência dentro do possível. Sofreu bastante por isso, foi muito criticada e agredida pelas posições que tomava. Mesmo assim, era um modelo de referência de beleza e comportamento que acabava ditando modas em toda a Europa do século XIX. Dentro do contexto histórico e mesmo pessoal – ela se casou ainda adolescente -, pode-se dizer que ali foi forjada uma mulher à frente do seu tempo.

O livro está disponível nesse link da Amazon, em versão impressa ou Kindle. Para quem gosta de História, e gosta de uma boa narrativa, recomendo.





Ilusões (livro)

27 06 2021

O que aconteceria se você se encontrasse com um Messias? Um ser iluminado, uma alma elevada que aparentemente soubesse de todas as respostas, todos os segredos da vida e do universo inteiro? Essa é a premissa inicial desse livro, que já perdi as contas de quantas vezes li, desde a primeira vez no final dos anos 1980. Recomendo muito, sempre, para todo mundo, essa leitura.

Poucos livros tiveram uma presença tão marcante e ecoando por tanto tempo para mim ao longo dos anos como esse: “Ilusões – As Aventuras de um Messias Indeciso”, de Richard Bach, escrito em 1977, no ano seguinte ao do meu nascimento. É um livro fácil, gostoso, daqueles para se ler em bem pouco tempo. Trata de questões filosóficas mas de maneira simples, literalmente como uma conversa entre amigos. A ideia passada de que temos total controle sobre nossas vidas, nosso destino, é extremamente atraente e confortante, ainda mais para um adolescente como eu era à época do meu primeiro contato com o livro.

Na estória contada no livro, o autor-narrador, Richard, é primeiro pego de surpresa pelo encontro com Don Shimoda, que seria um Messias que estava, digamos, buscando uma espécie de aposentadoria. Ao longo das conversas, maravilha-se ao compreender algumas coisas, e depois começa a passar por um despretensioso “treinamento” para se tornar um Messias. E é confrontado com explicações simples, porém com uma profundidade chocante. E presencia coisas que entende, coisas que não entende, vê coisas humanas e sobre-humanas na figura do tal Messias. As partes mais deliciosas do livro, na minha opinião, são as frases do “Manual”, além dos lentos passos de aprendizagem de Richard. A parte humana do Messias, numa hora fanfarrão, outra hora completamente enfadado, sarcástico às vezes, traz alguma reflexão sobre nossa própria humanidade, nossos defeitos e nossas qualidades. E a conclusão que o Manual tem instruções que valem para qualquer um, não somente para um Messias…

“Eis aqui um teste para saber se sua missão na terra está cumprida:
Se você está vivo, não está.”

Frase do “Manual do Messias”

Uma outra coisa que chama a atenção, embora não seja o ponto central do livro, é a forma como as pessoas em geral reagem à figura do Messias, fazedor de milagres, “O Salvador”. Será que as pessoas estariam realmente interessadas no que ele teria a dizer? Ou gostariam simplesmente que ele lhes resolvesse todos os problemas assim, num estalar de dedos, que lhes trouxesse todas as respostas num piscar de olhos? Gostariam de aprender e crescer, ou simplesmente tomar atalhos para tal? Como o Messias reagiria a isso? Seria frustrante? Seria temeroso? As explicações estariam todas prontas, mas estariam as pessoas prontas para recebê-las?

Apesar de ter sido escrito há mais de 40 anos, o livro, bem como a sua temática, permanece atemporal. Nossa busca por respostas, o encantamento pelo místico e pelo desconhecido, são coisas intrínsecas à natureza humana. A busca pelo conhecimento, pelo autoconhecimento, é o que nos move enquanto civilização, há milênios, e assim ainda deve permanecer por muito tempo. Particularmente gosto da sensação de que sempre estaremos aprendendo, sempre estaremos sem certezas absolutas, e cada um lida com isso como desejar, pois essa escolha faz parte da nossa liberdade, do nosso livre-arbítrio, do que nos faz humanos, sempre.

“Uma nuvem não sabe por que se move em tal direção e em tal velocidade…
Sente um impulso, é para esse lugar que devo ir agora… Mas o céu sabe os motivos e desenhos por trá
s de todas as nuvens, e você também saberá, quando se erguer o suficiente para enxergar além dos horizontes…”

Minha citação preferida do “Manual do Messias”

Essa frase acima é a minha citação preferida do livro, e me acompanha desde a primeira leitura. Procuro manter (metaforicamente) a cabeça erguida, sempre, para tentar enxergar ao máximo possível além dos horizontes… lá estão explicações, decisões passadas, erros e acertos, que são as minhas nuvens… alguns desenhos já consigo enxergar e entender, outros tantos ainda não… e sigo assim, sem pressa, a passos vagarosos tentando aproveitar a jornada, que, para mim, é o que faz sentido…

Chegou até aqui? Obrigado por ter lido, espero que tenha gostado, se achar interessante, leia o livro, acho que vale bastante…





Na natureza selvagem (filme/livro)

7 09 2020

Essa semana me peguei pensando nesse filme, não sei bem o porquê. É um filme de 2007, sobre a estória (real) de um rapaz (Christopher) que no início da década de 90, após se formar, resolve desconectar-se do mundo e da sociedade por completo, e inicia uma jornada para o Alaska, sozinho, após desfazer-se de tudo: dinheiro, identidade, carro, qualquer coisa que pudesse vinculá-lo à sua antiga vida, uma vida em sociedade.

Eu assisti a esse filme algumas vezes, gostei muito, uma fotografia bem feita, uma trilha sonora que é um espetáculo à parte, feita sob encomenda pelo Eddie Vedder, do Pearl Jam (sou suspeito, sou muito fã dele). As letras de duas das músicas em especial passam por muitas situações do filme:

“Sociedade, tenha piedade de mim
Espero que não fique brava se eu discordar
Sociedade, realmente louca
Espero que não esteja solitária sem mim”
– em Society

“De joelhos dobrados não há como ser livre
Levantando um copo vazio, eu pergunto silenciosamente
Se todos meus destinos aceitarão aquele que eu sou
Para que eu possa respirar”
– em Guaranteed

E o filme fala disso, de discordar e não estar conseguindo respirar, viver, na sociedade moderna. Quem tenta “escapar” das regras, é louco. Será mesmo? Ou loucos mesmo seriam aqueles que não questionam? Que permanecem na lógica de estar sempre correndo atrás de tudo, sofrendo a pressão de ter mais, de ser mais, muitas vezes sem se perguntar o porquê… Desde sempre, estamos sendo confrontados com objetivos, metas, expectativas que outros colocam sobre nós. Se não tivéssemos nada disso, será que faríamos as mesmas escolhas?

No caso da estória que inspirou o filme, não consta que o rapaz fosse violento, revoltado… ele estava bastante descontente com as relações familiares, com as coisas que esperavam dele (trabalhar para conseguir dinheiro, dirigir um carro melhor, etc), e simplesmente queria estar à parte daquilo tudo, e assim o fez. Encontrou e encantou pessoas ao longo da sua jornada, fez uma “base” num ônibus abandonado no meio do nada, que ele batizou de “Magic Bus” (Ônibus Mágico), e que posteriormente virou ponto de peregrinação de mochileiros, ocasionando inúmeros acidentes, até ser removido de lá pelo governo local. Ele buscou o seu caminho, e acabou encontrando algumas experiências que não viveria de outra forma, além de ter encontrado também a morte prematura (perdão pelo spoiler, mas é fato conhecido…). Valeu a pena? Só ele poderia responder…

Acho a estória inspiradora, mas não no sentido de seguir os passos dele, mas sim no sentido de dar vazão a esse tipo de inquietação e questionamento, por quanto tempo devemos estar sempre nos dedicando a ter as coisas, a conquistar coisas, sem olhar para nossas próprias necessidades. A sociedade nos pressiona a conquistar, ter resultados, independente de nossas próprias aspirações mais profundas. Expectativas são criadas no nosso nascimento, projeções são feitas em cima de cada um de nós, por vezes enviesadas por frustrações de nossos pais, que podem enxergar na geração seguinte a chance de alcançar o que não lhes foi possível.

Negar tudo isso é difícil, olhar para si e se permitir fazer coisas que fogem das expectativas a seu próprio respeito, não é um exercício fácil. Acho que o caminho do equilíbrio é sempre o melhor, embora nem sempre consigamos enxergá-lo. Cada um é responsável pelo seu próprio caminho (ou deveria ser), pelas suas escolhas, seus erros e acertos. E temos que conviver com eles ao longo da vida, faz parte. Às vezes é difícil enxergar as implicações, mas elas estarão lá. O melhor acontece quando conseguimos levar as coisas com leveza, com a importante serenidade de aceitar o que não pode ser mudado, o que passou, o que já foi. Não se deveria perder tempo com arrependimentos ou descaminhos já escolhidos, eles ficaram pra trás, e ali permanecerão… Talvez em tom de arrependimento, uma das conclusões finais no diário de Christopher – que foi usado para escrever o livro e o filme – diz algo sobre a felicidade, que ele acaba descobrindo no meio da sua aventura solitária:

“A felicidade só é real quando é compartilhada.”

Christopher McCandless

De alguma forma, a busca dele estaria sempre incompleta se ele não pudesse compartilhar, de dividir o sentimento, a completude, a felicidade que ele buscava, e cuja busca não terminou…

Se quiser ouvir a trilha sonora completa: tem no Spotify e também no YouTube, e se quiser se aventurar no livro, tem aqui.

O ônibus mágico…