“Is there a time for keeping your distance
A time to turn your eyes away
Is there a time for keeping your head down
For getting on with your day”
Miss Sarajevo – U2
Sarajevo, na antiga Iugoslávia (para os mais velhos), atual capital da Bósnia e Herzegovina (esse é o nome completo do país, e não somente Bósnia, lá aprendi que são duas regiões distintas separadas pelas montanhas: Bósnia a parte mais alta, Herzegovina a parte mediterrânea), foi um dos nossos destinos do verão de 2019. Eu sempre tive muita curiosidade de conhecer essa região, por uma série de motivos que na verdade norteiam a minha vontade e o meu prazer de viajar: conhecer e conversar com pessoas de culturas diferentes, belezas naturais, e, acima de tudo um lugar cuja história recente me deixava muito curioso, por conta da guerra nos anos 90, final da minha adolescência e início da minha vida adulta. Eu me lembrava das notícias da época, mas gostaria de ver, andar pelas ruas, conversar com pessoas que viveram aquela época, ouvir sobre o que estaria por trás das notícias que cruzavam o Atlântico. Após passarmos por Paris, Ljubljana(Eslovênia), Zagreb e Dubrovnik (Croácia), chegamos em Sarajevo… Depois de vários dias pulando de um AirBnB para outro, em Sarajevo optamos por usar minha pontuação e ficarmos no Novotel, acima da média para o que estamos acostumados.

Sarajevo é uma cidade que fica em um vale, cortada por um rio, e essa geografia tem papéis importantes nos acontecimentos históricos por lá. A Latin Bridge (foto acima) é uma ponte onde o herdeiro do Império Austro-Húngaro foi assassinado, sendo este o estopim para o início da I Guerra Mundial em 1914. E o fato da cidade ficar em um vale favoreceu a ação dos atiradores sérvios durante a Guerra da Bósnia nos anos 90 (nota: os Sérvios e Croatas a chamam de “Guerra Civil”, os Bósnios a chamam de “Agressão”, uma demonstração de que as feridas ainda estão por lá). Uma guerra por território que se transformou na tentativa dos Sérvios (cristãos ortodoxos) de através de uma “limpeza étnica” eliminar os Bósnios (muçulmanos).
A atmosfera, ao menos no setor mais turístico central, é muito acolhedora. Cuidados básicos com cobranças a mais dos turistas, como em quase qualquer lugar, é recomendável, em especial com taxistas. As construções, em especial as mais próximas ao rio, estão cheias de buracos de balas, o que impressiona. A culinária é um capítulo à parte, muita influência do oriente médio(o que no Brasil chamamos de árabe/turca/síria), misturada com a culinária mediterrânea, muito carneiro, falafel, kafta, molhos… os doces são um capítulo á parte, prove a melhor Baklava do mundo no Baklava ducan Sarajevo. No geral, come-se bem e barato (informação de junho/2019, com o Euro valendo cerca de R$ 4,50, e o BAM – moeda local – valendo R$ 2,25).
Locais que devem ser visitados necessariamente:
- Latin Bridge
- Catedral Ortodoxa
- Baščaršija(Leia-se Bacharchia), bairro central e turístico
- Túnel de Sarajevo
- Mesquita Gazi Husrev-beg
- Sebilj, fonte (de água) feita de madeira, estilo Otomano

As mesquitas são muito bonitas, é bom sempre se informar sobre estarem abertas à visitação turística ou não, e os horários. Um cuidado especial deve ser tomado em relação à vestimenta, sapatos devem ser deixados de fora, e mulheres devem necessariamente cobrir os cabelos. Em geral são fornecidos véus ou lenços se as turistas precisarem. Em todas as mesquitas há fontes de àgua onde os fiéis se lavam antes de entrar na mesquita, no geral os turistas não as utilizam.
O Túnel de Sarajevo tem uma estória que vale a pena contar: no início do cerco a Sarajevo pelas tropas sérvias (que durou inacreditáveis 4 anos!), o presidente da França esteve no aeroporto da cidade, em conversas com as forças sérvias para negociar que o aeroporto pudesse ficar seguro para ações humanitárias da ONU (e não negociou o cerco em si). Com essa zona “livre”, os habitantes de Sarajevo que resistiam ao cerco fizeram um túnel de quase 1 km saindo de uma casa e atravessando por baixo do aeroporto, por onde abasteceriam a cidade por anos com mantimentos, armas, transportavam feridos, até animais. Essa casa e parte do túnel são visitáveis ainda hoje. É uma estória impressionante de luta e resistência. Consta que embora os espiões sérvios soubessem da existência do túnel, o deixaram pois achavam que estariam evacuando a cidade, quando na verdade o utilizavam para fortalecer suas forças de resistência.

Durante o cerco, os atiradores nas montanhas e locais altos alvejavam os pedestres. Consegue imaginar uma rua onde ao invés de placas “Cuidado, veículos”, havia placas “Cuidado, atiradores”? Pois então…

Além de Sarajevo
Tivemos a sorte de contratar a Funky Tours (encontrada via Trip Advisor), com a guia Armina (que foi uma excelente guia e nos ensinou tudo a respeito do país e da guerra) para um passeio de um dia para Međugorje (leia-se Mêdiugori), um local de peregrinação cristã onde há relatos de aparição de Nossa Senhora. Esse tour incluía algumas paradas que valeram muito a pena, num parque com cachoeiras (Kravica Waterfalls) e numa cidade chamada Mostar, que por si só já valeria ficar um ou dois dias por lá.
Mostar é aparentemente uma cidade turística, e sua principal atração é uma ponte, destruída da guerra e reconstruída posteriormente, e onde há competições de salto no rio. Durante nossa passagem por lá haviam homens “treinando” para pular e pedindo obviamente uma contribuição dos turistas. Alguns pagaram, mas demoramos uns bons minutos lá e nada de pulo…


Međugorje é uma cidade que praticamente vive em função dos peregrinos, que vêm de todas as partes do mundo, e me lembrou muito de Aparecida do Norte, guardadas as devidas proporções. Uma catedral com uma grande área externa, local amplo para caminhar, com várias imagens religiosas pelo caminho. Como lugares assim ao redor do mundo, tem uma energia muito boa, um ambiente muito gostoso também. O principal atrativo da cidade é subir até a colina das aparições.


Uma outra parada interessante e rápida foi em uma cidade pequena chamada Počitelj, cidade toda feita de pedra, construída na Idade Média pelos turcos, foi destruída pela guerra e reconstruída após seu fim.

Para terminar, ao longo do dia agradável que tivemos com Armina, ela nos recomendou dois filmes que retratam partes humanas da guerra dos anos 90: No man’s land (Terra de Ninguém), um filme bósnio que se passa numa trincheira da guerra, e In the land of blood and honey (Na terra do amor e ódio), filme da Angelina Jolie. Ambos filmes muito bons, que assistimos quando voltamos de viagem. De uma maneira geral ficamos com a impressão de que as feridas da guerra ainda permanecem lá, a convivência entre os “diferentes” muçulmanos, cristãos e cristãos ortodoxos ainda é tensa, o governo é meio que dividido entre 3 presidentes, cada um eleito por uma das 3 divisões do país… pense num arranjo que não tem como dar certo no longo prazo…
Sarajevo foi uma experiência muito boa, conheci uma cidade sobre a qual tinha bastante curiosidade, sentimos e respiramos um pouco de sua história, e foi para mim para a lista de cidades preferidas ao redor do mundo.
Espero que tenham gostado, até a próxima!
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