Moscou, Rússia

29 11 2020

Essa foi uma passagem de 2 dias praticamente obrigatória após eu ficar quase uma semana em São Petersburgo, semana da qual falei em outro post.

À beira do rio Mockba (Lê-se “moskva”, significa Moscou). com o Kremilin ao fundo

A primeira grande surpresa foi ainda em São Petersburgo, quando fui tomar o trem, no qual iria passar a noite e acordar em Moscou. Os meus anfitriões foram gentilmente me acompanhar até a estação. Chegando lá, o nome que estava na porta da estação era um, e o nome que constava na minha passagem, comprada pela Internet com bastante antecedência, era outro. Mesmo em cirílico, eu conseguia ver que eram nomes bem diferentes. Disse à Katia, minha anfitriã, que estávamos no lugar errado. Ela olhou minha passagem e foi categórica: “Não, está certo. Aquele nome ali na parede é o nome histórico, antigo dela. O novo nome é esse que está na sua passagem.”. O nome “novo” não constava em nenhum lugar na estação, e então eu perguntei como eu saberia se ela não tivesse me dito. Ela pensou um pouco e disse “Você não saberia!”. Na mesma hora me lembrei de um colega que havia estado em Moscou e me disse que ficou 3 horas numa estação tentando descobrir qual era o trem dele. Naquele momento deixei de achar um exagero e o entendi…

Bom, sabendo que estava no lugar certo, fui acompanhado pela Katia e pelo Romain até a plataforma e embarquei no trem para minha viagem overnight.

Trem que me levou de São Petersburgo a Moscou

Minha passagem era para um assento/cama, num espaço com 3 outras pessoas, 3 russos que não falavam inglês. A conversa não fluiu, obviamente. Só consegui dizer que eu era brasileiro, e olhe lá, nem fiquei tão certo de que isso foi entendido 100%…

Eram apenas dois dias em Moscou, que – eu já sabia – não é uma cidade muito amigável para turistas sozinhos que não falam russo. Aluguei um AirBnB em um edifício histórico, monumento cultural, o Edifício da Praça Kudrinskaya, um dos arranha-céus chamados de Seven Sisters (“Sete Irmãs”), construídos na época stalinista. O anfitrião, Daniel, espanhol, mas nascido na Colômbia, trabalhava na Zara em Moscou. Cheguei logo cedo, ele havia dito que não estaria em casa, mas a namorada dele (que ele me havia dito que não falava muito bem inglês) estaria lá para me receber. Desci na estação de trem, peguei o metrô e fui para a estação Barrikadnaya, próxima ao prédio.

Minha casa em Moscou

Chegando lá, fui tocar o interfone, ninguém atendia. Após insistir algumas vezes, uma senhora de dentro do prédio, com uniforme, veio falar comigo. Em russo. “Ya ne govoryu po russki” (eu não falo russo), disse pra ela, e falei o nome do Daniel. “Your name?”, ela me perguntou em inglês carregado de sotaque. “Cristiano”, respondi. Fez sinal que a seguisse para dentro do prédio e me deu a chave. A “namorada” havia sido expulsa pelo Daniel naquela manhã, então não havia quem me recebesse… tenso.

Chegando no apartamento, conectei no wi-fi e liguei (Skype) para o Daniel. Ele perguntou se estava tudo bem, e só voltaria pra casa à noite. Ok, saí pra explorar a cidade, já que só teria dois dias para isso. As coisas mais emblemáticas e bonitas para se ver lá são a Praça Vermelha e o Kremlin, sede do governo, além da Catedral de São Basílio, ali do lado. As estações de metrô são um espetáculo à parte, verdadeiras obras de arte por todos os lados. Caminhei ao longo do Rio Mockba(“moskva”), tirei uma foto com o Parque Gorki ao fundo (quem ouvia rock no início dos anos 90 deve perceber a referência…) , fui ao Museu Pushkin, também imperdível.

Na Praça Vermelha, em frente ao Kremlin
Catedral de São Basílio, na Praça Vermelha
Chama eterna, logo antes da troca da guarda
Ritual da troca da guarda

Uma frustração foi não ter podido visitar o mausoléu de Lênin, que fica na Praça Vermelha. Os dias que eu estava lá eram dias de comemoração do “Dia da Rússia”, então havia várias coisas fechadas em função das comemorações, desfiles e etc. A data que cheguei era tarde para assistir ao desfile mas muito cedo para o mausoléu já ter reaberto… Paciência, tenho que voltar lá qualquer dia.

Catedral Cristo Salvador (ortodoxa), próxima ao Kremlin
Estação de metrô
Pintura comemorativa de 30 anos da Revolução, em estação do metrô
Estação de metrô
Mosaico em estação de metrô, em comemoração à vitória na 2a Guerra Mundial
Mosaico simbolizando o povo, em estação de metrô
Cópia do David de Michelângelo, no museu Pushkin

Ao voltar pra casa após meus primeiros passeios, ainda não havia ninguém no apartamento. Daniel chegou depois, com um amigo turco. Disse que eles iam sair para um bar, perguntaram se eu gostaria de ir. Eu já sabia de ouvir falar, que pubs em Moscou eram bem chatos em relação à vestimenta dos clientes. Estava de jeans e com minha bota de caminhada, perguntei se havia algum problema e ele disse que não. Disse que não iriam voltar tarde, pois trabalhariam na manhã seguinte. Aceitei. Fomos de taxi, ficamos dando várias voltas, descemos e seguimos andando. Senti que o turco também não estava muito à vontade. Ao entrarmos numa travessa, o Daniel entrou numa porta que parecia ser um estabelecimento de orientais, com gôndolas com produtos, parecendo um daqueles pequenos mercados coreanos no Bom Retiro em São Paulo. Entramos atrás dele, era apenas um corredor. Ao final do corredor, um segurança revistava quem passava, e encaminhava para uma escada em caracol para o que parecia um porão. Devo confessar que fiquei meio tenso. Mas após descer a escada, havia lá em baixo um bar muito legal, Mendeleev, recomendo! Ficamos lá por um bom tempo, ambiente legal, decoração lembrava algo de medieval, música ambiente. Depois saímos andando, passamos por um mercado 24hs, e fomos para outro bar, esse mais tipo balada eletrônica. Ao entrarmos nesse, Daniel passou primeiro, e quando eu fui entrar o segurança me barrou com a mão espalmada no meu peito. “Niet!”(não!), disse ele. Daniel voltou e conversou, dizendo (acho) que eu estava com ele. Nessa hora o segurança saiu da frente e veio um senhor baixinho (metade da altura do segurança), olhou sério na minha cara e disse: “Next time, change your shoes!” (da próxima vez, mude seus sapatos). Senti ali a tal preocupação com o modo de vestir dos clientes. Entramos, ficamos na balada por um tempo (gostei menos dessa, preferia o bar), e depois pegamos um táxi e fomos para casa.

Mercado 24hs

Depois da segunda noite lá, acordei cedo para ir para o aeroporto, pegar o voo com conexão em Amsterdã, e depois Brasil. Precisei da ajuda do Daniel para agendar um táxi na madrugada (ainda não existia Uber na época), já deixou acertado o valor e tudo, porque o taxista – adivinha! – não falava nada de inglês… E assim terminou minha circulada pela Europa no verão de 2013…





Nepal (parte 2)

22 11 2020

E lá estávamos, no início da trilha após o passeio de que falei no post anterior, Nepal (parte 1).

Início da trilha
Animação e disposição para passar pela primeira (de muitas!) ponte na trilha

A trilha começava em torno de 1000 metros de altitude, e tínhamos 4-6 horas de caminhada até nosso primeiro alojamento em Ghorepani, que ficava a 2874m de altitude, com uma vista espetacular das montanhas da região do Annapurna, incluindo o próprio.

Ao longo do caminho, muito verde, corredeiras, rios, pontes suspensas, bastante gente na trilha. Subindo também guias com mantimentos, dentre os quais inclusive galinhas vivas em gaiolas. Uma preocupação que tive a todo momento porque tinham me avisado: ao longo do percurso, vários lugares vendem água em garrafa, supostamente mineral. Foi dito que por vezes eles acabam reaproveitando garrafas com água de torneira ou dos rios. Para evitar dissabores, sempre fazia questão de eu mesmo verificar o lacre, e não aceitamos nenhuma garrafa que viesse com o lacre aberto. A última coisa que precisaríamos seria ter algum desarranjo no meio do caminho, já pensou?

Mais uma das várias pontes
Escada de pedra, mais de 3000 degraus…
Pequenas cachoeiras ao longo do percurso
Não poderia deixar de montar meu totem de pedra, minha pequena
reverência à Natureza
Pequenas vilas ao longo da trilha

A ideia era dormir cedo, acordar às 4h da manhã para fazer uma trilha noturna até o topo Poonhill a 3210m de altitude, e ver o nascer do Sol por entre as montanhas. No alojamento não há muito o que fazer mesmo, tomar banho, comer, e ir dormir. E lá fomos nós, lanternas nas testas e nas mãos, dar boas-vindas ao Sol lá de cima.

Placa ao chegar no topo, antes do Sol nascer
Sol nascendo nas montanhas nepalesas

Lá em cima, uma banquinha vendendo chá e café, e o espetáculo da Natureza, gratuito, ia se descortinando… meu guia tirou uma foto minha sem que eu percebesse, enquanto eu estava tomando chá (limão, gengibre e mel, meu favorito na trilha). Essa foto é uma das minhas preferidas até hoje:

As melhores fotos são aquelas em momentos espontâneos, não?
Vista que compensa ter acordado às 4h
Observando as montanhas
Selfie com montanhas
Vale comemorar, claro!
Não somos os únicos malucos no mundo…
Tirar selfie é a parte fácil… difícil é chegar até ali

Depois disso, descemos a montanha, pudemos tomar o café da manhã para mais um dia de trilha, 6hs de caminhada até Tadapani, já a 2710m de altitude. Depois de Tadapani, mais três dias de caminhada: Tadapani para Ghandruk (1940m), no dia seguinte para Tolka(1790m), para no último dia descermos até Phedi(830m), onde o carro nos pegaria para levar de volta a Pokhara. Caminho de volta com muitas paisagens bonitas, mata fechada, corredeiras de água por todo o caminho. A comida nos alojamentos ao longo do caminho não variava muito, muito arroz, frango, algumas frituras típicas. Uma noite que eu não aguentava mais, pedi batatas cozidas. Elas vieram servidas com casca e tudo…

Batatas para dar uma pausa nas frituras…
Muitas plantações de arroz ao longo do caminho
Por lá também há escolas, e quadra com bela paisagem para se jogar
Essas vilas mudaram muito pouco nos últimos 100 anos
Nosso último alojamento
Com o guia e carregador, que nos acompanharam por todos os dias
Lavanderia das montanhas
Uma alpinista sul-coreano financiou uma escola como reconhecimento pela
ajuda dos sherpas pela subida a 16 montanhas no Himalaia
Finalzinho da trilha
Ponte no final da trilha

Nessa noite jantamos em Pokhara, encontramos até uns pubs e restaurantes legais, num deles inclusive havia uma garrafa de Sagatiba, e conversei com o barman se ele sabia o que era, ele disse que era uma bebida do Brasil que o chefe havia comprado. “Sabe o que fazer com ela?”. Ele disse que não, meio sem graça. Expliquei que basicamente ele podia usar como usa a vodka, mas a mais famosa bebida era com gelo, limão e açúcar.

Jantar em Pokhara
Mais uma cerveja nepalesa

No dia seguinte, pegamos o aviãozinho de volta para Kathmandu. Não havia lugar marcado na volta, então eu fiquei literalmente grudado no finger para ficar bem na frente, praticamente no cangote do piloto. Nosso último passeio em Kathmandu era um voo panorâmico para sobrevoar o Everest (já que não fomos até lá). Fomos cedo para o aeroporto, voos atrasaram porque estava muito fechado. Aí liberaram o primeiro avião (não era o nosso) para o Everest, e este informou que o tempo fechado deixou tudo sem visibilidade. Voltamos meio frustrados, mas tivemos o pagamento pelo voo devolvido. Os que foram no primeiro avião não tiveram essa sorte…

De uma maneira geral, foi uma experiência muito legal de estar tão longe de casa, física, metafórica e culturalmente falando, e estar em lugares tão únicos como aqueles. De lá fomos para o Butão, viagem que conto num próximo post. Espero que tenha gostado, até a próxima!





Nepal (parte 1)

15 11 2020
Chá quente no alto do Ghorepani, olhando para o Annapurna

Em 2014 resolvi que estava na hora finalmente de ir conhecer o Nepal. Depois da viagem para São Petesburgo, era a viagem no topo da lista de desejos. Uma viagem em que conheceria uma cultura bem diferente, distante metafórica e fisicamente do meu mundo cotidiano. Além disso, poderia fazer trilhas na região onde estão algumas das montanhas mais altas do mundo. Sem escalar nada, que não é muito a minha pegada. Peguei as dicas com a Tânia, uma amiga que conheci na viagem ao Monte Roraima, ela tinha ido ao Nepal e ao Butão algum tempo antes. Taí uma das melhores coisas de viajar bastante: conhecer pessoas com astral bom, que troquem experiências e dicas. Procurei um amigo “trilheiro” para dividir essa aventura, e o Carlos, amigo de longa data, topou a loucura.

Nos dias de preparação para a viagem, escrevi o seguinte post no Facebook:

“Preparando as coisas para a viagem, contando as horas… As pessoas têm me perguntado: “Por que Nepal?”. E a resposta tem sido: “E por que não?”… 🙂

O mundo é grande demais para conseguirmos conhecê-lo por inteiro, nossa existência por aqui é comparativamente curta demais. Dessa forma, acho que a experiência de vivenciar situações e culturas que são completamente diferente das nossas, do nosso dia-a-dia, do nosso lugar comum. A tecnologia tem tornado o mundo cada vez menor e menor, mas há algumas coisas que ainda não são transmitidas e faz-se necessário estar lá fisicamente, outros sentidos a serem exercitados, sair um pouco (ou bastante, depende do ponto de vista) da nossa zona de conforto. Ao menos para mim, isso faz parte de estar vivo e é patologicamente indispensável… E o Nepal traz tudo isso, junto com montanhas das mais altas e bonitas do mundo… e lá vamos nós… 🙂

— Setembro de 2014

Nosso último alojamento

Entrei em contato com a Maroon Treks e optamos pelo pacote de trekking Ghorepani-Poonhill, com algumas alterações. O roteiro incluiu 2 dias em Kathmandu (capital do Nepal), seguido de um voo para Pokhara (interior do país, região do Annapurna, famosa montanha), 6 dias de caminhada nas montanhas dormindo em alojamentos, depois voo de volta para Kathmandu. No dia seguinte, um voo panorâmico pelo Everest (a montanha mais alta do mundo), jantar de despedida em Kathmandu, e em seguida pegaríamos um voo para o Butão, mas aí já é uma outra estória…

A viagem de ida tinha que contar com uma conexão, não há voos diretos do Brasil para o Nepal. Acabamos escolhendo a escala em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, pela Etihad, era o voo mais em conta na época. Aí começaram os detalhes: as escalas de ida e volta seriam longas (12 e 8 horas respectivamente), então teríamos que ter um visto para pernoitar nos Emirados, num hotel pago pela companhia aérea. Fomos informados de que até existia um hotel dentro do aeroporto(se ficássemos lá não precisaríamos de visto), mas estava em reformas. Fizemos o procedimento junto à Etihad, que ficou responsável por isso. Chegando perto da data, nada do visto chegar. Dois dias antes do embarque, o meu chegou, mas o do Carlos não. Sem explicação. Então teoricamente eu poderia ir para o hotel e ele deveria ficar no aeroporto. Sem opções, embarcamos.

Depois de 14hs de voo, tendo dormido, zerado os filmes disponíveis que valiam a pena, chegamos em Abu Dhabi. Não podemos dizer que conhecemos a cidade (na verdade, cidade-Estado), só ficamos no aeroporto. Depois de ficar conversando para ver se havia alguma solução para o fato do Carlos estar sem visto, acabaram achando vagas para nós no tal hotel do aeroporto.

Entrada do hotel do aeroporto
Na mesa do quarto, indicação da direção de Meca, para rezar.

No dia seguinte, embarque para o Nepal. Chegando no aeroporto de Kathmandu, a visão completamente diferente de outros aeroportos ao redor do mundo: nenhuma mala de rodinhas, somente mochilas, e das grandes. Estávamos na capital mundial dos mochileiros, com certeza. No caso do Nepal, pagamos pelo visto lá mesmo, no aeroporto, na chegada.

Mochilões para todos os lados…

Nosso contato estava aguardando no desembarque, fomos recepcionados com colares laranjas de boas-vindas e levados direto ao Hotel, para check-in e na sequência para o escritório da agência para o briefing do pacote. À noite, fomos para o bairro turístico tomar a nossa primeira cerveja Nepalesa (dizem que feita com águas do Himalaia), a Gorkha. Lager normal, nada espetacular. Caminhamos um pouco por ali, e já percebemos o trânsito louco e sem sinalização, mão inglesa, e a simplicidade do lugar, das construções e das pessoas. Um país bem pobre, com muito pouco para se investir em infrarestrutura.

Colar nepalês de boas-vindas
Cerveja nepalesa

Dia seguinte, city tour em Kathmandu, visitando alguns dos templos mais famosos, como o templo Hindu Pasupatinath, onde pudermos ver uma arquitetura e cores totalmente diferentes do que estamos acostumados, além de vacas circulando livremente (a vaca é um animal sagrado para eles).

Entrada do Pasupatinath Temple
Detalhe da decoração no templo, com desenhos digamos,
não convencionais para costumes ocidentais, com temática sexual
Saindo do templo: nosso guia (de azul), Carlos (de branco),
além da vaquinha cujo nome desconheço

Uma coisa que impressiona a nós, ocidentais, são os rituais funerários que ocorrem nesse tempo, à margem do rio. Os corpos são preparados ali e queimados ali mesmo, sobre o concreto. Uma maneira diferente, respeitosa à maneira deles. Os mais abastados conseguem queimar seus mortos no templo, os outros o fazem fora do templo, mais abaixo ao longo do rio.

Corpo sendo preparado para ritual
Corpo sendo consumido pelas chamas, observado pelos parentes e amigos
Macaquinho morador do templo, e corpos queimando ao fundo

Um outro templo muito famoso é o Boudanath Temple, também conhecido como “Templo dos Macacos” pela quantidade absurda de macaquinhos que vivem por ali. Chama a atenção os “Olhos de Buda” no teto do templo, além das dezenas de sinos de reza (prayer bells). Lá há também um atelier-escola de desenhos de mandalas, comprei uma que mandei emoldurar aqui no Brasil e fica em casa.

Macaquinhos circulam livremente… se não cuidar do seu lanche, já era…
Prayer Bell gigante no templo Boudanath
Teto do templo Boudanath
Teto to templo Boudanath
As pessoas passam por esses sinos girando-os para fazer barulho, e entoando o mantra “Om mani padme hum” , que tenho no anel que uso até hoje
Altar no templo Boudanath

O templo é muito bonito, embora bastante sujo, principalmente por conta das oferendas que ficam lá por dias, aparentemente. De qualquer forma, é um lugar imperdível numa passagem por Kathmandu.

Outro lugar que visitamos é a Patan Durbar Square, cheio de templos menores, todos com muitas decorações em madeira esculpida (carving). Infelizmente, boa parte desses templos em Kathmandu foram seriamente danificados, alguns completamente destruídos, alguns meses após nossa visita, por causa do terremoto de 2015, conforme pode ser visto nas fotos aqui e aqui.

Patan Durbar Square
Patan Durbar Square
Patan Durbar Square
Patan Durbar Square
Detalhe de escultura em templo da Patan Durbar Square. Figuras de posições
sexuais são comumente representadas por lá.

No dia seguinte era o dia de iniciarmos a trilha, 6 dias em completo isolamento caminhando pelas montanhas. Para tanto, fomos logo cedo ao aeroporto de Kathmandu para pegar o avião para Pokhara, na região oeste do país. O terminal doméstico do aeroporto é praticamente um grande galpão, tijolos aparentes, os guichês são de plástico, tipo daqueles de feiras de negócios. Fomos pela companhia Simrik Airlines. A atendente que nos recepcionou no finger e nos acompanhou até a aeronave era a mesma do check-in. Operação bem enxuta mesmo… O avião era um bimotor de 19 lugares, sendo que as primeiras 8 fileiras tinham somente um assento de cada lado (um em cada janela), e a última tinha 3 poltronas, bem apertadas. E era nessa última fileira os nossos lugares (eu, Carlos e o guia). Foi o menor avião no qual entrei na vida. Principalmente depois de ele ficar lotado, cheio de europeus de mais de 1,80 de altura, a sensação claustrofóbica apertou… respira fundo e vamos lá…

Entrada do terminal doméstico do aeroporto de Kathmandu
Check-in da Simrik Airlines
Avião que nos levou a Pokhara
Aeroporto de Pokhara

Bom, lá estávamos prontos para iniciar a trilha, um carro estava nos aguardando no aeroporto, no próximo post conto como foi essa parte da aventura… até lá!





O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale) – série

8 11 2020
Imagem daqui

Agora, em meio à pandemia, ficamos procurando indicações de séries para assistir. Por sugestão de uma amiga, começamos a assistir a The Handmaid’s Tale, disponível no Brasil pela Globoplay. Em pouco mais de três semanas, assistimos à primeira (2017) e à segunda (2018) temporadas, e estamos nos preparando para a terceira (2019). Por conta da pandemia, a quarta temporada que seria nesse ano foi adiada para 2021. A série é baseada em um livro publicado na década de 80, e pelo que entendi o livro termina da forma como termina a primeira temporada, então as subsequentes não são uma adaptação, e sim roteiros novos.

Vou tentar passar minhas impressões e por que resolvi escrever a respeito, com o mínimo de spoilers quanto possível. Se quiser parar por aqui a leitura, só digo que recomendo muito, é uma estória muito forte, dramática, e que levanta muitos questionamentos atuais, como toda boa estória distópica. Depois que assistir, passa aqui de novo pra terminar de ler.

Aliás, falando em estórias distópicas, assistindo a essa série me remeteu bastante a alguns episódios de Black Mirror, com situações futurísticas catastróficas, apocalípticas, mas, que se analisarmos com um pouco mais de frieza, não estão muito distantes da nossa realidade, por mais assustador que isso seja. Qualquer dia escrevo sobre alguns episódios de Black Mirror também…

Voltando a Handmaid’s Tale, a estória se passa em um futuro não muito distante, onde teria havido um golpe de estado nos Estados Unidos, por um grupo religioso que implementa uma sociedade patriarcal, praticamente medieval, que subjuga as mulheres e que separa a sociedade em castas muito bem definidas. Um dos pilares dessa sociedade é que a maioria das mulheres haviam ficado estéreis, e as poucas que restaram férteis são “treinadas” para serem handmaids (“aias”), para gerarem os filhos dos “comandantes”, os representantes das camadas “superiores” da sociedade, que controlam o governo. As aias moram nas casas de seus comandantes, e mensalmente no seu período fértil são estupradas por seus comandantes em uma “cerimônia”, que conta inclusive com a participação da esposa estéril. E essa “cerimônia” é justificada inclusive por uma passagem bíblica: “Vendo Raquel que não dava filhos a Jacó, teve inveja de sua irmã, e disse a Jacó: Dá-me filhos, senão morro. E ela disse: Eis aqui minha serva Bila, coabita com ela, para que dê à luz sobre meus joelhos, e eu assim receba filhos por ela” (Gênesis 30:1:3)

Uma das partes mais impactantes da série é justamente a realização dessas cerimônias, onde elas deitam na cama do casal, sobre os joelhos das esposas, e são seguras por estas pelos punhos, para que sejam “fecundadas” pelos seus maridos. Há uma ideia plenamente difundida, e justificada “biblicamente” de que as mulheres não têm direito a praticamente nada (não podem ter propriedades, empregos, dinheiro e nem podem sequer LER) e devem se dedicar exclusivamente à família (as “esposas”, mulheres dos aristocratas), aos afazeres domésticos (as “Marthas”, mulheres estéreis mantidas praticamente como escravas), e à procriação (as “Aias”). Inclusive as roupas que elas têm que usar identificam claramente sua posição na sociedade. Em um mundo onde quase todas são estéreis, as Aias possuem um aura de “abençoadas” por ainda serem capazes de engravidar e gerar uma vida.

A “cerimônia”. Imagem daqui.

A atmosfera criada pela fotografia da série ajuda no tom sombrio. Não há cores vivas, não há luz, não há alegria. É tudo sempre muito angustiante, e a trilha sonora colabora também.

Existe, claro, a questão da exploração das mulheres, que foi exaustivamente debatida desde o lançamento da série. É um tema central e extremamente relevante, mas justamente por ter sido muito discutido não pretendo escrever muito sob esse prisma. Não por não o achar relevante, mas justamente por ser o principal ponto de discussão, gostaria de levantar outros que me chamaram a atenção.

A premissa inicial da série é que um grupo fundamentalista cristão autodenominado “Os filhos de Jacó” inicia uma série de atentados nos Estados Unidos e provavelmente conseguem culpar alguma minoria (acho que muçulmanos, não ficou muito claro até agora) e por conta disso justificam a instauração de um estado de sítio com uma escalada gradual da retirada de direitos, em especial das mulheres, até que os EUA mudam até de nome, passam a ser chamados “Gilead” e se tornam uma ditadura teocrata. Ou seja, um governo ditatorial cujos poderes são justificados pela religião. No caso, a cristã. Perseguindo e matando quem não se encaixa ou não concorda com eles, seja por religião, orientação sexual ou comportamento. Isso gera situações que existem em alguns lugares do mundo, hoje, como exilados que formam grupos de refugiados em países vizinhos (no caso, o Canadá). Existem muitos países hoje, em 2020, que recebem refugiados fugindo de regimes ditatoriais, perseguição étnica ou religiosa. Mas já pensou o “tapa na cara” da civilização ocidental ao se dizer que isso poderia acontecer nos EUA? Em tempos de intolerância crescente em que vivemos atualmente, vêm novamente à cabeça a angústia do tipo da série “Black Mirror“: o futuro tão ruim como está sendo descrito está longe de ser real? Talvez não muito.

Como os países reagiriam a isso? Na série, há citações a campanhas ao redor do mundo, sanções econômicas, e dá a entender que ainda existe uma guerra civil em curso, devidamente abafada para se passar internamente uma sensação de paz e tranquilidade para a comunidade de Gilead. No mundo real, há vários países que sofrem sanções, por diferentes motivos. Mas a hipocrisia faz com que os interesses econômicos se sobreponham a quaisquer outros. Existem ditaduras que sofrem com sanções e isolamento, e outras tão “ruins” quanto, mas que não sofrem nada. Se o país em questão tiver um peso econômico grande e/ou um grande poderio militar, ele pode fazer virtualmente qualquer coisa que não sofrerá nada. Fato.

Enfim, é importante que se reflita a respeito do potencial desastroso de darmos poderes a pessoas e grupos que de alguma forma incentivem ou sejam minimamente permissivos com intolerância ou discursos de ódio, de qualquer tipo. Faz-se necessário, mais do que nunca, tomar cuidado com discursos moralistas que pregam maldisfarçadamente intolerância e incitam a violência. Impossível não se lembrar do episódio onde uma menina de 10 anos que era estuprada pelo tio desde os 5 anos, teve seu direito ao aborto garantido pela Justiça, teve que ir para outro estado para poder fazer o procedimento e no próprio hospital foi hostilizada e xingada por grupos evangélicos. Uma vítima de violência, buscando o apoio do Estado para ter seu direito garantido, e ainda sofre essa violência. Estamos doentes como sociedade, a partir do momento que algo assim torna-se corriqueiro ou minimamente aceitável. Onde está o “fazer o bem” pregado pela religião, nessa situação?

Precisamos nos preocupar com perda de direitos, mesmo que não nos afete, pois o pensamento deve ser coletivo, não individualista. Espero sinceramente que possamos fazer isso… Termino citando Bertold Bretch, e esperando que tempos melhores nos aguardem mais à frente…

Primeiro levaram os negros

Bertolt Brecht (1898-1956)

Primeiro levaram os negros

Mas não me importei com isso

Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários

Mas não me importei com isso

Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis

Mas não me importei com isso

Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados

Mas como tenho meu emprego

Também não me importei

Agora estão me levando

Mas já é tarde.

Como eu não me importei com ninguém

Ninguém se importa comigo.





Monte Roraima (parte 3 – final)

1 11 2020
Todas as botas reunidas, no alto do Maverick – ponto mais alto do Monte Roraima

Esse post é continuação da série: “Monte Roraima” – parte 1 e parte 2.

No segundo dia que passamos caminhando lá em cima do monte, visitamos alguns dos lugares mais impressionantes, com vistas inesquecíveis, certamente um dos pontos mais bonitos em que estive na vida. Existem vários pontos diferentes a serem visitados no Roraima, mas como só tínhamos 3 dias, tivemos que escolher: fomos ao mirante chamado “La Ventana” (“A janela” em espanhol), ao conjunto de piscinas naturais chamadas de “Jacuzzi”, onde rolou o banho do dia (esse foi dos melhores), e nos despedimos subindo no topo do “Maverick”, ponto mais alto do Monte Roraima, que ficava de frente ao nosso acampamento.

La Ventana é um dos pontos mais visitados, que pode proporcionar as melhores vistas e fotos, de um verdadeiro abismo incessantemente sendo coberto e descoberto pela neblina. Lá tirei algumas das melhores fotos, do abismo e do Kukenán, monte vizinho ao Roraima:

Em “La Ventana”, Kukenán ao fundo
Dá pra ver as nuvens, mas não o chão lá embaixo…
O Kukenán
O abismo é impressionante
Eu até que fiz um esforço para tentar ver o final do abismo
A sensação de estar entre as nuvens é sem igual
Não conheço a moça, era de outro grupo, mas foi uma das fotos mais bonitas que eu tirei, e ilustra a nossa pequenez diante do espetáculo da Natureza
As “jacuzzi” foram formadas pela ação do tempo ao longo dos anos
Melhor banho da viagem

Subindo para o Maverick, já no final da tarde, o tom era de despedida, pois iríamos na manhã seguinte iniciar o caminho de volta. Mas nem por isso deixou de ser divertido e com belas imagens lá de cima, a começar pelço nosso próprio acampamento:

Nosso acampamento, as barracas laranjas
Dá pra ver o local privilegiado e isolado em que acampamos

Chegando lá em cima, estava chovendo e com neblina pesada. Ficamos lá esperando melhorar, e fomos recompensados, com direito a árco-íris inclusive.

Vista do alto do Maverick
Sensação de missão cumprida, e gostinho de quero mais
Antes de ir embora, um totem de pedra como sinal de respeito e agradecimento

No dia seguinte, levantamos acampamento e descemos a montanha, mais uma vez sob chuva (que ficou indo e vindo todos os dias em que estávamos lá em cima, não podia ser diferente na descida), e fizemos uma caminhada longa, pois iríamos acampar na margem do Kukenan, o local do primeiro acampamento da caminhada da vinda (o último lugar com cerveja, lembra?). Nesse dia a caminhada ficou mais chata e com menos fotos por conta da chuva, e teve o que foi o momento mais tenso de toda a viagem: o Rio Kukenan, que atravessamos tranquilamente na ida, estava muito cheio, sem termos como passar. Ficamos junto com vários grupos até a água baixar e termos condição de passar com o auxílio de cordas. Ficamos bastante tempo, e acabamos iniciando a travessia com o rio ainda alto, mas para evitar passar a noite daquele lado do rio, onde não havia muito espaço para acampar todos os grupos.

Mesmo nos momentos tensos, o negócio é dar risada… certo?
Pra completar, uma cascavel no meio da trilha, após passarmos o rio

Aqui vale um comentário sobre o grupo de guias que estava conosco: eles permaneceram dando ajuda a todos os outros grupos, só saímos do rio quando todos haviam passado. Já outros guias acabaram deixando alguns pra trás e já se adiantaram para montar o acampamento, que ficava a uns 200, 300 metros dali. A noite já estava começando, ficando escuro, e inclusive ajudamos alguns “perdidos” de outros grupos que ficaram pra trás. Acabamos ficando com os “piores” locais para armar as barracas, justamente porque nossos guias ficaram por último. Prefiro um grupo de guias que preze pela segurança em primeiro lugar, sempre.

Depois da tensão da travessia, hora de celebrar a nossa última noite de acampamento. Dessa vez não pedi uma cerveja só não, já pedimos 2 caixas e dividimos com o grupo de guias na comemoração, com cerveja quente mesmo:

Turma na última noite, já acampando no caminho de volta
Último amanhecer na trilha, desmontando acampamento
A mochila, companheira da caminhada toda, com o Kukenán ao fundo

O último dia de caminhada teve (mais uma vez!) chuva, muita chuva. Os caminhos pelos quais viemos estavam bem diferentes, alguns até viraram pequenos cursos d’água ou corredeiras. Vários tombos, caminhando com cuidado, devagar… ao final o tempo abriu e me permitiu tirar uma bela foto do final da trilha:

“Cuide hoje, para que possa voltar amanhã”, diz a placa no final da trilha

E assim foi… um lugar mágico, com paisagens únicas, diferentes de quaisquer outras em qualquer outro lugar do mundo. Lugar quase mágico, que me deixou com uma sensação de querer voltar um dia. A caminhada pesada, o esforço que fez parte de toda essa experiência, tudo isso soma ainda uma sensação de superação, de ter cumprido uma jornada grande, que precisou contar com nossos próprios esforços físicos.

E se alguém se empolgou e quer montar uma expedição pra lá, pode me chamar, quem sabe já não é hora de conseguir voltar pra lá? Já se vão quase 10 anos…