Peru e Trilha Inca (parte 1)

4 04 2021

Essa é realmente uma das viagens mais emblemáticas para qualquer mochileiro, ao menos para aqueles que viveram o século XX, eu acho… Para mim foi uma das primeiras viagens com caminhadas nas montanhas, acampamento, etc… acabei resgatando um texto que escrevi a respeito, em 2006, acho que é a melhor referência que tenho dessa viagem…

Existiam, na época, duas maneiras de chegar a Machu Picchu, a primeira seria indo de trem até a cidade de Águas Calientes, e de lá subir (caminhando ou de ônibus) até o parque arqueológico de Machu Picchu, e a segunda seria fazer a trilha de quatro dias pela chamada Trilha Inca “Clássica”, e de lá descer até Machu Picchu. É interessante notar a entrada por cima ou por baixo, porque quem vem por baixo tem a impressão de que a cidade fica no alto. Na verdade, para os padrões da região, os cerca de 2500 metros de altitude é bem baixo… A nossa escolha foi fazer a trilha completa, e a entrada na cidade pela chamada Porta do Sol, através da qual você passa e a cidade se descortina à sua frente, lá embaixo, com essa vista:

Foto clássica na chegada “por cima” a Machu Picchu

“Machu Picchu es un viaje a la serenidad del alma, a la eterna fusión con el cosmos, allí sentimos nuestra fragilidad. Es una de las maravillas más grandes de Sudamérica. Un reposar de mariposas en el epicentro del gran círculo de la vida. Otro milagro más. “

Pablo Neruda

(segue texto escrito por mim em 2006)

De uma maneira geral, foi um grande exercício de superação pessoal, daqueles para mostrar para nós mesmos que somos capazes de fazer. A caminhada de mais de 40 km durante quatro dias no meio do mato, andando e acampando em altitudes entre 2500 e 4200 metros não é uma tarefa que possa ser classificada como trivial (ainda que com carregadores ajudando) para pessoas normais, que não sejam exatamente o que possa ser chamado de “atleta”. E consegui passar por ela. Uma vitória, que já teria por si só valido a viagem. Mas, além disso, houve a experiência de poder sentir um pouco do que foi a civilização Inca. Sobre o guia ao longo desses dias, o Jim, eu acredito que possa ser considerado um patrimônio da trilha, pelo conhecimento e vivência do lugar. Formado em História, conseguiu nos mostrar coisas que transcendem os livros, além das sensações de estar nos lugares, sentir o ambiente e as coisas que fizeram parte da vida desse povo. E foi muito legal tomar conhecimento do quão avançados eram, e a forma brutal como foram “colonizados” cultural e religiosamente pelos europeus católicos. Quando os Incas conquistavam outros povos na América do Sul – e não foram poucos -, eles respeitavam a cultura e religião daquele povo, absorviam o que havia de interessante, útil e passavam a sua cultura e tecnologia para o povo conquistado, a partir de então sob o controle do Império Inca. Um tipo de conquista inteligente. Diferente da colonização católica, que simplesmente não poderia admitir que os povos ditos “selvagens” pudessem ter algo a lhes oferecer em algum campo do conhecimento. E com isso certamente deixaram de aprender muitas coisas valiosas, uma vez que so estavam preocupados em conseguir mão-de-obra, terras e almas pagãs para serem – por vezes forçadamente – convertidas ao catolicismo. As construções incas eram mais resistentes a terremotos do que as dos espanhóis, só para dar um exemplo simples dentre tantos outros.

E o fato de fazer a caminhada toda, o que é feito por uma parcela pequena dos turistas que vão a Machu Picchu, é entrar em contato com um ambiente diferente, uma energia que transcende aquelas matas, aqueles morros e que chega ao seu ápice ao adentrar na cidade perdida através do portal do Sol. Alguns dizem que as pessoas que trilham aquele caminho passam por transformações. Não sei se voltei transformado, mas que algo diferente acontece ali, a mim pareceu inegável… Viver a Trilha Inca, o caminho mais comprido entre Ollantaytambo e Machu Picchu, é perseguir um pouco desta História, é trilhar o mesmo caminho que trilhavam os peregrinos prestes a serem iniciados na religião Inca como sacerdotes. E ver em cada uma daquelas ruínas a beleza e o respeito a natureza que os cercava, através da qual eles entravam em contato com Deus. E não importa o nome, rosto ou rostos que davam a esse Deus, mas era o Deus que estava nas pedras, que estava no Sol, na natureza que lhes era dada como dádiva, mas também sobre a qual tinham responsabilidades, e exploravam com muito cuidado e com uma consciência infinitas vezes maior do que a dos conquistadores, auto-intitulados mensageiros da verdade para propagá-la às almas dos pobres selvagens, para que estes fossem salvos. Talvez os povos da América Latina estivessem melhores hoje se alguma coisa tivesse sido diferente por ali…

Até então, essa viagem a Machu Picchu era uma das mais sonhadas e desejadas da minha lista. Muito planejada e esperada, foi uma viagem fantástica, que realmente excedeu todas as expectativas, muito legal mesmo. Contratamos um pacote completo de viagem com a Pisa Trekking. Optamos pelo passeio mais completo, com dois dias em Puno, conhecendo o Lago Titicaca, dois dias em Cuzco, e a trilha completa de 4 dias até Machu Picchu. A estada em Puno (3800 metros de altitude, bem mais alta do que Cuzco e Machu Picchu) nos ajudou a aclimatar, acostumar o corpo com a altitude para minimizar os efeitos dela altitude quando fôssemos fazer a trilha.

1o dia de viagem: São Paulo – Lima – Juliaca – Puno

No nosso primeiro dia, praticamente só viagem: saímos de São Paulo de madrugada, chegamos em Lima e ficamos no aeroporto aguardando o embarque para Juliaca. Chegando em Juliaca, fomos levados de van para Puno, no hotel Sillustani. No caminho, tivemos nossa primeira impressão do Peru: Juliaca é uma cidade que nos chamou a atenção Vista de Puno a partir do mirante do Condorpor ser muito povoada e muito confusa, em matéria de trânsito, muitas pessoas na rua, ruas lotadas de camelôs, bicicletas e pedestres disputando espaço nas ruas com os carros, uma verdadeira bagunça. Depois de chegarmos ao hotel em Puno, saímos à noite para conhecermos a cidade, que fica na beira do Lago Titicaca. Puno é uma cidade bem pequena, que ainda engatinha na exploração do turismo. Alguns bons restaurantes, alguns museus, um belo mirante (Mirante do Condor), que dá uma visão do Lago (parcial, porque o lago é enorme). Tem uma escadaria enorme para chegar lá em cima (mais de 4000 metros de altitude), mas vale a pena.

Vista da cidade de Puno e o Lago Titicaca ao anoitecer, a partir do Mirante do Condor

2o dia: Lago Titicaca

No dia seguinte em Puno, fomos fazer nosso passeio de barco no Lago Titicaca, os barcos que levavam os turistas eram como um ônibus de excursão: muitos turistas, guia com microfone explicando as coisas, serviço de bordo e tudo o mais. No passeio conhecemos as ilhas flutuantes de Uros, que são ilhas feitas com totora (uma espécie de junco que cresce no lago). Os habitantes de lá constroem casas e barcos também feitos de totora, e ficam oferecendo seus artesanatos aos turistas. Conhecemos as casas e andamos em um dos barcos deles. Depois partimos para uma ilha mais afastada, a ilha de Taquile, onde vive uma comunidade socialista ainda hoje, com decisões sendo tomadas pela comunidade e que vivem praticamente da venda de artesanatos também. Almoçamos em Taquile, em um ponto alto da ilha com uma bela vista do lago(que parece um mar, pois não se consegue enxergar o horizonte). No começo da noite, fomos ao já citado Mirante do Condor.

Barco com turistas no Lago Titicaca
Chegada nas ilhas flutuantes
Peruana bordando na ilha
Casas feitas de totora
Barco de totora

3o dia: Sillustani, caminho para Cuzco

No nosso terceiro dia no Peru, acordamos bem cedo para irmos a Sillustani, um cemitério Inca que fica perto de Puno, no caminho para Cuzco. Lá existem chulpas, que são construções onde eram guardados os mortos. As chulpas são construções cilíndricas, com uns 6, 8 metros de altura, e com uma entrada de mais ou menos 80 cm de altura, sempre virada para o nascer do Sol. E a porta ficava aberta, para que os familiares e amigos pudessem visitar seus mortos… as múmias eram colocadas em posição fetal na parte de dentro da chulpa, nas paredes. Uma coisa muito interessante que notamos lá é que além das chulpas Incas, haviam também em Sillustani chulpas de uma outra civilização que viveu ali antes de ser conquistada pelos Incas. As construções eram mais toscas, sem acabamento ou trabalho fino nas rochas como as dos Incas. Mas o interessante disso é mostrar que quando os Incas conquistavam um povo, não faziam uma conquista predatória, mas sim respeitavam a cultura do povo conquistado, absorvendo para a sua própria o que fosse interessante, e passando sua cultura e tecnologia para os povos conquistados. Uma forma bem mais inteligente de se colonizar um povo do que os católicos europeus fizeram, sem admitir que poderiam aprender algo com os “selvagens” que encontraram na América.

Chulpa Inca em Sillustani
Chulpa pré-inca em Sillustani
Lhama posando para foto em Sillustani
Mais uma chulpa Inca, dá pra ver a perfeição no encaixe e tratamento das pedras
Chulpa Inca


Em seguida, pegamos um ônibus turístico Inka Express, que faz a viagem Puno-Cuzco na chamada rota do Sol, com paradas em alguns pontos turísticos. Paramos em Pukara, onde visitamos um museu, depois em La Raya, a 4350 metros de altitude, onde pudemos ver de perto e fotografar os picos nevados. Passamos ainda pelo belíssimo sitio arqueológico de Raqchi, e pela vila de Andahuaylillas, antes de chegar em Cuzco, a antiga capital do Império Inca. Cuzco é uma cidade muito bonita, arquitetura e relevo lembram em muito Ouro Preto (muitas igrejas antigas e muitas ladeiras), uma cidade turística, com muitas opções e estrutura para os viajantes. Ficamos no Hotel Sueños del Inca, muito bom e não é dos mais caros. Dentre as opções de Cuzco, há um bilhete com um preço único (na época, aproximadamente 50 reais) que lhe dá direito a entrar uma vez em cada um dos museus e sítios arqueológicos ao redor da cidade. No nosso caso, estava incluído no pacote. Dos restaurantes, gostamos muito do Chez Maggi, do Pacha Papa (em San Blás) e do bar cubano La Bodeguita, todos bem próximos à Plaza de Armas.

Picos nevados no caminho para Cuzco
Muitas opções de coisas para comprar, aos pés dos picos nevados
Sítio arqueológico em Raqchi
Raqchi
Foto 100% turista em Raqchi

4o dia: Sítios Arqueológicos em Cuzco

Nesse dia conhecemos o nosso guia para a Trilha Inca: Jim, um peruano formado em História que trabalhava com a Pisa já há mais de dez anos, e fala muito bem o português. Ele foi nosso guia a partir deste dia até deixarmos Machu Picchu, e foi uma das melhores coisas da viagem: muito prestativo, inteligente e conhecedor profundo da História dos Incas e da Trilha em particular.
Entre os sítios arqueológicos que visitamos, vale destacar Sacsayhuaman, ruínas de um lugar onde os Incas se refugiaram para lutar contra os espanhóis que estavam em Cuzco. Construção gigantesca e belíssima, de onde se tem também uma bonita vista da cidade de Cuzco. Visitamos também um antigo cemitério Inca e depois voltamos a cidade, onde conhecemos o Coricancha, um templo Inca em cima do qual foi erguida uma igreja católica. O templo é belíssimo, com as estruturas do prédio original muito bem conservadas, onde pode se notar algumas características da arquitetura dos Incas, como as paredes inclinadas (fortalecem a sustentação), portas duplas presentes principalmente nos lugares considerados sagrados, portas e janelas trapezoidais, entre outras coisas. Depois fomos sozinhos ao Museu Inca, que fica também próximo à Plaza de Armas.

Cuzco e sua arquitetura colonial
Plaza de Armas, em Cuzco
Rua em Cuzco
Ruínas em Sacsayhuaman
Dá pra se ter uma noção do tamanho das pedras
Sacsayhuaman
Sacsayhuaman
Coricancha, em Cuzco. A Igreja católica foi erguida sobre a estrutura do tempo Inca, que conseguia resistir a terremotos
Coricancha à noite, uma das minhas fotos preferidas que tirei, até hoje
Porta dupla (muito comum na arquitetura Inca) no Coricancha
Janelas perfeitamente alinhadas no Coricancha
Paredes trapezoidais no Coricancha

Como já ficou muito grande até agora, o relato continua na semana que vem…


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