Antes do … (filme – trilogia)

6 12 2020
Dois jovens durante uma noite em Viena (foto daqui)

A estória de um filme que era para ser um só, virou dois, e acabou sendo três… Antes do Amanhecer (Before Sunset, 1995), Antes do Pôr-do-Sol (Before Sunset, 2004) e Antes da Meia-Noite (Before Midnight, 2013)

O primeiro filme não foi um grande sucesso de bilheteria, mas conquistou ao longo dos anos fãs apaixonados, o que acabou por gerar uma sequência, 9 anos depois, que não havia sido programada. A sequência na verdade foi sendo conversada e construída ao longo dos anos por conversas entre o diretor e os dois atores protagonistas.

Na verdade, se não me falha a memória o primeiro filme que assisti foi o Antes do Pôr-do-Sol, depois fui assistir ao primeiro. Vou começar falando do primeiro, Antes do Amanhecer. Foi um filme que me marcou bastante, pela simplicidade, pela naturalidade com que as coisas vão ocorrendo entre os dois personagens, Céline, uma garota francesa de Paris vivida por Julie Delpie, e Jesse, um rapaz estadunidense vivido por Ethan Hawke. Eles se encontram em um trem na Europa, em algum ano no início da década de 1990, começam a conversar, rola uma empatia, uma conexão entre eles, e Jesse acaba convencendo a moça que desça com ele em Viena (Áustria), porque seria a última noite dele na Europa antes de voltar aos Estados Unidos, e ele adoraria a companhia dela. Ela reluta um pouco mas aceita. O filme todo se desenrola com eles passeando pela cidade, conversando sobre praticamente tudo. O futuro, o Universo não tinha limites para seus sonhos, devaneios, seus ainda poucos anos de vida e para a infinidade de perspectivas que se abriam diante de seus olhos.

O filme vai passando, a estória se desenrolando, e (ao menos para mim foi assim) não se percebe o tempo passar. A forma como é fácil se identificar com os personagens lhe coloca muito dentro da estória. Quem nunca pensou em “saltar em outra parada” ao longo da vida? Tomar um rumo diferente, premiar seus desejos impulsivos, ainda que por pouco tempo, ainda que por uma vez ou outra? Uma inconsequência rápida, tola, como geralmente elas são. Mesmo que depois você possa retornar ao seu trem, ao seu destino anteriormente planejado. O filme todo envereda pela poesia, pelos sonhos de nossas próprias juventudes, por tudo que poderia ter sido mas não foi.

Durante toda a noite que passam juntos perambulando pelas ruas de Viena, eles acabam se envolvendo intensamente, e até que chega o inexorável nascer do Sol que dá nome ao filme, Before Sunrise, “Antes do nascer do Sol” em tradução literal. O nascer do Sol, o amanhecer que traria a realidade de volta, levaria cada um ao seu caminho e a vida que seguiria.

Se você ficou com vontade de ver o filme e quer evitar spoilers, sugiro que pare por aqui, e (por favor!) volte para ler o resto depois que assistido ao filme. Ele está disponível no YouTube para alugar, aqui. Não sei se está disponível em outras plataformas.

Passado o alerta de spoiler, voltemos ao filme…

No final, eles haviam combinado de realmente não se encontrarem novamente, e deixar para cada um a lembrança daqueles momentos juntos. Sem trocar telefones, endereços, nada (lembre-se, década de 1990, sem facilidades de smartphones e Internet). Jesse acompanhou Céline até a estação onde ela tomaria o trem, e Jesse em seguida iria pegar seu avião de volta pra casa. No último instante, num último impulso, eles marcam um encontro para ocorrer naquela estação, naquele mesmo local, dali a 6 meses. Sem contato, sem conversas até lá. Naquele momento rápido eles entenderam o quanto queriam se ver de novo, e o quanto receavam que o outro não quisesse. E o filme acaba exatamente assim, com eles se despedindo, com cenas vazias e silenciosas dos locais por onde eles haviam passado ao longo das últimas horas, e deixa para cada um imaginar o que teria sido esse reencontro, o que teria sido da vida desses dois jovens…

Nove anos depois, em 2004…
Cena de “Antes do Pôr-do-Sol”, de 2004. Foto daqui.

Como eu disse anteriormente, não era um filme com grande orçamento, não era um filme para ter uma continuação, era uma estória que, embora ficasse em aberto, terminava ali. Ao longo dos anos, o roteirista e diretor Richard Linklater e os dois atores principais seguiram conversando sobre possibilidades para a continuação do filme. Em 2004, eles decidiram que era tempo de continuarem contando a estória dos jovens, o que teria acontecido, e para delírio dos fãs, filmaram “Antes do Pôr-do-Sol”, também disponível para alugar no Youtube, aqui. A partir daqui, vou contar coisas dos filmes e não vou mais dar alertas de spoilers, se quiser volte para ler depois de assistir aos 3 filmes… recomendo muito.

Esse segundo filme começa com Jesse, em Paris, fazendo o lançamento do seu livro, que conta justamente a estória vivida por ele e Céline, nove anos antes. Ele não diz explicitamente que teria vivido pessoalmente a tal experiência, deixa “no ar”… Enquanto ele está dando uma entrevista em uma pequena livraria, Céline aparece por lá. Fica óbvio que eles não tinham se visto desde a despedida em Viena, 9 anos antes. Jesse tem um avião para pegar dali a menos de duas horas. Então novamente eles têm muito pouco tempo juntos, e saem novamente caminhando pela cidade, mas dessa vez, temos Paris como pano de fundo. O filme se passa durante essa hora e meia de caminhada e conversas. Ficamos sabendo dos fatos que levaram ao reencontro marcado não ter ocorrido, eles conversam sobre como haviam vivido suas vidas desde então. Jesse tem uma família, mulher e filho nos Estados Unidos, Céline está sozinha. A conversa vai migrando de algo corriqueiro, desimportante, para à volta ao sentimentos da juventude… ao final do filme, Jesse vai postergando sua ida ao aeroporto, atrasando, correndo o risco de perder o avião, e pela segunda vez o roteirista do filme nos deixa com um final em aberto: ele teria realmente perdido o avião? Ele ficou com ela em Paris? O que teria acontecido?

Esse segundo filme é um passeio pela experiência de reviver o passado, repensar escolhas, divagar e imaginar o que poderia ter sido e não foi, o que nossas escolhas ao longo da vida nos custam… Mais uma vez, eu acho que é uma narrativa com a qual as pessoas conseguem se identificar facilmente, como no primeiro filme. Quem nunca se pegou pensando em como teria sido sua própria vida se determinadas escolhas tivessem sido diferentes? Quem nunca comparou a realidade crua com a utopia de uma vida diferente, que poderia ter sido iniciada em uma determinada encruzilhada?

Outros nove anos se passaram, e em 2013…
Casal maduro, em Antes da Meia-Noite (2013). Foto daqui.

Outros nove anos se passaram, e voltamos a nos encontrar com Céline e Jesse, em . Eles ficaram juntos após o segundo filme, vivem em Paris com duas filhas que tiveram. Eles vão passar férias na Grécia, e o filme mostra como foi a vida que construíram juntos… Um excelente fechamento para a estória de amor, na minha opinião. Mostra como a vida real é, em contraposição com a utopia dos sonhos, do que “poderia ter sido e não foi”. Sonhos frustrados, amadurecimento, resiliência… as coisas boas e ruins que vêm com o tempo, em qualquer relacionamento. Mais uma vez nos leva a pensar sobre escolhas, sobre a vida, sobre o amor.

Ali vemos que a comparação da utopia de uma vida “que não foi” com a vida possível, como ela é de fato, é uma comparação injusta. O que poderia ter sido pertence ao mundo dos sonhos, pode ser perfeito. A realidade não. Uma vez um colega de trabalho veio me pedir um conselho, ele estava morando em uma cidade e a noiva em outra. Ele conheceu outra moça e começou um relacionamento, estava indeciso sobre qual escolha deveria fazer. Pensei um pouco e fui enfático: “Qualquer escolha que você faça vai ser cheia de coisas boas, mas inevitavelmente em algum momento você vai se arrepender, olhar pra trás e pensar que deveria ter escolhido diferente. Porque quando os problemas da vida real aparecerem, a comparação vai ser com a vida perfeita que potencialmente teria havido em função daquela escolha…”. Acho que isso é humano, e pensar, refletir, permitir-se viver, tudo isso faz parte… Não é por que um relacionamento eventualmente acaba que ele “deu errado”. Deu “certo” pelo tempo que foi bom, pelo tempo que pode ser, nem mais nem menos. No geral há muitas coisas boas, mas dessas as pessoas acabam se esquecendo quando as coisas terminam…

E na vida real…

Uma curiosidade adicional sobre os filmes: O primeiro filme foi escrito por Richard Liklater baseado em uma estória pessoal, com uma moça, Amy, que ele conheceu por acaso em 1989 e acabaram passando a madrugada juntos. Ele inclusive chegou a comentar com ela que poderia escrever um filme a respeito daquela noite. Eles mantiveram contato por um tempo, mas depois a relação foi esfriando e eles perderam contato. O diretor conta que por algum tempo fantasiou que ela poderia aparecer em alguma estreia de “Antes do Amanhecer” (da mesma maneira que Céline aparece no lançamento do livro de Jesse), mas isso não ocorreu. Ele só tornou pública essa estória no lançamento do terceiro filme(2013), quando contou que em 2010 ficou sabendo que Amy havia falecido em decorrência de um acidente, semanas antes do lançamento de “Antes do amanhecer”. O terceiro filme é dedicado à ela nos créditos finais.

Essa foi uma estória que me marcou bastante, e foi para a lista dos filmes da vida, pela estória, pela delicadeza, pelos diálogos, pelas cidades mostradas nos filmes… enfim, filmes para serem revistos algumas vezes ao longo da vida.

Espero que tenha gostado, caso tenha tido a paciência de ler até aqui… até uma próxima!





Moscou, Rússia

29 11 2020

Essa foi uma passagem de 2 dias praticamente obrigatória após eu ficar quase uma semana em São Petersburgo, semana da qual falei em outro post.

À beira do rio Mockba (Lê-se “moskva”, significa Moscou). com o Kremilin ao fundo

A primeira grande surpresa foi ainda em São Petersburgo, quando fui tomar o trem, no qual iria passar a noite e acordar em Moscou. Os meus anfitriões foram gentilmente me acompanhar até a estação. Chegando lá, o nome que estava na porta da estação era um, e o nome que constava na minha passagem, comprada pela Internet com bastante antecedência, era outro. Mesmo em cirílico, eu conseguia ver que eram nomes bem diferentes. Disse à Katia, minha anfitriã, que estávamos no lugar errado. Ela olhou minha passagem e foi categórica: “Não, está certo. Aquele nome ali na parede é o nome histórico, antigo dela. O novo nome é esse que está na sua passagem.”. O nome “novo” não constava em nenhum lugar na estação, e então eu perguntei como eu saberia se ela não tivesse me dito. Ela pensou um pouco e disse “Você não saberia!”. Na mesma hora me lembrei de um colega que havia estado em Moscou e me disse que ficou 3 horas numa estação tentando descobrir qual era o trem dele. Naquele momento deixei de achar um exagero e o entendi…

Bom, sabendo que estava no lugar certo, fui acompanhado pela Katia e pelo Romain até a plataforma e embarquei no trem para minha viagem overnight.

Trem que me levou de São Petersburgo a Moscou

Minha passagem era para um assento/cama, num espaço com 3 outras pessoas, 3 russos que não falavam inglês. A conversa não fluiu, obviamente. Só consegui dizer que eu era brasileiro, e olhe lá, nem fiquei tão certo de que isso foi entendido 100%…

Eram apenas dois dias em Moscou, que – eu já sabia – não é uma cidade muito amigável para turistas sozinhos que não falam russo. Aluguei um AirBnB em um edifício histórico, monumento cultural, o Edifício da Praça Kudrinskaya, um dos arranha-céus chamados de Seven Sisters (“Sete Irmãs”), construídos na época stalinista. O anfitrião, Daniel, espanhol, mas nascido na Colômbia, trabalhava na Zara em Moscou. Cheguei logo cedo, ele havia dito que não estaria em casa, mas a namorada dele (que ele me havia dito que não falava muito bem inglês) estaria lá para me receber. Desci na estação de trem, peguei o metrô e fui para a estação Barrikadnaya, próxima ao prédio.

Minha casa em Moscou

Chegando lá, fui tocar o interfone, ninguém atendia. Após insistir algumas vezes, uma senhora de dentro do prédio, com uniforme, veio falar comigo. Em russo. “Ya ne govoryu po russki” (eu não falo russo), disse pra ela, e falei o nome do Daniel. “Your name?”, ela me perguntou em inglês carregado de sotaque. “Cristiano”, respondi. Fez sinal que a seguisse para dentro do prédio e me deu a chave. A “namorada” havia sido expulsa pelo Daniel naquela manhã, então não havia quem me recebesse… tenso.

Chegando no apartamento, conectei no wi-fi e liguei (Skype) para o Daniel. Ele perguntou se estava tudo bem, e só voltaria pra casa à noite. Ok, saí pra explorar a cidade, já que só teria dois dias para isso. As coisas mais emblemáticas e bonitas para se ver lá são a Praça Vermelha e o Kremlin, sede do governo, além da Catedral de São Basílio, ali do lado. As estações de metrô são um espetáculo à parte, verdadeiras obras de arte por todos os lados. Caminhei ao longo do Rio Mockba(“moskva”), tirei uma foto com o Parque Gorki ao fundo (quem ouvia rock no início dos anos 90 deve perceber a referência…) , fui ao Museu Pushkin, também imperdível.

Na Praça Vermelha, em frente ao Kremlin
Catedral de São Basílio, na Praça Vermelha
Chama eterna, logo antes da troca da guarda
Ritual da troca da guarda

Uma frustração foi não ter podido visitar o mausoléu de Lênin, que fica na Praça Vermelha. Os dias que eu estava lá eram dias de comemoração do “Dia da Rússia”, então havia várias coisas fechadas em função das comemorações, desfiles e etc. A data que cheguei era tarde para assistir ao desfile mas muito cedo para o mausoléu já ter reaberto… Paciência, tenho que voltar lá qualquer dia.

Catedral Cristo Salvador (ortodoxa), próxima ao Kremlin
Estação de metrô
Pintura comemorativa de 30 anos da Revolução, em estação do metrô
Estação de metrô
Mosaico em estação de metrô, em comemoração à vitória na 2a Guerra Mundial
Mosaico simbolizando o povo, em estação de metrô
Cópia do David de Michelângelo, no museu Pushkin

Ao voltar pra casa após meus primeiros passeios, ainda não havia ninguém no apartamento. Daniel chegou depois, com um amigo turco. Disse que eles iam sair para um bar, perguntaram se eu gostaria de ir. Eu já sabia de ouvir falar, que pubs em Moscou eram bem chatos em relação à vestimenta dos clientes. Estava de jeans e com minha bota de caminhada, perguntei se havia algum problema e ele disse que não. Disse que não iriam voltar tarde, pois trabalhariam na manhã seguinte. Aceitei. Fomos de taxi, ficamos dando várias voltas, descemos e seguimos andando. Senti que o turco também não estava muito à vontade. Ao entrarmos numa travessa, o Daniel entrou numa porta que parecia ser um estabelecimento de orientais, com gôndolas com produtos, parecendo um daqueles pequenos mercados coreanos no Bom Retiro em São Paulo. Entramos atrás dele, era apenas um corredor. Ao final do corredor, um segurança revistava quem passava, e encaminhava para uma escada em caracol para o que parecia um porão. Devo confessar que fiquei meio tenso. Mas após descer a escada, havia lá em baixo um bar muito legal, Mendeleev, recomendo! Ficamos lá por um bom tempo, ambiente legal, decoração lembrava algo de medieval, música ambiente. Depois saímos andando, passamos por um mercado 24hs, e fomos para outro bar, esse mais tipo balada eletrônica. Ao entrarmos nesse, Daniel passou primeiro, e quando eu fui entrar o segurança me barrou com a mão espalmada no meu peito. “Niet!”(não!), disse ele. Daniel voltou e conversou, dizendo (acho) que eu estava com ele. Nessa hora o segurança saiu da frente e veio um senhor baixinho (metade da altura do segurança), olhou sério na minha cara e disse: “Next time, change your shoes!” (da próxima vez, mude seus sapatos). Senti ali a tal preocupação com o modo de vestir dos clientes. Entramos, ficamos na balada por um tempo (gostei menos dessa, preferia o bar), e depois pegamos um táxi e fomos para casa.

Mercado 24hs

Depois da segunda noite lá, acordei cedo para ir para o aeroporto, pegar o voo com conexão em Amsterdã, e depois Brasil. Precisei da ajuda do Daniel para agendar um táxi na madrugada (ainda não existia Uber na época), já deixou acertado o valor e tudo, porque o taxista – adivinha! – não falava nada de inglês… E assim terminou minha circulada pela Europa no verão de 2013…





Nepal (parte 2)

22 11 2020

E lá estávamos, no início da trilha após o passeio de que falei no post anterior, Nepal (parte 1).

Início da trilha
Animação e disposição para passar pela primeira (de muitas!) ponte na trilha

A trilha começava em torno de 1000 metros de altitude, e tínhamos 4-6 horas de caminhada até nosso primeiro alojamento em Ghorepani, que ficava a 2874m de altitude, com uma vista espetacular das montanhas da região do Annapurna, incluindo o próprio.

Ao longo do caminho, muito verde, corredeiras, rios, pontes suspensas, bastante gente na trilha. Subindo também guias com mantimentos, dentre os quais inclusive galinhas vivas em gaiolas. Uma preocupação que tive a todo momento porque tinham me avisado: ao longo do percurso, vários lugares vendem água em garrafa, supostamente mineral. Foi dito que por vezes eles acabam reaproveitando garrafas com água de torneira ou dos rios. Para evitar dissabores, sempre fazia questão de eu mesmo verificar o lacre, e não aceitamos nenhuma garrafa que viesse com o lacre aberto. A última coisa que precisaríamos seria ter algum desarranjo no meio do caminho, já pensou?

Mais uma das várias pontes
Escada de pedra, mais de 3000 degraus…
Pequenas cachoeiras ao longo do percurso
Não poderia deixar de montar meu totem de pedra, minha pequena
reverência à Natureza
Pequenas vilas ao longo da trilha

A ideia era dormir cedo, acordar às 4h da manhã para fazer uma trilha noturna até o topo Poonhill a 3210m de altitude, e ver o nascer do Sol por entre as montanhas. No alojamento não há muito o que fazer mesmo, tomar banho, comer, e ir dormir. E lá fomos nós, lanternas nas testas e nas mãos, dar boas-vindas ao Sol lá de cima.

Placa ao chegar no topo, antes do Sol nascer
Sol nascendo nas montanhas nepalesas

Lá em cima, uma banquinha vendendo chá e café, e o espetáculo da Natureza, gratuito, ia se descortinando… meu guia tirou uma foto minha sem que eu percebesse, enquanto eu estava tomando chá (limão, gengibre e mel, meu favorito na trilha). Essa foto é uma das minhas preferidas até hoje:

As melhores fotos são aquelas em momentos espontâneos, não?
Vista que compensa ter acordado às 4h
Observando as montanhas
Selfie com montanhas
Vale comemorar, claro!
Não somos os únicos malucos no mundo…
Tirar selfie é a parte fácil… difícil é chegar até ali

Depois disso, descemos a montanha, pudemos tomar o café da manhã para mais um dia de trilha, 6hs de caminhada até Tadapani, já a 2710m de altitude. Depois de Tadapani, mais três dias de caminhada: Tadapani para Ghandruk (1940m), no dia seguinte para Tolka(1790m), para no último dia descermos até Phedi(830m), onde o carro nos pegaria para levar de volta a Pokhara. Caminho de volta com muitas paisagens bonitas, mata fechada, corredeiras de água por todo o caminho. A comida nos alojamentos ao longo do caminho não variava muito, muito arroz, frango, algumas frituras típicas. Uma noite que eu não aguentava mais, pedi batatas cozidas. Elas vieram servidas com casca e tudo…

Batatas para dar uma pausa nas frituras…
Muitas plantações de arroz ao longo do caminho
Por lá também há escolas, e quadra com bela paisagem para se jogar
Essas vilas mudaram muito pouco nos últimos 100 anos
Nosso último alojamento
Com o guia e carregador, que nos acompanharam por todos os dias
Lavanderia das montanhas
Uma alpinista sul-coreano financiou uma escola como reconhecimento pela
ajuda dos sherpas pela subida a 16 montanhas no Himalaia
Finalzinho da trilha
Ponte no final da trilha

Nessa noite jantamos em Pokhara, encontramos até uns pubs e restaurantes legais, num deles inclusive havia uma garrafa de Sagatiba, e conversei com o barman se ele sabia o que era, ele disse que era uma bebida do Brasil que o chefe havia comprado. “Sabe o que fazer com ela?”. Ele disse que não, meio sem graça. Expliquei que basicamente ele podia usar como usa a vodka, mas a mais famosa bebida era com gelo, limão e açúcar.

Jantar em Pokhara
Mais uma cerveja nepalesa

No dia seguinte, pegamos o aviãozinho de volta para Kathmandu. Não havia lugar marcado na volta, então eu fiquei literalmente grudado no finger para ficar bem na frente, praticamente no cangote do piloto. Nosso último passeio em Kathmandu era um voo panorâmico para sobrevoar o Everest (já que não fomos até lá). Fomos cedo para o aeroporto, voos atrasaram porque estava muito fechado. Aí liberaram o primeiro avião (não era o nosso) para o Everest, e este informou que o tempo fechado deixou tudo sem visibilidade. Voltamos meio frustrados, mas tivemos o pagamento pelo voo devolvido. Os que foram no primeiro avião não tiveram essa sorte…

De uma maneira geral, foi uma experiência muito legal de estar tão longe de casa, física, metafórica e culturalmente falando, e estar em lugares tão únicos como aqueles. De lá fomos para o Butão, viagem que conto num próximo post. Espero que tenha gostado, até a próxima!





Nepal (parte 1)

15 11 2020
Chá quente no alto do Ghorepani, olhando para o Annapurna

Em 2014 resolvi que estava na hora finalmente de ir conhecer o Nepal. Depois da viagem para São Petesburgo, era a viagem no topo da lista de desejos. Uma viagem em que conheceria uma cultura bem diferente, distante metafórica e fisicamente do meu mundo cotidiano. Além disso, poderia fazer trilhas na região onde estão algumas das montanhas mais altas do mundo. Sem escalar nada, que não é muito a minha pegada. Peguei as dicas com a Tânia, uma amiga que conheci na viagem ao Monte Roraima, ela tinha ido ao Nepal e ao Butão algum tempo antes. Taí uma das melhores coisas de viajar bastante: conhecer pessoas com astral bom, que troquem experiências e dicas. Procurei um amigo “trilheiro” para dividir essa aventura, e o Carlos, amigo de longa data, topou a loucura.

Nos dias de preparação para a viagem, escrevi o seguinte post no Facebook:

“Preparando as coisas para a viagem, contando as horas… As pessoas têm me perguntado: “Por que Nepal?”. E a resposta tem sido: “E por que não?”… 🙂

O mundo é grande demais para conseguirmos conhecê-lo por inteiro, nossa existência por aqui é comparativamente curta demais. Dessa forma, acho que a experiência de vivenciar situações e culturas que são completamente diferente das nossas, do nosso dia-a-dia, do nosso lugar comum. A tecnologia tem tornado o mundo cada vez menor e menor, mas há algumas coisas que ainda não são transmitidas e faz-se necessário estar lá fisicamente, outros sentidos a serem exercitados, sair um pouco (ou bastante, depende do ponto de vista) da nossa zona de conforto. Ao menos para mim, isso faz parte de estar vivo e é patologicamente indispensável… E o Nepal traz tudo isso, junto com montanhas das mais altas e bonitas do mundo… e lá vamos nós… 🙂

— Setembro de 2014

Nosso último alojamento

Entrei em contato com a Maroon Treks e optamos pelo pacote de trekking Ghorepani-Poonhill, com algumas alterações. O roteiro incluiu 2 dias em Kathmandu (capital do Nepal), seguido de um voo para Pokhara (interior do país, região do Annapurna, famosa montanha), 6 dias de caminhada nas montanhas dormindo em alojamentos, depois voo de volta para Kathmandu. No dia seguinte, um voo panorâmico pelo Everest (a montanha mais alta do mundo), jantar de despedida em Kathmandu, e em seguida pegaríamos um voo para o Butão, mas aí já é uma outra estória…

A viagem de ida tinha que contar com uma conexão, não há voos diretos do Brasil para o Nepal. Acabamos escolhendo a escala em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, pela Etihad, era o voo mais em conta na época. Aí começaram os detalhes: as escalas de ida e volta seriam longas (12 e 8 horas respectivamente), então teríamos que ter um visto para pernoitar nos Emirados, num hotel pago pela companhia aérea. Fomos informados de que até existia um hotel dentro do aeroporto(se ficássemos lá não precisaríamos de visto), mas estava em reformas. Fizemos o procedimento junto à Etihad, que ficou responsável por isso. Chegando perto da data, nada do visto chegar. Dois dias antes do embarque, o meu chegou, mas o do Carlos não. Sem explicação. Então teoricamente eu poderia ir para o hotel e ele deveria ficar no aeroporto. Sem opções, embarcamos.

Depois de 14hs de voo, tendo dormido, zerado os filmes disponíveis que valiam a pena, chegamos em Abu Dhabi. Não podemos dizer que conhecemos a cidade (na verdade, cidade-Estado), só ficamos no aeroporto. Depois de ficar conversando para ver se havia alguma solução para o fato do Carlos estar sem visto, acabaram achando vagas para nós no tal hotel do aeroporto.

Entrada do hotel do aeroporto
Na mesa do quarto, indicação da direção de Meca, para rezar.

No dia seguinte, embarque para o Nepal. Chegando no aeroporto de Kathmandu, a visão completamente diferente de outros aeroportos ao redor do mundo: nenhuma mala de rodinhas, somente mochilas, e das grandes. Estávamos na capital mundial dos mochileiros, com certeza. No caso do Nepal, pagamos pelo visto lá mesmo, no aeroporto, na chegada.

Mochilões para todos os lados…

Nosso contato estava aguardando no desembarque, fomos recepcionados com colares laranjas de boas-vindas e levados direto ao Hotel, para check-in e na sequência para o escritório da agência para o briefing do pacote. À noite, fomos para o bairro turístico tomar a nossa primeira cerveja Nepalesa (dizem que feita com águas do Himalaia), a Gorkha. Lager normal, nada espetacular. Caminhamos um pouco por ali, e já percebemos o trânsito louco e sem sinalização, mão inglesa, e a simplicidade do lugar, das construções e das pessoas. Um país bem pobre, com muito pouco para se investir em infrarestrutura.

Colar nepalês de boas-vindas
Cerveja nepalesa

Dia seguinte, city tour em Kathmandu, visitando alguns dos templos mais famosos, como o templo Hindu Pasupatinath, onde pudermos ver uma arquitetura e cores totalmente diferentes do que estamos acostumados, além de vacas circulando livremente (a vaca é um animal sagrado para eles).

Entrada do Pasupatinath Temple
Detalhe da decoração no templo, com desenhos digamos,
não convencionais para costumes ocidentais, com temática sexual
Saindo do templo: nosso guia (de azul), Carlos (de branco),
além da vaquinha cujo nome desconheço

Uma coisa que impressiona a nós, ocidentais, são os rituais funerários que ocorrem nesse tempo, à margem do rio. Os corpos são preparados ali e queimados ali mesmo, sobre o concreto. Uma maneira diferente, respeitosa à maneira deles. Os mais abastados conseguem queimar seus mortos no templo, os outros o fazem fora do templo, mais abaixo ao longo do rio.

Corpo sendo preparado para ritual
Corpo sendo consumido pelas chamas, observado pelos parentes e amigos
Macaquinho morador do templo, e corpos queimando ao fundo

Um outro templo muito famoso é o Boudanath Temple, também conhecido como “Templo dos Macacos” pela quantidade absurda de macaquinhos que vivem por ali. Chama a atenção os “Olhos de Buda” no teto do templo, além das dezenas de sinos de reza (prayer bells). Lá há também um atelier-escola de desenhos de mandalas, comprei uma que mandei emoldurar aqui no Brasil e fica em casa.

Macaquinhos circulam livremente… se não cuidar do seu lanche, já era…
Prayer Bell gigante no templo Boudanath
Teto do templo Boudanath
Teto to templo Boudanath
As pessoas passam por esses sinos girando-os para fazer barulho, e entoando o mantra “Om mani padme hum” , que tenho no anel que uso até hoje
Altar no templo Boudanath

O templo é muito bonito, embora bastante sujo, principalmente por conta das oferendas que ficam lá por dias, aparentemente. De qualquer forma, é um lugar imperdível numa passagem por Kathmandu.

Outro lugar que visitamos é a Patan Durbar Square, cheio de templos menores, todos com muitas decorações em madeira esculpida (carving). Infelizmente, boa parte desses templos em Kathmandu foram seriamente danificados, alguns completamente destruídos, alguns meses após nossa visita, por causa do terremoto de 2015, conforme pode ser visto nas fotos aqui e aqui.

Patan Durbar Square
Patan Durbar Square
Patan Durbar Square
Patan Durbar Square
Detalhe de escultura em templo da Patan Durbar Square. Figuras de posições
sexuais são comumente representadas por lá.

No dia seguinte era o dia de iniciarmos a trilha, 6 dias em completo isolamento caminhando pelas montanhas. Para tanto, fomos logo cedo ao aeroporto de Kathmandu para pegar o avião para Pokhara, na região oeste do país. O terminal doméstico do aeroporto é praticamente um grande galpão, tijolos aparentes, os guichês são de plástico, tipo daqueles de feiras de negócios. Fomos pela companhia Simrik Airlines. A atendente que nos recepcionou no finger e nos acompanhou até a aeronave era a mesma do check-in. Operação bem enxuta mesmo… O avião era um bimotor de 19 lugares, sendo que as primeiras 8 fileiras tinham somente um assento de cada lado (um em cada janela), e a última tinha 3 poltronas, bem apertadas. E era nessa última fileira os nossos lugares (eu, Carlos e o guia). Foi o menor avião no qual entrei na vida. Principalmente depois de ele ficar lotado, cheio de europeus de mais de 1,80 de altura, a sensação claustrofóbica apertou… respira fundo e vamos lá…

Entrada do terminal doméstico do aeroporto de Kathmandu
Check-in da Simrik Airlines
Avião que nos levou a Pokhara
Aeroporto de Pokhara

Bom, lá estávamos prontos para iniciar a trilha, um carro estava nos aguardando no aeroporto, no próximo post conto como foi essa parte da aventura… até lá!





O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale) – série

8 11 2020
Imagem daqui

Agora, em meio à pandemia, ficamos procurando indicações de séries para assistir. Por sugestão de uma amiga, começamos a assistir a The Handmaid’s Tale, disponível no Brasil pela Globoplay. Em pouco mais de três semanas, assistimos à primeira (2017) e à segunda (2018) temporadas, e estamos nos preparando para a terceira (2019). Por conta da pandemia, a quarta temporada que seria nesse ano foi adiada para 2021. A série é baseada em um livro publicado na década de 80, e pelo que entendi o livro termina da forma como termina a primeira temporada, então as subsequentes não são uma adaptação, e sim roteiros novos.

Vou tentar passar minhas impressões e por que resolvi escrever a respeito, com o mínimo de spoilers quanto possível. Se quiser parar por aqui a leitura, só digo que recomendo muito, é uma estória muito forte, dramática, e que levanta muitos questionamentos atuais, como toda boa estória distópica. Depois que assistir, passa aqui de novo pra terminar de ler.

Aliás, falando em estórias distópicas, assistindo a essa série me remeteu bastante a alguns episódios de Black Mirror, com situações futurísticas catastróficas, apocalípticas, mas, que se analisarmos com um pouco mais de frieza, não estão muito distantes da nossa realidade, por mais assustador que isso seja. Qualquer dia escrevo sobre alguns episódios de Black Mirror também…

Voltando a Handmaid’s Tale, a estória se passa em um futuro não muito distante, onde teria havido um golpe de estado nos Estados Unidos, por um grupo religioso que implementa uma sociedade patriarcal, praticamente medieval, que subjuga as mulheres e que separa a sociedade em castas muito bem definidas. Um dos pilares dessa sociedade é que a maioria das mulheres haviam ficado estéreis, e as poucas que restaram férteis são “treinadas” para serem handmaids (“aias”), para gerarem os filhos dos “comandantes”, os representantes das camadas “superiores” da sociedade, que controlam o governo. As aias moram nas casas de seus comandantes, e mensalmente no seu período fértil são estupradas por seus comandantes em uma “cerimônia”, que conta inclusive com a participação da esposa estéril. E essa “cerimônia” é justificada inclusive por uma passagem bíblica: “Vendo Raquel que não dava filhos a Jacó, teve inveja de sua irmã, e disse a Jacó: Dá-me filhos, senão morro. E ela disse: Eis aqui minha serva Bila, coabita com ela, para que dê à luz sobre meus joelhos, e eu assim receba filhos por ela” (Gênesis 30:1:3)

Uma das partes mais impactantes da série é justamente a realização dessas cerimônias, onde elas deitam na cama do casal, sobre os joelhos das esposas, e são seguras por estas pelos punhos, para que sejam “fecundadas” pelos seus maridos. Há uma ideia plenamente difundida, e justificada “biblicamente” de que as mulheres não têm direito a praticamente nada (não podem ter propriedades, empregos, dinheiro e nem podem sequer LER) e devem se dedicar exclusivamente à família (as “esposas”, mulheres dos aristocratas), aos afazeres domésticos (as “Marthas”, mulheres estéreis mantidas praticamente como escravas), e à procriação (as “Aias”). Inclusive as roupas que elas têm que usar identificam claramente sua posição na sociedade. Em um mundo onde quase todas são estéreis, as Aias possuem um aura de “abençoadas” por ainda serem capazes de engravidar e gerar uma vida.

A “cerimônia”. Imagem daqui.

A atmosfera criada pela fotografia da série ajuda no tom sombrio. Não há cores vivas, não há luz, não há alegria. É tudo sempre muito angustiante, e a trilha sonora colabora também.

Existe, claro, a questão da exploração das mulheres, que foi exaustivamente debatida desde o lançamento da série. É um tema central e extremamente relevante, mas justamente por ter sido muito discutido não pretendo escrever muito sob esse prisma. Não por não o achar relevante, mas justamente por ser o principal ponto de discussão, gostaria de levantar outros que me chamaram a atenção.

A premissa inicial da série é que um grupo fundamentalista cristão autodenominado “Os filhos de Jacó” inicia uma série de atentados nos Estados Unidos e provavelmente conseguem culpar alguma minoria (acho que muçulmanos, não ficou muito claro até agora) e por conta disso justificam a instauração de um estado de sítio com uma escalada gradual da retirada de direitos, em especial das mulheres, até que os EUA mudam até de nome, passam a ser chamados “Gilead” e se tornam uma ditadura teocrata. Ou seja, um governo ditatorial cujos poderes são justificados pela religião. No caso, a cristã. Perseguindo e matando quem não se encaixa ou não concorda com eles, seja por religião, orientação sexual ou comportamento. Isso gera situações que existem em alguns lugares do mundo, hoje, como exilados que formam grupos de refugiados em países vizinhos (no caso, o Canadá). Existem muitos países hoje, em 2020, que recebem refugiados fugindo de regimes ditatoriais, perseguição étnica ou religiosa. Mas já pensou o “tapa na cara” da civilização ocidental ao se dizer que isso poderia acontecer nos EUA? Em tempos de intolerância crescente em que vivemos atualmente, vêm novamente à cabeça a angústia do tipo da série “Black Mirror“: o futuro tão ruim como está sendo descrito está longe de ser real? Talvez não muito.

Como os países reagiriam a isso? Na série, há citações a campanhas ao redor do mundo, sanções econômicas, e dá a entender que ainda existe uma guerra civil em curso, devidamente abafada para se passar internamente uma sensação de paz e tranquilidade para a comunidade de Gilead. No mundo real, há vários países que sofrem sanções, por diferentes motivos. Mas a hipocrisia faz com que os interesses econômicos se sobreponham a quaisquer outros. Existem ditaduras que sofrem com sanções e isolamento, e outras tão “ruins” quanto, mas que não sofrem nada. Se o país em questão tiver um peso econômico grande e/ou um grande poderio militar, ele pode fazer virtualmente qualquer coisa que não sofrerá nada. Fato.

Enfim, é importante que se reflita a respeito do potencial desastroso de darmos poderes a pessoas e grupos que de alguma forma incentivem ou sejam minimamente permissivos com intolerância ou discursos de ódio, de qualquer tipo. Faz-se necessário, mais do que nunca, tomar cuidado com discursos moralistas que pregam maldisfarçadamente intolerância e incitam a violência. Impossível não se lembrar do episódio onde uma menina de 10 anos que era estuprada pelo tio desde os 5 anos, teve seu direito ao aborto garantido pela Justiça, teve que ir para outro estado para poder fazer o procedimento e no próprio hospital foi hostilizada e xingada por grupos evangélicos. Uma vítima de violência, buscando o apoio do Estado para ter seu direito garantido, e ainda sofre essa violência. Estamos doentes como sociedade, a partir do momento que algo assim torna-se corriqueiro ou minimamente aceitável. Onde está o “fazer o bem” pregado pela religião, nessa situação?

Precisamos nos preocupar com perda de direitos, mesmo que não nos afete, pois o pensamento deve ser coletivo, não individualista. Espero sinceramente que possamos fazer isso… Termino citando Bertold Bretch, e esperando que tempos melhores nos aguardem mais à frente…

Primeiro levaram os negros

Bertolt Brecht (1898-1956)

Primeiro levaram os negros

Mas não me importei com isso

Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários

Mas não me importei com isso

Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis

Mas não me importei com isso

Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados

Mas como tenho meu emprego

Também não me importei

Agora estão me levando

Mas já é tarde.

Como eu não me importei com ninguém

Ninguém se importa comigo.