Butão

31 01 2021
Tiger’s Nest, ou “Ninho do Tigre”, mosteiro mais famoso do Butão

“Butão, o país mais feliz do mundo”, é o que se costuma ouvir a respeito, e o que vai encontrar em incontáveis artigos na Internet. Estive por lá em 2014, com meu colega Carlos, na mesma viagem em que estivemos no Nepal, da qual falei em posts passados. Para mim foi o local mais longe em que estive até hoje, tanto física quanto metaforicamente falando, tão grandes são as distâncias física (15.600 km de casa) e cultural com esse país que fica no alto das montanhas no sul da Ásia. É realmente o país mais feliz do mundo? Não sei, mas abaixo seguem minhas opiniões a respeito, no que pudemos ver durante os 6 dias que ficamos por lá.

A primeira parte da aventura foi a descida no aeroporto de Paro, vindo de Kathmandu pela Drukair, companhia aérea butanesa. A aventura não foi por conta do avião em si, um Airbus 319 comum como os que costumamos utilizar em voos internos no Brasil. A questão é que o aeroporto é um dos mais difíceis de se pousar no mundo (existem menos de 10 pilotos treinados para pousar lá), pois ele fica num vale cercado por enormes montanhas a cerca de 5000 metros de altitude. Ao baixar das nuvens, o avião vai desviando literalmente das montanhas enquanto desce. Seria quase o equivalente a descer em Congonhas, São Paulo, tendo que ziguezaguear entre os prédios. Claro que com uma distância segura, mas foi uma experiência bem diferente.

Aeroporto de Paro, ali já tivemos o primeiro contato com a arquitetura do local
Descendo do AirBus da Drukair, em Paro

Uma das coisas que nos chamou a atenção desde a preparação para essa parte da viagem foi o fato de que todo o processo de visto teve que ser feito pela agência que contratamos, e ela seria responsável por nós durante todo o tempo em que estivéssemos em solo butanês. Não é possível entrar como turista no país se você não tiver contratado uma agência local. E nós reparamos como isso era seguido à risca: assim que passamos pela imigração, nosso guia estava nos esperando, entramos no carro e fomos até o hotel, que ficava nas montanhas ao redor da cidade. Ao chegar no hotel o guia nos indicou o horário do jantar, do café da manhã e que estaria no dia seguinte lá às 8h para sairmos para os passeios. Perguntei se podíamos caminhar pela cidade à noite após o jantar, para conhecer, ele fez uma cara de quem não entendeu, e repetiu que no dia seguinte estaria lá às 8 para irmos conhecer a cidade. Ou seja, realmente não estávamos autorizados a circular sem a presença dele. Aí fomos aprendendo um pouco mais sobre o país.

O Butão é uma monarquia, governado pelo 5o rei da sua História, pois foi fundado como nação no início do século XX. E o primeiro parlamento butanês foi eleito em 2008. Ou seja, antes disso, a autoridade oficial era o rei – e só o rei -, consegue imaginar isso em pleno século 21? O pai do rei atual foi o inventor do termo de “Felicidade Interna Bruta”, e tornou o país o único a medir oficial e sistematicamente a felicidade da sua população. Como é o único país que mede esse indicador, pode oficialmente ostentar o título de “País mais feliz do mundo”

No carro, com a faixa presenteada de boas-vindas

Uma outra coisa que me chamou bastante a atenção foi a educação: não existem analfabetos e nem crianças fora da escola. O governo garante o estudo básico e nível médio também de todos os cidadãos, além de bolsas de estudo universitário para os alunos mais destacados, na universidade local ou até mesmo no exterior. Se há uma aldeia isolada nas montanhas onde há uma criança, o governo desloca um professor para lá. Ninguém fica sem estudar. Apesar disso, a economia desse país pequeno espremido entre a Índia e o Tibet (ocupado pela China) depende basicamente do cultivo de arroz e maçã, e, mais recentemente, do turismo.

O fato de nós, turistas, só podermos circular em locais pré-determinados e com a companhia de um guia nos leva a crer que não querem que vejamos a pobreza da população, ou alguma outra coisa. E o roteiro tem que ser seguido à risca mesmo. Havíamos ouvido falar de um restaurante na lista das melhores vistas do mundo, e dissemos ao guia que gostaríamos de jantar lá. Ele disse que não estava coberto no pacote, e dissemos que pagaríamos à parte. Ele disse que ia reservar, mas no dia marcado veio com uma conversa que o restaurante estava fechado para um evento, e iríamos jantar numa fazenda típica butanesa, com banho quente nas pedras como opcional. Depois acabamos achando que o guia tinha esquema com os donos da fazenda e não queria perder a oportunidade.

No Butão as coisas que mais chamam a atenção e que valem a pena visitar são os mosteiros no alto das montanhas, os Dzongs (fortalezas que hoje são museus ou abrigam departamentos do governo), além das montanhas e monumentos. As vistas são estonteantes e certamente sem iguais ao redor do mundo.

Dzong mais famoso, o Tashi Chho, onde fica a sede do governo monarquista
Dentro do Tashi Chho
Dzong em Paro
Buda pintado na rocha, em Thimpu
Culto em praça pública em Paro, com distribuição de almoço

E assim como nós temos o Cristo Redentor, lá na entrada do vale onde fica a cidade de Thimpu, capital do país, há uma estátua enorme de Buda, no chamado Buddha Point, no alto da montanha de onde se avista a cidade, como que a abençoando. Impossível não fazer o paralelo com o Corcovado.

Estátua de Buda no Buddha Point

Os Dzongs foram as construções que mais me chamaram a atenção, pela sua imponência, tamanho, e pela beleza arquitetônica.

Dzong em Punaka
Plantações de arroz em Punakha, com bandeiras coloridas que pro Budismo representam os elementos do Universo
Na escola de artes, trabalho de carving dos alunos
Aluno fazendo escultura em argila
Ponte pênsil, “abençoada” pelas bandeirinhas
É só não olhar pra baixo…
Mosteiro no alto das montanhas, onde os monges passam 3 anos em retiro na
complementação de sua formação, que dura no total 12 anos
Memorial Chorten, em Thimpu:
Estupa construída em homenagem ao terceiro rei do Butão pela sua mãe, que sobreviveu a ele

Uma outra coisa que vimos bastante foram as estupas, que são construções que contém algum tipo de relíquia religiosa. Existem grandes, como templos, e também pequenas.

Conjunto de 108 estupas em Dochula Pass, com as montanhas do Himalaia ao fundo
Estupas em Dochula Pass
Início da caminhada para o Tiger’s Nest, mosteiro mais famoso do Butão (dá pra ver lá em cima?)
Chegando no Tiger’s Nest (lá dentro não são permitidas fotografias)
Tiger’s Nest, mosteiro mais famoso do país
Dzong de Paro à noite
Portal de entrada de Paro
(foto do rei no cartaz ao lado, a rainha estava ali também mas foi cortada na foto)

Foram poucos dias, mas bastante intensos no Butão. Certamente uma experiência diferente que levarei pra sempre na memória, juntando com outras tantas nessa caminhada apaixonada e curiosa sobre todos os cantos desse nosso mundo enorme…

Espero que tenha gostado, até uma próxima!





Nepal (parte 2)

22 11 2020

E lá estávamos, no início da trilha após o passeio de que falei no post anterior, Nepal (parte 1).

Início da trilha
Animação e disposição para passar pela primeira (de muitas!) ponte na trilha

A trilha começava em torno de 1000 metros de altitude, e tínhamos 4-6 horas de caminhada até nosso primeiro alojamento em Ghorepani, que ficava a 2874m de altitude, com uma vista espetacular das montanhas da região do Annapurna, incluindo o próprio.

Ao longo do caminho, muito verde, corredeiras, rios, pontes suspensas, bastante gente na trilha. Subindo também guias com mantimentos, dentre os quais inclusive galinhas vivas em gaiolas. Uma preocupação que tive a todo momento porque tinham me avisado: ao longo do percurso, vários lugares vendem água em garrafa, supostamente mineral. Foi dito que por vezes eles acabam reaproveitando garrafas com água de torneira ou dos rios. Para evitar dissabores, sempre fazia questão de eu mesmo verificar o lacre, e não aceitamos nenhuma garrafa que viesse com o lacre aberto. A última coisa que precisaríamos seria ter algum desarranjo no meio do caminho, já pensou?

Mais uma das várias pontes
Escada de pedra, mais de 3000 degraus…
Pequenas cachoeiras ao longo do percurso
Não poderia deixar de montar meu totem de pedra, minha pequena
reverência à Natureza
Pequenas vilas ao longo da trilha

A ideia era dormir cedo, acordar às 4h da manhã para fazer uma trilha noturna até o topo Poonhill a 3210m de altitude, e ver o nascer do Sol por entre as montanhas. No alojamento não há muito o que fazer mesmo, tomar banho, comer, e ir dormir. E lá fomos nós, lanternas nas testas e nas mãos, dar boas-vindas ao Sol lá de cima.

Placa ao chegar no topo, antes do Sol nascer
Sol nascendo nas montanhas nepalesas

Lá em cima, uma banquinha vendendo chá e café, e o espetáculo da Natureza, gratuito, ia se descortinando… meu guia tirou uma foto minha sem que eu percebesse, enquanto eu estava tomando chá (limão, gengibre e mel, meu favorito na trilha). Essa foto é uma das minhas preferidas até hoje:

As melhores fotos são aquelas em momentos espontâneos, não?
Vista que compensa ter acordado às 4h
Observando as montanhas
Selfie com montanhas
Vale comemorar, claro!
Não somos os únicos malucos no mundo…
Tirar selfie é a parte fácil… difícil é chegar até ali

Depois disso, descemos a montanha, pudemos tomar o café da manhã para mais um dia de trilha, 6hs de caminhada até Tadapani, já a 2710m de altitude. Depois de Tadapani, mais três dias de caminhada: Tadapani para Ghandruk (1940m), no dia seguinte para Tolka(1790m), para no último dia descermos até Phedi(830m), onde o carro nos pegaria para levar de volta a Pokhara. Caminho de volta com muitas paisagens bonitas, mata fechada, corredeiras de água por todo o caminho. A comida nos alojamentos ao longo do caminho não variava muito, muito arroz, frango, algumas frituras típicas. Uma noite que eu não aguentava mais, pedi batatas cozidas. Elas vieram servidas com casca e tudo…

Batatas para dar uma pausa nas frituras…
Muitas plantações de arroz ao longo do caminho
Por lá também há escolas, e quadra com bela paisagem para se jogar
Essas vilas mudaram muito pouco nos últimos 100 anos
Nosso último alojamento
Com o guia e carregador, que nos acompanharam por todos os dias
Lavanderia das montanhas
Uma alpinista sul-coreano financiou uma escola como reconhecimento pela
ajuda dos sherpas pela subida a 16 montanhas no Himalaia
Finalzinho da trilha
Ponte no final da trilha

Nessa noite jantamos em Pokhara, encontramos até uns pubs e restaurantes legais, num deles inclusive havia uma garrafa de Sagatiba, e conversei com o barman se ele sabia o que era, ele disse que era uma bebida do Brasil que o chefe havia comprado. “Sabe o que fazer com ela?”. Ele disse que não, meio sem graça. Expliquei que basicamente ele podia usar como usa a vodka, mas a mais famosa bebida era com gelo, limão e açúcar.

Jantar em Pokhara
Mais uma cerveja nepalesa

No dia seguinte, pegamos o aviãozinho de volta para Kathmandu. Não havia lugar marcado na volta, então eu fiquei literalmente grudado no finger para ficar bem na frente, praticamente no cangote do piloto. Nosso último passeio em Kathmandu era um voo panorâmico para sobrevoar o Everest (já que não fomos até lá). Fomos cedo para o aeroporto, voos atrasaram porque estava muito fechado. Aí liberaram o primeiro avião (não era o nosso) para o Everest, e este informou que o tempo fechado deixou tudo sem visibilidade. Voltamos meio frustrados, mas tivemos o pagamento pelo voo devolvido. Os que foram no primeiro avião não tiveram essa sorte…

De uma maneira geral, foi uma experiência muito legal de estar tão longe de casa, física, metafórica e culturalmente falando, e estar em lugares tão únicos como aqueles. De lá fomos para o Butão, viagem que conto num próximo post. Espero que tenha gostado, até a próxima!