Butão

31 01 2021
Tiger’s Nest, ou “Ninho do Tigre”, mosteiro mais famoso do Butão

“Butão, o país mais feliz do mundo”, é o que se costuma ouvir a respeito, e o que vai encontrar em incontáveis artigos na Internet. Estive por lá em 2014, com meu colega Carlos, na mesma viagem em que estivemos no Nepal, da qual falei em posts passados. Para mim foi o local mais longe em que estive até hoje, tanto física quanto metaforicamente falando, tão grandes são as distâncias física (15.600 km de casa) e cultural com esse país que fica no alto das montanhas no sul da Ásia. É realmente o país mais feliz do mundo? Não sei, mas abaixo seguem minhas opiniões a respeito, no que pudemos ver durante os 6 dias que ficamos por lá.

A primeira parte da aventura foi a descida no aeroporto de Paro, vindo de Kathmandu pela Drukair, companhia aérea butanesa. A aventura não foi por conta do avião em si, um Airbus 319 comum como os que costumamos utilizar em voos internos no Brasil. A questão é que o aeroporto é um dos mais difíceis de se pousar no mundo (existem menos de 10 pilotos treinados para pousar lá), pois ele fica num vale cercado por enormes montanhas a cerca de 5000 metros de altitude. Ao baixar das nuvens, o avião vai desviando literalmente das montanhas enquanto desce. Seria quase o equivalente a descer em Congonhas, São Paulo, tendo que ziguezaguear entre os prédios. Claro que com uma distância segura, mas foi uma experiência bem diferente.

Aeroporto de Paro, ali já tivemos o primeiro contato com a arquitetura do local
Descendo do AirBus da Drukair, em Paro

Uma das coisas que nos chamou a atenção desde a preparação para essa parte da viagem foi o fato de que todo o processo de visto teve que ser feito pela agência que contratamos, e ela seria responsável por nós durante todo o tempo em que estivéssemos em solo butanês. Não é possível entrar como turista no país se você não tiver contratado uma agência local. E nós reparamos como isso era seguido à risca: assim que passamos pela imigração, nosso guia estava nos esperando, entramos no carro e fomos até o hotel, que ficava nas montanhas ao redor da cidade. Ao chegar no hotel o guia nos indicou o horário do jantar, do café da manhã e que estaria no dia seguinte lá às 8h para sairmos para os passeios. Perguntei se podíamos caminhar pela cidade à noite após o jantar, para conhecer, ele fez uma cara de quem não entendeu, e repetiu que no dia seguinte estaria lá às 8 para irmos conhecer a cidade. Ou seja, realmente não estávamos autorizados a circular sem a presença dele. Aí fomos aprendendo um pouco mais sobre o país.

O Butão é uma monarquia, governado pelo 5o rei da sua História, pois foi fundado como nação no início do século XX. E o primeiro parlamento butanês foi eleito em 2008. Ou seja, antes disso, a autoridade oficial era o rei – e só o rei -, consegue imaginar isso em pleno século 21? O pai do rei atual foi o inventor do termo de “Felicidade Interna Bruta”, e tornou o país o único a medir oficial e sistematicamente a felicidade da sua população. Como é o único país que mede esse indicador, pode oficialmente ostentar o título de “País mais feliz do mundo”

No carro, com a faixa presenteada de boas-vindas

Uma outra coisa que me chamou bastante a atenção foi a educação: não existem analfabetos e nem crianças fora da escola. O governo garante o estudo básico e nível médio também de todos os cidadãos, além de bolsas de estudo universitário para os alunos mais destacados, na universidade local ou até mesmo no exterior. Se há uma aldeia isolada nas montanhas onde há uma criança, o governo desloca um professor para lá. Ninguém fica sem estudar. Apesar disso, a economia desse país pequeno espremido entre a Índia e o Tibet (ocupado pela China) depende basicamente do cultivo de arroz e maçã, e, mais recentemente, do turismo.

O fato de nós, turistas, só podermos circular em locais pré-determinados e com a companhia de um guia nos leva a crer que não querem que vejamos a pobreza da população, ou alguma outra coisa. E o roteiro tem que ser seguido à risca mesmo. Havíamos ouvido falar de um restaurante na lista das melhores vistas do mundo, e dissemos ao guia que gostaríamos de jantar lá. Ele disse que não estava coberto no pacote, e dissemos que pagaríamos à parte. Ele disse que ia reservar, mas no dia marcado veio com uma conversa que o restaurante estava fechado para um evento, e iríamos jantar numa fazenda típica butanesa, com banho quente nas pedras como opcional. Depois acabamos achando que o guia tinha esquema com os donos da fazenda e não queria perder a oportunidade.

No Butão as coisas que mais chamam a atenção e que valem a pena visitar são os mosteiros no alto das montanhas, os Dzongs (fortalezas que hoje são museus ou abrigam departamentos do governo), além das montanhas e monumentos. As vistas são estonteantes e certamente sem iguais ao redor do mundo.

Dzong mais famoso, o Tashi Chho, onde fica a sede do governo monarquista
Dentro do Tashi Chho
Dzong em Paro
Buda pintado na rocha, em Thimpu
Culto em praça pública em Paro, com distribuição de almoço

E assim como nós temos o Cristo Redentor, lá na entrada do vale onde fica a cidade de Thimpu, capital do país, há uma estátua enorme de Buda, no chamado Buddha Point, no alto da montanha de onde se avista a cidade, como que a abençoando. Impossível não fazer o paralelo com o Corcovado.

Estátua de Buda no Buddha Point

Os Dzongs foram as construções que mais me chamaram a atenção, pela sua imponência, tamanho, e pela beleza arquitetônica.

Dzong em Punaka
Plantações de arroz em Punakha, com bandeiras coloridas que pro Budismo representam os elementos do Universo
Na escola de artes, trabalho de carving dos alunos
Aluno fazendo escultura em argila
Ponte pênsil, “abençoada” pelas bandeirinhas
É só não olhar pra baixo…
Mosteiro no alto das montanhas, onde os monges passam 3 anos em retiro na
complementação de sua formação, que dura no total 12 anos
Memorial Chorten, em Thimpu:
Estupa construída em homenagem ao terceiro rei do Butão pela sua mãe, que sobreviveu a ele

Uma outra coisa que vimos bastante foram as estupas, que são construções que contém algum tipo de relíquia religiosa. Existem grandes, como templos, e também pequenas.

Conjunto de 108 estupas em Dochula Pass, com as montanhas do Himalaia ao fundo
Estupas em Dochula Pass
Início da caminhada para o Tiger’s Nest, mosteiro mais famoso do Butão (dá pra ver lá em cima?)
Chegando no Tiger’s Nest (lá dentro não são permitidas fotografias)
Tiger’s Nest, mosteiro mais famoso do país
Dzong de Paro à noite
Portal de entrada de Paro
(foto do rei no cartaz ao lado, a rainha estava ali também mas foi cortada na foto)

Foram poucos dias, mas bastante intensos no Butão. Certamente uma experiência diferente que levarei pra sempre na memória, juntando com outras tantas nessa caminhada apaixonada e curiosa sobre todos os cantos desse nosso mundo enorme…

Espero que tenha gostado, até uma próxima!





Nepal (parte 2)

22 11 2020

E lá estávamos, no início da trilha após o passeio de que falei no post anterior, Nepal (parte 1).

Início da trilha
Animação e disposição para passar pela primeira (de muitas!) ponte na trilha

A trilha começava em torno de 1000 metros de altitude, e tínhamos 4-6 horas de caminhada até nosso primeiro alojamento em Ghorepani, que ficava a 2874m de altitude, com uma vista espetacular das montanhas da região do Annapurna, incluindo o próprio.

Ao longo do caminho, muito verde, corredeiras, rios, pontes suspensas, bastante gente na trilha. Subindo também guias com mantimentos, dentre os quais inclusive galinhas vivas em gaiolas. Uma preocupação que tive a todo momento porque tinham me avisado: ao longo do percurso, vários lugares vendem água em garrafa, supostamente mineral. Foi dito que por vezes eles acabam reaproveitando garrafas com água de torneira ou dos rios. Para evitar dissabores, sempre fazia questão de eu mesmo verificar o lacre, e não aceitamos nenhuma garrafa que viesse com o lacre aberto. A última coisa que precisaríamos seria ter algum desarranjo no meio do caminho, já pensou?

Mais uma das várias pontes
Escada de pedra, mais de 3000 degraus…
Pequenas cachoeiras ao longo do percurso
Não poderia deixar de montar meu totem de pedra, minha pequena
reverência à Natureza
Pequenas vilas ao longo da trilha

A ideia era dormir cedo, acordar às 4h da manhã para fazer uma trilha noturna até o topo Poonhill a 3210m de altitude, e ver o nascer do Sol por entre as montanhas. No alojamento não há muito o que fazer mesmo, tomar banho, comer, e ir dormir. E lá fomos nós, lanternas nas testas e nas mãos, dar boas-vindas ao Sol lá de cima.

Placa ao chegar no topo, antes do Sol nascer
Sol nascendo nas montanhas nepalesas

Lá em cima, uma banquinha vendendo chá e café, e o espetáculo da Natureza, gratuito, ia se descortinando… meu guia tirou uma foto minha sem que eu percebesse, enquanto eu estava tomando chá (limão, gengibre e mel, meu favorito na trilha). Essa foto é uma das minhas preferidas até hoje:

As melhores fotos são aquelas em momentos espontâneos, não?
Vista que compensa ter acordado às 4h
Observando as montanhas
Selfie com montanhas
Vale comemorar, claro!
Não somos os únicos malucos no mundo…
Tirar selfie é a parte fácil… difícil é chegar até ali

Depois disso, descemos a montanha, pudemos tomar o café da manhã para mais um dia de trilha, 6hs de caminhada até Tadapani, já a 2710m de altitude. Depois de Tadapani, mais três dias de caminhada: Tadapani para Ghandruk (1940m), no dia seguinte para Tolka(1790m), para no último dia descermos até Phedi(830m), onde o carro nos pegaria para levar de volta a Pokhara. Caminho de volta com muitas paisagens bonitas, mata fechada, corredeiras de água por todo o caminho. A comida nos alojamentos ao longo do caminho não variava muito, muito arroz, frango, algumas frituras típicas. Uma noite que eu não aguentava mais, pedi batatas cozidas. Elas vieram servidas com casca e tudo…

Batatas para dar uma pausa nas frituras…
Muitas plantações de arroz ao longo do caminho
Por lá também há escolas, e quadra com bela paisagem para se jogar
Essas vilas mudaram muito pouco nos últimos 100 anos
Nosso último alojamento
Com o guia e carregador, que nos acompanharam por todos os dias
Lavanderia das montanhas
Uma alpinista sul-coreano financiou uma escola como reconhecimento pela
ajuda dos sherpas pela subida a 16 montanhas no Himalaia
Finalzinho da trilha
Ponte no final da trilha

Nessa noite jantamos em Pokhara, encontramos até uns pubs e restaurantes legais, num deles inclusive havia uma garrafa de Sagatiba, e conversei com o barman se ele sabia o que era, ele disse que era uma bebida do Brasil que o chefe havia comprado. “Sabe o que fazer com ela?”. Ele disse que não, meio sem graça. Expliquei que basicamente ele podia usar como usa a vodka, mas a mais famosa bebida era com gelo, limão e açúcar.

Jantar em Pokhara
Mais uma cerveja nepalesa

No dia seguinte, pegamos o aviãozinho de volta para Kathmandu. Não havia lugar marcado na volta, então eu fiquei literalmente grudado no finger para ficar bem na frente, praticamente no cangote do piloto. Nosso último passeio em Kathmandu era um voo panorâmico para sobrevoar o Everest (já que não fomos até lá). Fomos cedo para o aeroporto, voos atrasaram porque estava muito fechado. Aí liberaram o primeiro avião (não era o nosso) para o Everest, e este informou que o tempo fechado deixou tudo sem visibilidade. Voltamos meio frustrados, mas tivemos o pagamento pelo voo devolvido. Os que foram no primeiro avião não tiveram essa sorte…

De uma maneira geral, foi uma experiência muito legal de estar tão longe de casa, física, metafórica e culturalmente falando, e estar em lugares tão únicos como aqueles. De lá fomos para o Butão, viagem que conto num próximo post. Espero que tenha gostado, até a próxima!





Nepal (parte 1)

15 11 2020
Chá quente no alto do Ghorepani, olhando para o Annapurna

Em 2014 resolvi que estava na hora finalmente de ir conhecer o Nepal. Depois da viagem para São Petesburgo, era a viagem no topo da lista de desejos. Uma viagem em que conheceria uma cultura bem diferente, distante metafórica e fisicamente do meu mundo cotidiano. Além disso, poderia fazer trilhas na região onde estão algumas das montanhas mais altas do mundo. Sem escalar nada, que não é muito a minha pegada. Peguei as dicas com a Tânia, uma amiga que conheci na viagem ao Monte Roraima, ela tinha ido ao Nepal e ao Butão algum tempo antes. Taí uma das melhores coisas de viajar bastante: conhecer pessoas com astral bom, que troquem experiências e dicas. Procurei um amigo “trilheiro” para dividir essa aventura, e o Carlos, amigo de longa data, topou a loucura.

Nos dias de preparação para a viagem, escrevi o seguinte post no Facebook:

“Preparando as coisas para a viagem, contando as horas… As pessoas têm me perguntado: “Por que Nepal?”. E a resposta tem sido: “E por que não?”… 🙂

O mundo é grande demais para conseguirmos conhecê-lo por inteiro, nossa existência por aqui é comparativamente curta demais. Dessa forma, acho que a experiência de vivenciar situações e culturas que são completamente diferente das nossas, do nosso dia-a-dia, do nosso lugar comum. A tecnologia tem tornado o mundo cada vez menor e menor, mas há algumas coisas que ainda não são transmitidas e faz-se necessário estar lá fisicamente, outros sentidos a serem exercitados, sair um pouco (ou bastante, depende do ponto de vista) da nossa zona de conforto. Ao menos para mim, isso faz parte de estar vivo e é patologicamente indispensável… E o Nepal traz tudo isso, junto com montanhas das mais altas e bonitas do mundo… e lá vamos nós… 🙂

— Setembro de 2014

Nosso último alojamento

Entrei em contato com a Maroon Treks e optamos pelo pacote de trekking Ghorepani-Poonhill, com algumas alterações. O roteiro incluiu 2 dias em Kathmandu (capital do Nepal), seguido de um voo para Pokhara (interior do país, região do Annapurna, famosa montanha), 6 dias de caminhada nas montanhas dormindo em alojamentos, depois voo de volta para Kathmandu. No dia seguinte, um voo panorâmico pelo Everest (a montanha mais alta do mundo), jantar de despedida em Kathmandu, e em seguida pegaríamos um voo para o Butão, mas aí já é uma outra estória…

A viagem de ida tinha que contar com uma conexão, não há voos diretos do Brasil para o Nepal. Acabamos escolhendo a escala em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, pela Etihad, era o voo mais em conta na época. Aí começaram os detalhes: as escalas de ida e volta seriam longas (12 e 8 horas respectivamente), então teríamos que ter um visto para pernoitar nos Emirados, num hotel pago pela companhia aérea. Fomos informados de que até existia um hotel dentro do aeroporto(se ficássemos lá não precisaríamos de visto), mas estava em reformas. Fizemos o procedimento junto à Etihad, que ficou responsável por isso. Chegando perto da data, nada do visto chegar. Dois dias antes do embarque, o meu chegou, mas o do Carlos não. Sem explicação. Então teoricamente eu poderia ir para o hotel e ele deveria ficar no aeroporto. Sem opções, embarcamos.

Depois de 14hs de voo, tendo dormido, zerado os filmes disponíveis que valiam a pena, chegamos em Abu Dhabi. Não podemos dizer que conhecemos a cidade (na verdade, cidade-Estado), só ficamos no aeroporto. Depois de ficar conversando para ver se havia alguma solução para o fato do Carlos estar sem visto, acabaram achando vagas para nós no tal hotel do aeroporto.

Entrada do hotel do aeroporto
Na mesa do quarto, indicação da direção de Meca, para rezar.

No dia seguinte, embarque para o Nepal. Chegando no aeroporto de Kathmandu, a visão completamente diferente de outros aeroportos ao redor do mundo: nenhuma mala de rodinhas, somente mochilas, e das grandes. Estávamos na capital mundial dos mochileiros, com certeza. No caso do Nepal, pagamos pelo visto lá mesmo, no aeroporto, na chegada.

Mochilões para todos os lados…

Nosso contato estava aguardando no desembarque, fomos recepcionados com colares laranjas de boas-vindas e levados direto ao Hotel, para check-in e na sequência para o escritório da agência para o briefing do pacote. À noite, fomos para o bairro turístico tomar a nossa primeira cerveja Nepalesa (dizem que feita com águas do Himalaia), a Gorkha. Lager normal, nada espetacular. Caminhamos um pouco por ali, e já percebemos o trânsito louco e sem sinalização, mão inglesa, e a simplicidade do lugar, das construções e das pessoas. Um país bem pobre, com muito pouco para se investir em infrarestrutura.

Colar nepalês de boas-vindas
Cerveja nepalesa

Dia seguinte, city tour em Kathmandu, visitando alguns dos templos mais famosos, como o templo Hindu Pasupatinath, onde pudermos ver uma arquitetura e cores totalmente diferentes do que estamos acostumados, além de vacas circulando livremente (a vaca é um animal sagrado para eles).

Entrada do Pasupatinath Temple
Detalhe da decoração no templo, com desenhos digamos,
não convencionais para costumes ocidentais, com temática sexual
Saindo do templo: nosso guia (de azul), Carlos (de branco),
além da vaquinha cujo nome desconheço

Uma coisa que impressiona a nós, ocidentais, são os rituais funerários que ocorrem nesse tempo, à margem do rio. Os corpos são preparados ali e queimados ali mesmo, sobre o concreto. Uma maneira diferente, respeitosa à maneira deles. Os mais abastados conseguem queimar seus mortos no templo, os outros o fazem fora do templo, mais abaixo ao longo do rio.

Corpo sendo preparado para ritual
Corpo sendo consumido pelas chamas, observado pelos parentes e amigos
Macaquinho morador do templo, e corpos queimando ao fundo

Um outro templo muito famoso é o Boudanath Temple, também conhecido como “Templo dos Macacos” pela quantidade absurda de macaquinhos que vivem por ali. Chama a atenção os “Olhos de Buda” no teto do templo, além das dezenas de sinos de reza (prayer bells). Lá há também um atelier-escola de desenhos de mandalas, comprei uma que mandei emoldurar aqui no Brasil e fica em casa.

Macaquinhos circulam livremente… se não cuidar do seu lanche, já era…
Prayer Bell gigante no templo Boudanath
Teto do templo Boudanath
Teto to templo Boudanath
As pessoas passam por esses sinos girando-os para fazer barulho, e entoando o mantra “Om mani padme hum” , que tenho no anel que uso até hoje
Altar no templo Boudanath

O templo é muito bonito, embora bastante sujo, principalmente por conta das oferendas que ficam lá por dias, aparentemente. De qualquer forma, é um lugar imperdível numa passagem por Kathmandu.

Outro lugar que visitamos é a Patan Durbar Square, cheio de templos menores, todos com muitas decorações em madeira esculpida (carving). Infelizmente, boa parte desses templos em Kathmandu foram seriamente danificados, alguns completamente destruídos, alguns meses após nossa visita, por causa do terremoto de 2015, conforme pode ser visto nas fotos aqui e aqui.

Patan Durbar Square
Patan Durbar Square
Patan Durbar Square
Patan Durbar Square
Detalhe de escultura em templo da Patan Durbar Square. Figuras de posições
sexuais são comumente representadas por lá.

No dia seguinte era o dia de iniciarmos a trilha, 6 dias em completo isolamento caminhando pelas montanhas. Para tanto, fomos logo cedo ao aeroporto de Kathmandu para pegar o avião para Pokhara, na região oeste do país. O terminal doméstico do aeroporto é praticamente um grande galpão, tijolos aparentes, os guichês são de plástico, tipo daqueles de feiras de negócios. Fomos pela companhia Simrik Airlines. A atendente que nos recepcionou no finger e nos acompanhou até a aeronave era a mesma do check-in. Operação bem enxuta mesmo… O avião era um bimotor de 19 lugares, sendo que as primeiras 8 fileiras tinham somente um assento de cada lado (um em cada janela), e a última tinha 3 poltronas, bem apertadas. E era nessa última fileira os nossos lugares (eu, Carlos e o guia). Foi o menor avião no qual entrei na vida. Principalmente depois de ele ficar lotado, cheio de europeus de mais de 1,80 de altura, a sensação claustrofóbica apertou… respira fundo e vamos lá…

Entrada do terminal doméstico do aeroporto de Kathmandu
Check-in da Simrik Airlines
Avião que nos levou a Pokhara
Aeroporto de Pokhara

Bom, lá estávamos prontos para iniciar a trilha, um carro estava nos aguardando no aeroporto, no próximo post conto como foi essa parte da aventura… até lá!





Istambul

19 07 2020

Para o meu primeiro post de viagens, acabei escolhendo essa que foi meu primeiro contato com um país que se afastava um tanto das tradições ocidentais, embora fique ali literalmente “na fronteira” entre o Ocidente e o Oriente. Onde coloquei o “pé” na Ásia pela primeira vez… Como fiz essa viagem há bastante tempo, algumas coisas podem ser traídas pela memória, mas ainda consigo me lembrar de boa parte delas. Istambul é a maior cidade e a mais conhecida da Turquia (mas não é sua capital, a capital turca é Ankara!), cortada ao meio pelo Estreito de Bósforo, o que faz com que a cidade fique parte na Europa, parte na Ásia, oficialmente. Uma cidade com arquitetura magnífica, e com muita História, muitos locais e fatos que influenciaram civilizações ao longo do tempo.

Essa viagem à Turquia foi a última escala do giro pela Europa em abril de 2008 (depois de Berlim, Barcelona e Atenas). No planejamento da viagem, procurando por dicas na internet, em um site sobre viagens, encontrei um brasileiro (Dilermando) que já tinha ido para Istambul, e pegamos várias dicas preciosas. Entrei em contato, e aí eu descobri que eu, que programo bastante as viagens, na verdade sou um amador… ele me passou uma planilha onde planejava dia-a-dia uma estadia completa de uma semana em Istambul, com horários, locais e detalhes… Achei meio exagerado, mas é uma solução quando se tem pouco tempo. De qualquer forma, tirei informações importantes para montar o roteiro.

A hospedagem foi no Hotel Antique, que é bem simples porém extremamente bem localizado, muito próximo ao centro turístico da cidade, vizinho da Mesquita Azul e da Hagia Sophia, duas construções magníficas e principais pontos turísticos da cidade.

Vista de Istambul: Mesquita Azul (à esquerda), Hagia Sophia (à direita)

A chegada em Istambul foi no dia 5, no aeroporto Ataturk, vindo de Atenas, na Grécia – Aqui já cabe uma dica: indo para Istambul de avião, verifique se o aeroporto de destino é esse, algumas empresas, notadamente as low cost, costumam fazer vôos para outro aeroporto, distante uns 60 km da cidade, o que pode lhe fazer gastar um tanto a mais e perder um tempo precioso -, o acesso a partir do aeroporto de Ataturk é fácil, via metrô e tram chega-se facilmente ao bairro de Sultanahmet, o centro turístico. A primeira impressão sobre a cidade, ainda vista do avião, foi a quantidade de mesquitas na cidade(são quase 3000, depois fiquei sabendo), identificadas pelos minaretes, que são as torres, mais finas do que as torres das igrejas cristãs. Destes minaretes saem o som com versos em árabe chamando todos para a hora da reza. Junto com os chás servidos em pequenos “shots”, são as imagens que mais me remetem a Istambul…

Minarete de Mesquita em Istambul
Chá na doceria em Istambul

E pelo caminho do aeroporto para a cidade, pode-se ver esses templos, de todos os tamanhos e por todos os lados. Chegando ao hotel, mochila descarregada e já iniciei a caminhada pela cidade. A primeira escolha foi ir caminhando de Sultanhamet até o Grande Bazar, passando pela praça em frente a Hagia Sophia e à Mesquita Azul. O Grande Bazar é um mercado antigo, onde se vende praticamente de tudo. O que espanta nele é o tamanho, enorme, gigante. Dificilmente você consegue entrar por onde saiu ou ter a noção de onde está quando sai. Dezenas de ruas apertadas, vendedores pulando à sua frente oferecendo todo tipo de quinquilharias e, é claro, os maravilhosos doces de Istambul… 😛 Uma delícia a parte, simplesmente maravilhosos. Na saída do Grande Bazar, fomos caminhando pelas ruas tortuosas do bairro para chegarmos ao Mercado Egípcio, ponto de venda de especiarias (e doces também), que fica um pouco mais ao norte do Grande Bazar. Era sábado e as ruas estavam lotadas de gente, o comércio local fervilhando. Cuidados normais quando se está no meio de aglomerações: cuidado com bolsas, carteiras, qualquer coisa que possa ser sorrateiramente retirada de você quando estiver distraído. Nada de pânico, mas é uma dica saudável. Ali e em qualquer outro lugar de comércio, vai uma dica: pechinche e negocie, sempre. Eles aparentemente até gostam disso, ficam um pouco decepcionados quando você leva o produto pelo preço anunciado, sem barganhar… vai entender…

Grande Bazar
Doces no mercado egípcio
Especiarias no mercado egípcio

Passeios imperdíveis

Dentre os passeios imperdíveis, posso destacar: Hagia Sophia, Mesquita Azul, Museu Militar, Palácio Topikapi, a apresentação dos Dervixes Rodopiantes (dança sufi), além de um passeio de barco pelo Bósforo, até o Mar Negro. Passeios pelas ruas são altamente recomendáveis, o grande número de mulheres de burca pode lhe chamar a atenção se for a primeira vez num país com predominância muçulmana. De qualquer forma, a boa educação manda ter discrição, e evitar fotos.

Hagia Sophia

A visita a esse local, por si só, já valia a viagem. É uma das construções mais impressionantes e bonitas que já vi. Foi erguida no século VI para ser a catedral de (na época) Constantinopla, no Império Bizantino. Com a queda de Constantinopla em 1453 (retomada pelos turcos, fato que marcou o fim da Idade Média), passou a ser uma mesquita, e assim permaneceu até o século passado, quando virou um museu, na década de 1930. Essas mudanças geraram um fato curioso, que faz desse um lugar tão único: o interior da catedral foi originalmente decorado todo com mosaicos feitos de milhares de pedaços de vidro e folhas de ouro. Várias representações de figuras bíblicas, imperadores, imperatrizes e herdeiros. A questão é que a religião muçulmana não permite a reprodução de figuras humanas, assim, quando a catedral foi transformada em mesquita no século XV, todos os mosaicos foram “tampados”, cimentados e pintados com motivos islâmicos. Esse tesouro artístico ficou assim por séculos, até que quando ela foi “secularizada” e transformada em museu no século XX, os mosaicos com imagens cristãs de 15 séculos atrás apareceram, e passaram a conviver lado a lado com a decoração muçulmana, criando uma atmosfera única no mundo, emoldurada pela grandeza de seu domo central.

Recentemente, em julho de 2020, o presidente turco revogou a lei do século passado que a transformou em museu, e agora ela passa a ser novamente uma mesquita. Não tenho informações a respeito de como ficarão as visitas e os mosaicos descritos acima. Espero que continue sendo um local de visitação onde símbolos de ambas as religiões possam conviver de alguma forma. Mas não sei se isso vai ocorrer.

Interior da Hagia Sophia
Mosaico decorado com folhas de ouro na Hagia Sophia
Entrada da Hagia Sophia

É uma construção magnífica, que realmente vale a pena passar horas visitando, entendendo sua História e admirando seu interior.

Mesquita Azul
Entrada da Mesquita Azul

A Mesquita Azul (Blue Mosque) ou Mesquita do Sultão Amade (em turco: Sultanahmet Camii) foi construída no século XVII pelo Sultão Amade para fazer frente à Hagia Sophia. Fica praticamente em frente, separadas por uma praça florida. É uma peça também única da arquitetura no estilo clássico otomano, e mosaicos de cor predominantemente azul

Mesquita Azul à noite

Todas as mesquitas têm um código de vestimenta para serem visitadas: é necessário deixar o sapato do lado de fora para entrar. Shorts, minissaias, bermudas ou camisetas sem mangas não são recomendados. Mulheres devem cobrir os cabelos. No geral, nas mesquitas que são frequentadas por turistas, há funcionários distribuindo panos e véus para que as pessoas cubram as partes que – segundo eles – desrespeitam o lugar. Respeito e empatia fazem bem, aqui e em qualquer lugar do mundo, sempre.

Mesquita Azul
Na entrada de cada mesquita, uma fonte para se lavar antes de entrar
Momento da reza em uma mesquita
Interior da mesquita Rüstem Pasha

Palácio Topikapi

Esse palácio (hoje um enorme museu) foi construído logo após a (re)tomada de Constantinopla(Istambul) pelos turcos, no século XV, ordenada pelo Sultão Mehmet, “O conquistador”, e foi o mais importante palácio até o início do século XVII. Uma das principais atrações é o harém, onde viviam as mulheres da família do Sultão. Segundo consta, todas as noites ele ia até lá para escolher dentre as suas dezenas de mulheres qual passaria a noite com ele. A maior parte da exposição do palácio não permite fotos, mas tirei algumas do harém (permitidas) e da entrada do palácio, onde antigamente ficavam lanças que expunham cabeças dos condenados executados bem ali, na praça em frete.

Mesmo sem fotos, as coisas de que mais me lembro de ter visto lá dentro foram: um relicário que continha as barbas do profeta (sim, o próprio, Maomé) e o cajado de Moisés, bem conservado e guardado atrás de um vidro. Outras duas peças importantes são a famosa Adaga Topikapi, cravejada de esmeraldas, e o Diamante Spoonmaker’s, considerado o quarto maior diamante do mundo. Uma outra coisa que me chamou a atenção tem a ver com a História da Religião Muçulmana: lá vi a estória de que Maomé, quando teve sua primeira revelação onde Deus, através do anjo Gabriel teria lhe revelado coisas que seriam a base do Corão, iniciou sua pregação e teria enviado uma carta ao Papa, explicando as revelações. Se essa carta existiu provavelmente nunca foi levada a sério, mas já imaginaram como o mundo seria diferente hoje se tivesse sido?

Entrada do Palácio Topikapi. Na lança acima ficavam expostas as cabeças dos condenados decapitados
Entrada do Harém do Sultão
Corredor do Harém do Sultão

Museu Militar

O que mais me chamou a atenção nesse museu é como é interessante ver como a História é contada “pelo outro lado”. Para nós, nas aulas de História na escola, o marco do final da Idade Média foi a “tomada de Constantinopla pelos turcos”, e pronto. Sem detalhes. Indo nesse museu (e também no Topikapi) a batalha épica é contada com detalhes, e ali descobrimos que a cidade foi tomada “de volta”, considerando que durante séculos ficou sob o domínio cristão do Império Romano do Oriente (ou Império Bizantino), e os muçulmanos estariam a tomando de volta, após anos de perseguição no contexto das Cruzadas. A campanha do Sultão Maomé II, “O conquistador”, e explicada com minúcias, está lá exposta a corrente que “fechava” o Estreito de Bósforo para evitar invasões por barcos. É contado como ele conseguiu transportar os barcos via terra, para invadir pelo outro lado do Bósforo. Uma coisa imperdível é a apresentação da banda do exército Otomano, com instrumentos e trajes típicos. Vale a pena se informar para saber datas e horários das apresentações (são frequentes mas não diárias).

Apresentação da Banda do Exército Otomano
Corrente usada para fechar o Estreito de Bósforo, exposta no Museu Militar
Passeio ao Mar Negro

Essa foi uma dica espetacular do Dilermando: pegar o barco de linha (não é um barco turístico) no cais de Eminönü, para fazer o trajeto de Istambul a Anadolu Kavagi, já na extremidade norte do estreito do Bósforo – descer em Anadolu Kavagi, subir à pé às ruínas da fortaleza bizantina do século XIV no alto do morro, de onde pode-se ver o Mar Negro – maravilhoso !

Fotografando o Mar Negro
Casas ao longo do passeio de barco
Ruínas ao longo do passeio de barco
Ruínas proximas ao mirante do Mar Negro
Dança Sufi

Como última dica imperdível de Istambul, fica o espetáculo dos Dervixes Rodopiantes. Os dervixes são uma confraria religiosa muçulmana de caráter ascético ou místico (sufi). A ordem dos  Dervixes Rodopiantes fundou-se no século XIII e é a mais conhecida da Turquia. Eles entram em uma espécie de transe durante a dança, e (obviamente) rodopiam durante vários minutos que parecem não ter fim… um espetáculo bonito, de pouco menos de uma hora, vale a pena.

Dançarino

Se você chegou até aqui, obrigado… Foi ficando meio grande esse post, pensei até na possibilidade de dividir em duas partes, mas acabei desistindo… Espero que tenha gostado.
Até a próxima!