Peru e Trilha Inca (parte 1)

4 04 2021

Essa é realmente uma das viagens mais emblemáticas para qualquer mochileiro, ao menos para aqueles que viveram o século XX, eu acho… Para mim foi uma das primeiras viagens com caminhadas nas montanhas, acampamento, etc… acabei resgatando um texto que escrevi a respeito, em 2006, acho que é a melhor referência que tenho dessa viagem…

Existiam, na época, duas maneiras de chegar a Machu Picchu, a primeira seria indo de trem até a cidade de Águas Calientes, e de lá subir (caminhando ou de ônibus) até o parque arqueológico de Machu Picchu, e a segunda seria fazer a trilha de quatro dias pela chamada Trilha Inca “Clássica”, e de lá descer até Machu Picchu. É interessante notar a entrada por cima ou por baixo, porque quem vem por baixo tem a impressão de que a cidade fica no alto. Na verdade, para os padrões da região, os cerca de 2500 metros de altitude é bem baixo… A nossa escolha foi fazer a trilha completa, e a entrada na cidade pela chamada Porta do Sol, através da qual você passa e a cidade se descortina à sua frente, lá embaixo, com essa vista:

Foto clássica na chegada “por cima” a Machu Picchu

“Machu Picchu es un viaje a la serenidad del alma, a la eterna fusión con el cosmos, allí sentimos nuestra fragilidad. Es una de las maravillas más grandes de Sudamérica. Un reposar de mariposas en el epicentro del gran círculo de la vida. Otro milagro más. “

Pablo Neruda

(segue texto escrito por mim em 2006)

De uma maneira geral, foi um grande exercício de superação pessoal, daqueles para mostrar para nós mesmos que somos capazes de fazer. A caminhada de mais de 40 km durante quatro dias no meio do mato, andando e acampando em altitudes entre 2500 e 4200 metros não é uma tarefa que possa ser classificada como trivial (ainda que com carregadores ajudando) para pessoas normais, que não sejam exatamente o que possa ser chamado de “atleta”. E consegui passar por ela. Uma vitória, que já teria por si só valido a viagem. Mas, além disso, houve a experiência de poder sentir um pouco do que foi a civilização Inca. Sobre o guia ao longo desses dias, o Jim, eu acredito que possa ser considerado um patrimônio da trilha, pelo conhecimento e vivência do lugar. Formado em História, conseguiu nos mostrar coisas que transcendem os livros, além das sensações de estar nos lugares, sentir o ambiente e as coisas que fizeram parte da vida desse povo. E foi muito legal tomar conhecimento do quão avançados eram, e a forma brutal como foram “colonizados” cultural e religiosamente pelos europeus católicos. Quando os Incas conquistavam outros povos na América do Sul – e não foram poucos -, eles respeitavam a cultura e religião daquele povo, absorviam o que havia de interessante, útil e passavam a sua cultura e tecnologia para o povo conquistado, a partir de então sob o controle do Império Inca. Um tipo de conquista inteligente. Diferente da colonização católica, que simplesmente não poderia admitir que os povos ditos “selvagens” pudessem ter algo a lhes oferecer em algum campo do conhecimento. E com isso certamente deixaram de aprender muitas coisas valiosas, uma vez que so estavam preocupados em conseguir mão-de-obra, terras e almas pagãs para serem – por vezes forçadamente – convertidas ao catolicismo. As construções incas eram mais resistentes a terremotos do que as dos espanhóis, só para dar um exemplo simples dentre tantos outros.

E o fato de fazer a caminhada toda, o que é feito por uma parcela pequena dos turistas que vão a Machu Picchu, é entrar em contato com um ambiente diferente, uma energia que transcende aquelas matas, aqueles morros e que chega ao seu ápice ao adentrar na cidade perdida através do portal do Sol. Alguns dizem que as pessoas que trilham aquele caminho passam por transformações. Não sei se voltei transformado, mas que algo diferente acontece ali, a mim pareceu inegável… Viver a Trilha Inca, o caminho mais comprido entre Ollantaytambo e Machu Picchu, é perseguir um pouco desta História, é trilhar o mesmo caminho que trilhavam os peregrinos prestes a serem iniciados na religião Inca como sacerdotes. E ver em cada uma daquelas ruínas a beleza e o respeito a natureza que os cercava, através da qual eles entravam em contato com Deus. E não importa o nome, rosto ou rostos que davam a esse Deus, mas era o Deus que estava nas pedras, que estava no Sol, na natureza que lhes era dada como dádiva, mas também sobre a qual tinham responsabilidades, e exploravam com muito cuidado e com uma consciência infinitas vezes maior do que a dos conquistadores, auto-intitulados mensageiros da verdade para propagá-la às almas dos pobres selvagens, para que estes fossem salvos. Talvez os povos da América Latina estivessem melhores hoje se alguma coisa tivesse sido diferente por ali…

Até então, essa viagem a Machu Picchu era uma das mais sonhadas e desejadas da minha lista. Muito planejada e esperada, foi uma viagem fantástica, que realmente excedeu todas as expectativas, muito legal mesmo. Contratamos um pacote completo de viagem com a Pisa Trekking. Optamos pelo passeio mais completo, com dois dias em Puno, conhecendo o Lago Titicaca, dois dias em Cuzco, e a trilha completa de 4 dias até Machu Picchu. A estada em Puno (3800 metros de altitude, bem mais alta do que Cuzco e Machu Picchu) nos ajudou a aclimatar, acostumar o corpo com a altitude para minimizar os efeitos dela altitude quando fôssemos fazer a trilha.

1o dia de viagem: São Paulo – Lima – Juliaca – Puno

No nosso primeiro dia, praticamente só viagem: saímos de São Paulo de madrugada, chegamos em Lima e ficamos no aeroporto aguardando o embarque para Juliaca. Chegando em Juliaca, fomos levados de van para Puno, no hotel Sillustani. No caminho, tivemos nossa primeira impressão do Peru: Juliaca é uma cidade que nos chamou a atenção Vista de Puno a partir do mirante do Condorpor ser muito povoada e muito confusa, em matéria de trânsito, muitas pessoas na rua, ruas lotadas de camelôs, bicicletas e pedestres disputando espaço nas ruas com os carros, uma verdadeira bagunça. Depois de chegarmos ao hotel em Puno, saímos à noite para conhecermos a cidade, que fica na beira do Lago Titicaca. Puno é uma cidade bem pequena, que ainda engatinha na exploração do turismo. Alguns bons restaurantes, alguns museus, um belo mirante (Mirante do Condor), que dá uma visão do Lago (parcial, porque o lago é enorme). Tem uma escadaria enorme para chegar lá em cima (mais de 4000 metros de altitude), mas vale a pena.

Vista da cidade de Puno e o Lago Titicaca ao anoitecer, a partir do Mirante do Condor

2o dia: Lago Titicaca

No dia seguinte em Puno, fomos fazer nosso passeio de barco no Lago Titicaca, os barcos que levavam os turistas eram como um ônibus de excursão: muitos turistas, guia com microfone explicando as coisas, serviço de bordo e tudo o mais. No passeio conhecemos as ilhas flutuantes de Uros, que são ilhas feitas com totora (uma espécie de junco que cresce no lago). Os habitantes de lá constroem casas e barcos também feitos de totora, e ficam oferecendo seus artesanatos aos turistas. Conhecemos as casas e andamos em um dos barcos deles. Depois partimos para uma ilha mais afastada, a ilha de Taquile, onde vive uma comunidade socialista ainda hoje, com decisões sendo tomadas pela comunidade e que vivem praticamente da venda de artesanatos também. Almoçamos em Taquile, em um ponto alto da ilha com uma bela vista do lago(que parece um mar, pois não se consegue enxergar o horizonte). No começo da noite, fomos ao já citado Mirante do Condor.

Barco com turistas no Lago Titicaca
Chegada nas ilhas flutuantes
Peruana bordando na ilha
Casas feitas de totora
Barco de totora

3o dia: Sillustani, caminho para Cuzco

No nosso terceiro dia no Peru, acordamos bem cedo para irmos a Sillustani, um cemitério Inca que fica perto de Puno, no caminho para Cuzco. Lá existem chulpas, que são construções onde eram guardados os mortos. As chulpas são construções cilíndricas, com uns 6, 8 metros de altura, e com uma entrada de mais ou menos 80 cm de altura, sempre virada para o nascer do Sol. E a porta ficava aberta, para que os familiares e amigos pudessem visitar seus mortos… as múmias eram colocadas em posição fetal na parte de dentro da chulpa, nas paredes. Uma coisa muito interessante que notamos lá é que além das chulpas Incas, haviam também em Sillustani chulpas de uma outra civilização que viveu ali antes de ser conquistada pelos Incas. As construções eram mais toscas, sem acabamento ou trabalho fino nas rochas como as dos Incas. Mas o interessante disso é mostrar que quando os Incas conquistavam um povo, não faziam uma conquista predatória, mas sim respeitavam a cultura do povo conquistado, absorvendo para a sua própria o que fosse interessante, e passando sua cultura e tecnologia para os povos conquistados. Uma forma bem mais inteligente de se colonizar um povo do que os católicos europeus fizeram, sem admitir que poderiam aprender algo com os “selvagens” que encontraram na América.

Chulpa Inca em Sillustani
Chulpa pré-inca em Sillustani
Lhama posando para foto em Sillustani
Mais uma chulpa Inca, dá pra ver a perfeição no encaixe e tratamento das pedras
Chulpa Inca


Em seguida, pegamos um ônibus turístico Inka Express, que faz a viagem Puno-Cuzco na chamada rota do Sol, com paradas em alguns pontos turísticos. Paramos em Pukara, onde visitamos um museu, depois em La Raya, a 4350 metros de altitude, onde pudemos ver de perto e fotografar os picos nevados. Passamos ainda pelo belíssimo sitio arqueológico de Raqchi, e pela vila de Andahuaylillas, antes de chegar em Cuzco, a antiga capital do Império Inca. Cuzco é uma cidade muito bonita, arquitetura e relevo lembram em muito Ouro Preto (muitas igrejas antigas e muitas ladeiras), uma cidade turística, com muitas opções e estrutura para os viajantes. Ficamos no Hotel Sueños del Inca, muito bom e não é dos mais caros. Dentre as opções de Cuzco, há um bilhete com um preço único (na época, aproximadamente 50 reais) que lhe dá direito a entrar uma vez em cada um dos museus e sítios arqueológicos ao redor da cidade. No nosso caso, estava incluído no pacote. Dos restaurantes, gostamos muito do Chez Maggi, do Pacha Papa (em San Blás) e do bar cubano La Bodeguita, todos bem próximos à Plaza de Armas.

Picos nevados no caminho para Cuzco
Muitas opções de coisas para comprar, aos pés dos picos nevados
Sítio arqueológico em Raqchi
Raqchi
Foto 100% turista em Raqchi

4o dia: Sítios Arqueológicos em Cuzco

Nesse dia conhecemos o nosso guia para a Trilha Inca: Jim, um peruano formado em História que trabalhava com a Pisa já há mais de dez anos, e fala muito bem o português. Ele foi nosso guia a partir deste dia até deixarmos Machu Picchu, e foi uma das melhores coisas da viagem: muito prestativo, inteligente e conhecedor profundo da História dos Incas e da Trilha em particular.
Entre os sítios arqueológicos que visitamos, vale destacar Sacsayhuaman, ruínas de um lugar onde os Incas se refugiaram para lutar contra os espanhóis que estavam em Cuzco. Construção gigantesca e belíssima, de onde se tem também uma bonita vista da cidade de Cuzco. Visitamos também um antigo cemitério Inca e depois voltamos a cidade, onde conhecemos o Coricancha, um templo Inca em cima do qual foi erguida uma igreja católica. O templo é belíssimo, com as estruturas do prédio original muito bem conservadas, onde pode se notar algumas características da arquitetura dos Incas, como as paredes inclinadas (fortalecem a sustentação), portas duplas presentes principalmente nos lugares considerados sagrados, portas e janelas trapezoidais, entre outras coisas. Depois fomos sozinhos ao Museu Inca, que fica também próximo à Plaza de Armas.

Cuzco e sua arquitetura colonial
Plaza de Armas, em Cuzco
Rua em Cuzco
Ruínas em Sacsayhuaman
Dá pra se ter uma noção do tamanho das pedras
Sacsayhuaman
Sacsayhuaman
Coricancha, em Cuzco. A Igreja católica foi erguida sobre a estrutura do tempo Inca, que conseguia resistir a terremotos
Coricancha à noite, uma das minhas fotos preferidas que tirei, até hoje
Porta dupla (muito comum na arquitetura Inca) no Coricancha
Janelas perfeitamente alinhadas no Coricancha
Paredes trapezoidais no Coricancha

Como já ficou muito grande até agora, o relato continua na semana que vem…





Chapada Diamantina

13 12 2020

Se me pedissem para montar uma lista curta de lugares imperdíveis para se conhecer no Brasil, certamente a Chapada Diamantina, na região de Lençóis, na Bahia, teria seu lugar garantido. Fiz no Carnaval de 2013 a Travessia do Vale do Paty, onde você literalmente atravessa o vale, pernoita na casa dos moradores do Parque Nacional. Casas simples, na época a maior parte delas não tinha nem energia elétrica. Um total de 90 km de caminhada ao longo da semana. Contratei para o passeio a Terra Chapada Expedições, agência pioneira do ecoturismo na região. Tentei convencer alguém a me acompanhar, mas como não consegui, acabei fechando o pacote sozinho. Teria um guia e um carregador para me acompanhar durante todo o percurso.

Região das mais bonitas do Brasil

O roteiro incluía 8 dias e 7 noites, 4 delas dentro do parque nacional. Fui de avião para Salvador, de lá peguei um ônibus para Lençóis, mas desci na cidade de Palmeiras. Lá um carro da agência estava esperando para me levar ao povoado do Guiné, onde passaria a primeira noite. Dia de viagem comprida, mais de 400 km de ônibus. Chegando lá, ainda mais um bom tempinho de carro até o Guiné.

No dia seguinte, fomos para a trilha logo após o café da manhã. Dia de entrada no parque, bastante descida e bastante calor, passando pelos belíssimos Gerais do Rio Preto, lanche com vista privilegiada do vale. Ao final da tarde, chegamos à casa do Sr. Wilson para jantar e o primeiro pernoite.

Casa do Sr Wilson, a única que tinha geladeira com cerveja gelada dentro do parque
Mochila e minha cama na casa do Sr Wilson

O que mais chama atenção na Chapada são os paredões de pedra, que me lembram bastante o Grand Canyon (que eu só vim a conhecer naquele mesmo ano, mas em julho) nos Estados Unidos, mas com muito mais verde. Portanto, menos seco e – na minha opinião – mais bonito também.

Vista do quintal do Sr Wilson no final da tarde

No segundo dia, logo após o café já fomos visitar as cachoeiras do Funil e do Lajedo, fizemos o lanche por lá, e depois fomos fazer a “escalaminhada” ao Morro do Castelo, onde há uma gruta para atravessarmos e dá uma vista impressionante do vale.

Banho na cachoeira do Lajedo
Gruta na subida do Monte Castelo
Vista do alto do Monte Castelo
Vista do alto do Monte Castelo – com minhas botas

Após a descida e subida do Morro do Castelo, fomos para a casa da Dona Lê, onde jantei e passei a segunda noite. No terceiro dia, muita caminhada, muitas vistas bonitas ao longo do Vale, e chegamos no final do dia à casa do Sr Jóia, para jantar e pernoite.

Caminhando e atravessando riachos
Média de mais de 14km por dia de caminhada
Paredões são vistos por todos os lados, ao longo da mata
Vista da janela do quarto, na casa do Sr Jóia

Dia seguinte inteiramente dedicado à caminhada ao Cachoeirão por baixo. Mais de 300 metros de cachoeira, com um poço para um banho revigorante, lanche no local, e depois de um bom tempo de contemplação, reinicia a caminhada para jantar na casa do Sr Eduardo, e pernoite na casa de Dona Linda, na minha última noite no parque.

Poço do Cachoeirão
Uma das fotos mais bonitas que tirei por lá
Muito verde e muita água, por todo o caminho
As cores vão mudando ao longo do dia, vários tons de dourado
Dias e dias caminhando, totalmente desconectado do mundo exterior

No último dia de caminhada por dentro do parque, era dia de sair do vale e subir em direção a Andaraí, no lado oposto por onde havíamos entrado quatro dias antes. Foi o dia em que o tempo ficou mais fechado, uma leve névoa de despedida que acabou proporcionando uma visão diferente do vale. Sem nenhum pingo de chuva, apenas aquela umidade abafada.

Uma última olhada antes da saída para Andaraí

Depois de vários dias caminhando longe da civilização, fiquei em Andaraí esperando meu transporte para o Vale do Capão, uma vila fora do parque, com pousadas, restaurante, banho quente, essas facilidades da vida moderna. Quando meu transporte chegou, perguntei por brincadeira se algo de muito diferente havia acontecido no mundo naqueles dias que eu não tinha ficado sabendo. A resposta foi: “O Papa renunciou!”. Fiquei espantado, nem sabia que Papa renunciava… rs E realmente fiquei sabendo da notícia com uns dias de atraso, lá no Vale as novidades demoram a chegar…

A noite no Vale do Capão foi bem agradável, se um dia voltar pra lá vou ver se me programo para ficar por ali uns dias, vila simpática, pequena e bem arrumadinha. No dia seguinte, ainda tinha no pacote uma trilha para a famosa Cachoeira da Fumaça, com 380 metros de altura, para tirar uma foto lá de cima… quem me conhece sabe o medo que tenho de altura, mas tive que tirar essa foto abaixo… nem dá pra ver a cachoeira, mas estou lá no topo dela…

Foi o mais perto da ponta que consegui chegar…

Ainda fora do parque, passei antes de ir embora por dois pontos imperdíveis: o Poço Azul e o Morro do Pai Inácio. Lugares para passar um tempo e tirar belas fotos.

Poço Azul, dá pra fazer snorkeling e almoçar por lá
Do alto do Pai Inácio, vista dos paredões da Chapada Diamantina

Foram dias daqueles que são os meus favoritos: descansar a mente cansando o corpo, desligar-se do mundo por um tempo, conectar-se com a Natureza, que é a minha forma particular de comunhão com o mundo, com a vida. Cada um tem suas preferências, coisas únicas que potencialmente lhe tragam prazer, alegria, paz. Naquelas trilhas, naqueles locais, encontrei meus momentos.

Mesmo para quem não é adepto de caminhadas, há muitos passeios, cachoeiras, trilhas de bicicleta, que podem ser explorados por ali, num dos pontos mais bonitos e mágicos desse Brasil enorme… Está certamente na lista de lugares para onde pretendo voltar… Espero que tenha gostado do post, até uma próxima!





Nepal (parte 2)

22 11 2020

E lá estávamos, no início da trilha após o passeio de que falei no post anterior, Nepal (parte 1).

Início da trilha
Animação e disposição para passar pela primeira (de muitas!) ponte na trilha

A trilha começava em torno de 1000 metros de altitude, e tínhamos 4-6 horas de caminhada até nosso primeiro alojamento em Ghorepani, que ficava a 2874m de altitude, com uma vista espetacular das montanhas da região do Annapurna, incluindo o próprio.

Ao longo do caminho, muito verde, corredeiras, rios, pontes suspensas, bastante gente na trilha. Subindo também guias com mantimentos, dentre os quais inclusive galinhas vivas em gaiolas. Uma preocupação que tive a todo momento porque tinham me avisado: ao longo do percurso, vários lugares vendem água em garrafa, supostamente mineral. Foi dito que por vezes eles acabam reaproveitando garrafas com água de torneira ou dos rios. Para evitar dissabores, sempre fazia questão de eu mesmo verificar o lacre, e não aceitamos nenhuma garrafa que viesse com o lacre aberto. A última coisa que precisaríamos seria ter algum desarranjo no meio do caminho, já pensou?

Mais uma das várias pontes
Escada de pedra, mais de 3000 degraus…
Pequenas cachoeiras ao longo do percurso
Não poderia deixar de montar meu totem de pedra, minha pequena
reverência à Natureza
Pequenas vilas ao longo da trilha

A ideia era dormir cedo, acordar às 4h da manhã para fazer uma trilha noturna até o topo Poonhill a 3210m de altitude, e ver o nascer do Sol por entre as montanhas. No alojamento não há muito o que fazer mesmo, tomar banho, comer, e ir dormir. E lá fomos nós, lanternas nas testas e nas mãos, dar boas-vindas ao Sol lá de cima.

Placa ao chegar no topo, antes do Sol nascer
Sol nascendo nas montanhas nepalesas

Lá em cima, uma banquinha vendendo chá e café, e o espetáculo da Natureza, gratuito, ia se descortinando… meu guia tirou uma foto minha sem que eu percebesse, enquanto eu estava tomando chá (limão, gengibre e mel, meu favorito na trilha). Essa foto é uma das minhas preferidas até hoje:

As melhores fotos são aquelas em momentos espontâneos, não?
Vista que compensa ter acordado às 4h
Observando as montanhas
Selfie com montanhas
Vale comemorar, claro!
Não somos os únicos malucos no mundo…
Tirar selfie é a parte fácil… difícil é chegar até ali

Depois disso, descemos a montanha, pudemos tomar o café da manhã para mais um dia de trilha, 6hs de caminhada até Tadapani, já a 2710m de altitude. Depois de Tadapani, mais três dias de caminhada: Tadapani para Ghandruk (1940m), no dia seguinte para Tolka(1790m), para no último dia descermos até Phedi(830m), onde o carro nos pegaria para levar de volta a Pokhara. Caminho de volta com muitas paisagens bonitas, mata fechada, corredeiras de água por todo o caminho. A comida nos alojamentos ao longo do caminho não variava muito, muito arroz, frango, algumas frituras típicas. Uma noite que eu não aguentava mais, pedi batatas cozidas. Elas vieram servidas com casca e tudo…

Batatas para dar uma pausa nas frituras…
Muitas plantações de arroz ao longo do caminho
Por lá também há escolas, e quadra com bela paisagem para se jogar
Essas vilas mudaram muito pouco nos últimos 100 anos
Nosso último alojamento
Com o guia e carregador, que nos acompanharam por todos os dias
Lavanderia das montanhas
Uma alpinista sul-coreano financiou uma escola como reconhecimento pela
ajuda dos sherpas pela subida a 16 montanhas no Himalaia
Finalzinho da trilha
Ponte no final da trilha

Nessa noite jantamos em Pokhara, encontramos até uns pubs e restaurantes legais, num deles inclusive havia uma garrafa de Sagatiba, e conversei com o barman se ele sabia o que era, ele disse que era uma bebida do Brasil que o chefe havia comprado. “Sabe o que fazer com ela?”. Ele disse que não, meio sem graça. Expliquei que basicamente ele podia usar como usa a vodka, mas a mais famosa bebida era com gelo, limão e açúcar.

Jantar em Pokhara
Mais uma cerveja nepalesa

No dia seguinte, pegamos o aviãozinho de volta para Kathmandu. Não havia lugar marcado na volta, então eu fiquei literalmente grudado no finger para ficar bem na frente, praticamente no cangote do piloto. Nosso último passeio em Kathmandu era um voo panorâmico para sobrevoar o Everest (já que não fomos até lá). Fomos cedo para o aeroporto, voos atrasaram porque estava muito fechado. Aí liberaram o primeiro avião (não era o nosso) para o Everest, e este informou que o tempo fechado deixou tudo sem visibilidade. Voltamos meio frustrados, mas tivemos o pagamento pelo voo devolvido. Os que foram no primeiro avião não tiveram essa sorte…

De uma maneira geral, foi uma experiência muito legal de estar tão longe de casa, física, metafórica e culturalmente falando, e estar em lugares tão únicos como aqueles. De lá fomos para o Butão, viagem que conto num próximo post. Espero que tenha gostado, até a próxima!





Nepal (parte 1)

15 11 2020
Chá quente no alto do Ghorepani, olhando para o Annapurna

Em 2014 resolvi que estava na hora finalmente de ir conhecer o Nepal. Depois da viagem para São Petesburgo, era a viagem no topo da lista de desejos. Uma viagem em que conheceria uma cultura bem diferente, distante metafórica e fisicamente do meu mundo cotidiano. Além disso, poderia fazer trilhas na região onde estão algumas das montanhas mais altas do mundo. Sem escalar nada, que não é muito a minha pegada. Peguei as dicas com a Tânia, uma amiga que conheci na viagem ao Monte Roraima, ela tinha ido ao Nepal e ao Butão algum tempo antes. Taí uma das melhores coisas de viajar bastante: conhecer pessoas com astral bom, que troquem experiências e dicas. Procurei um amigo “trilheiro” para dividir essa aventura, e o Carlos, amigo de longa data, topou a loucura.

Nos dias de preparação para a viagem, escrevi o seguinte post no Facebook:

“Preparando as coisas para a viagem, contando as horas… As pessoas têm me perguntado: “Por que Nepal?”. E a resposta tem sido: “E por que não?”… 🙂

O mundo é grande demais para conseguirmos conhecê-lo por inteiro, nossa existência por aqui é comparativamente curta demais. Dessa forma, acho que a experiência de vivenciar situações e culturas que são completamente diferente das nossas, do nosso dia-a-dia, do nosso lugar comum. A tecnologia tem tornado o mundo cada vez menor e menor, mas há algumas coisas que ainda não são transmitidas e faz-se necessário estar lá fisicamente, outros sentidos a serem exercitados, sair um pouco (ou bastante, depende do ponto de vista) da nossa zona de conforto. Ao menos para mim, isso faz parte de estar vivo e é patologicamente indispensável… E o Nepal traz tudo isso, junto com montanhas das mais altas e bonitas do mundo… e lá vamos nós… 🙂

— Setembro de 2014

Nosso último alojamento

Entrei em contato com a Maroon Treks e optamos pelo pacote de trekking Ghorepani-Poonhill, com algumas alterações. O roteiro incluiu 2 dias em Kathmandu (capital do Nepal), seguido de um voo para Pokhara (interior do país, região do Annapurna, famosa montanha), 6 dias de caminhada nas montanhas dormindo em alojamentos, depois voo de volta para Kathmandu. No dia seguinte, um voo panorâmico pelo Everest (a montanha mais alta do mundo), jantar de despedida em Kathmandu, e em seguida pegaríamos um voo para o Butão, mas aí já é uma outra estória…

A viagem de ida tinha que contar com uma conexão, não há voos diretos do Brasil para o Nepal. Acabamos escolhendo a escala em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, pela Etihad, era o voo mais em conta na época. Aí começaram os detalhes: as escalas de ida e volta seriam longas (12 e 8 horas respectivamente), então teríamos que ter um visto para pernoitar nos Emirados, num hotel pago pela companhia aérea. Fomos informados de que até existia um hotel dentro do aeroporto(se ficássemos lá não precisaríamos de visto), mas estava em reformas. Fizemos o procedimento junto à Etihad, que ficou responsável por isso. Chegando perto da data, nada do visto chegar. Dois dias antes do embarque, o meu chegou, mas o do Carlos não. Sem explicação. Então teoricamente eu poderia ir para o hotel e ele deveria ficar no aeroporto. Sem opções, embarcamos.

Depois de 14hs de voo, tendo dormido, zerado os filmes disponíveis que valiam a pena, chegamos em Abu Dhabi. Não podemos dizer que conhecemos a cidade (na verdade, cidade-Estado), só ficamos no aeroporto. Depois de ficar conversando para ver se havia alguma solução para o fato do Carlos estar sem visto, acabaram achando vagas para nós no tal hotel do aeroporto.

Entrada do hotel do aeroporto
Na mesa do quarto, indicação da direção de Meca, para rezar.

No dia seguinte, embarque para o Nepal. Chegando no aeroporto de Kathmandu, a visão completamente diferente de outros aeroportos ao redor do mundo: nenhuma mala de rodinhas, somente mochilas, e das grandes. Estávamos na capital mundial dos mochileiros, com certeza. No caso do Nepal, pagamos pelo visto lá mesmo, no aeroporto, na chegada.

Mochilões para todos os lados…

Nosso contato estava aguardando no desembarque, fomos recepcionados com colares laranjas de boas-vindas e levados direto ao Hotel, para check-in e na sequência para o escritório da agência para o briefing do pacote. À noite, fomos para o bairro turístico tomar a nossa primeira cerveja Nepalesa (dizem que feita com águas do Himalaia), a Gorkha. Lager normal, nada espetacular. Caminhamos um pouco por ali, e já percebemos o trânsito louco e sem sinalização, mão inglesa, e a simplicidade do lugar, das construções e das pessoas. Um país bem pobre, com muito pouco para se investir em infrarestrutura.

Colar nepalês de boas-vindas
Cerveja nepalesa

Dia seguinte, city tour em Kathmandu, visitando alguns dos templos mais famosos, como o templo Hindu Pasupatinath, onde pudermos ver uma arquitetura e cores totalmente diferentes do que estamos acostumados, além de vacas circulando livremente (a vaca é um animal sagrado para eles).

Entrada do Pasupatinath Temple
Detalhe da decoração no templo, com desenhos digamos,
não convencionais para costumes ocidentais, com temática sexual
Saindo do templo: nosso guia (de azul), Carlos (de branco),
além da vaquinha cujo nome desconheço

Uma coisa que impressiona a nós, ocidentais, são os rituais funerários que ocorrem nesse tempo, à margem do rio. Os corpos são preparados ali e queimados ali mesmo, sobre o concreto. Uma maneira diferente, respeitosa à maneira deles. Os mais abastados conseguem queimar seus mortos no templo, os outros o fazem fora do templo, mais abaixo ao longo do rio.

Corpo sendo preparado para ritual
Corpo sendo consumido pelas chamas, observado pelos parentes e amigos
Macaquinho morador do templo, e corpos queimando ao fundo

Um outro templo muito famoso é o Boudanath Temple, também conhecido como “Templo dos Macacos” pela quantidade absurda de macaquinhos que vivem por ali. Chama a atenção os “Olhos de Buda” no teto do templo, além das dezenas de sinos de reza (prayer bells). Lá há também um atelier-escola de desenhos de mandalas, comprei uma que mandei emoldurar aqui no Brasil e fica em casa.

Macaquinhos circulam livremente… se não cuidar do seu lanche, já era…
Prayer Bell gigante no templo Boudanath
Teto do templo Boudanath
Teto to templo Boudanath
As pessoas passam por esses sinos girando-os para fazer barulho, e entoando o mantra “Om mani padme hum” , que tenho no anel que uso até hoje
Altar no templo Boudanath

O templo é muito bonito, embora bastante sujo, principalmente por conta das oferendas que ficam lá por dias, aparentemente. De qualquer forma, é um lugar imperdível numa passagem por Kathmandu.

Outro lugar que visitamos é a Patan Durbar Square, cheio de templos menores, todos com muitas decorações em madeira esculpida (carving). Infelizmente, boa parte desses templos em Kathmandu foram seriamente danificados, alguns completamente destruídos, alguns meses após nossa visita, por causa do terremoto de 2015, conforme pode ser visto nas fotos aqui e aqui.

Patan Durbar Square
Patan Durbar Square
Patan Durbar Square
Patan Durbar Square
Detalhe de escultura em templo da Patan Durbar Square. Figuras de posições
sexuais são comumente representadas por lá.

No dia seguinte era o dia de iniciarmos a trilha, 6 dias em completo isolamento caminhando pelas montanhas. Para tanto, fomos logo cedo ao aeroporto de Kathmandu para pegar o avião para Pokhara, na região oeste do país. O terminal doméstico do aeroporto é praticamente um grande galpão, tijolos aparentes, os guichês são de plástico, tipo daqueles de feiras de negócios. Fomos pela companhia Simrik Airlines. A atendente que nos recepcionou no finger e nos acompanhou até a aeronave era a mesma do check-in. Operação bem enxuta mesmo… O avião era um bimotor de 19 lugares, sendo que as primeiras 8 fileiras tinham somente um assento de cada lado (um em cada janela), e a última tinha 3 poltronas, bem apertadas. E era nessa última fileira os nossos lugares (eu, Carlos e o guia). Foi o menor avião no qual entrei na vida. Principalmente depois de ele ficar lotado, cheio de europeus de mais de 1,80 de altura, a sensação claustrofóbica apertou… respira fundo e vamos lá…

Entrada do terminal doméstico do aeroporto de Kathmandu
Check-in da Simrik Airlines
Avião que nos levou a Pokhara
Aeroporto de Pokhara

Bom, lá estávamos prontos para iniciar a trilha, um carro estava nos aguardando no aeroporto, no próximo post conto como foi essa parte da aventura… até lá!





Monte Roraima (parte 1)

18 10 2020

Essa foi uma das trilhas mais fantásticas que fiz até hoje. 8 dias de caminhada, cerca de 11 km por dia em média, na tríplice fronteira Brasil-Venezuela-Guiana, com algumas das paisagens mais diferentes e deslumbrantes que já vi pessoalmente. Fui no Carnaval de 2011, e gostaria muito de voltar lá no futuro. O lugar é um dos poucos no planeta em que quase não há intervenção humana, tudo em um meio natural de beleza exuberante e impressionante. A geografia do local permitiu existir ali um certo isolamento do resto do mundo, o que proporcionou que algumas espécies da fauna e flora sejam endêmicas, ou seja, só existem lá e em nenhum outro lugar do mundo. É indescritível a sensação de ver o imenso paredão se aproximando, e no dia seguinte estar andando sobre uma das montanhas mais antigas da Terra. Essa montanha inclusive inspirou Sir Arthur Conan Doyle (o criador de Sherlock Holmes) a escrever seu romance O Mundo Perdido, onde uma expedição alcança um platô no meio da selva onde ainda existem dinossauros e espécies pré-históricas. Felizmente, essa parte é ficção, ou então eles se escondem muito bem…

No alto do Roraima, com seu “irmão” Kukenán ao fundo

O Monte Roraima é um platô (uma elevação, tipo um planalto no alto de um “paredão” de rocha) de mais de 30km2 de área, cerca de 1000 metros de altura e 2800 de altitude, uma área imensa para explorar. O ponto de “subida” é pelo lado venezuelano, e é possível acampar lá em cima por vários dias, em locais diferentes, de acordo com o que se programar para visitar.

A primeira coisa para uma expedição desse formato é o planejamento. Fui com uma amiga, Fabiana, e fizemos contato diretamente com um operador local, a Roraima Mystic Tours. O serviço foi excelente, embora mais recentemente vi alguns relatos de problemas com essa operadora. As operadoras brasileiras são no geral mais caras, precisam contar com algum suporte local, e no final das contas, acho que as empresas locais sempre merecem o nosso apoio, em qualquer lugar. Claro que é uma decisão pessoal, há questões de confiança, de comodidade envolvidas, etc. Por conta de problemas na economia da Venezuela, não era possível na época fazermos transferência para a reserva, a reserva foi feita “na confiança” por parte do operador local. Outra coisa importante de se decidir é que época ir. Pelo clima do local, lá chove. Sempre. Não tem muito como escapar disso. Consta, conforme nos disseram à época, que fevereiro é das épocas com menos chuva, por isso acho que o Carnaval é uma boa escolha.

Escolhemos fazer o pacote de 8 dias, sendo 2 dias de caminhada até a base do monte, subida do monte no terceiro dia, 3 noites acampando lá em cima, mais dois dias de caminhada de volta. Das coisas que vimos e que deixamos de ver, acho que 3 noites/4 dias lá em cima seria o mínimo para valer o esforço. De novo, é uma opinião pessoal.

A logística para se chegar até lá também demanda preparação, e pode ser considerado o início da aventura… Pegamos um avião em São Paulo, conexão em Manaus e descemos em Boa Vista. Pelos poucos horários de voo, chegamos em Boa Vista no início da madrugada, fomos direto para o hotel (Uiramutam Palace), para sairmos pela manhã. Na manhã seguinte fomos até a rodoviária da cidade e pegamos um táxi para nos levar até a fronteira, que fica na cidade de Pacaraima. Os taxistas de Boa Vista não tinham autorização para ir para a Venezuela, então fizemos esse trecho de pouco mais de 200km nesse táxi. Fui surpreendido positivamente pelo estado da rodovia, meus conceitos pré-estabelecidos esperavam uma estrada de terra, ou esburacada, mas é na verdade uma pista simples, mas (na época, 2011) bem cuidada, então a viagem correu sem percalços. Chegando em Pacaraima, fiz pela primeira vez na vida um cruzamento de fronteira à pé. Primeiro passamos na Polícia Federal, carimbamos os passaportes, aí caminhamos até o outro lado da fronteira, para o posto venezuelano.

Mochileiro na fronteira

Do lado venezuelano, novo carimbo no passaporte, e ficamos esperando por algum carro para nos levar até Santa Elena de Uiarén, a primeira cidade do lado de lá. Lá chegando fomos direto à agência Mystic Tours para fazer o acerto. Fomos orientados pela agência a trocar o dinheiro numa determinada rua (não nas casas de câmbio, pois as taxas eram irreais), mas para tomar cuidado, nos deram direitinho a taxa que deveríamos negociar. O dinheiro (bolivares) já estava extremamente desvalorizado, e acho que deve ter piorado bastante. O nosso pacote completo (guias, carregadores, todas as refeições, barracas, etc) saiu na época por menos de R$ 800.

No início da noite tivemos o briefing na agência para explicar como seria a expedição. Tínhamos a opção de contratar um carregador extra para nossa própria mochila (além dos carregadores que iam levar todo o equipamento e comida para todo o grupo), mas decidimos encarar sem (eu com 17 kg e Fabiana com 12 kg de mochila). Conhecemos também o resto do grupo, todos brasileiros: Tania com seu filho Khalil, Emerson amigo deles, todos de São Paulo, e Marcela e Thiago, de Boa Vista. Como sempre acontece em viagens desse tipo, um pessoal super alto astral, super gente boa, demos realmente muita sorte com o grupo. Dormimos no Hotel Michelle, indicado pela agência. Bem simples, mas com água quente, serviu bem.

Dia seguinte, turma cheia de energia, fomos levados de carro até o local de início da trilha, em Paraitepuy. O primeiro dia são 16km de caminhada quase tudo plano, e fizemos acampamento no Rio Kukenan, já com uma vista para o Monte Roraima, ainda longe. Esse ponto é o último lugar onde é possível comprar cerveja (quente!), em um pequeno quiosque mantido pelos índios, o último sinal de civilização… rs Tive que tomar uma lata ao menos. Ao montar acampamento, tempo para o banho, no rio.

Local de acampamento no Rio Kukenán
No acampamento, já com vista para o Roraima e o Kukenán

No dia seguinte, atravessamos o rio (água pelas canelas) e seguimos por mais 7km até a base da montanha. Já é um dia com bastante subida, uma bela variação de altitude, e vendo a aproximação do nosso alvo, o imenso paredão ficando cada vez maior. Tivemos sorte de não pegarmos chuva, apenas uma garoa refrescante nesses primeiros dois dias de caminhada. Bastante calor, bastante cansaço, mas com uma energia indescritível para nos prepararmos para o próximo dia, finalmente a subida ao topo.

Acampamento no pé do Roraima (à direita), e a vista para o Kukenán (ao fundo)
Vista do Monte Roraima a partir do acampamento
As nuvens ficam permanentemente cobrindo e descobrindo a montanha

Segunda noite de acampamento, mais um dia com banho de rio antes de dormir, da água que corre lá de cima do paredão. A sensação de superação e de contato total com a Natureza são coisas que me movem a fazer viagens como essa. Às vezes as pessoas veem as fotos, ouvem meus relatos e não entendem o que me move. Não sei se há explicação, mas realmente é uma parte da vida sem a qual eu não conseguiria passar, eu acho.

Gostou do relato até aqui? A parte da subida ao topo e os 3 dias de exploração lá em cima ficam para o próximo post, aguarde!

Continua no post Monte Roraima (parte 2).