Monte Roraima (parte 3 – final)

1 11 2020
Todas as botas reunidas, no alto do Maverick – ponto mais alto do Monte Roraima

Esse post é continuação da série: “Monte Roraima” – parte 1 e parte 2.

No segundo dia que passamos caminhando lá em cima do monte, visitamos alguns dos lugares mais impressionantes, com vistas inesquecíveis, certamente um dos pontos mais bonitos em que estive na vida. Existem vários pontos diferentes a serem visitados no Roraima, mas como só tínhamos 3 dias, tivemos que escolher: fomos ao mirante chamado “La Ventana” (“A janela” em espanhol), ao conjunto de piscinas naturais chamadas de “Jacuzzi”, onde rolou o banho do dia (esse foi dos melhores), e nos despedimos subindo no topo do “Maverick”, ponto mais alto do Monte Roraima, que ficava de frente ao nosso acampamento.

La Ventana é um dos pontos mais visitados, que pode proporcionar as melhores vistas e fotos, de um verdadeiro abismo incessantemente sendo coberto e descoberto pela neblina. Lá tirei algumas das melhores fotos, do abismo e do Kukenán, monte vizinho ao Roraima:

Em “La Ventana”, Kukenán ao fundo
Dá pra ver as nuvens, mas não o chão lá embaixo…
O Kukenán
O abismo é impressionante
Eu até que fiz um esforço para tentar ver o final do abismo
A sensação de estar entre as nuvens é sem igual
Não conheço a moça, era de outro grupo, mas foi uma das fotos mais bonitas que eu tirei, e ilustra a nossa pequenez diante do espetáculo da Natureza
As “jacuzzi” foram formadas pela ação do tempo ao longo dos anos
Melhor banho da viagem

Subindo para o Maverick, já no final da tarde, o tom era de despedida, pois iríamos na manhã seguinte iniciar o caminho de volta. Mas nem por isso deixou de ser divertido e com belas imagens lá de cima, a começar pelço nosso próprio acampamento:

Nosso acampamento, as barracas laranjas
Dá pra ver o local privilegiado e isolado em que acampamos

Chegando lá em cima, estava chovendo e com neblina pesada. Ficamos lá esperando melhorar, e fomos recompensados, com direito a árco-íris inclusive.

Vista do alto do Maverick
Sensação de missão cumprida, e gostinho de quero mais
Antes de ir embora, um totem de pedra como sinal de respeito e agradecimento

No dia seguinte, levantamos acampamento e descemos a montanha, mais uma vez sob chuva (que ficou indo e vindo todos os dias em que estávamos lá em cima, não podia ser diferente na descida), e fizemos uma caminhada longa, pois iríamos acampar na margem do Kukenan, o local do primeiro acampamento da caminhada da vinda (o último lugar com cerveja, lembra?). Nesse dia a caminhada ficou mais chata e com menos fotos por conta da chuva, e teve o que foi o momento mais tenso de toda a viagem: o Rio Kukenan, que atravessamos tranquilamente na ida, estava muito cheio, sem termos como passar. Ficamos junto com vários grupos até a água baixar e termos condição de passar com o auxílio de cordas. Ficamos bastante tempo, e acabamos iniciando a travessia com o rio ainda alto, mas para evitar passar a noite daquele lado do rio, onde não havia muito espaço para acampar todos os grupos.

Mesmo nos momentos tensos, o negócio é dar risada… certo?
Pra completar, uma cascavel no meio da trilha, após passarmos o rio

Aqui vale um comentário sobre o grupo de guias que estava conosco: eles permaneceram dando ajuda a todos os outros grupos, só saímos do rio quando todos haviam passado. Já outros guias acabaram deixando alguns pra trás e já se adiantaram para montar o acampamento, que ficava a uns 200, 300 metros dali. A noite já estava começando, ficando escuro, e inclusive ajudamos alguns “perdidos” de outros grupos que ficaram pra trás. Acabamos ficando com os “piores” locais para armar as barracas, justamente porque nossos guias ficaram por último. Prefiro um grupo de guias que preze pela segurança em primeiro lugar, sempre.

Depois da tensão da travessia, hora de celebrar a nossa última noite de acampamento. Dessa vez não pedi uma cerveja só não, já pedimos 2 caixas e dividimos com o grupo de guias na comemoração, com cerveja quente mesmo:

Turma na última noite, já acampando no caminho de volta
Último amanhecer na trilha, desmontando acampamento
A mochila, companheira da caminhada toda, com o Kukenán ao fundo

O último dia de caminhada teve (mais uma vez!) chuva, muita chuva. Os caminhos pelos quais viemos estavam bem diferentes, alguns até viraram pequenos cursos d’água ou corredeiras. Vários tombos, caminhando com cuidado, devagar… ao final o tempo abriu e me permitiu tirar uma bela foto do final da trilha:

“Cuide hoje, para que possa voltar amanhã”, diz a placa no final da trilha

E assim foi… um lugar mágico, com paisagens únicas, diferentes de quaisquer outras em qualquer outro lugar do mundo. Lugar quase mágico, que me deixou com uma sensação de querer voltar um dia. A caminhada pesada, o esforço que fez parte de toda essa experiência, tudo isso soma ainda uma sensação de superação, de ter cumprido uma jornada grande, que precisou contar com nossos próprios esforços físicos.

E se alguém se empolgou e quer montar uma expedição pra lá, pode me chamar, quem sabe já não é hora de conseguir voltar pra lá? Já se vão quase 10 anos…





Monte Roraima (parte 1)

18 10 2020

Essa foi uma das trilhas mais fantásticas que fiz até hoje. 8 dias de caminhada, cerca de 11 km por dia em média, na tríplice fronteira Brasil-Venezuela-Guiana, com algumas das paisagens mais diferentes e deslumbrantes que já vi pessoalmente. Fui no Carnaval de 2011, e gostaria muito de voltar lá no futuro. O lugar é um dos poucos no planeta em que quase não há intervenção humana, tudo em um meio natural de beleza exuberante e impressionante. A geografia do local permitiu existir ali um certo isolamento do resto do mundo, o que proporcionou que algumas espécies da fauna e flora sejam endêmicas, ou seja, só existem lá e em nenhum outro lugar do mundo. É indescritível a sensação de ver o imenso paredão se aproximando, e no dia seguinte estar andando sobre uma das montanhas mais antigas da Terra. Essa montanha inclusive inspirou Sir Arthur Conan Doyle (o criador de Sherlock Holmes) a escrever seu romance O Mundo Perdido, onde uma expedição alcança um platô no meio da selva onde ainda existem dinossauros e espécies pré-históricas. Felizmente, essa parte é ficção, ou então eles se escondem muito bem…

No alto do Roraima, com seu “irmão” Kukenán ao fundo

O Monte Roraima é um platô (uma elevação, tipo um planalto no alto de um “paredão” de rocha) de mais de 30km2 de área, cerca de 1000 metros de altura e 2800 de altitude, uma área imensa para explorar. O ponto de “subida” é pelo lado venezuelano, e é possível acampar lá em cima por vários dias, em locais diferentes, de acordo com o que se programar para visitar.

A primeira coisa para uma expedição desse formato é o planejamento. Fui com uma amiga, Fabiana, e fizemos contato diretamente com um operador local, a Roraima Mystic Tours. O serviço foi excelente, embora mais recentemente vi alguns relatos de problemas com essa operadora. As operadoras brasileiras são no geral mais caras, precisam contar com algum suporte local, e no final das contas, acho que as empresas locais sempre merecem o nosso apoio, em qualquer lugar. Claro que é uma decisão pessoal, há questões de confiança, de comodidade envolvidas, etc. Por conta de problemas na economia da Venezuela, não era possível na época fazermos transferência para a reserva, a reserva foi feita “na confiança” por parte do operador local. Outra coisa importante de se decidir é que época ir. Pelo clima do local, lá chove. Sempre. Não tem muito como escapar disso. Consta, conforme nos disseram à época, que fevereiro é das épocas com menos chuva, por isso acho que o Carnaval é uma boa escolha.

Escolhemos fazer o pacote de 8 dias, sendo 2 dias de caminhada até a base do monte, subida do monte no terceiro dia, 3 noites acampando lá em cima, mais dois dias de caminhada de volta. Das coisas que vimos e que deixamos de ver, acho que 3 noites/4 dias lá em cima seria o mínimo para valer o esforço. De novo, é uma opinião pessoal.

A logística para se chegar até lá também demanda preparação, e pode ser considerado o início da aventura… Pegamos um avião em São Paulo, conexão em Manaus e descemos em Boa Vista. Pelos poucos horários de voo, chegamos em Boa Vista no início da madrugada, fomos direto para o hotel (Uiramutam Palace), para sairmos pela manhã. Na manhã seguinte fomos até a rodoviária da cidade e pegamos um táxi para nos levar até a fronteira, que fica na cidade de Pacaraima. Os taxistas de Boa Vista não tinham autorização para ir para a Venezuela, então fizemos esse trecho de pouco mais de 200km nesse táxi. Fui surpreendido positivamente pelo estado da rodovia, meus conceitos pré-estabelecidos esperavam uma estrada de terra, ou esburacada, mas é na verdade uma pista simples, mas (na época, 2011) bem cuidada, então a viagem correu sem percalços. Chegando em Pacaraima, fiz pela primeira vez na vida um cruzamento de fronteira à pé. Primeiro passamos na Polícia Federal, carimbamos os passaportes, aí caminhamos até o outro lado da fronteira, para o posto venezuelano.

Mochileiro na fronteira

Do lado venezuelano, novo carimbo no passaporte, e ficamos esperando por algum carro para nos levar até Santa Elena de Uiarén, a primeira cidade do lado de lá. Lá chegando fomos direto à agência Mystic Tours para fazer o acerto. Fomos orientados pela agência a trocar o dinheiro numa determinada rua (não nas casas de câmbio, pois as taxas eram irreais), mas para tomar cuidado, nos deram direitinho a taxa que deveríamos negociar. O dinheiro (bolivares) já estava extremamente desvalorizado, e acho que deve ter piorado bastante. O nosso pacote completo (guias, carregadores, todas as refeições, barracas, etc) saiu na época por menos de R$ 800.

No início da noite tivemos o briefing na agência para explicar como seria a expedição. Tínhamos a opção de contratar um carregador extra para nossa própria mochila (além dos carregadores que iam levar todo o equipamento e comida para todo o grupo), mas decidimos encarar sem (eu com 17 kg e Fabiana com 12 kg de mochila). Conhecemos também o resto do grupo, todos brasileiros: Tania com seu filho Khalil, Emerson amigo deles, todos de São Paulo, e Marcela e Thiago, de Boa Vista. Como sempre acontece em viagens desse tipo, um pessoal super alto astral, super gente boa, demos realmente muita sorte com o grupo. Dormimos no Hotel Michelle, indicado pela agência. Bem simples, mas com água quente, serviu bem.

Dia seguinte, turma cheia de energia, fomos levados de carro até o local de início da trilha, em Paraitepuy. O primeiro dia são 16km de caminhada quase tudo plano, e fizemos acampamento no Rio Kukenan, já com uma vista para o Monte Roraima, ainda longe. Esse ponto é o último lugar onde é possível comprar cerveja (quente!), em um pequeno quiosque mantido pelos índios, o último sinal de civilização… rs Tive que tomar uma lata ao menos. Ao montar acampamento, tempo para o banho, no rio.

Local de acampamento no Rio Kukenán
No acampamento, já com vista para o Roraima e o Kukenán

No dia seguinte, atravessamos o rio (água pelas canelas) e seguimos por mais 7km até a base da montanha. Já é um dia com bastante subida, uma bela variação de altitude, e vendo a aproximação do nosso alvo, o imenso paredão ficando cada vez maior. Tivemos sorte de não pegarmos chuva, apenas uma garoa refrescante nesses primeiros dois dias de caminhada. Bastante calor, bastante cansaço, mas com uma energia indescritível para nos prepararmos para o próximo dia, finalmente a subida ao topo.

Acampamento no pé do Roraima (à direita), e a vista para o Kukenán (ao fundo)
Vista do Monte Roraima a partir do acampamento
As nuvens ficam permanentemente cobrindo e descobrindo a montanha

Segunda noite de acampamento, mais um dia com banho de rio antes de dormir, da água que corre lá de cima do paredão. A sensação de superação e de contato total com a Natureza são coisas que me movem a fazer viagens como essa. Às vezes as pessoas veem as fotos, ouvem meus relatos e não entendem o que me move. Não sei se há explicação, mas realmente é uma parte da vida sem a qual eu não conseguiria passar, eu acho.

Gostou do relato até aqui? A parte da subida ao topo e os 3 dias de exploração lá em cima ficam para o próximo post, aguarde!

Continua no post Monte Roraima (parte 2).