Ensaio sobre a cegueira, em tempos de Covid…

9 08 2020

São raros os casos em que eu leio um livro, depois vejo o filme baseado nele, e o filme me surpreende positivamente. Esse foi um caso que fiz questão de assistir ao filme logo que foi lançado, há bastante tempo, em 2008. Escrevi a respeito no meu blog antigo, na época, e agora, 12 anos depois, no meio de uma pandemia, achei interessante revisitar esse assunto.

Quando ouvi que o livro seria adaptado para o cinema, fiquei extremamente curioso . Esse era um livro cuja adaptação para o cinema seria extremamente complexa e poderia ter um resultado muito ruim. Mas, para minha feliz surpresa, o diretor Fernando Meirelles conseguiu traduzir em grande parte a crueza do livro, amenizando em algumas, contando com uma fotografia muito boa e acabou na minha opinião com um resultado final bem interessante.

Foi o primeiro livro que li do Saramago, se não me engano. Um livro extremamente forte, denso, nas palavras do próprio autor:

“Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso.”

Realmente o livro narra uma situação angustiante, onde uma espécie de doença que deixa as pessoas cegas, de uma hora pra outra. Mas não é uma estória a respeito da doença em si, mas uma estória a respeito da perda da dignidade humana, em um cenário extremo onde numa pandemia se perdem as noções de humanidade, empatia, sociedade, onde instintos básicos, selvagens de sobrevivência afloram e os personagens passam a se aproximar muito mais de animais do que ao que costumamos entender por seres humanos.

Como sempre, estórias fortes e densas despertam reações, algumas vezes com razão, e em outras de maneira desproporcional e – por que não dizer – despropositada. Na época do lançamento, a Federação Nacional de Cegos dos EUA protestou e promoveu boicote ao filme. Acabaram associando as barbáries do filme, perpetradas por cegos, como uma tentativa de estereótipo. Mas qualquer um que consiga entender que o filme não é sobre a cegueira, não é sobre a doença, é sobre a perda da nossa humanidade, saberia dizer que não há motivos para tal interpretação.

Cena do filme de Fernando Meirelles (fonte: divulgação)

Trazendo um paralelo para a pandemia que nos foi apresentada em 2020, eu continuo achando que situações extremas nos trazem o que há de melhor e pior dentro de cada um de nós. O funcionário público de alto escalão que dá a “carteirada”, os “cidadãos de bem” que desrespeitam agentes públicos e trabalhadores, essas pessoas sempre existiram, e suas posturas e atitudes não são novas, só foram amplificadas pela situação. Acredito fortemente que independentemente de religião, posição política, social, ou qualquer outro motivo, devemos respeito ao próximo, e sempre fazermos o exercício de nos colocarmos no lugar do outro. Além da pandemia da COVID-19, acho que há também uma pandemia silenciosa de cegueira. Não aquela cegueira física retratada por Saramago, mas uma cegueira seletiva metafórica, que impede algumas pessoas de enxergarem a noção do que é sermos humanos, no sentido mais amplo da palavra… Que venham tempos melhores por aí…





Factfulness (livro)

12 07 2020

“10 razões pelas quais você está errado sobre o mundo – e por que as coisas estão melhores do que você pensa”, assim diz o subtítulo original desse livro. Quase uma ode ao otimismo, “O hábito libertador de só ter opiniões baseadas em fatos”, diz a versão traduzida.

Li esse livro em 2018, atraído por uma notícia que estavam falando muito bem do dito cujo. Ainda não havia a versão em português, então acabei lendo no original. O autor, o sueco Hans Rosling, faleceu antes de ter terminado esse livro, que foi finalizado por seu filho e sua nora (se não me engano), e ele tem uma TED Talk de muito sucesso. Ele era médico, pesquisava e ensinava Saúde Pública e tornou-se um grande estudioso e entusiasta de dados e estatísticas.

Ele tem um teoria interessante que diz que, no geral, as pessoas tendem a ser muito pessimistas em relação ao mundo, por várias razões: visão enviesada e limitada, dados desatualizados (o mundo mudou desde que entramos na escola, certo?), notícias enviesadas (notícia ruim vende muito mais!), e a nossa tendência de usar a intuição, que acaba por enviesar ainda mais nossas opiniões. Um exercício básico que ele faz no livro é o seguinte: para qualquer pergunta com 3 alternativas a um grupo de tamanho estatisticamente significativo, um sorteio aleatório de respostas mostraria que cada resposta irá obter um terço (33%) das escolhas. Aleatoriamente, um grupo de chimpanzés (ou qualquer outro animal) teria 33% de acerto, qualquer que fosse a questão. No caso dele, ele sempre usa o hipotético “resultado dos chimpanzés” como referência.

Ao fazer questões a diversas plateias qualificadas ao redor do mundo em palestras, invariavelmente as pessoas acertavam menos do que os chimpanzés. Perguntas sobre índices de vacinação, escolaridade, renda, violência, economia… Raramente chegavam a mais de 20% de acerto, qualquer que fosse o público em questão. E a resposta do público era invariavelmente pessimista, pior do que a realidade. Achei um ponto de vista interessante. O mundo, se olharmos de uma perspectiva macro, considerando a população inteira de mais de 7 bilhões (e creio que a China tem um peso grande nisso), tem estatisticamente melhorado, os dados provam isso, não se questiona.

Porém, isso não significa que não haja populações inteiras, centenas de milhões de pessoas, em situação precária, seja do ponto de vista de acesso a serviços básicos de saúde e educação, perspectivas de melhoria de vida para seus descendentes ou mesmo comida e água para sobreviver. Imagino como pessoas que sofrem hoje a esse nível receberiam a notícia de que pesquisadores chegaram à conclusão de que o mundo está melhorando. Doenças foram erradicadas, expectativa de vida idem, evoluções tecnológicas trazem coisas que melhoram a nossa vida. Mas não são para todos.

Na minha opinião, analisar dessa maneira faz sentido sob algum ponto de vista, mas as conclusões são bem limitadas, não consigo afirmar que estamos evoluindo enquanto sociedade, enquanto civilização. Dados do início de 2020 indicam que 2 mil pessoas no mundo têm mais dinheiro do que os 60% (mais de 4 bilhões de pessoas) mais pobres (estudo original em inglês – matéria em português). Toda essa concentração tem aumentado ao longo do tempo, é absurda e sem sentido, mas nos acostumamos a ela. Nós nos acostumamos quando a enxergamos pelas janelas dos carros, quando olhamos além dos limites dos condomínios. E nesse ano, devido à pandemia, temos grandes chances de sairmos piores ainda nesse sentido. Acho que antes de dizer que estamos melhorando, precisamos aprender não somente a nos indignar mais, mas a possibilitar a implementação de políticas de Estado de proteção social de longo prazo, local e globalmente. E isso não pode esperar. A velha falácia de “primeiro aumentar o bolo, para depois dividi-lo” exige uma espera que quem sofre, quem tem fome, não pode esperar. Não há essa possibilidade. Eventualmente um modelo de ruptura possa nascer, como sugere esse artigo “A alternativa para os próximos 20 anos é uma forma sustentável de capitalismo, que não será vista como capitalismo“. A conferir.

Concluindo, o livro e o ponto de vista nos trazem dados e argumentos, que nos trazem esperança, mas acho que precisam nos fazer pensar. Números podem trazer grandes informações, mas também podem esconder grandes verdades, dependendo de como forem vistos…