Às vésperas dos 50…

23 08 2026
Imagem trabalhada com ajuda da IA.

Recentemente, numa conversa com uma das minhas sobrinhas sobre livros que eu estava recomendando para ela ler nas férias, acabei revisitando mentalmente algumas leituras da adolescência. Entre elas, voltaram Richard Bach, Fernão Capelo Gaivota, Ilusões, A Ponte para o Sempre e, especialmente, Um. Nesse último, há uma imagem que ficou guardada comigo por anos: a de um voo sobre linhas imaginárias, que poderiam ser rios ou estradas, representando metaforicamente caminhos que teríamos tomado ao longo da vida, que se bifurcam infinitamente, como se cada decisão abrisse um caminho possível e, ao mesmo tempo, fechasse outros.

Talvez essa imagem tenha voltado agora porque estou às vésperas dos cinquenta anos, que completo em novembro. É apenas um número, claro, mas seria desonesto dizer que ele não carrega um simbolismo. Com ele, vem também uma constatação difícil de ignorar: muito provavelmente, o tempo que tenho pela frente é menor do que o tempo que já deixei pra trás. Não é desespero, é uma lucidez nova. Essa percepção fica ainda mais forte quando olho ao redor. Amigos de muitos anos começam a perder seus pais, pessoas próximas passam por doenças relacionadas à idade, despedidas, mudanças duras de rota. Alguns amigos eu mesmo perdi ao longo do caminho. Há uma fase da vida em que o tempo deixa de ser calendário e vira falta. E isso torna tudo mais concreto.

Ao mesmo tempo, quando olho para trás, percebo o quanto fui agraciado, ou abençoado, no sentido mais amplo e menos religioso possível – até mesmo porque sigo sendo ateu agnóstico. Isso justamente por ter podido fazer escolhas em muitos momentos da minha vida. Muita gente não tem essa margem: é empurrada pelas circunstâncias, pela falta de oportunidade, pela urgência da sobrevivência. Eu, com todos os medos e limitações, com um início de vida com alguma dificuldade, mas sempre com muito apoio da família, pude escolher muitas vezes. E escolher também é arcar com as consequências. Algumas me levaram por caminhos mais leves, outras por caminhos mais duros, e todas vão igualmente trilhando o caminho…

Algumas dessas escolhas eu talvez não repetisse. Mas todas elas fazem parte do percurso e do que me tornei hoje. Penso então naquele adolescente que sofreu como se cada dor fosse definitiva. Lembro de decepções, vergonhas, amores terminados, cartas dramáticas e hoje algumas dessas dores parecem menores, mas não eram pequenas para quem eu era naquele momento. Por isso não olho para trás com deboche, olho com ternura. Aquele menino também sou eu. E as dores que passaram e as que ficaram, os erros, os acertos, as cicatrizes que ficaram em mim e que acabei deixando em pessoas ao longo do caminho… Tudo isso foi ajudando a formar quem eu sou. Talvez este texto seja uma revisitação de coisas que já tentei elaborar antes, nesse mesmo blog, aqui, aqui e aqui. O tempo que não existe no depois, as escolhas que não podem ser refeitas, as perdas que transformam presença em memória. Eu poderia ter sido outro, mas eu sou este resultado dessas bifurcações. E, do alto dos quase cinquenta anos, com defeitos, virtudes e algumas cicatrizes, consigo olhar para o caminho percorrido com gratidão. Há muito que ficou para trás, sim, mas ainda há estrada. Ainda há escolhas. Ainda há vida a ser vivida.





Meritocracia

4 09 2022
Imagem daqui

Meritocracia. Segundo o dicionário, significa “Forma de administração cujos cargos são conquistados segundo o merecimento, em que há o predomínio do conhecimento e da competência”.

Parece um belo conceito, justo, segundo o qual quem merece mais, recebe mais. Seja na vida, seja na escola, seja no trabalho. Fez por merecer, levou. Não conseguiu? Então não se esforçou o suficiente. Mais justo, impossível. Isso seria verdade, ou poderia ser verdade, se as condições iniciais dadas a todos fossem rigorosamente iguais. Será que são?

Fazia bastante tempo que eu estava pensando em escrever algo a respeito. O que me levou a escrever agora foi um fato que ocorreu há algumas semanas. Em um grupo de WhatsApp do qual faço parte alguém chamou a atenção para uma matéria: “Estudante rejeita herança de R$ 22 bilhões: ‘Não poderia ser feliz'”. O que me chocou foram os comentários no grupo: “Que estúpida!”, “Pega o dinheiro e gasta, faz qualquer coisa, monta um museu…”. Fui ler a matéria.

Resumidamente, uma moça rejeitou uma fortuna que a avó desejava deixar para ela, porque ela disse que não poderia receber tamanha quantidade de dinheiro, não se sentia confortável por não ter feito nada para “merecer”, apenas pelo fato de ter nascido numa família bilionária. A moça não fez voto de pobreza, veja bem, ela tem bastante dinheiro, vive uma vida extremamente confortável, e teria abdicado de “apenas” 90% da herança equivalente a R$22 bilhões, ou seja, ainda aceitaria receber cerca de R$ 2.2 bilhões. Por uma questão de MERECIMENTO, ou MÉRITO, do ponto de vista dela, ela não merecia aquele dinheiro. A moça, ainda segundo a mesma matéria, faz parte de um grupo organizado de herdeiros multimilionários que defendem o aumento de impostos para os mais ricos, e me pareceu uma pessoa preocupada com a desigualdade entre as pessoas na sociedade.

Aquilo me pareceu uma questão de visão de mundo com a qual não estamos acostumados a conviver. A nossa sociedade nos acostuma a ver o acúmulo de dinheiro e de bens como um objetivo de todos, para muito além das nossas necessidades. Ao longo do tempo, foi se formando um abismo social, onde as pessoas que possuem muito dinheiro tem mais facilidade para conseguir mais e mais dinheiro, enquanto a imensa maioria das pessoas que têm pouco ou quase nada não têm nenhuma facilidade ou oportunidade para progredir, por mais que se esforcem. Esse estudo da OCDE (Organização pela Cooperação e Desenvolvimento Econômico) mostra que uma família que está entre os 10% mais pobres demora 5 gerações em média para atingir o nível das mais ricas. Ou seja, se você nasce pobre e você, seu filho, seu neto, seu bisneto, seu trineto e seu tataraneto se esforçarem, o filho do seu tataraneto pode nascer em uma família entre as mais ricas. Note que isso é uma média, então, para cada exceção que consegue antecipar várias gerações, há outros tantos que demoram bem mais… O país onde esse tempo é menor é a Dinamarca, onde se levam 2 gerações em média. No Brasil, levam-se 9 gerações. Nos Estados Unidos, “terra das oportunidades”, 5 gerações.

Isto posto, será que realmente faz sentido falar em meritocracia? Nós, enquanto sociedade, estamos fazendo algo para dar condições mínimas de igualdade? Podemos fazer muito nesse sentido, mas aqueles que detêm o poder não fazem, não se interessam por isso. Fico muito incomodado com análises simplistas como aquelas que em geral aparecem nos grupos de WhatsApp, como foi o caso que contei. Eu acabei me lembrando de uma história em quadrinhos (tradução retirada daqui) que reproduzo abaixo:

Vejam bem, nada contra as pessoas que aproveitam as oportunidades, que batalham, que conquistam espaços que em tese poderiam ser de outros. O que incomoda é que pessoas que recebem privilégios, por quaisquer motivos, não enxerguem isso e achem que tudo foi por conta da tal da meritocracia…





O último grande influenciador analógico

14 08 2022
TV Globo/Zé Paulo Cardeal

Tendo passado mais de uma semana do falecimento de Jô Soares, agora já me sinto um pouco mais à vontade para escrever sobre ele. Não gosto de opinar sobre coisas quando todo mundo está falando a respeito, eu geralmente me sinto mais confortável depois de um certo distanciamento temporal, sei lá. Mesmo escrevendo aqui sem grandes pretensões, via de regra prefiro refletir um tanto antes de escrever.

O próprio Jô assinou uma “carta aberta” há alguns anos atrás como “Influenciador analógico”. Liberdade poética para o uso do “analógico” em contraposição ao “digital”, querendo dizer que era das antigas, não tinha redes sociais, e isso tem um significado bastante interessante, eu acho. Jô sempre foi conhecido e elogiado por ser alguém culto, antenado, inteligente, embora – não sei se muitos sabem – não ter nenhuma formação superior. Mas ele era um leitor ávido, um curioso sobre tudo, que ia atrás de se informar profundamente sobre qualquer assunto que lhe interessava. Poliglota, viajado, conhecia e sabia conversar e opinar, portanto, sobre vários e vários assuntos. Por que então ele se manteve “analógico”, há mais de 5 anos depois que seu programa saiu do ar, seguia escrevendo, produzindo, mas perdeu a visibilidade digamos assim, popular, que ele tinha?

Acredito que isso tenha a ver com o nosso mundo atual, dito “digital”. Nesse mundo a informação é rápida, fugaz, superficial, ninguém mais se interessa por entender algo em profundidade, qualquer pessoa sem nenhuma bagagem – e aqui nem restrinjo à bagagem acadêmica – consegue ter uma visibilidade, milhões e milhões de seguidores, tornar-se “influenciador” e muitas vezes propagar desinformação, bobagens, e conseguir ganhar um espaço e relevância que seriam impensáveis em outros tempos. Vídeos e podcasts que podem ser acelerados para ganhar tempo, tornando qualquer um “especialista” em qualquer assunto em pouco tempo. Conteúdo não vende, o que vende é praticidade, velocidade, tempo… Não há mais espaço, hoje, para uma conversa mais profunda, embasada, essa geração já foi, ficou no passado, nos primeiros anos do século… A era da informação imediata nos trouxe acesso praticamente ilimitado a todo o conhecimento gerado no mundo ao longo de séculos, e isso seria potencialmente transformador para que as pessoas – e a sociedade como um todo, em consequência – ficassem mais cultas, com mais sabedoria, certo? Mas não foi isso que aconteceu, muito pelo contrário… Não há mais espaço para pessoas como Jô Soares, um “exibido assumido”, como ele próprio dizia, cujas conversas e intervenções não caberiam num “fio” de Twitter, num vídeo curto do TikTok, YouTube ou Instagram… O formato hoje limita, pede pelo “empacotamento” e pela velocidade, e a superficialidade como consequência. Hoje é isso que vende, e quem quer ou precisa vender precisa fazer nesse formato, dessa maneira…

O mundo de hoje está melhor por conta disso? Eu particularmente acredito que não… Tive o privilégio de conviver com meu avô, um exemplo de cultura geral e bagagem de conhecimento como poucos, e de certa forma minha formação enquanto ser humano foi bastante impactada por isso. Hoje vejo pessoas terminando o curso superior – o que em tese lhes colocaria no nível da elite intelectual do país – que não leem, não se informam ou não se preocupam em se informar, selecionam somente as informações que lhes chegam pelas redes sociais – cujos algoritmos não primam nem um pouco pela pluralidade de fontes, muito pelo contrário, criam bolhas – e vão formando assim a nossa sociedade dita “digital”.

Paradoxalmente, esse mundo não precisa dos velhos influenciadores “analógicos”, com conteúdo, ao mesmo tempo que nunca tivemos tanta necessidade deles, na minha opinião. O mundo precisa de novos Jô Soares, mas não damos espaço a eles…





Hibernação

24 07 2022

Hibernação. Segundo o dicionário, “Estado de inatividade com diminuição do metabolismo de certos animais durante o inverno, período em que suas reservas de alimentação são utilizadas.”. Período em que alguns animais praticamente “desligam” a maior parte das atividades corporais para poderem sobreviver durante um período de privação de alimentos, notadamente o inverno. E quando se fala de hibernar, normalmente o que nos vem à mente são os ursos…

Urso polar hibernando. Foto: Coffeemill / Shutterstock.com

Esse pode ser considerado o estado desse blog. Voltando para dar notícias após 273 dias, praticamente 9 meses inteiros em estado de dormência, como que economizando energia, juntando forças para um eventual retorno após o “inverno”. Tudo bem que nesse caso o tal inverno começou na primavera e atravessou um verão e um outono inteiros, mas acredito que consegui passar a ideia da metáfora. Ao menos espero ter conseguido.

Nesses últimos tempos, na verdade desde meu aniversário de 45 anos em novembro passado, acabei por deixar um pouco de lado esse espaço em detrimento de outras prioridades, como o trabalho, família, estudar e ler sobre coisas diferentes, terminar uma pós graduação e começar a pensar em seguir uma segunda carreira paralela, ideia que brotou no ano passado e sobre a qual ainda pretendo falar em breve, depois de amadurecer um pouco mais as coisas.

Mas o fato é que esse espaço nunca foi encarado por mim como obrigação, era muito mais um espaço de prazer que pretendo retomar, provavelmente com a frequência semanal que consegui manter no primeiro ano dele, vamos ver como as coisas irão evoluir daqui em diante.

Espero poder continuar com esse espaço e com a presença de vocês, que ainda se dão ao trabalho de vir aqui para saber no que ando pensando… agradeço por ter lido até aqui, aguardem os próximos posts…





Fome de poder (Filme)

24 10 2021
imagem daqui

Esse é um filme bem interessante, que conta a “verdadeira história do McDonald’s”: dois irmãos (os irmãos McDonald) que tinham uma pequena lanchonete e inventaram o conceito de fast food, trazendo os conceitos da produção em série adotados na indústria, e que em se tratando de restaurantes, era algo inédito na época.

Acontece que os irmãos não estavam muito interessados em expandir a rede, e um vendedor de equipamentos (Ray Kroc) para restaurantes se encantou com o sistema, e ficou bastante interessado em entrar como sócio e expandir a rede. Num primeiro momento os irmãos não queriam, mas acabaram cedendo pela insistência dele. Eles acabam montando com ele um contrato extremamente cauteloso, onde Kroc não poderia tomar praticamente nenhuma decisão sem o aval dos irmãos. Or irmãos queriam manter o controle sobre os processos, a qualidade, e estavam preocupados com o crescimento que poderia descaracterizar o estabelecimento e seus produtos. Kroc aceita e começa a expandir a rede. Com o passar do tempo, ele tem muitas ideias para otimizar o negócio, aumentar as margens e acelerar a expansão, mas todas elas são bloqueadas pelos irmãos. Ao longo do tempo ele acaba percebendo que poderia ganhar mais dinheiro com os aluguéis dos terrenos onde as unidades do McDonald’s funcionavam do que com a venda de lanches. Ele foi fazendo mais e mais dinheiro com essa abordagem, até o momento em que se sentiu com poder suficiente para “peitar” os irmãos e passou a implementar decisões sem consultá-los. Ao ficarem sabendo, os irmãos o ameaçam de processo por desrespeitar cláusulas do contrato, ao que ele responde dizendo que ele era muito maior do que eles agora, e que eles jamais ganhariam um processo assim. Xeque-mate.

Ao perceber o que havia acontecido, os irmãos acabam aceitando um acordo onde eles recebem 2.7 milhões de dólares (um valor extremamente baixo para o tamanho e potencial do negócio) e 0.5% de participação nos lucros. Só que essa participação foi feita num acordo verbal, e os irmãos jamais receberam essa porcentagem ou qualquer participação nos lucros da rede.

Uma coisa que me chamou a atenção foram os comentários bastante diferentes a respeito do filme. Como é um filme que conta uma história real, acaba cometendo exageros e omissões, e por vezes enviesado sob um determinado ponto de vista. Vi comentários exaltando a capacidade de visão empreendedora do Ray Kroc, outros comentários falando da falta de caráter e ética dele e da ingenuidade dos irmãos McDonald. Há ainda os que veem na história um exemplo do pior que o capitalismo “selvagem” faz com as pessoas. Na minha opinião, considerando o que foi mostrado no filme e uma ou outra coisa que li a respeito posteriormente, acho que Kroc ultrapassou por várias vezes o limite do que eu considero aceitável em relações de negócios e mesmo pessoais.

De qualquer forma, é um filme interessante sobre a formação de uma das marcas mais valiosas e famosas criadas no século passado. Hoje, esse filme está disponível somente na HBOMax.