Nepal (parte 1)

15 11 2020
Chá quente no alto do Ghorepani, olhando para o Annapurna

Em 2014 resolvi que estava na hora finalmente de ir conhecer o Nepal. Depois da viagem para São Petesburgo, era a viagem no topo da lista de desejos. Uma viagem em que conheceria uma cultura bem diferente, distante metafórica e fisicamente do meu mundo cotidiano. Além disso, poderia fazer trilhas na região onde estão algumas das montanhas mais altas do mundo. Sem escalar nada, que não é muito a minha pegada. Peguei as dicas com a Tânia, uma amiga que conheci na viagem ao Monte Roraima, ela tinha ido ao Nepal e ao Butão algum tempo antes. Taí uma das melhores coisas de viajar bastante: conhecer pessoas com astral bom, que troquem experiências e dicas. Procurei um amigo “trilheiro” para dividir essa aventura, e o Carlos, amigo de longa data, topou a loucura.

Nos dias de preparação para a viagem, escrevi o seguinte post no Facebook:

“Preparando as coisas para a viagem, contando as horas… As pessoas têm me perguntado: “Por que Nepal?”. E a resposta tem sido: “E por que não?”… 🙂

O mundo é grande demais para conseguirmos conhecê-lo por inteiro, nossa existência por aqui é comparativamente curta demais. Dessa forma, acho que a experiência de vivenciar situações e culturas que são completamente diferente das nossas, do nosso dia-a-dia, do nosso lugar comum. A tecnologia tem tornado o mundo cada vez menor e menor, mas há algumas coisas que ainda não são transmitidas e faz-se necessário estar lá fisicamente, outros sentidos a serem exercitados, sair um pouco (ou bastante, depende do ponto de vista) da nossa zona de conforto. Ao menos para mim, isso faz parte de estar vivo e é patologicamente indispensável… E o Nepal traz tudo isso, junto com montanhas das mais altas e bonitas do mundo… e lá vamos nós… 🙂

— Setembro de 2014

Nosso último alojamento

Entrei em contato com a Maroon Treks e optamos pelo pacote de trekking Ghorepani-Poonhill, com algumas alterações. O roteiro incluiu 2 dias em Kathmandu (capital do Nepal), seguido de um voo para Pokhara (interior do país, região do Annapurna, famosa montanha), 6 dias de caminhada nas montanhas dormindo em alojamentos, depois voo de volta para Kathmandu. No dia seguinte, um voo panorâmico pelo Everest (a montanha mais alta do mundo), jantar de despedida em Kathmandu, e em seguida pegaríamos um voo para o Butão, mas aí já é uma outra estória…

A viagem de ida tinha que contar com uma conexão, não há voos diretos do Brasil para o Nepal. Acabamos escolhendo a escala em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, pela Etihad, era o voo mais em conta na época. Aí começaram os detalhes: as escalas de ida e volta seriam longas (12 e 8 horas respectivamente), então teríamos que ter um visto para pernoitar nos Emirados, num hotel pago pela companhia aérea. Fomos informados de que até existia um hotel dentro do aeroporto(se ficássemos lá não precisaríamos de visto), mas estava em reformas. Fizemos o procedimento junto à Etihad, que ficou responsável por isso. Chegando perto da data, nada do visto chegar. Dois dias antes do embarque, o meu chegou, mas o do Carlos não. Sem explicação. Então teoricamente eu poderia ir para o hotel e ele deveria ficar no aeroporto. Sem opções, embarcamos.

Depois de 14hs de voo, tendo dormido, zerado os filmes disponíveis que valiam a pena, chegamos em Abu Dhabi. Não podemos dizer que conhecemos a cidade (na verdade, cidade-Estado), só ficamos no aeroporto. Depois de ficar conversando para ver se havia alguma solução para o fato do Carlos estar sem visto, acabaram achando vagas para nós no tal hotel do aeroporto.

Entrada do hotel do aeroporto
Na mesa do quarto, indicação da direção de Meca, para rezar.

No dia seguinte, embarque para o Nepal. Chegando no aeroporto de Kathmandu, a visão completamente diferente de outros aeroportos ao redor do mundo: nenhuma mala de rodinhas, somente mochilas, e das grandes. Estávamos na capital mundial dos mochileiros, com certeza. No caso do Nepal, pagamos pelo visto lá mesmo, no aeroporto, na chegada.

Mochilões para todos os lados…

Nosso contato estava aguardando no desembarque, fomos recepcionados com colares laranjas de boas-vindas e levados direto ao Hotel, para check-in e na sequência para o escritório da agência para o briefing do pacote. À noite, fomos para o bairro turístico tomar a nossa primeira cerveja Nepalesa (dizem que feita com águas do Himalaia), a Gorkha. Lager normal, nada espetacular. Caminhamos um pouco por ali, e já percebemos o trânsito louco e sem sinalização, mão inglesa, e a simplicidade do lugar, das construções e das pessoas. Um país bem pobre, com muito pouco para se investir em infrarestrutura.

Colar nepalês de boas-vindas
Cerveja nepalesa

Dia seguinte, city tour em Kathmandu, visitando alguns dos templos mais famosos, como o templo Hindu Pasupatinath, onde pudermos ver uma arquitetura e cores totalmente diferentes do que estamos acostumados, além de vacas circulando livremente (a vaca é um animal sagrado para eles).

Entrada do Pasupatinath Temple
Detalhe da decoração no templo, com desenhos digamos,
não convencionais para costumes ocidentais, com temática sexual
Saindo do templo: nosso guia (de azul), Carlos (de branco),
além da vaquinha cujo nome desconheço

Uma coisa que impressiona a nós, ocidentais, são os rituais funerários que ocorrem nesse tempo, à margem do rio. Os corpos são preparados ali e queimados ali mesmo, sobre o concreto. Uma maneira diferente, respeitosa à maneira deles. Os mais abastados conseguem queimar seus mortos no templo, os outros o fazem fora do templo, mais abaixo ao longo do rio.

Corpo sendo preparado para ritual
Corpo sendo consumido pelas chamas, observado pelos parentes e amigos
Macaquinho morador do templo, e corpos queimando ao fundo

Um outro templo muito famoso é o Boudanath Temple, também conhecido como “Templo dos Macacos” pela quantidade absurda de macaquinhos que vivem por ali. Chama a atenção os “Olhos de Buda” no teto do templo, além das dezenas de sinos de reza (prayer bells). Lá há também um atelier-escola de desenhos de mandalas, comprei uma que mandei emoldurar aqui no Brasil e fica em casa.

Macaquinhos circulam livremente… se não cuidar do seu lanche, já era…
Prayer Bell gigante no templo Boudanath
Teto do templo Boudanath
Teto to templo Boudanath
As pessoas passam por esses sinos girando-os para fazer barulho, e entoando o mantra “Om mani padme hum” , que tenho no anel que uso até hoje
Altar no templo Boudanath

O templo é muito bonito, embora bastante sujo, principalmente por conta das oferendas que ficam lá por dias, aparentemente. De qualquer forma, é um lugar imperdível numa passagem por Kathmandu.

Outro lugar que visitamos é a Patan Durbar Square, cheio de templos menores, todos com muitas decorações em madeira esculpida (carving). Infelizmente, boa parte desses templos em Kathmandu foram seriamente danificados, alguns completamente destruídos, alguns meses após nossa visita, por causa do terremoto de 2015, conforme pode ser visto nas fotos aqui e aqui.

Patan Durbar Square
Patan Durbar Square
Patan Durbar Square
Patan Durbar Square
Detalhe de escultura em templo da Patan Durbar Square. Figuras de posições
sexuais são comumente representadas por lá.

No dia seguinte era o dia de iniciarmos a trilha, 6 dias em completo isolamento caminhando pelas montanhas. Para tanto, fomos logo cedo ao aeroporto de Kathmandu para pegar o avião para Pokhara, na região oeste do país. O terminal doméstico do aeroporto é praticamente um grande galpão, tijolos aparentes, os guichês são de plástico, tipo daqueles de feiras de negócios. Fomos pela companhia Simrik Airlines. A atendente que nos recepcionou no finger e nos acompanhou até a aeronave era a mesma do check-in. Operação bem enxuta mesmo… O avião era um bimotor de 19 lugares, sendo que as primeiras 8 fileiras tinham somente um assento de cada lado (um em cada janela), e a última tinha 3 poltronas, bem apertadas. E era nessa última fileira os nossos lugares (eu, Carlos e o guia). Foi o menor avião no qual entrei na vida. Principalmente depois de ele ficar lotado, cheio de europeus de mais de 1,80 de altura, a sensação claustrofóbica apertou… respira fundo e vamos lá…

Entrada do terminal doméstico do aeroporto de Kathmandu
Check-in da Simrik Airlines
Avião que nos levou a Pokhara
Aeroporto de Pokhara

Bom, lá estávamos prontos para iniciar a trilha, um carro estava nos aguardando no aeroporto, no próximo post conto como foi essa parte da aventura… até lá!





Monte Roraima (parte 3 – final)

1 11 2020
Todas as botas reunidas, no alto do Maverick – ponto mais alto do Monte Roraima

Esse post é continuação da série: “Monte Roraima” – parte 1 e parte 2.

No segundo dia que passamos caminhando lá em cima do monte, visitamos alguns dos lugares mais impressionantes, com vistas inesquecíveis, certamente um dos pontos mais bonitos em que estive na vida. Existem vários pontos diferentes a serem visitados no Roraima, mas como só tínhamos 3 dias, tivemos que escolher: fomos ao mirante chamado “La Ventana” (“A janela” em espanhol), ao conjunto de piscinas naturais chamadas de “Jacuzzi”, onde rolou o banho do dia (esse foi dos melhores), e nos despedimos subindo no topo do “Maverick”, ponto mais alto do Monte Roraima, que ficava de frente ao nosso acampamento.

La Ventana é um dos pontos mais visitados, que pode proporcionar as melhores vistas e fotos, de um verdadeiro abismo incessantemente sendo coberto e descoberto pela neblina. Lá tirei algumas das melhores fotos, do abismo e do Kukenán, monte vizinho ao Roraima:

Em “La Ventana”, Kukenán ao fundo
Dá pra ver as nuvens, mas não o chão lá embaixo…
O Kukenán
O abismo é impressionante
Eu até que fiz um esforço para tentar ver o final do abismo
A sensação de estar entre as nuvens é sem igual
Não conheço a moça, era de outro grupo, mas foi uma das fotos mais bonitas que eu tirei, e ilustra a nossa pequenez diante do espetáculo da Natureza
As “jacuzzi” foram formadas pela ação do tempo ao longo dos anos
Melhor banho da viagem

Subindo para o Maverick, já no final da tarde, o tom era de despedida, pois iríamos na manhã seguinte iniciar o caminho de volta. Mas nem por isso deixou de ser divertido e com belas imagens lá de cima, a começar pelço nosso próprio acampamento:

Nosso acampamento, as barracas laranjas
Dá pra ver o local privilegiado e isolado em que acampamos

Chegando lá em cima, estava chovendo e com neblina pesada. Ficamos lá esperando melhorar, e fomos recompensados, com direito a árco-íris inclusive.

Vista do alto do Maverick
Sensação de missão cumprida, e gostinho de quero mais
Antes de ir embora, um totem de pedra como sinal de respeito e agradecimento

No dia seguinte, levantamos acampamento e descemos a montanha, mais uma vez sob chuva (que ficou indo e vindo todos os dias em que estávamos lá em cima, não podia ser diferente na descida), e fizemos uma caminhada longa, pois iríamos acampar na margem do Kukenan, o local do primeiro acampamento da caminhada da vinda (o último lugar com cerveja, lembra?). Nesse dia a caminhada ficou mais chata e com menos fotos por conta da chuva, e teve o que foi o momento mais tenso de toda a viagem: o Rio Kukenan, que atravessamos tranquilamente na ida, estava muito cheio, sem termos como passar. Ficamos junto com vários grupos até a água baixar e termos condição de passar com o auxílio de cordas. Ficamos bastante tempo, e acabamos iniciando a travessia com o rio ainda alto, mas para evitar passar a noite daquele lado do rio, onde não havia muito espaço para acampar todos os grupos.

Mesmo nos momentos tensos, o negócio é dar risada… certo?
Pra completar, uma cascavel no meio da trilha, após passarmos o rio

Aqui vale um comentário sobre o grupo de guias que estava conosco: eles permaneceram dando ajuda a todos os outros grupos, só saímos do rio quando todos haviam passado. Já outros guias acabaram deixando alguns pra trás e já se adiantaram para montar o acampamento, que ficava a uns 200, 300 metros dali. A noite já estava começando, ficando escuro, e inclusive ajudamos alguns “perdidos” de outros grupos que ficaram pra trás. Acabamos ficando com os “piores” locais para armar as barracas, justamente porque nossos guias ficaram por último. Prefiro um grupo de guias que preze pela segurança em primeiro lugar, sempre.

Depois da tensão da travessia, hora de celebrar a nossa última noite de acampamento. Dessa vez não pedi uma cerveja só não, já pedimos 2 caixas e dividimos com o grupo de guias na comemoração, com cerveja quente mesmo:

Turma na última noite, já acampando no caminho de volta
Último amanhecer na trilha, desmontando acampamento
A mochila, companheira da caminhada toda, com o Kukenán ao fundo

O último dia de caminhada teve (mais uma vez!) chuva, muita chuva. Os caminhos pelos quais viemos estavam bem diferentes, alguns até viraram pequenos cursos d’água ou corredeiras. Vários tombos, caminhando com cuidado, devagar… ao final o tempo abriu e me permitiu tirar uma bela foto do final da trilha:

“Cuide hoje, para que possa voltar amanhã”, diz a placa no final da trilha

E assim foi… um lugar mágico, com paisagens únicas, diferentes de quaisquer outras em qualquer outro lugar do mundo. Lugar quase mágico, que me deixou com uma sensação de querer voltar um dia. A caminhada pesada, o esforço que fez parte de toda essa experiência, tudo isso soma ainda uma sensação de superação, de ter cumprido uma jornada grande, que precisou contar com nossos próprios esforços físicos.

E se alguém se empolgou e quer montar uma expedição pra lá, pode me chamar, quem sabe já não é hora de conseguir voltar pra lá? Já se vão quase 10 anos…





Monte Roraima (parte 2)

25 10 2020
Monte Roraima, visto do acampamento próximo à sua base

Esse post é continuação do Monte Roraima (parte 1).

Ao terceiro dia de expedição, finalmente era a hora de subir a montanha. O paredão de centenas de metros, para o qual ficamos olhando de longe por dois dias, estava ali pertinho. O dia praticamente inteiro seria de subida (sem escalada) pela trilha na encosta da montanha. Uma coisa que nos chamava a atenção era a frequência com que a neblina cobria e descobria a montanha, e ao longo daquele dia (e dos próximos) sentiríamos aquilo bem de perto.

Como todos os dias, acordamos cedo, arrumamos as coisas, tomamos café da manhã e… começar a caminhar! Aliás, todas as refeições ficavam por conta dos carregadores, uma turma nota 1000, conforme pudemos constatar ao longo dos dias (mais detalhes à frente). Não tenho fotos dessa subida, porque foi o dia em que começamos a sentir na pele – literalmente – o clima da região. Choveu bastante, em praticamente toda a nossa subida. Vários momentos em que eu sentia a água escorrendo pelo pescoço, por dentro do anorak impermeável, descendo pelo corpo todo, molhando até as meias. É daqueles momentos em que você tem certeza de que gosta desse tipo de passeio, ou não. No meu caso, só me dava vontade de continuar caminhando e chegar ao topo. Vinha água do céu, escorria pela lateral da montanha, formando pequenas cascatas, vinha pela lateral quando ventava, enfim, de todos os lados.

Ao terminar a subida fomos premiados por um tempo melhor, com neblina mas sem chuva. A sensação de chegar lá em cima é indescritível. Logo na subida já vimos um helicóptero caído. Explico: qualquer resgate que tenha que ocorrer na região tem que ser feito de helicóptero. Alguns dias antes da nossa chegada um turista havia se acidentado no final da subida, e para seu resgate chamaram o helicóptero. Consta que o piloto oficial estava ausente no dia, e mandaram o reserva. A aproximação do topo é crítica por conta da neblina e ventos. Resultado, o helicóptero caiu e ficaram os dois (turista e piloto) aguardando o próximo. Ficamos sabendo que além daquele haviam mais dois abandonados lá em cima, um do exército brasileiro, e outro da Rede Globo, que caiu com o então apresentador do “Globo Ecologia”, Danton Melo, em 1998. Melhor mesmo é ir caminhando, e não precisar de resgate… Pelo sim, pelo não, eu particularmente havia contratado um seguro viagem que cobria o resgate de helicóptero, pelo qual sem o seguro seriam necessários uns R$ 2 mil, na época.

Primeira foto no alto do Monte Roraima
Turma “explorando” o helicóptero na chegada no monte

Uma vez lá em cima, seguimos caminhando até nosso ponto de acampamento. E a lógica é a seguinte: quem chega primeiro pega os melhores locais. Na medida em que acampamentos vão sendo desmontados e liberados, os guias comunicam-se entre si. Dessa forma, se seus guias são bem relacionados entre os pares, boas chances de conseguir um bom acampamento. Caso contrário… Felizmente, nossos guias eram bem relacionados e conseguimos (segundo nos disseram) um dos melhores pontos, na encosta de uma das formações rochosas lá em cima. Com mais de 30km2 de área, tem bastante lugar para acampar…

As primeiras formações já impressionam e aumentam a expectativa do que está por vir nos próximos dias
Um dos pontos de acampamento, não o nosso (note na “caverna” próxima ao topo)

O visual lá em cima por onde caminhamos é bem diferente da chamada “savana” por onde havíamos passado nos dias anteriores. Muita rocha vulcânica, escura, e vegetação rala. Conforme falei anteriormente, algumas plantas e animais são endêmicos, ou seja, só existem lá em cima e em nenhum outro lugar do mundo. Um famoso habitante que encontramos logo no primeiro dia foi o “sapinho do Roraima” (Oreophrynella quelchii), um sapo pequeno (veja foto) que não salta, e faz a alegria dos turistas para fotos.

Sapinho do Roraima
Oreophrynella quelchii é o nome científico dele
Vista a partir do nosso acampamento, no cair da tarde

Chegamos no local de acampamento no final da tarde (alguns guias já vão na frente para garantir e montar o acampamento), com a proteção parcial de formações rochosas, de frente para o Maverick (ponto mais alto do Roraima) e com a vista para várias pequenas lagoas onde seria o local do banho para aquela noite.

Barraca já montada, tudo certo para o descanso
Claro que tem que ter bagunça no acampamento com a turma
Nascer do Sol no nosso acampamento do topo

Uma vez acampados lá em cima, íamos passar 3 noites. Poderíamos manter o mesmo acampamento ou ir para outros lugares, dependendo do que preferiríamos explorar. Optamos por permanecer no mesmo local de acampamento por todas as noites. Uma coisa curiosa a respeito dessa viagem: para usar o banheiro, nos acampamentos são feitos buracos e depois tampados. No topo isso não é possível por ser tudo de rocha, então é necessário usar sacos (adaptados numa cadeira de plástico furada), juntar cal e fechar o saco, que vai ser levado embora pelos carregadores. Nada pode ser deixado lá em cima…

No primeiro dia explorando o topo, fomos para o chamado Vale dos Cristais, onde o chão é coberto por – adivinhe! – cristais, passamos no marco da Tríplice Fronteira (Brasil, Guiana e Venezuela), e terminamos o dia no chamado “El foso”, um lago com uma pequena cascata. Local de banho, que pode ser acessado pela forma rápida (pulando lá de cima) ou lenta (dando a volta e entrando por baixo. Eu optei pela forma lenta, não estava com pressa… E ao longo do caminho visuais incríveis com formas esculpidas pela natureza ao longo dos anos que nos fazem imaginar animais, figuras humanas ou quaisquer outras que a imaginação permitir.

Consegue ver um elefante?
Pense num trekker feliz…
Formações incríveis ao longo do caminho
Às vezes parece que estamos em outro planeta
No Vale dos Cristais
No marco da Tríplice Fronteira
Chegando em “El Foso”
Dava pra encarar um mergulho lá de cima, mas preferi
dar a volta para o banho lá embaixo
Entrada d’El Foso, por baixo

Nesse dia pegamos um pouco de chuva ao longo das caminhadas, mas nada que atrapalhasse muito. Voltamos ao acampamento cansados, mas com muita energia e expectativa pelo dia seguinte, mais um dia inteiro caminhando pelo topo do Roraima.

Achei que esse relato caberia em 2 posts, mas acabei me estendendo um pouco… termina na parte 3, até lá!





Causos de viagem – parte 2

11 10 2020

As viagens trazem experiências inesquecíveis, por motivos bons ou ruins, mas sempre rendem boas estórias e risadas… essa série de posts iniciou com a parte 1, e segue por aqui…

Controle de Imigração em Abu Dhabi, Emirados Árabes Unidos

Na viagem de volta do Nepal (outubro de 2014), tivemos que fazer uma parada de 14hs em Abu Dhabi. O avião estava cheio de nepaleses que estavam indo para lá trabalhar na construção civil e outros empregos de baixa qualificação. Ficamos numa fila com esses outros passageiros, para fazer identificação biométrica pela íris. O oficial da imigração, trajando a Kandora, aquela roupa branquíssima típica da região, estava sendo ríspido, falando em inglês: “Here!” (aqui!), “Where are you from?” (de onde você é?), “Next!” (próximo), para cada um que passava pelo procedimento. Um deles ficou ali ao lado após passar, provavelmente esperando por um amigo que ainda estava na fila, e foi enxotado: “Go, go! Don’t stay here!” (Vá, vá, não fique aqui não!). Aí chegou a minha vez: “De onde você é?”, “Brasil”. Nesse momento, abriu um sorriso na cara do oficial: “Brasil? Germany’s beaten you so hard, hum?” (Brasil? A Alemanha bateu forte em vocês, hein?), me sacaneando pelos 7×1 da Copa que tinha sido no Brasil. “Don’t mention it” (Nem fale nisso), respondi. Custava ele ser grosso e ríspido comigo, igual era com os nepaleses?

Garçom explicando nomes em espanhol em Sevilha, Espanha

Ao sentarmos para almoçar em Sevilha, havia um item no cardápio que nos chamou a atenção: Cola de Toro. Não sabia o que era cola, então fomos perguntar ao garçom. Ele falou que era a cola do touro, a cola! Continuamos sem entender. Como o problema era a tradução, lá veio a mímica: ele colocou a mão pra trás, grudada na bunda e balançando: “La cola!”. Aí entendemos, cola é cauda, rabo. Inevitável, começamos a dar risada. Em tempo: Acabamos pedindo o tal prato, e gostamos, o gosto se aproxima muito da costela.

Menina sueca tentando conversar (em sueco) comigo em Estocolmo

No geral as crianças têm muita curiosidade com relação a estrangeiros. Estava em um parque em Estocolmo, descansando da caminhada. Uma menina se aproxima, fica me olhando. Sete ou oito anos no máximo, cabelos e olhos escuros(fora do estereótipo sueco, portanto). Arrisco:

“Olá!”
“Olá!”, ela responde.
“Speak english?”
“No!”, com cara séria.
“Habla español?”, arrisquei, já que ela havia respondido ao meu “Olá!”.

A resposta veio em um sueco impecavelmente ininteligível para mim. Aí eu mandei: “Svenska?(Sueco?)”, gastando o sueco que não tinha (aliás, não tenho!). Os olhos dela brilharam e balançou afirmativamente a cabeça, achando que iria rolar uma conversa. Ergui os ombros dizendo “Sorry”, que dó. Ela murchou, deu de costas e foi fazer outra coisa…
Quer ser simpático sempre, às vezes não dá mesmo…





“Causos” de viagem – parte 1

27 09 2020

Uma das coisas mais divertidas de se viajar são as situações pelas quais passamos, algumas que causam irritação ou problemas na hora, outras nem tanto, umas que nos tocam e marcam profundamente, e todas invariavelmente rendem boas histórias para serem contadas. Fiquei lembrando algumas por aqui, e achei que valia um post (na verdade uma série de posts), espero que gostem.

Senhora simpática dirigindo ônibus em Dublin, Irlanda

Subi num ônibus em Dublin, capital da Irlanda, para ir conhecer a Kilmainham Gaol, uma prisão desativada, cheia de História e que foi usada como local de filmagens de alguns filmes (recomendo a visita, inclusive!). Eu havia me informado a respeito do ônibus e do trajeto, tinha um mapa da cidade aberto na mão, e subi com ele aberto no ônibus, que era dirigido por uma senhora. Eu ali, tranquilo, de pé no ônibus olhando pro mapa e pro lado de fora, para ir acompanhando, notei que ela estava incomodada, ficava virando a cabeça e olhando para mim o tempo todo. Depois de um tempo, ela não se conteve e perguntou: “Você sabe onde está indo?”. Fiquei espantado, não é comum na Europa que alguém lhe aborde dessa maneira (no Brasil é super comum, mas não esperaria algo assim por ali…). “Eu pareço perdido?”, disse olhando para ela. Ela deu uma gargalhada… “Sim, você parece perdido”. Aí eu disse que estava indo para Kilmainham Gaol, ela disse que eu podia fechar o mapa e ficar tranquilo que ela me avisaria. Chegando lá, ela parou fora do ponto e me apontou simpaticamente o caminho até a prisão, que ficava a algumas quadras dali. Agradeci a gentileza inesperada, e fiquei bem feliz em descobrir que embora a cultura de outros países às vezes possa parecer “fria” para nós, latinos, vez ou outra somos surpreendidos positivamente…

Garçom simpático em Helsinki, Finlândia

Voltei para o Hostel após um dia de caminhadas pela cidade, fui tomar um banho e me esqueci de que, embora houvesse bastante sol lá fora, já passava das 10 da noite, e minhas chances de encontrar um lugar para jantar estavam se reduzindo. Traído pelo cérebro acostumado com a realidade dos trópicos, onde só é tarde se está escuro, oras…
Pois bem, saí andando pela cidade com a missão de achar algo para comer. Descobri que numa segunda-feira, 23hs, pode demorar um pouco. Só os (poucos) pubs estavam abertos, e aí todos diziam a mesma coisa, só temos snacks, essas coisas. Aí já conformado fui entrando num pub irlandês, para comer um sanduíche mesmo. Qual não foi a minha surpresa quando o cara da entrada me disse: “Ei, mas você não preferiria comida ao invés de sanduíche? Como disse que sim, indicou um restaurante meio escondido do outro lado da rua, no qual eu não tinha entrado por parecer meio caro (eu já tinha percebido naquela altura que Helsinki não é uma cidade das mais baratas). “Lá eles ainda servem comida a esse horário”, ele me disse. “Mas não é muito caro?” “O Mesmo que aqui.”, ele me respondeu.
Agradeci e fui ao restaurante indicado, que – eu chequei – não tinha nenhuma relação com o pub… Achei muito legal da parte do cara perder um cliente, uma venda, para deixá-lo mais satisfeito. No dia seguinte, voltei lá para tomar uma cerveja e deixar uma boa gorjeta…

Senhora russa simpática em São Petersburgo, Rússia

A barreira da língua é extremamente frustrante, ao menos para mim…
Eu estava em Pushkin, no subúrbio de São Petersburgo, procurando onde pegar a lotação (sim, tem disso na Rússia, e até uma palavra para tal, “marshutky” ou маршрутки, eu aprendi) para o metrô, estação Moscovskaya(московская). Aí, com meu russo nível jardim da infância, dirigi-me a uma senhora sentada no ponto de ônibus, em russo: “Pazjalsta, marshutky Moscovskaya?”(“Por favor, lotação Moscovskaya?”). Ela sorriu, respondeu algo em russo e (o mais importante) me apontou o caminho para o ponto que eu queria. Agradeci (“Spaciba”), e aí ela continuou sorrindo e falando russo… A única coisa que consegui dizer foi “Ya nyznaiu, ya nie gavariú pa rusky”(Não entendo, eu não falo russo)… Tenta ser simpático, passa vergonha… não é fácil não…

Tem mais estórias por vir, veja a parte 2.