Recentemente, numa conversa com uma das minhas sobrinhas sobre livros que eu estava recomendando para ela ler nas férias, acabei revisitando mentalmente algumas leituras da adolescência. Entre elas, voltaram Richard Bach, Fernão Capelo Gaivota, Ilusões, A Ponte para o Sempre e, especialmente, Um. Nesse último, há uma imagem que ficou guardada comigo por anos: a de um voo sobre linhas imaginárias, que poderiam ser rios ou estradas, representando metaforicamente caminhos que teríamos tomado ao longo da vida, que se bifurcam infinitamente, como se cada decisão abrisse um caminho possível e, ao mesmo tempo, fechasse outros.
Talvez essa imagem tenha voltado agora porque estou às vésperas dos cinquenta anos, que completo em novembro. É apenas um número, claro, mas seria desonesto dizer que ele não carrega um simbolismo. Com ele, vem também uma constatação difícil de ignorar: muito provavelmente, o tempo que tenho pela frente é menor do que o tempo que já deixei pra trás. Não é desespero, é uma lucidez nova. Essa percepção fica ainda mais forte quando olho ao redor. Amigos de muitos anos começam a perder seus pais, pessoas próximas passam por doenças relacionadas à idade, despedidas, mudanças duras de rota. Alguns amigos eu mesmo perdi ao longo do caminho. Há uma fase da vida em que o tempo deixa de ser calendário e vira falta. E isso torna tudo mais concreto.
Ao mesmo tempo, quando olho para trás, percebo o quanto fui agraciado, ou abençoado, no sentido mais amplo e menos religioso possível – até mesmo porque sigo sendo ateu agnóstico. Isso justamente por ter podido fazer escolhas em muitos momentos da minha vida. Muita gente não tem essa margem: é empurrada pelas circunstâncias, pela falta de oportunidade, pela urgência da sobrevivência. Eu, com todos os medos e limitações, com um início de vida com alguma dificuldade, mas sempre com muito apoio da família, pude escolher muitas vezes. E escolher também é arcar com as consequências. Algumas me levaram por caminhos mais leves, outras por caminhos mais duros, e todas vão igualmente trilhando o caminho…
Algumas dessas escolhas eu talvez não repetisse. Mas todas elas fazem parte do percurso e do que me tornei hoje. Penso então naquele adolescente que sofreu como se cada dor fosse definitiva. Lembro de decepções, vergonhas, amores terminados, cartas dramáticas e hoje algumas dessas dores parecem menores, mas não eram pequenas para quem eu era naquele momento. Por isso não olho para trás com deboche, olho com ternura. Aquele menino também sou eu. E as dores que passaram e as que ficaram, os erros, os acertos, as cicatrizes que ficaram em mim e que acabei deixando em pessoas ao longo do caminho… Tudo isso foi ajudando a formar quem eu sou. Talvez este texto seja uma revisitação de coisas que já tentei elaborar antes, nesse mesmo blog, aqui, aqui e aqui. O tempo que não existe no depois, as escolhas que não podem ser refeitas, as perdas que transformam presença em memória. Eu poderia ter sido outro, mas eu sou este resultado dessas bifurcações. E, do alto dos quase cinquenta anos, com defeitos, virtudes e algumas cicatrizes, consigo olhar para o caminho percorrido com gratidão. Há muito que ficou para trás, sim, mas ainda há estrada. Ainda há escolhas. Ainda há vida a ser vivida.
Depois de muito tempo sem postar aqui, estou de volta… já nem conto quantas vezes comecei e interrompi as coisas por aqui, desde meus primeiros textos que até hoje andam perdidos no ciberespaço…
Bom, mas vamos lá: A China sempre foi um daqueles lugares que eu pensava que um dia desejava conhecer. Estava na minha lista havia bastante tempo, embora nunca tivesse aparecido uma oportunidade concreta — e também não ocupasse exatamente o topo dela, como já aconteceu com outros destinos, como São Petersburgo ou o Nepal.
Até que, no ano passado, uma viagem de trabalho acabou me levando para lá. E, como sempre procuro fazer quando viajo a trabalho, aproveitei a oportunidade para conhecer um pouco do país além dos escritórios, reuniões e visitas profissionais.
Já faz algum tempo que voltei, mas resolvi finalmente escrever sobre essa experiência. E, como foram muitos dias, lugares, descobertas e situações diferentes, achei melhor dividir o relato em três textos. Neste primeiro, quero falar principalmente sobre as pessoas — talvez uma das maiores surpresas que tive durante a viagem.
Geograficamente, a China foi o lugar mais distante (até hoje) que já visitei. E talvez também tenha sido um dos mais distantes do ponto de vista cultural, ao lado de países como o Butão e a Rússia. Ainda assim, uma das primeiras coisas que me chamou a atenção foi justamente a proximidade das pessoas.
Vendo de longe, muitas vezes temos a impressão de que os chineses são fechados ou distantes. Depois de passar alguns dias por lá, fiquei com a sensação de que boa parte dessa imagem vem simplesmente da barreira do idioma.
O inglês não é tão difundido quanto em outros países e, quando não existe uma língua em comum, uma pessoa pode parecer menos acessível do que realmente é. Mas bastava surgir alguma oportunidade de interação para essa impressão mudar rapidamente.
Eu havia tido aulas de mandarim durante algum tempo, mas nunca tinha utilizado. Em alguns momentos, eu tentava falar as poucas palavras e frases em mandarim das quais ainda lembrava. Nada muito elaborado, longe disso. Era muito básico, mas a reação das pessoas quase sempre era de surpresa e simpatia, como se não esperassem que um estrangeiro fizesse aquele esforço. Primeiro vinha uma expressão de espanto e, logo depois, normalmente um sorriso.
Isso acontecia também no trabalho. As reuniões começavam sempre em inglês, naturalmente, mas, de vez em quando, quando as pessoas conversavam entre si em mandarim, eu brincava dizendo:
— Essa parte eu entendi.
Nem sempre era verdade. Ou, pelo menos, eu havia entendido muito menos do que deixava parecer. Mas eles riam, e aquilo ajudava a quebrar um pouco a formalidade. E nós, brasileiros, adoramos uma conversa informal, não é verdade? Muito mais do que a média de qualquer outro país, atrevo-me a dizer.
Em uma das visitas que fiz, cumprimentei uma executiva da empresa em mandarim, dizendo que era um prazer conhecê-la. Ela ficou surpresa e perguntou por que eu havia estudado chinês.
Selfie no aeroporto… aeroportos são todos iguais… rs
Respondi que, no Brasil, as pessoas também me faziam aquela pergunta. E que eu normalmente respondia com outra:
— Por que você ainda não está estudando mandarim?
Ela riu e disse que era uma resposta inteligente.
É claro que eu não falo mandarim. Estudei muito pouco e conheço apenas algumas frases. Mas, especialmente para quem trabalha com tecnologia e mantém contato frequente com empresas chinesas, sempre me pareceu natural tentar compreender um pouco. Naturalmente já me interesso por estudar línguas, e essa língua é um tremendo desafio intelectual, certamente.
Mais do que a utilidade prática, percebi que o esforço era visto como uma demonstração de respeito. E bastavam algumas palavras para diminuir uma distância que, à primeira vista, parecia muito maior.
Essa receptividade não apareceu apenas nas relações profissionais.
Em uma estação de metrô, uma senhora percebeu que eu estava olhando para o mapa e começou a tentar me ajudar. Ela não falava inglês, eu não tinha mandarim suficiente para explicar muita coisa, mas, ainda assim, apontava as linhas e as estações para mostrar qual direção eu deveria seguir.
O mais curioso é que eu nem estava propriamente perdido. Mas ela imaginou que eu pudesse precisar de ajuda e decidiu se aproximar mesmo assim.
Em pontos turísticos, também tive várias pequenas interações desse tipo. Algumas vezes eu pedia para alguém tirar uma foto minha; em outras, eu me oferecia para fotografar pessoas ou grupos. Mesmo sem uma língua em comum, quase sempre havia sorrisos, gestos e alguma tentativa de comunicação.
Talvez a cordialidade chinesa não se manifeste exatamente da mesma maneira que a brasileira. Nós costumamos falar com desconhecidos, fazer comentários, cumprimentar todo mundo e criar intimidade rapidamente. Lá, pelo menos na minha experiência, a aproximação parecia mais discreta. Mas ela existia.
Outra coisa que me chamou bastante a atenção foi a quantidade de pessoas usando roupas tradicionais nos parques, nas ruas e em pontos turísticos. Para um olhar ocidental, às vezes parecia quase uma espécie de cosplay histórico.
Muitas estavam completamente produzidas, com roupas elaboradas, penteados, maquiagem e acessórios, aparentemente apenas para passear e fazer fotografias. Era comum encontrá-las posando em jardins, diante de templos ou em construções antigas, como se fizessem parte da própria paisagem. Aquilo me pareceu ao mesmo tempo curioso e bonito. Em vez de as roupas tradicionais aparecerem somente em cerimônias ou apresentações turísticas, elas estavam ali sendo usadas por pessoas comuns, muitas vezes jovens, que pareciam se divertir muito com aquilo.
No ambiente de trabalho, as diferenças culturais ficavam ainda mais evidentes.
Durante alguns dias, tive um posto de trabalho no meio do escritório. Em uma das manhãs, cheguei cerca de dez minutos antes do início do expediente. O local estava praticamente vazio, as luzes apagadas e tudo em silêncio. Quando deu exatamente o horário, as pessoas começaram a chegar quase ao mesmo tempo. Entravam, iam diretamente para suas mesas e começavam a trabalhar.
Não havia aquela sequência tão brasileira de “bom dia” para todo mundo, conversa no café, comentários sobre o trânsito ou pequenas conversas no corredor. Para uma pessoa extrovertida como eu, aquilo parecia bastante estranho.
Ao meio-dia, acontecia algo parecido. Todos levantavam e saíam para almoçar, quase simultaneamente. As luzes eram apagadas ou bastante reduzidas durante o intervalo, como uma forma de deixar claro que aquele era o momento de descanso, e não de continuar trabalhando.
Havia uma separação muito mais evidente entre o tempo profissional e o pessoal, mas isso não significava falta de simpatia. Com o tempo, por meio das brincadeiras, das conversas e das minhas tentativas de falar mandarim, fui criando uma relação mais informal com algumas pessoas. Era apenas uma informalidade construída de outra maneira e em outro ritmo.
A comida também teve um papel importante nessa aproximação.
Os chineses da empresa que estavam me acompanhando (foram pessoas diferentes ao longo dos dias) demonstravam bastante preocupação com o que um visitante ocidental gostaria de comer. Perguntavam se eu preferia um restaurante chinês ou algum lugar com comida ocidental.
Minha resposta normalmente era:
— I’m wide open. (estou bastante aberto a experimentar)
Eu estava realmente aberto a experimentar praticamente qualquer coisa, com a única ressalva em relação à pimenta, que realmente não gosto, atrapalha meu paladar e me estraga qualquer refeição.
Quando percebiam que eu queria provar a comida local, ficavam bastante animados. E as refeições eram uma experiência à parte.
Em uma mesma mesa, podiam aparecer camarão, peixe, pato, porco, boi, frango e até pombo. Para nós, brasileiros, acostumados normalmente a uma organização um pouco diferente dos pratos, aquela diversidade toda em uma única refeição causava certo espanto.
Havia muita fartura, muitos pratos compartilhados e uma grande preocupação para que eu experimentasse tudo.
Não parece um galeto? 😉
O pombo foi provavelmente a experiência mais diferente. Não diria que se tornou meu prato preferido, mas fazia parte da proposta de estar aberto ao que aparecesse pela frente.
Curiosamente, a refeição menos divertida aconteceu justamente em uma noite em que estávamos acompanhados por outros brasileiros e fomos a uma hamburgueria. Não estava ruim, evidentemente, mas, depois de atravessar metade do mundo, comer hambúrguer não parecia exatamente a maior das aventuras gastronômicas.
Ao final da parte profissional da viagem, passei também algum tempo conhecendo Shanghai. É uma cidade extremamente moderna e cosmopolita, frequentemente comparada a lugares como Nova York ou Paris.
Um dos seus pontos mais conhecidos é o Bund, uma região às margens do rio onde se vê, de um lado, uma sequência de edifícios históricos e, do outro, o horizonte moderno de Pudong, com seus arranha-céus iluminados e coloridos, talvez a imagem mais conhecida de Shanghai e da China moderna.
É um contraste muito bonito entre duas margens e também entre duas épocas.
Talvez aquela paisagem resumisse um pouco do que eu havia encontrado até ali: um país com uma história muito antiga, uma cultura bastante diferente da nossa e, ao mesmo tempo, uma modernidade impressionante.
Mas essa modernidade não estava apenas nos arranha-céus de Xangai. Ela aparecia nos trens, nos pagamentos, nos veículos elétricos, na infraestrutura e até na forma como as fábricas funcionam.
Passei dois dias nessa cidade em 2013, no meu giro pela Europa rumo à Rússia. É uma cidade que tem seu centro histórico da época medieval bem conservado e explorado turisticamente. Gostei do pouco tempo que fiquei por lá, achei que valia um post a respeito.
Vista da Catedral Ortodoxa Alexander Nevsky
Na verdade, eu iria passar um dia a mais na cidade pela minha programação original. Acontece que eu tinha comprado todos os trechos da viagem (avião, navio, trens) com exceção do trecho de Tallin até São Petersburgo, na Rússia. Esse trecho não era vendido online, então fiquei de comprá-lo assim que chegasse à cidade. Foi o que fiz, fiz check-in no Hotel Braavo, e em seguida me dirigi à estação de trens. Mas o problema é que não conseguia me comunicar com a moça no guichê da estação. Ela não falava inglês, e eu não falava estoniano (talvez ela tenha tentado falar em russo ou outra língua, mas pra mim não faria diferença…). Depois de algum tempo e muita mímica, muitos dedos apontados para a tabela de horários e outras tentativas, consegui entender que não havia mais vaga para o trem do sábado que eu queria pegar. Eu teria que ir na sexta, para quando haviam passagens disponíveis. Só que minha hospedagem no AirBnB em São Petersburgo era só pro sábado. Voltei ao hotel onde havia acesso à Internet no wi-fi disponível, para ligar via Skype para minha anfitriã russa para saber se poderia antecipar minha chegada em um dia. Felizmente ela estaria vagando o quarto naquele dia, e então eu poderia ir. Voltei à estação de trens e pude comprar minha passagem, e finalmente começar a explorar Tallin.
Tallin vista de uma das torres da muralha
A coisa mais interessante sobre essa cidade (só fiquei na parte turística/histórica) para mim foi o ambiente medieval que eles criam para os turistas. A arquitetura permite que você realmente sinta-se na Idade Média. As lojas e restaurantes fazem a decoração e eventualmente os uniformes dos funcionários com roupas da época também. Como era verão, havia bastante gente nas ruas, e algumas apresentações teatrais que reproduziam as performances comuns na época medieval também.
Apresentação de teatro ao ar livre
O restaurante que escolhi para comer também era peculiar: a hostess de lá, vestida à caráter como uma respeitável senhora medieva, informou que ali só serviam alimentos que existiam na Europa antes do século XV, ou seja, antes de trazerem os alimentos “descobertos” na América, como milho e batata. Até a cerveja era do tipo e receita da época, e servida em canecas de barro.
Menu medieval
Cerveja medieval na caneca medieval
A cidade, como todas as da época, era murada, e suas muralhas ainda permanecem parcialmente lá, e abertas para uma caminhada e belas fotos
Parte da muralha da cidade
Caminhando pela muralha
Torre na muralha
Algumas das construções mais famosas da cidade são a Catedral Ortodoxa Alexander Nevsky e a prefeitura (Raekoda), sendo esta uma construção do início do século XV, ostentando uma torre extremamente alta. Normalmente está aberta para visitação, mas na minha rápida passagem por lá acabei não conseguindo ir visitar.
Prefeitura (Raekoda)
Vista da Catedral Alexander Nevsky
Memorial Russalka, em homenagem ao naufrágio do navio russo de mesmo nome
Embora seja uma daquelas áreas bem montada para turistas e explorada como tal, gostei da minha passagem por lá, foram momentos agradáveis, pena que tive que partir logo.
Tallin vista a partir da torre da muralha
Se chegou até aqui, espero que tenha gostado desse curto relato. Abraço e até uma próxima!
No final de junho do ano passado (o malfadado 2020), no meio da pandemia que ainda não passou, esse blog nasceu. Conforme explicado aqui, é um espaço movido pela minha necessidade de escrever. Acho que escrevo muito mais por essa necessidade, sem grandes pretensões… Colocar em palavras coisas que penso, opiniões, lembranças, impressões… Ainda me divirto vez ou outra lendo o que escrevi há 10, 15 anos atrás no meu outro blog abandonado.
Esse exercício de ter a disciplina e regularidade para escrever aqui tem sido bastante prazeroso. Acho que com uma única exceção nesses pouco mais de 12 meses, consegui publicar conteúdo praticamente toda semana. Mais da metade dos posts foram sobre viagens, e no geral são também os mais lidos. A audiência varia bastante, sei de algumas pessoas que são frequentadores assíduos, vez ou outra comentam, mas tenho também grande curiosidade a respeito das pessoas que leem e que não faço nem ideia de quem são ou como chegaram por aqui. A maior parte dos leitores acessam do Brasil, mas tenho muitos acessos dos Estados Unidos, Canadá, outros espalhados em vários países da Europa, alguns asiáticos (muitos acessos da China, o que me espantou), Nova Zelândia e Austrália.
Espero ainda ter disciplina, tempo e sobretudo coisas minimamente interessantes para continuar escrevendo aqui por um bom tempo. É muito como um monólogo, uma conversa comigo mesmo, e até agora tenho gostado do resultado. Embora siga escrevendo para mim mesmo, por uma necessidade pessoal, é muito legal quando alguém me escreve comentando, ou se inscrevendo para receber atualizações, sinto que alguém está ali do outro lado, “escutando”.
Seja você um(a) leitor(a) assíduo(a) ou não, agradeço por estar aqui nesse espaço totalmente despretensioso, volte sempre que quiser, espero estar aqui por muitos anos ainda…
O que aconteceria se você se encontrasse com um Messias? Um ser iluminado, uma alma elevada que aparentemente soubesse de todas as respostas, todos os segredos da vida e do universo inteiro? Essa é a premissa inicial desse livro, que já perdi as contas de quantas vezes li, desde a primeira vez no final dos anos 1980. Recomendo muito, sempre, para todo mundo, essa leitura.
Poucos livros tiveram uma presença tão marcante e ecoando por tanto tempo para mim ao longo dos anos como esse: “Ilusões – As Aventuras de um Messias Indeciso”, de Richard Bach, escrito em 1977, no ano seguinte ao do meu nascimento. É um livro fácil, gostoso, daqueles para se ler em bem pouco tempo. Trata de questões filosóficas mas de maneira simples, literalmente como uma conversa entre amigos. A ideia passada de que temos total controle sobre nossas vidas, nosso destino, é extremamente atraente e confortante, ainda mais para um adolescente como eu era à época do meu primeiro contato com o livro.
Na estória contada no livro, o autor-narrador, Richard, é primeiro pego de surpresa pelo encontro com Don Shimoda, que seria um Messias que estava, digamos, buscando uma espécie de aposentadoria. Ao longo das conversas, maravilha-se ao compreender algumas coisas, e depois começa a passar por um despretensioso “treinamento” para se tornar um Messias. E é confrontado com explicações simples, porém com uma profundidade chocante. E presencia coisas que entende, coisas que não entende, vê coisas humanas e sobre-humanas na figura do tal Messias. As partes mais deliciosas do livro, na minha opinião, são as frases do “Manual”, além dos lentos passos de aprendizagem de Richard. A parte humana do Messias, numa hora fanfarrão, outra hora completamente enfadado, sarcástico às vezes, traz alguma reflexão sobre nossa própria humanidade, nossos defeitos e nossas qualidades. E a conclusão que o Manual tem instruções que valem para qualquer um, não somente para um Messias…
“Eis aqui um teste para saber se sua missão na terra está cumprida: Se você está vivo, não está.”
Frase do “Manual do Messias”
Uma outra coisa que chama a atenção, embora não seja o ponto central do livro, é a forma como as pessoas em geral reagem à figura do Messias, fazedor de milagres, “O Salvador”. Será que as pessoas estariam realmente interessadas no que ele teria a dizer? Ou gostariam simplesmente que ele lhes resolvesse todos os problemas assim, num estalar de dedos, que lhes trouxesse todas as respostas num piscar de olhos? Gostariam de aprender e crescer, ou simplesmente tomar atalhos para tal? Como o Messias reagiria a isso? Seria frustrante? Seria temeroso? As explicações estariam todas prontas, mas estariam as pessoas prontas para recebê-las?
Apesar de ter sido escrito há mais de 40 anos, o livro, bem como a sua temática, permanece atemporal. Nossa busca por respostas, o encantamento pelo místico e pelo desconhecido, são coisas intrínsecas à natureza humana. A busca pelo conhecimento, pelo autoconhecimento, é o que nos move enquanto civilização, há milênios, e assim ainda deve permanecer por muito tempo. Particularmente gosto da sensação de que sempre estaremos aprendendo, sempre estaremos sem certezas absolutas, e cada um lida com isso como desejar, pois essa escolha faz parte da nossa liberdade, do nosso livre-arbítrio, do que nos faz humanos, sempre.
“Uma nuvem não sabe por que se move em tal direção e em tal velocidade… Sente um impulso, é para esse lugar que devo ir agora… Mas o céu sabe os motivos e desenhos por trás de todas as nuvens, e você também saberá, quando se erguer o suficiente para enxergar além dos horizontes…”
Minha citação preferida do “Manual do Messias”
Essa frase acima é a minha citação preferida do livro, e me acompanha desde a primeira leitura. Procuro manter (metaforicamente) a cabeça erguida, sempre, para tentar enxergar ao máximo possível além dos horizontes… lá estão explicações, decisões passadas, erros e acertos, que são as minhas nuvens… alguns desenhos já consigo enxergar e entender, outros tantos ainda não… e sigo assim, sem pressa, a passos vagarosos tentando aproveitar a jornada, que, para mim, é o que faz sentido…
Chegou até aqui? Obrigado por ter lido, espero que tenha gostado, se achar interessante, leia o livro, acho que vale bastante…
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