Esse foi um dos episódios de Black Mirror que mais me “pesaram”, tipo um soco no estômago mesmo. Recomendo muito, mas realmente (ao menos para mim) foi extremamente chocante. Não só pela estória em si, mas por pensar como algumas coisas horríveis que acontecem ali podem sim acontecer na vida real.
ALERTA DE SPOILER: recomendo que você assista primeiro e depois volte aqui para ler…
1a parte: Perseguição
O episódio começa com a moça (Victoria, descobriremos somente bem depois) acordando sentada em uma cadeira, em uma casa vazia, sem saber quem é e sem se lembrar de nada, que casa era aquela, o que estava fazendo ali, enfim, sem saber de nada. Ela vê seus pulsos enfaixados, remédios espalhados no chão, casa arrumada, algumas fotos nos porta-retratos espalhados por ali, dentre eles o de uma menina, que ela reconhece vagamente e imagina que possa ser sua filha. As TVs na casas ficam emitindo um zunido e mostrando uma figura geométrica estranha:
Ao sair da casa, vê as ruas vazias, e algumas pessoas nas janelas das casas, todas a observando e a filmando através de celulares. Ela grita, pede ajuda, mas ninguém fala com ela, seguem filmando… Ela segue andando, vai atrás de uma moça que tirou foto dela com o celular, mas não a alcança… De repente chega um carro, de onde desce um rapaz encapuzado, tira uma espingarda do porta-malas e passa a perseguí-la. Há várias pessoas pela rua, mas ninguém a ajuda, seguem usando seus celulares para filmá-la enquanto ela foge em pânico, sem entender a situação. Ela encontra um casal que aparentemente também está fugindo, o rapaz acaba morto e ela escapa com a moça.
O ritmo da narrativa é alucinante, como um thriller acelerado, onde o espectador fica envolvido sem conseguir entender, e, portanto, compartilha da angústia e pânico da personagem. É quando a estória te prende, e você se sente naquela realidade absurda. Um mascarado com um taco de beisebol, uma outra com uma pequena serra elétrica, todos atrás delas. Ao longo da fuga elas são capturadas, Victoria chega a começara sofrer tortura física e é salva pela companheira de fuga. Ao longo do tempo a moça explica para Victoria que tudo começou com um sinal de rádio/TV (que ela associa à imagem vista nas TVs) que é enviado de uma central, que transformou algumas pessoas em “zumbis” de celulares e outras aproveitaram a situação e saíram praticando maldades e matando pessoas a esmo, os tais “caçadores”. E para solucionar isso de alguma forma, elas têm que ir a essa central e destruí-la. Victoria aparentemente continua perdida, não vêm muito sentido em tudo aquilo, mas vai com a moça até a tal central (mesmo porque ela não tinha outra alternativa a não ser acompanhar a moça).
2a parte: A explicação
Ao chegar na tal estação, dentro de uma sala cheia de computadores e aparentemente prestes a destruir tudo, os “caçadores” as encontram. Quando parece que tudo vai dar errado, Victoria consegue pegar a arma de um deles e atira. E da arma não sai um tiro, mas apenas confetes. Aí tudo começa a ser explicado, ela estava em uma espécie de “reality show” e todos os outros eram atores. As pessoas com celulares eram espectadores que pagavam para acompanhar o desenrolar dos fatos e registrar com fotos e vídeos. Mas por que ela estava passando por isso? Era uma punição. Ela torturou e matou uma menina (aquela da foto) e registrou tudo com o celular. Então havia sido decidido que a punição dela seria viver uma situação de tortura e pânico (como teria sido a da sua vítima) por vários e vários dias seguidos. E para que as sensações fossem verdadeiras, genuínas, a cada final de dia eles apagavam a memória dela e a deixavam acordar na mesma situação, todos os dias, para viver o seu martírio.
Minha opinião
E o que achei pessoalmente dessa estória? Que ela mostra e escancara a banalização da crueldade e do senso punitivista da sociedade. Pessoas pagariam ingresso para entrar em um parque “temático” onde na verdade o que assistiriam seria o sofrimento de uma pessoa condenada? Eu acredito que existiriam pessoas que pagariam para isso. E isso diz muito a respeito de onde estamos enquanto sociedade. Esse tipo de “show” se aproxima muito dos espetáculos nas arenas romanas, onde seres humanos considerados inferiores ou condenados eram expostos, violentados, trucidados em eventos públicos. O sadismo em deliciar-se com o sofrimento alheio, independentemente do motivo, não me parece algo minimamente saudável… “Ah, mas tem que pagar na mesma moeda!”… Como disse Gandhi, “Olho por olho, e a Humanidade acabará cega…”. Se alguém lhe faz algum mal, por que retribuir com o mal? A forma como você retribui diz muito mais sobre você e pesa sobre você. Veja que não se trata de perdoar ou não perdoar. É mais simples do que isso, é simplesmente não querer vingança, revanche, ou qualquer outro nome que se dê a esse sentimento que busca “reparação” de alguma forma. Que haja julgamento, que haja punição, mas que seja dentro de um sentimento de humanidade que deveríamos ter com qualquer um. E não por uma questão moral ou religiosa, na minha opinião. Simplesmente pelo motivo de não juntar sentimentos e coisas ruins dentro de nós mesmos… Para que possamos nos livrar desse peso, e levar conosco somente as coisas mais leves possíveis…





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