Os Imortais (livro)

4 10 2026

Li esse livro (na verdade “ouvi” na sua versão audiolivro) após ouvir um comentário em uma mesa redonda num evento recente. Fiquei curioso de como seria uma história narrada durante o que chamamos de pré-história.

Os Imortais nos leva a um tempo muito anterior ao que costumamos reconhecer como civilização, quando neandertais e Homo sapiens ainda dividiam o mesmo mundo. A história acompanha a caminhada de um pequeno clã de neandertais, num ambiente em que quase tudo aquilo que hoje usamos para definir uma pessoa desaparece: profissão, posição social, bens, rotina, identidade formal. Restam o corpo, a fome, o frio, o abrigo, a caça, o medo, o grupo e a necessidade de continuar vivendo. Em alguns momentos, essa redução ao essencial me lembrou Vidas Secas, de Graciliano Ramos, embora aqui o deslocamento seja ainda mais radical: somos levados para perto de uma humanidade ainda anterior ao homem moderno, quase na fronteira entre aquilo que reconhecemos como humano e aquilo que ainda nos parece ancestral.

O que torna esse mundo ainda mais interessante é a forma como os personagens tentam explicar aquilo que não compreendem. Eles sabem o que é fome, frio, cansaço, perigo, abrigo ou morte, mas, quando alguma coisa foge desse repertório, entram o medo, o mito e a superstição. Há uma cena que me marcou bastante, quando o grupo encontra um potro recém-nascido, morto e com duas cabeças. Para nós, leitores, é relativamente fácil entender que se trata de uma deformação; para eles, aquilo assume a forma de um monstro, de um sinal ou de uma punição por alguma coisa que fizeram. E acho especialmente interessante como o narrador, em terceira pessoa e conhecendo os pensamentos dos personagens, nos coloca exatamente nesse ponto intermediário: acompanhamos sentimentos que reconhecemos imediatamente, mas surgidos de um mundo em que ainda não existem as explicações que hoje usamos para dar sentido às coisas.

Mas essa vida guiada pelo instinto e pela sobrevivência não significa ausência de organização. Ao contrário, o clã tem funções bastante definidas, e cada uma delas parece carregar um sentido claro de responsabilidade. Há quem cuide do fogo, quem prepare a comida, quem saia para caçar, quem conduza o grupo nas mudanças de lugar e quem, pela idade e pela experiência, seja ouvido com respeito. As decisões importantes são compartilhadas, embora exista uma figura de liderança que organiza e conduz o grupo. Isso me chamou atenção porque desmonta um pouco a ideia simplista que muitas vezes associamos à palavra “primitivo”: falta tecnologia, falta conhecimento sobre o mundo, mas não falta estrutura social, cooperação ou reconhecimento da experiência acumulada. A sobrevivência daquele grupo depende justamente de cada um entender o seu papel e de todos saberem que precisam uns dos outros.
Isso me fez lembrar de uma história que li muitos anos atrás, numa discussão sobre qual teria sido um dos primeiros sinais daquilo que hoje chamaríamos de civilização. A resposta não era uma ferramenta, uma construção ou alguma forma de escrita, mas a descoberta de ossos com fraturas que haviam cicatrizado. A ideia por trás disso sempre me pareceu muito bonita: um ferimento grave que teve tempo de se curar indica que, em algum momento, aquele indivíduo provavelmente não foi simplesmente abandonado. Alguém precisou protegê-lo, alimentá-lo ou ajudá-lo enquanto ele não conseguia fazer sozinho aquilo que normalmente faria. Talvez exista algo profundamente civilizado justamente aí: na capacidade de cuidar de alguém que, naquele momento, não consegue contribuir da mesma forma para a sobrevivência do grupo. E isso aparece várias vezes em Os Imortais, quando os neandertais cuidam dos feridos, dos mais velhos e uns dos outros.

E é justamente aí que aparece uma das contradições mais fortes do livro. O mesmo grupo capaz de cuidar dos feridos, respeitar os mais velhos e organizar a própria sobrevivência em torno da cooperação também reage com medo e violência quando encontra aquilo que considera diferente. O estranho, o desconhecido, o que não pertence ao clã, rapidamente pode ser associado à ameaça, à má sorte ou a alguma espécie de desequilíbrio. Em alguns momentos, isso aparece nos encontros com os Homo sapiens: a diferença física e comportamental basta para transformar o outro em algo suspeito, quase como se não estivesse sujeito às mesmas regras de proteção e respeito que valem dentro do grupo. Foi impossível não fazer um paralelo com mecanismos que continuam presentes hoje em preconceitos, xenofobia, racismo e conflitos entre grupos. Evidentemente, não se trata de dizer que as situações sejam equivalentes, mas o mecanismo parece familiar demais: primeiro vem o estranhamento, depois o medo, e então a construção de uma justificativa para tratar o outro de uma forma que provavelmente não aceitaríamos se ele fosse reconhecido como “um dos nossos”.

A menina Homo sapiens talvez seja a personagem que torna esse conflito mais concreto. Criada pelo grupo de neandertais, ela cresce cercada por eles, aprende seus hábitos e depende daquela comunidade, mas nunca deixa de ser percebida como diferente. A própria aparência física a separa dos demais, e em alguns momentos essa diferença basta para que seja associada à má sorte ou vista como alguém que não pertence inteiramente ao grupo. Ao longo do livro, há nela uma busca por pertencimento que talvez nem seja completamente consciente: quem são os seus, de onde ela veio, como seria encontrar alguém parecido com ela? Essa inquietação atravessa boa parte da narrativa e dá à personagem uma dimensão muito humana. É a necessidade de saber onde se pertence, de encontrar no outro algum reflexo de si mesmo — uma necessidade que continua bastante familiar, apesar de toda a distância que separa aquele mundo do nosso.

O homem que ocupa a posição de líder do grupo e que, de certa forma, assume para ela um papel paterno, também me parece um personagem muito importante por outro motivo. Ele percebe coisas que não consegue explicar, desconfia, hesita, tenta compreender situações para as quais não tem repertório, linguagem ou conhecimento suficiente. E é justamente essa limitação que o torna tão humano. Não é alguém que tenha respostas, mas alguém que sente que existe algo além daquilo que consegue alcançar.

Talvez isso também não esteja tão distante de nós quanto gostaríamos de imaginar. Hoje temos ciência, conhecimento acumulado, instrumentos para observar o mundo e explicações para coisas que durante milênios foram entendidas como sinais, castigos ou manifestações do desconhecido. Ainda assim, continuamos convivendo com crenças, dogmas, tradições e certezas que muitas vezes aceitamos sem questionar completamente. Em maior ou menor grau, parece existir em nós essa necessidade de preencher aquilo que não compreendemos com alguma explicação que torne o mundo mais suportável ou inteligível.

Nesse sentido, ele e a menina acabam funcionando quase como espelhos invertidos: ela parece buscar, ainda que sem saber exatamente como formular isso, o lugar a que pertence; ele parece buscar uma compreensão maior do próprio mundo em que vive. Em ambos existe uma inquietação que não depende de ciência, filosofia ou qualquer elaboração mais sofisticada para existir. Existe apenas a sensação de que há algo que ainda não se entende.

Talvez seja justamente por isso que, paradoxalmente, quanto mais o livro nos leva para um mundo que parece distante daquilo que reconhecemos como civilização, mais próximos aqueles personagens acabam ficando. Eles vivem num universo governado por necessidades muito básicas, medo, instinto, superstição e sobrevivência, mas também por afeto, proteção, curiosidade, desejo de pertencimento, dúvida, violência e cuidado. Em alguns momentos, a distância temporal parece enorme; em outros, quase desaparece. E foi isso que mais me chamou a atenção ao longo da leitura: perceber que certas estruturas talvez tenham mudado muito menos do que imaginamos. As ferramentas mudaram, as explicações ficaram mais sofisticadas, as sociedades se tornaram infinitamente mais complexas, mas alguns impulsos continuam reconhecíveis demais.

E essa proximidade nem sempre é confortável. Há momentos em que o comportamento dos personagens nos aproxima não pelo que temos de melhor, mas justamente pelo contrário. A tentativa de estupro da menina por um dos neandertais é provavelmente o exemplo mais brutal disso. Não porque aquela violência seja necessária para explicar o que é humano, mas porque ela expõe impulsos de dominação, desejo, força e abuso que continuamos reconhecendo milhares de anos depois. O mesmo grupo que protege, acolhe e cuida também é capaz de excluir, agredir e violentar. Talvez seja justamente aí que o livro provoque mais incômodo: quanto mais tentamos enxergar aqueles seres como primitivos e distantes de nós, mais encontramos comportamentos que persistiram, apenas revestidos por outras regras, instituições e discursos. A civilização nos deu formas mais sofisticadas de organizar a convivência, mas não necessariamente eliminou tudo aquilo que havia de mais instintivo em nós.

Talvez tenha sido justamente isso que mais me marcou em Os Imortais. Quanto mais a história me afastava do mundo que reconheço como civilizado, mais familiar aquele mundo começava a parecer. Medo do desconhecido, necessidade de pertencer, respeito, cuidado, superstição, violência, preconceito, curiosidade, busca por respostas… tudo isso já estava ali, em formas mais simples e mais expostas, mas ainda perfeitamente reconhecíveis. É estranho perceber nossa própria humanidade aparecendo com tanta força justamente quando acompanhamos personagens tão próximos das nossas origens mais primitivas. Talvez tenhamos mudado muito mais as ferramentas, as explicações e a maneira de organizar o mundo do que alguns dos sentimentos e impulsos que carregamos dentro dele. E, no fim, talvez essa tenha sido a pergunta que o livro deixou comigo: quanto de nós já estava ali?





Às vésperas dos 50…

23 08 2026
Imagem trabalhada com ajuda da IA.

Recentemente, numa conversa com uma das minhas sobrinhas sobre livros que eu estava recomendando para ela ler nas férias, acabei revisitando mentalmente algumas leituras da adolescência. Entre elas, voltaram Richard Bach, Fernão Capelo Gaivota, Ilusões, A Ponte para o Sempre e, especialmente, Um. Nesse último, há uma imagem que ficou guardada comigo por anos: a de um voo sobre linhas imaginárias, que poderiam ser rios ou estradas, representando metaforicamente caminhos que teríamos tomado ao longo da vida, que se bifurcam infinitamente, como se cada decisão abrisse um caminho possível e, ao mesmo tempo, fechasse outros.

Talvez essa imagem tenha voltado agora porque estou às vésperas dos cinquenta anos, que completo em novembro. É apenas um número, claro, mas seria desonesto dizer que ele não carrega um simbolismo. Com ele, vem também uma constatação difícil de ignorar: muito provavelmente, o tempo que tenho pela frente é menor do que o tempo que já deixei pra trás. Não é desespero, é uma lucidez nova. Essa percepção fica ainda mais forte quando olho ao redor. Amigos de muitos anos começam a perder seus pais, pessoas próximas passam por doenças relacionadas à idade, despedidas, mudanças duras de rota. Alguns amigos eu mesmo perdi ao longo do caminho. Há uma fase da vida em que o tempo deixa de ser calendário e vira falta. E isso torna tudo mais concreto.

Ao mesmo tempo, quando olho para trás, percebo o quanto fui agraciado, ou abençoado, no sentido mais amplo e menos religioso possível – até mesmo porque sigo sendo ateu agnóstico. Isso justamente por ter podido fazer escolhas em muitos momentos da minha vida. Muita gente não tem essa margem: é empurrada pelas circunstâncias, pela falta de oportunidade, pela urgência da sobrevivência. Eu, com todos os medos e limitações, com um início de vida com alguma dificuldade, mas sempre com muito apoio da família, pude escolher muitas vezes. E escolher também é arcar com as consequências. Algumas me levaram por caminhos mais leves, outras por caminhos mais duros, e todas vão igualmente trilhando o caminho…

Algumas dessas escolhas eu talvez não repetisse. Mas todas elas fazem parte do percurso e do que me tornei hoje. Penso então naquele adolescente que sofreu como se cada dor fosse definitiva. Lembro de decepções, vergonhas, amores terminados, cartas dramáticas e hoje algumas dessas dores parecem menores, mas não eram pequenas para quem eu era naquele momento. Por isso não olho para trás com deboche, olho com ternura. Aquele menino também sou eu. E as dores que passaram e as que ficaram, os erros, os acertos, as cicatrizes que ficaram em mim e que acabei deixando em pessoas ao longo do caminho… Tudo isso foi ajudando a formar quem eu sou. Talvez este texto seja uma revisitação de coisas que já tentei elaborar antes, nesse mesmo blog, aqui, aqui e aqui. O tempo que não existe no depois, as escolhas que não podem ser refeitas, as perdas que transformam presença em memória. Eu poderia ter sido outro, mas eu sou este resultado dessas bifurcações. E, do alto dos quase cinquenta anos, com defeitos, virtudes e algumas cicatrizes, consigo olhar para o caminho percorrido com gratidão. Há muito que ficou para trás, sim, mas ainda há estrada. Ainda há escolhas. Ainda há vida a ser vivida.





Meritocracia

4 09 2022
Imagem daqui

Meritocracia. Segundo o dicionário, significa “Forma de administração cujos cargos são conquistados segundo o merecimento, em que há o predomínio do conhecimento e da competência”.

Parece um belo conceito, justo, segundo o qual quem merece mais, recebe mais. Seja na vida, seja na escola, seja no trabalho. Fez por merecer, levou. Não conseguiu? Então não se esforçou o suficiente. Mais justo, impossível. Isso seria verdade, ou poderia ser verdade, se as condições iniciais dadas a todos fossem rigorosamente iguais. Será que são?

Fazia bastante tempo que eu estava pensando em escrever algo a respeito. O que me levou a escrever agora foi um fato que ocorreu há algumas semanas. Em um grupo de WhatsApp do qual faço parte alguém chamou a atenção para uma matéria: “Estudante rejeita herança de R$ 22 bilhões: ‘Não poderia ser feliz'”. O que me chocou foram os comentários no grupo: “Que estúpida!”, “Pega o dinheiro e gasta, faz qualquer coisa, monta um museu…”. Fui ler a matéria.

Resumidamente, uma moça rejeitou uma fortuna que a avó desejava deixar para ela, porque ela disse que não poderia receber tamanha quantidade de dinheiro, não se sentia confortável por não ter feito nada para “merecer”, apenas pelo fato de ter nascido numa família bilionária. A moça não fez voto de pobreza, veja bem, ela tem bastante dinheiro, vive uma vida extremamente confortável, e teria abdicado de “apenas” 90% da herança equivalente a R$22 bilhões, ou seja, ainda aceitaria receber cerca de R$ 2.2 bilhões. Por uma questão de MERECIMENTO, ou MÉRITO, do ponto de vista dela, ela não merecia aquele dinheiro. A moça, ainda segundo a mesma matéria, faz parte de um grupo organizado de herdeiros multimilionários que defendem o aumento de impostos para os mais ricos, e me pareceu uma pessoa preocupada com a desigualdade entre as pessoas na sociedade.

Aquilo me pareceu uma questão de visão de mundo com a qual não estamos acostumados a conviver. A nossa sociedade nos acostuma a ver o acúmulo de dinheiro e de bens como um objetivo de todos, para muito além das nossas necessidades. Ao longo do tempo, foi se formando um abismo social, onde as pessoas que possuem muito dinheiro tem mais facilidade para conseguir mais e mais dinheiro, enquanto a imensa maioria das pessoas que têm pouco ou quase nada não têm nenhuma facilidade ou oportunidade para progredir, por mais que se esforcem. Esse estudo da OCDE (Organização pela Cooperação e Desenvolvimento Econômico) mostra que uma família que está entre os 10% mais pobres demora 5 gerações em média para atingir o nível das mais ricas. Ou seja, se você nasce pobre e você, seu filho, seu neto, seu bisneto, seu trineto e seu tataraneto se esforçarem, o filho do seu tataraneto pode nascer em uma família entre as mais ricas. Note que isso é uma média, então, para cada exceção que consegue antecipar várias gerações, há outros tantos que demoram bem mais… O país onde esse tempo é menor é a Dinamarca, onde se levam 2 gerações em média. No Brasil, levam-se 9 gerações. Nos Estados Unidos, “terra das oportunidades”, 5 gerações.

Isto posto, será que realmente faz sentido falar em meritocracia? Nós, enquanto sociedade, estamos fazendo algo para dar condições mínimas de igualdade? Podemos fazer muito nesse sentido, mas aqueles que detêm o poder não fazem, não se interessam por isso. Fico muito incomodado com análises simplistas como aquelas que em geral aparecem nos grupos de WhatsApp, como foi o caso que contei. Eu acabei me lembrando de uma história em quadrinhos (tradução retirada daqui) que reproduzo abaixo:

Vejam bem, nada contra as pessoas que aproveitam as oportunidades, que batalham, que conquistam espaços que em tese poderiam ser de outros. O que incomoda é que pessoas que recebem privilégios, por quaisquer motivos, não enxerguem isso e achem que tudo foi por conta da tal da meritocracia…





O último grande influenciador analógico

14 08 2022
TV Globo/Zé Paulo Cardeal

Tendo passado mais de uma semana do falecimento de Jô Soares, agora já me sinto um pouco mais à vontade para escrever sobre ele. Não gosto de opinar sobre coisas quando todo mundo está falando a respeito, eu geralmente me sinto mais confortável depois de um certo distanciamento temporal, sei lá. Mesmo escrevendo aqui sem grandes pretensões, via de regra prefiro refletir um tanto antes de escrever.

O próprio Jô assinou uma “carta aberta” há alguns anos atrás como “Influenciador analógico”. Liberdade poética para o uso do “analógico” em contraposição ao “digital”, querendo dizer que era das antigas, não tinha redes sociais, e isso tem um significado bastante interessante, eu acho. Jô sempre foi conhecido e elogiado por ser alguém culto, antenado, inteligente, embora – não sei se muitos sabem – não ter nenhuma formação superior. Mas ele era um leitor ávido, um curioso sobre tudo, que ia atrás de se informar profundamente sobre qualquer assunto que lhe interessava. Poliglota, viajado, conhecia e sabia conversar e opinar, portanto, sobre vários e vários assuntos. Por que então ele se manteve “analógico”, há mais de 5 anos depois que seu programa saiu do ar, seguia escrevendo, produzindo, mas perdeu a visibilidade digamos assim, popular, que ele tinha?

Acredito que isso tenha a ver com o nosso mundo atual, dito “digital”. Nesse mundo a informação é rápida, fugaz, superficial, ninguém mais se interessa por entender algo em profundidade, qualquer pessoa sem nenhuma bagagem – e aqui nem restrinjo à bagagem acadêmica – consegue ter uma visibilidade, milhões e milhões de seguidores, tornar-se “influenciador” e muitas vezes propagar desinformação, bobagens, e conseguir ganhar um espaço e relevância que seriam impensáveis em outros tempos. Vídeos e podcasts que podem ser acelerados para ganhar tempo, tornando qualquer um “especialista” em qualquer assunto em pouco tempo. Conteúdo não vende, o que vende é praticidade, velocidade, tempo… Não há mais espaço, hoje, para uma conversa mais profunda, embasada, essa geração já foi, ficou no passado, nos primeiros anos do século… A era da informação imediata nos trouxe acesso praticamente ilimitado a todo o conhecimento gerado no mundo ao longo de séculos, e isso seria potencialmente transformador para que as pessoas – e a sociedade como um todo, em consequência – ficassem mais cultas, com mais sabedoria, certo? Mas não foi isso que aconteceu, muito pelo contrário… Não há mais espaço para pessoas como Jô Soares, um “exibido assumido”, como ele próprio dizia, cujas conversas e intervenções não caberiam num “fio” de Twitter, num vídeo curto do TikTok, YouTube ou Instagram… O formato hoje limita, pede pelo “empacotamento” e pela velocidade, e a superficialidade como consequência. Hoje é isso que vende, e quem quer ou precisa vender precisa fazer nesse formato, dessa maneira…

O mundo de hoje está melhor por conta disso? Eu particularmente acredito que não… Tive o privilégio de conviver com meu avô, um exemplo de cultura geral e bagagem de conhecimento como poucos, e de certa forma minha formação enquanto ser humano foi bastante impactada por isso. Hoje vejo pessoas terminando o curso superior – o que em tese lhes colocaria no nível da elite intelectual do país – que não leem, não se informam ou não se preocupam em se informar, selecionam somente as informações que lhes chegam pelas redes sociais – cujos algoritmos não primam nem um pouco pela pluralidade de fontes, muito pelo contrário, criam bolhas – e vão formando assim a nossa sociedade dita “digital”.

Paradoxalmente, esse mundo não precisa dos velhos influenciadores “analógicos”, com conteúdo, ao mesmo tempo que nunca tivemos tanta necessidade deles, na minha opinião. O mundo precisa de novos Jô Soares, mas não damos espaço a eles…





Hibernação

24 07 2022

Hibernação. Segundo o dicionário, “Estado de inatividade com diminuição do metabolismo de certos animais durante o inverno, período em que suas reservas de alimentação são utilizadas.”. Período em que alguns animais praticamente “desligam” a maior parte das atividades corporais para poderem sobreviver durante um período de privação de alimentos, notadamente o inverno. E quando se fala de hibernar, normalmente o que nos vem à mente são os ursos…

Urso polar hibernando. Foto: Coffeemill / Shutterstock.com

Esse pode ser considerado o estado desse blog. Voltando para dar notícias após 273 dias, praticamente 9 meses inteiros em estado de dormência, como que economizando energia, juntando forças para um eventual retorno após o “inverno”. Tudo bem que nesse caso o tal inverno começou na primavera e atravessou um verão e um outono inteiros, mas acredito que consegui passar a ideia da metáfora. Ao menos espero ter conseguido.

Nesses últimos tempos, na verdade desde meu aniversário de 45 anos em novembro passado, acabei por deixar um pouco de lado esse espaço em detrimento de outras prioridades, como o trabalho, família, estudar e ler sobre coisas diferentes, terminar uma pós graduação e começar a pensar em seguir uma segunda carreira paralela, ideia que brotou no ano passado e sobre a qual ainda pretendo falar em breve, depois de amadurecer um pouco mais as coisas.

Mas o fato é que esse espaço nunca foi encarado por mim como obrigação, era muito mais um espaço de prazer que pretendo retomar, provavelmente com a frequência semanal que consegui manter no primeiro ano dele, vamos ver como as coisas irão evoluir daqui em diante.

Espero poder continuar com esse espaço e com a presença de vocês, que ainda se dão ao trabalho de vir aqui para saber no que ando pensando… agradeço por ter lido até aqui, aguardem os próximos posts…