Sobre perdas, e sobre momentos que não se perdem…

30 05 2021

Queria sentar aqui hoje e escrever sobre alguma viagem legal, relatar experiências, falar das saudades de poder criar e executar planos de viagens, comentar sobre coisas desse mundão enorme que nos cerca… Mas ontem houve um fato que me fez pensar muito a respeito de escolhas e momentos, sobre os quais já falei no post Depois é um tempo que não existe”, e no post “Questão de tempo (About time)”: Ontem, inesperadamente, um grande amigo, Carlos Cavalcanti (Cal ou Caval, como eu o chamava), partiu dessa vida. Não sou religioso, considero-me simplesmente uma pessoa espiritualizada em constante aprendizado. Nesse sentido, gosto de pensar que em algum outro plano, de alguma forma, iremos nos encontrar novamente… Mas a falta que ele fará aqui é praticamente indescritível, quem teve o privilégio de conhecê-lo sabe disso…

Na frente do nosso alojamento, aos pés do Annapurna, nas altas montanhas do Himalaia (Nepal)

Caval era uma pessoa de quem era muito fácil de gostar, logo de cara. Sempre bem-humorado, sempre disposto a topar qualquer programa, jantar, bar, cinema, o que fosse… excelente companheiro de viagens e trilhas, algumas que tive o prazer de fazer em sua companhia. E foi por isso que ele foi o único amigo (maluco?) que topou o convite para aquela que seria uma das viagens mais marcantes que já fiz, para o Nepal e Butão, em 2014. Nosso testemunho consta na página da agência até hoje.

Essa é a imagem que vou guardar de você: celebrando a vida, a amizade e as conquistas, sempre!

O fato de ele ter aceito aquela viagem naquele momento proporcionou a experiência que tivemos. Eu estava em boa forma, acostumado a fazer trilhas com frequência pelo Brasil e América do Sul principalmente. Mas ele não, não estava no melhor condicionamento para encarar dias de caminhadas de 4, 5, às vezes 8 horas em uma altitude relativamente alta para nós, brasileiros “da planície”, por assim dizer. Ele poderia ter sido bem racional e declinado. Mas ele não era assim. Ele topava, ele encarava. Sofreu durante a caminhada? Sim, um tanto. Em um determinado momento tivemos que dar uma encurtada, diminuir um pouco o ritmo e até mudar os planos no final, nos últimos trechos. Mas, segundo ele próprio, valeu a pena. Valeu a pena cada parte do esforço para estar naqueles lugares, ver aquelas coisas, viver aquela experiência toda. E aí, pensando nisso, tenho o gancho da estória do “deixar pra depois”: quantas vezes deixamos de fazer as coisas esperando pelas condições ótimas, quando estiver tudo perfeito?

Olhando para a trilha que passou, e para a que ainda tínhamos pela frente…

Vale a pena perder oportunidades para deixar para um depois que não sabemos se virá? Ele não teria conhecido o Himalaia, não teria vivido as sensações, cores, cheiros, a vida naqueles lugares. Por mais clichê que possa soar, não posso deixar de dizer: Devemos viver, aproveitar, arriscar, tentar, fazer… e não consigo pensar nele, nessa postura de se permitir viver, não deixar pra depois. E no momento difícil de uma perda como a que ocorreu agora, pra mim fica mais forte ainda a questão das opções e escolhas que fazemos ao longo da nossa caminhada pela vida… arrepender-se de escolhas, sim, mas de não ter tentado, acredito que isso deixa um gosto amargo demais na boca…

E espero ter deixado uma mensagem à sua altura, Caval, nesse pequeno texto que fiz aqui pensando em você, e nos momentos que passamos juntos, e pela experiência de ter tido a honra e o privilégio de ser seu amigo. As lágrimas já se foram, vão secando aos poucos, para que você possa fazer a sua passagem… Vá em paz, qualquer dia a gente volta a se encontrar…

Que sua passagem seja tranquila, amigo…

Vai com os anjos, vai em paz

Era assim todo dia de tarde, a descoberta da amizade

Até a próxima vez, é tão estranho

Os bons morrem antes

Me lembro de você e de tanta gente

Que se foi cedo demais

Legião Urbana, “Love in the afternoon”

Página da nossa viagem de 2014 no Facebook

Álbum de fotos da nossa viagem de 2014 no Facebook





Questão de Tempo (About Time), filme

23 05 2021
Imagem daqui

Há alguns dias assistimos a esse filme na Netflix. Parecia uma comédia romântica interessante, com uma estória que me chamou a atenção. Um bom programa para uma noite em casa, no meio da pandemia, quando não se pode realmente ter muitas opções fora de casa (sim, somos partes dos idiotas que ainda teimam em ficar em casa!). A sinopse falava sobre a estória de um rapaz, de nome Tim, em cuja família os homens têm o poder de voltar no tempo, e refazer partes de suas vidas, para desfazer decisões, refazer escolhas, enfim, experimentar caminhos diferentes depois de saber o que ocorreu com o caminho escolhido.

Essa premissa é a princípio uma coisa fantástica, muito boa, quem nunca parou por um momento pensando como teriam sido as coisas na sua vida e na de outros, caso tivesse escolhido A ou B em detrimento de C. Se tivesse escolhido outra carreira, se tivesse ido morar em outra cidade ou país, se tivesse se dedicado a estudar ou desenvolver-se em algum assunto ou habilidade específicos? Ou eventualmente querer desfazer um erro que numa fração de segundo mudou completamente o rumo da sua vida?

No início, com esse aparente dom maravilhoso, tudo parece perfeito, e ao longo do filme o nosso protagonista vai aprendendo algumas coisas, uma das mais impactantes é que as escolhas refeitas têm consequências que podem não ser as esperadas ou as mais agradáveis. Ele vai amadurecendo ideias e conceitos, passando a lidar com as situações e mesmo com esse “poder” de uma maneira diferente.

A estória faz pensar sobre nossas próprias escolhas, o que fizemos com o fruto delas, e até mesmo revisitar o que houve de imperfeições, pretensos erros e acertos ao longo do caminho. Digo “pretensos” porque acredito que justamente por não termos nunca a certeza do que ocorreria no caso avesso às decisões tomadas, a mim parece bastante pretencioso carimbar ou rotular “acerto” ou “erro” sem uma grande chance de estar sendo injusto com as próprias escolhas. Há muito tempo atrás um colega de trabalho veio me pedir um conselho: ele tinha uma noiva, um relacionamento de algum tempo, na cidade natal dele, e, na cidade onde ele estava trabalhando, tinha se envolvido com uma outra moça. Ele tinha que decidir e não conseguia. A minha resposta/conselho foi mais ou menos a seguinte: Não importa a sua decisão, ela vai ser a melhor e a pior ao mesmo tempo. Qualquer que seja a escolha, em algum momento no futuro você vai olhar para trás, provavelmente em um momento em que as coisas não estejam bem na sua vida por algum motivo qualquer, e irá dizer para si mesmo que a outra escolha teria sido a melhor. O que é uma comparação injusta, da utopia do que “poderia ter sido” com a realidade do que realmente aconteceu. Não tenho a menor ideia do quanto ele entendeu ou levou em consideração o que eu disse (ele acabou deixando a noiva, mas não convivi com ele tempo suficiente para saber para onde caminhou a estória), mas, ele pediu um conselho, eu dei o melhor que tinha à época…

Acredito que nossas escolhas moldam quem somos e quem vamos nos tornando ao longo do tempo. Quantas vezes você se pegou pensando “se eu soubesse tudo que sei hoje naquela época, teria feito diferente”? Pois é. Teria feito diferente, suas escolhas teriam consequências diferentes e você hoje seria uma pessoa diferente. Melhor, pior? Isso talvez seja bastante relativo. Com o passar do tempo passei a entender que os extremos e o pensamento maniqueísta não fazem sentido, ao menos para mim. Os equilíbrios me atraem mais. Sobre as escolhas, hoje sou exatamente como sou por conta das escolhas que fiz e que me trouxeram até aqui. Algumas fáceis, outras mais difíceis, algumas rupturas, alguns arrependimentos. Acredito que se ficarmos revisitando as escolhas, sendo que estão feitas e definidas (diferentemente do caso do nosso amigo Tim no filme), nunca poderemos ter serenidade e leveza, necessárias para seguirmos em frente e termos uma vida plena e feliz, ou o mais próximo disso possível.

Benção ou maldição?

O poder que Tim tinha era realmente algo fantástico, que, como disse no início, a princípio parece só ter vantagens. Mas ao longo do tempo algumas coisas passam a fazer mais sentido do que ficar refazendo as coisas, aprendendo, consertando (ou tentando consertar) o passado. Mas suas ações impactam não somente a sua vida, mas também as das pessoas próximas a você. Aquele outro filme, O efeito borboleta, também trata disso, de uma maneira diferente. Você conseguiria viver com a responsabilidade de alterar as coisas a seu bel prazer? Havia uma música de uma banda de rock nos anos 90 que dizia “você consegue viver consigo mesmo quando você pensa no que deixou pra trás?“. Eu diria que viver convivendo com nossas escolhas é certamente melhor do que conviver com decisões alteradas conscientemente e que cujas consequências invariavelmente nos fogem do controle. Durma com isso…

Bom, por hoje era isso, se chegou até aqui espero que tenha gostado, até uma próxima…