“Causos” de viagem – parte 3

27 12 2020
Imagem daqui.

Sequência de “causos” marcantes ocorridos nas minhas viagens… já publiquei a parte 1 e parte 2

Ônibus de excursão errado em Cusco, Peru

Quando contratamos a excursão para passear em Cusco, antes de iniciarmos a Trilha Inca, tínhamos uma espécie de tour privado, com poucas pessoas. Ficou marcado do guia, que havíamos encontrado no dia anterior, ir nos pegar no dia seguinte, no hotel. Importante: na época, não havia celular para falarmos com o guia. No horário marcado, estávamos lá sentados na recepção, aguardando. Entra um guia bem mais novo, falando castelhano super rápido, perguntando meu nome: Cristiano, disse eu. “Ah, venha, venha, estamos atrasados”, ele disse. “Onde está o Jim?”, perguntei, querendo saber do nosso guia. “Venha, venha, depois!”. Desconfiei, mas fomos com ele. Subimos num ônibus grande, cheio de turistas, perguntei ao motorista sobre o Jim, ele também estava todo apressado e me mandou subir. Começamos a sair pela cidade, parando em outros hotéis e pegando mais turistas. A cada parada eu tentava explicar que achava que estava no lugar errado. Até que chegou uma parada e vi o “guia” do lado de fora do ônibus levando um esporro de um casal, e reconheci que era um casal que estava no nosso hotel. Tinham acabado de descobrir que tinham pego o casal errado, no caso, nós. O nome do cara do outro casal era Christian (tremendo azar!). O tal “guia” entrou num carro conosco para nos levar de volta ao hotel. Xinguei ele com todos os nomes que meu castelhano permitia (não pelo erro, mas por não ter me ouvido, o tempo todo dizendo que não devia estar ali e perguntando pelo Jim). Fomos devolvidos ao hotel, e nosso guia de verdade estava esperando… felizmente deu tempo, e tivemos um belo dia de passeios.

Garçom mal-educado em Buenos Aires, Argentina

Estava passando pela frente do famoso Café Tortoni, na não menos famosa Avenida de Mayo. Já havíamos comido, mas pensávamos em voltar ali para tomar um café mais tarde. Achamos que daria para verificar o menu, ter uma ideia do que tinha e dos preços, para voltar mais tarde. Não havia menu na entrada, então entramos e pedimos ao garçom. Ele nos convidou a sentar. Expliquei que voltaríamos mais tarde, agora só queríamos ver o menu. Ele fechou a cara, disse “Se te sientas, te lo daré”, deu as costas e nos deixou ali, parados…

Menino que não sabia usar lápis, no Nepal

Essa foi uma das situações que mais me tocaram em todas as viagens que fiz. Quando fui fazer essa viagem, fui avisado que iríamos passar por vilas com pessoas bem simples, e que as crianças gostavam de receber lápis de cera, livrinhos de pintar, essas coisas, então levei alguns na mochila comigo. Numa vila específica, entreguei um livrinho e um estojinho de lápis para um menino, não tinha mais de 4 anos. Os olhinhos brilharam, ele agarrou os presentes e ficou circulando com eles. Umas turistas que estavam por lá fizeram menção de ajudá-lo, abrir o estojo e o livrinho, ele ficou desesperado, acho que pensou que iam tirar dele. Fiquei com a impressão de que ele jamais tinha visto aquelas coisas, nem sabia o que fazer com elas. Fiquei alguns minutos ali, pensando e observando o menino, e imaginando o abismo entre a realidade dele e a minha, as oportunidades que ele vai ter, em comparação com as crianças no Brasil, ou de outros países. Fiquei pensando o quanto estamos longe de ter um mundo igualitário e justo para todos..

Procurando cerveja na sexta-feira santa em Dublin, Irlanda

Em 2010, peguei duas semanas de “férias” ao sair de um emprego e antes de começar outro. Fui para Barcelona visitar um casal de amigos, Sílvia e Fabiano, que estavam morando por lá. Por sugestão do Fabiano, fui procurar voos low cost para sair de Barcelona, pois eles moravam perto de um aeroporto secundário com muitos desses voos. Acabei achando uma promoção de 30 euros ida e volta Barcelona-Dublin, com limitação de ir numa terça e voltar no sábado de aleluia, sem despachar bagagem. Uma verdadeira pechincha. Topei. A viagem a Dublin foi bem legal, apesar do tempo estar meio frio e chuvoso (a primavera tinha acabado de começar, teoricamente). Mas o engraçado dessa viagem, que deixo para descrever em outro post, foi na minha última noite em Dublin, que era justamente a sexta-feira santa. Eu sabia que a Irlanda era um país bem católico, mas também sabia que era um povo bem festivo e que bebia muito. Mas na sexta-feira santa, por força de lei, era proibido vender bebidas alcoólicas. Fui para o Temple Bar, bairro turístico e boêmio da cidade, e todos os restaurantes estavam com placas indicando isso. A maioria dos bares, fechados, os abertos continham placas semelhantes.
Entrei em um restaurante, pedi uma massa para o jantar, e a garçonete me perguntou o que eu queria beber. “Não posso nem pensar numa Guinness hoje, né?”, perguntei. Ela respondeu séria que não, mas tinham muitos refrigerantes e sucos para eu escolher. Pedi um suco de maçã. “Duplo sem gelo!”, ainda brinquei. E assim minha última noite em Dublin foi completamente sem bebida alcoólica…





Causos de viagem – parte 2

11 10 2020

As viagens trazem experiências inesquecíveis, por motivos bons ou ruins, mas sempre rendem boas estórias e risadas… essa série de posts iniciou com a parte 1, e segue por aqui…

Controle de Imigração em Abu Dhabi, Emirados Árabes Unidos

Na viagem de volta do Nepal (outubro de 2014), tivemos que fazer uma parada de 14hs em Abu Dhabi. O avião estava cheio de nepaleses que estavam indo para lá trabalhar na construção civil e outros empregos de baixa qualificação. Ficamos numa fila com esses outros passageiros, para fazer identificação biométrica pela íris. O oficial da imigração, trajando a Kandora, aquela roupa branquíssima típica da região, estava sendo ríspido, falando em inglês: “Here!” (aqui!), “Where are you from?” (de onde você é?), “Next!” (próximo), para cada um que passava pelo procedimento. Um deles ficou ali ao lado após passar, provavelmente esperando por um amigo que ainda estava na fila, e foi enxotado: “Go, go! Don’t stay here!” (Vá, vá, não fique aqui não!). Aí chegou a minha vez: “De onde você é?”, “Brasil”. Nesse momento, abriu um sorriso na cara do oficial: “Brasil? Germany’s beaten you so hard, hum?” (Brasil? A Alemanha bateu forte em vocês, hein?), me sacaneando pelos 7×1 da Copa que tinha sido no Brasil. “Don’t mention it” (Nem fale nisso), respondi. Custava ele ser grosso e ríspido comigo, igual era com os nepaleses?

Garçom explicando nomes em espanhol em Sevilha, Espanha

Ao sentarmos para almoçar em Sevilha, havia um item no cardápio que nos chamou a atenção: Cola de Toro. Não sabia o que era cola, então fomos perguntar ao garçom. Ele falou que era a cola do touro, a cola! Continuamos sem entender. Como o problema era a tradução, lá veio a mímica: ele colocou a mão pra trás, grudada na bunda e balançando: “La cola!”. Aí entendemos, cola é cauda, rabo. Inevitável, começamos a dar risada. Em tempo: Acabamos pedindo o tal prato, e gostamos, o gosto se aproxima muito da costela.

Menina sueca tentando conversar (em sueco) comigo em Estocolmo

No geral as crianças têm muita curiosidade com relação a estrangeiros. Estava em um parque em Estocolmo, descansando da caminhada. Uma menina se aproxima, fica me olhando. Sete ou oito anos no máximo, cabelos e olhos escuros(fora do estereótipo sueco, portanto). Arrisco:

“Olá!”
“Olá!”, ela responde.
“Speak english?”
“No!”, com cara séria.
“Habla español?”, arrisquei, já que ela havia respondido ao meu “Olá!”.

A resposta veio em um sueco impecavelmente ininteligível para mim. Aí eu mandei: “Svenska?(Sueco?)”, gastando o sueco que não tinha (aliás, não tenho!). Os olhos dela brilharam e balançou afirmativamente a cabeça, achando que iria rolar uma conversa. Ergui os ombros dizendo “Sorry”, que dó. Ela murchou, deu de costas e foi fazer outra coisa…
Quer ser simpático sempre, às vezes não dá mesmo…





“Causos” de viagem – parte 1

27 09 2020

Uma das coisas mais divertidas de se viajar são as situações pelas quais passamos, algumas que causam irritação ou problemas na hora, outras nem tanto, umas que nos tocam e marcam profundamente, e todas invariavelmente rendem boas histórias para serem contadas. Fiquei lembrando algumas por aqui, e achei que valia um post (na verdade uma série de posts), espero que gostem.

Senhora simpática dirigindo ônibus em Dublin, Irlanda

Subi num ônibus em Dublin, capital da Irlanda, para ir conhecer a Kilmainham Gaol, uma prisão desativada, cheia de História e que foi usada como local de filmagens de alguns filmes (recomendo a visita, inclusive!). Eu havia me informado a respeito do ônibus e do trajeto, tinha um mapa da cidade aberto na mão, e subi com ele aberto no ônibus, que era dirigido por uma senhora. Eu ali, tranquilo, de pé no ônibus olhando pro mapa e pro lado de fora, para ir acompanhando, notei que ela estava incomodada, ficava virando a cabeça e olhando para mim o tempo todo. Depois de um tempo, ela não se conteve e perguntou: “Você sabe onde está indo?”. Fiquei espantado, não é comum na Europa que alguém lhe aborde dessa maneira (no Brasil é super comum, mas não esperaria algo assim por ali…). “Eu pareço perdido?”, disse olhando para ela. Ela deu uma gargalhada… “Sim, você parece perdido”. Aí eu disse que estava indo para Kilmainham Gaol, ela disse que eu podia fechar o mapa e ficar tranquilo que ela me avisaria. Chegando lá, ela parou fora do ponto e me apontou simpaticamente o caminho até a prisão, que ficava a algumas quadras dali. Agradeci a gentileza inesperada, e fiquei bem feliz em descobrir que embora a cultura de outros países às vezes possa parecer “fria” para nós, latinos, vez ou outra somos surpreendidos positivamente…

Garçom simpático em Helsinki, Finlândia

Voltei para o Hostel após um dia de caminhadas pela cidade, fui tomar um banho e me esqueci de que, embora houvesse bastante sol lá fora, já passava das 10 da noite, e minhas chances de encontrar um lugar para jantar estavam se reduzindo. Traído pelo cérebro acostumado com a realidade dos trópicos, onde só é tarde se está escuro, oras…
Pois bem, saí andando pela cidade com a missão de achar algo para comer. Descobri que numa segunda-feira, 23hs, pode demorar um pouco. Só os (poucos) pubs estavam abertos, e aí todos diziam a mesma coisa, só temos snacks, essas coisas. Aí já conformado fui entrando num pub irlandês, para comer um sanduíche mesmo. Qual não foi a minha surpresa quando o cara da entrada me disse: “Ei, mas você não preferiria comida ao invés de sanduíche? Como disse que sim, indicou um restaurante meio escondido do outro lado da rua, no qual eu não tinha entrado por parecer meio caro (eu já tinha percebido naquela altura que Helsinki não é uma cidade das mais baratas). “Lá eles ainda servem comida a esse horário”, ele me disse. “Mas não é muito caro?” “O Mesmo que aqui.”, ele me respondeu.
Agradeci e fui ao restaurante indicado, que – eu chequei – não tinha nenhuma relação com o pub… Achei muito legal da parte do cara perder um cliente, uma venda, para deixá-lo mais satisfeito. No dia seguinte, voltei lá para tomar uma cerveja e deixar uma boa gorjeta…

Senhora russa simpática em São Petersburgo, Rússia

A barreira da língua é extremamente frustrante, ao menos para mim…
Eu estava em Pushkin, no subúrbio de São Petersburgo, procurando onde pegar a lotação (sim, tem disso na Rússia, e até uma palavra para tal, “marshutky” ou маршрутки, eu aprendi) para o metrô, estação Moscovskaya(московская). Aí, com meu russo nível jardim da infância, dirigi-me a uma senhora sentada no ponto de ônibus, em russo: “Pazjalsta, marshutky Moscovskaya?”(“Por favor, lotação Moscovskaya?”). Ela sorriu, respondeu algo em russo e (o mais importante) me apontou o caminho para o ponto que eu queria. Agradeci (“Spaciba”), e aí ela continuou sorrindo e falando russo… A única coisa que consegui dizer foi “Ya nyznaiu, ya nie gavariú pa rusky”(Não entendo, eu não falo russo)… Tenta ser simpático, passa vergonha… não é fácil não…

Tem mais estórias por vir, veja a parte 2.