O Homem da Terra (filme)

18 07 2021
Foto daqui

Realmente não me lembro quando e por que razão acabei assistindo a esse filme, de 2007(“The man from Earth” – “O homem da Terra”), assisti algumas vezes e ele tornou-se um dos meus favoritos, uma ficção científica extremamente simples, com um roteiro genial e premissas fantásticas que permitem aos espectadores um leque praticamente infinito de questionamentos e reflexões. Hoje (julho de 2021), pelo que vi só está disponível na plataforma MovieSaints (para alugar, não sei se há opção legendada) e no YouTube há uma versão com legendas em português, mas não sei se permanecerá ali, já notei outras versões sendo retiradas ao longo do tempo.

A estória passa praticamente inteira em um mesmo lugar, a casa de um professor, John Oldman, que está deixando a Universidade, de repente, sem explicações, e sem dizer para onde está indo. Também sem avisar, alguns de seus colegas vão até lá para improvisar uma despedida. Acabam ficando horas e horas ali, conversando, e é essa conversa que traz praticamente toda a parte interessante da estória. Os colegas obviamente estão curiosos por que razão um professor bem-sucedido, que estaria para assumir um cargo importante na Universidade, simplesmente larga tudo e vai embora. Estão ali catedráticos de diferentes áreas: Biologia, Arqueologia, Literatura, Antropologia, História (que é a área do professor Oldman).

O filme em si é cheio de sutilezas e detalhes, e acho que isso é uma das características que fazem dele um delicioso exercício intelectual e filosófico para quem está assistindo. Diante da insistência dos colegas pelos motivos da partida, o professor Oldman diz que de tempos em tempos ele tem essa necessidade de mudar, e que já passou por isso algumas vezes (embora aparente não ter mais de 35 ou 40 anos, no máximo). Essa desculpa não satisfaz a audiência, então ele começa a contar o que seria a sua estória de vida. Ele começa: “Imaginem um homem pré-histórico, nascido há 14 mil anos atrás, que por algum motivo desconhecido simplesmente não envelhece e não morre, e supostamente estaria vivo atualmente entre nós.”. Aquele pequeno grupo de intelectuais acadêmicos começa a achar divertida a estória, e começam a supor que Oldman estaria escrevendo um livro de ficção. “Imaginem que vida que esse homem teria tido, quantas oportunidades de aprender, de vivenciar tantas coisas diferentes, por tanto tempo!”. Com o passar da conversa, regada a um pouco de uísque, o professor Oldman continua a contar, em primeira pessoa, a estória desse suposto homem das cavernas imortal. Em um misto de espanto e curiosidade, os outros o encorajam e seguem ouvindo. Fazem um comentário sobre um quadro que viram no meio da mudança, que parecia ter o estilo de Van Gogh. Ele afirma que foi o próprio Van Gogh que lhe deu, quando conviveram no século XIX. Os colegas seguem fazendo várias perguntas, que ele responde tranquilamente, sem pestanejar. Conta de suas experiências tendo convivido com povos e culturas bastante diferentes, conhecido inúmeros personagens históricos pessoalmente. Note uma das principais sutilezas (talvez não tão sutil assim), o próprio nome dele, Oldman, pode ser traduzido literalmente como “homem velho”.

E ele segue contando que no princípio, entre os homens das cavernas, ele percebeu que não envelhecia. O grupo acabou por expulsá-lo achando que ele era amaldiçoado e estaria sugando suas vidas de alguma forma. A partir de então ele passou a conviver em grupos durante um tempo, e sempre partia quando começavam a perceber que ele não envelhecia. E passou a fazer isso indefinidamente, era fácil nos tempos em que os homens eram nômades, foi ficando mais difícil com surgimento de tribos, cidades, autoridades estabelecidas. Fala de quando viveu entre os sumérios, entre os fenícios, e de quando teria convivido e aprendido coisas com Buda.

Alguns dos colegas ficam fascinados com a estória, outros extremamente incomodados e incrédulos. Chamam um outro professor, aparentemente de psiquiatria, para participar da conversa, mas com a real intenção de avaliar o estado do professor Oldman. Em alguns momentos o próprio professor Oldman parece ter se arrependido de ter começado a estória. “Só queria me despedir de vocês como eu realmente sou, fazer isso pela primeira vez, mas talvez não tenha sido uma boa ideia.”

O clima começa a ficar meio tenso na conversa à medida em que a noite se aproxima. Um ou dois momentos que poderiam ser chamados de um grande clímax ocorrem, mas prefiro deixar para que você, que lê esse texto agora, possa assistir ao filme sem que eu o tenha estragado. Ao final, que ao menos para mim não foi óbvio, fica aquela associação de que o filme inteiro foi uma conversa ao redor do fogo, como temos feito há milhares de anos, contando estórias que viram História, passando de geração para geração, mudam-se os meios, alteram-se as mensagens, e o fluxo segue…

A mensagem que fica é de ficar pensando (filosofando?) a respeito dos caminhos da Humanidade, como foram forjadas suas crenças, seus mitos, tudo o que nos trouxe até aqui hoje, até mesmo nossa própria mortalidade. O que nos diria um suposto homem das cavernas que tivesse atravessado tudo isso e seguisse caminhando entre nós? Com o passar do tempo, a velocidade das informações, facilidade de fotos e vídeos, seria cada vez mais complicado para ele permanecer incógnito ao londo das gerações… O filme tem as coisas que gosto quando assisto ou leio uma estória: é intelectualmente instigante, o enredo não é óbvio ou previsível, e ao final me deixa com um monte de coisas para pensar a respeito… e são essas coisas que busco em uma boa estória.

Espero que tenha gostado se chegou até aqui, até uma próxima vez!

P.S.: Há uma sequência de 2017, chamada “Man from Earth: Holocene” (Homem da Terra: Holoceno), disponível no Vimeo para compra, e no MovieSaints para alugar. Eu particularmente não gostei muito, achei que foi uma sequência desnecessária. Foi imaginada uma situação, 10 anos após o primeiro filme, onde ele estaria lecionando em outro local, e alguns alunos começam a desconfiar de algo e vão investigar o passado dele… achei meio “hollywoodiano” em excesso, ainda mais comparado com o primeiro filme… mas, fica a referência, talvez sejá só uma má vontade da minha parte…