(republicação de um post de 2008, no blog antigo…)
Fui assistir a esse filme, depois de ler o que minha irmã escreveu sobre ele. O filme é ótimo, e me fez pensar algumas coisas. A estória de uma menina francesa no início dos anos 70, que tem uma vida de uma família burguesa, excelente aluna de um colégio de freiras. A trama se desenrola quando os pais da menina se tornam ativistas socialistas, fazendo com que a vida da menina mude bastante em função disso. O interessante da estória é que tudo se desenrola a partir da visão da menina (cuja atriz consegue construir uma personagem fantástica), da sua percepção do mundo e das coisas que a cercam. Da mesma forma que em Kamchatka e Machuca, que contam estórias de crianças vivendo a ditadura argentina e o golpe militar no Chile, respectivamente. Sempre muito interessante colocar as coisas do ponto de vista das crianças, para quem tudo parece sempre simples e direto, quase óbvio. Faz-nos pensar nas contradições da nossa sociedade e nas nossas próprias. No caso da pequena Anna, personagem do filme, ela é uma menina de 9 anos extremamente inteligente, articulada, certamente devido à formação dada muito mais pelos seus pais do que pelo colégio. Extremamente questionadora, fica revoltada quando vê as coisas no mundo ao seu redor saírem da lógica em que sempre funcionaram. Os “barbudos vermelhos” (nas palavras de sua babá, uma cubana exilada anti-Fidel) entrando e saindo da sua casa, a mudança para uma casa pequena, tudo a leva a reclamar e questionar, pedindo as coisas da sua outra realidade de volta. Ao longo do filme ela começa a entender algumas coisas, chegando ao ponto de questionar o pai o porquê de ele ter se omitido e não participado dos protestos de maio de 68. Perguntas que obviamente, nem ele consegue responder direito. Mostra o crescimento e amadurecimento da menina que passa a compreender o mundo por uma outra ótica. Estória linda, tocante. E me fez pensar em como transmitir para nossos filhos uma formação questionadora e ao mesmo tempo lidar com nossas próprias contradições, nossos limites, nossos desencontros que muitas vezes não respondemos para nós mesmos. Tarefa dura essa. Mas depois de pensar, acho que preferiria poder fornecer aos filhos que ainda não tenho essa idéia de que o mundo tem contradições, o mundo precisa realmente ser questionado. Que não façamos desses filhos pessoas e cidadãos que nos repitam, mas que questionem, inventem, mudem e consigam fazer com esse mundo coisas que nós e nossos pais não conseguimos. Esse mundo merece.
Dois jovens durante uma noite em Viena (foto daqui)
A estória de um filme que era para ser um só, virou dois, e acabou sendo três… Antes do Amanhecer (Before Sunset, 1995), Antes do Pôr-do-Sol (Before Sunset, 2004) e Antes da Meia-Noite (Before Midnight, 2013)
O primeiro filme não foi um grande sucesso de bilheteria, mas conquistou ao longo dos anos fãs apaixonados, o que acabou por gerar uma sequência, 9 anos depois, que não havia sido programada. A sequência na verdade foi sendo conversada e construída ao longo dos anos por conversas entre o diretor e os dois atores protagonistas.
Na verdade, se não me falha a memória o primeiro filme que assisti foi o Antes do Pôr-do-Sol, depois fui assistir ao primeiro. Vou começar falando do primeiro, Antes do Amanhecer. Foi um filme que me marcou bastante, pela simplicidade, pela naturalidade com que as coisas vão ocorrendo entre os dois personagens, Céline, uma garota francesa de Paris vivida por Julie Delpie, e Jesse, um rapaz estadunidense vivido por Ethan Hawke. Eles se encontram em um trem na Europa, em algum ano no início da década de 1990, começam a conversar, rola uma empatia, uma conexão entre eles, e Jesse acaba convencendo a moça que desça com ele em Viena (Áustria), porque seria a última noite dele na Europa antes de voltar aos Estados Unidos, e ele adoraria a companhia dela. Ela reluta um pouco mas aceita. O filme todo se desenrola com eles passeando pela cidade, conversando sobre praticamente tudo. O futuro, o Universo não tinha limites para seus sonhos, devaneios, seus ainda poucos anos de vida e para a infinidade de perspectivas que se abriam diante de seus olhos.
O filme vai passando, a estória se desenrolando, e (ao menos para mim foi assim) não se percebe o tempo passar. A forma como é fácil se identificar com os personagens lhe coloca muito dentro da estória. Quem nunca pensou em “saltar em outra parada” ao longo da vida? Tomar um rumo diferente, premiar seus desejos impulsivos, ainda que por pouco tempo, ainda que por uma vez ou outra? Uma inconsequência rápida, tola, como geralmente elas são. Mesmo que depois você possa retornar ao seu trem, ao seu destino anteriormente planejado. O filme todo envereda pela poesia, pelos sonhos de nossas próprias juventudes, por tudo que poderia ter sido mas não foi.
Durante toda a noite que passam juntos perambulando pelas ruas de Viena, eles acabam se envolvendo intensamente, e até que chega o inexorável nascer do Sol que dá nome ao filme, Before Sunrise, “Antes do nascer do Sol” em tradução literal. O nascer do Sol, o amanhecer que traria a realidade de volta, levaria cada um ao seu caminho e a vida que seguiria.
Se você ficou com vontade de ver o filme e quer evitar spoilers, sugiro que pare por aqui, e (por favor!) volte para ler o resto depois que assistido ao filme. Ele está disponível no YouTube para alugar, aqui. Não sei se está disponível em outras plataformas.
Passado o alerta de spoiler, voltemos ao filme…
No final, eles haviam combinado de realmente não se encontrarem novamente, e deixar para cada um a lembrança daqueles momentos juntos. Sem trocar telefones, endereços, nada (lembre-se, década de 1990, sem facilidades de smartphones e Internet). Jesse acompanhou Céline até a estação onde ela tomaria o trem, e Jesse em seguida iria pegar seu avião de volta pra casa. No último instante, num último impulso, eles marcam um encontro para ocorrer naquela estação, naquele mesmo local, dali a 6 meses. Sem contato, sem conversas até lá. Naquele momento rápido eles entenderam o quanto queriam se ver de novo, e o quanto receavam que o outro não quisesse. E o filme acaba exatamente assim, com eles se despedindo, com cenas vazias e silenciosas dos locais por onde eles haviam passado ao longo das últimas horas, e deixa para cada um imaginar o que teria sido esse reencontro, o que teria sido da vida desses dois jovens…
Nove anos depois, em 2004…
Cena de “Antes do Pôr-do-Sol”, de 2004. Foto daqui.
Como eu disse anteriormente, não era um filme com grande orçamento, não era um filme para ter uma continuação, era uma estória que, embora ficasse em aberto, terminava ali. Ao longo dos anos, o roteirista e diretor Richard Linklater e os dois atores principais seguiram conversando sobre possibilidades para a continuação do filme. Em 2004, eles decidiram que era tempo de continuarem contando a estória dos jovens, o que teria acontecido, e para delírio dos fãs, filmaram “Antes do Pôr-do-Sol”, também disponível para alugar no Youtube, aqui. A partir daqui, vou contar coisas dos filmes e não vou mais dar alertas de spoilers, se quiser volte para ler depois de assistir aos 3 filmes… recomendo muito.
Esse segundo filme começa com Jesse, em Paris, fazendo o lançamento do seu livro, que conta justamente a estória vivida por ele e Céline, nove anos antes. Ele não diz explicitamente que teria vivido pessoalmente a tal experiência, deixa “no ar”… Enquanto ele está dando uma entrevista em uma pequena livraria, Céline aparece por lá. Fica óbvio que eles não tinham se visto desde a despedida em Viena, 9 anos antes. Jesse tem um avião para pegar dali a menos de duas horas. Então novamente eles têm muito pouco tempo juntos, e saem novamente caminhando pela cidade, mas dessa vez, temos Paris como pano de fundo. O filme se passa durante essa hora e meia de caminhada e conversas. Ficamos sabendo dos fatos que levaram ao reencontro marcado não ter ocorrido, eles conversam sobre como haviam vivido suas vidas desde então. Jesse tem uma família, mulher e filho nos Estados Unidos, Céline está sozinha. A conversa vai migrando de algo corriqueiro, desimportante, para à volta ao sentimentos da juventude… ao final do filme, Jesse vai postergando sua ida ao aeroporto, atrasando, correndo o risco de perder o avião, e pela segunda vez o roteirista do filme nos deixa com um final em aberto: ele teria realmente perdido o avião? Ele ficou com ela em Paris? O que teria acontecido?
Esse segundo filme é um passeio pela experiência de reviver o passado, repensar escolhas, divagar e imaginar o que poderia ter sido e não foi, o que nossas escolhas ao longo da vida nos custam… Mais uma vez, eu acho que é uma narrativa com a qual as pessoas conseguem se identificar facilmente, como no primeiro filme. Quem nunca se pegou pensando em como teria sido sua própria vida se determinadas escolhas tivessem sido diferentes? Quem nunca comparou a realidade crua com a utopia de uma vida diferente, que poderia ter sido iniciada em uma determinada encruzilhada?
Outros nove anos se passaram, e em 2013…
Casal maduro, em Antes da Meia-Noite (2013). Foto daqui.
Outros nove anos se passaram, e voltamos a nos encontrar com Céline e Jesse, em . Eles ficaram juntos após o segundo filme, vivem em Paris com duas filhas que tiveram. Eles vão passar férias na Grécia, e o filme mostra como foi a vida que construíram juntos… Um excelente fechamento para a estória de amor, na minha opinião. Mostra como a vida real é, em contraposição com a utopia dos sonhos, do que “poderia ter sido e não foi”. Sonhos frustrados, amadurecimento, resiliência… as coisas boas e ruins que vêm com o tempo, em qualquer relacionamento. Mais uma vez nos leva a pensar sobre escolhas, sobre a vida, sobre o amor.
Ali vemos que a comparação da utopia de uma vida “que não foi” com a vida possível, como ela é de fato, é uma comparação injusta. O que poderia ter sido pertence ao mundo dos sonhos, pode ser perfeito. A realidade não. Uma vez um colega de trabalho veio me pedir um conselho, ele estava morando em uma cidade e a noiva em outra. Ele conheceu outra moça e começou um relacionamento, estava indeciso sobre qual escolha deveria fazer. Pensei um pouco e fui enfático: “Qualquer escolha que você faça vai ser cheia de coisas boas, mas inevitavelmente em algum momento você vai se arrepender, olhar pra trás e pensar que deveria ter escolhido diferente. Porque quando os problemas da vida real aparecerem, a comparação vai ser com a vida perfeita que potencialmente teria havido em função daquela escolha…”. Acho que isso é humano, e pensar, refletir, permitir-se viver, tudo isso faz parte… Não é por que um relacionamento eventualmente acaba que ele “deu errado”. Deu “certo” pelo tempo que foi bom, pelo tempo que pode ser, nem mais nem menos. No geral há muitas coisas boas, mas dessas as pessoas acabam se esquecendo quando as coisas terminam…
E na vida real…
Uma curiosidade adicional sobre os filmes: O primeiro filme foi escrito por Richard Liklater baseado em uma estória pessoal, com uma moça, Amy, que ele conheceu por acaso em 1989 e acabaram passando a madrugada juntos. Ele inclusive chegou a comentar com ela que poderia escrever um filme a respeito daquela noite. Eles mantiveram contato por um tempo, mas depois a relação foi esfriando e eles perderam contato. O diretor conta que por algum tempo fantasiou que ela poderia aparecer em alguma estreia de “Antes do Amanhecer” (da mesma maneira que Céline aparece no lançamento do livro de Jesse), mas isso não ocorreu. Ele só tornou pública essa estória no lançamento do terceiro filme(2013), quando contou que em 2010 ficou sabendo que Amy havia falecido em decorrência de um acidente, semanas antes do lançamento de “Antes do amanhecer”. O terceiro filme é dedicado à ela nos créditos finais.
Essa foi uma estória que me marcou bastante, e foi para a lista dos filmes da vida, pela estória, pela delicadeza, pelos diálogos, pelas cidades mostradas nos filmes… enfim, filmes para serem revistos algumas vezes ao longo da vida.
Espero que tenha gostado, caso tenha tido a paciência de ler até aqui… até uma próxima!
Nas últimas semanas um documentário lançado pela Netflix o documentário O dilema das redes (The social dilemma), que explica de maneira didática, literalmente desenhando a forma como as redes sociais se empenham em aumentar o tempo dos usuários em suas ferramentas, aumentar o chamado “engajamento” online. Quanto mais tempo o usuário fica online, mais ele é valioso para que possa ser alvo de propagandas (que é o que gera dinheiro para as plataformas), sugestões de conteúdo (para aumentar ainda mais o engajamento), alimentando e gerando lucros para o sistema.
Até mesmo por conta de trabalhar com tecnologia, eu sempre fui um dos primeiros a adotar as plataformas quando surgiam. Primeiro os comunicadores instantâneos, sendo o ICQ o primeiro de que me lembro, lá em 1997 ainda. Aí o Napster, plataforma usada para compartilhar músicas. Depois o Orkut, que trouxe a possibilidade até então inimaginável de ter ali, ao alcance de alguns cliques, contato com pessoas com as quais você não tinha tido contato por anos. Era como um grande álbum de todas as pessoas que haviam passado pela sua vida em algum momento, ali, na distância de um clicar do mouse.
Ao longo do tempo os aplicativos, as redes, tudo isso passou a ser parte da nossa vida, do nosso dia-a-dia, sem nem nos darmos conta acabamos nos esquecendo de como era a vida antes disso. O que não nos damos conta é a quantidade de tempo que ficamos online, e ainda, a quantidade de informações a nosso respeito que nosso comportamento online fornece às corporações. O que dá dinheiro para elas é a venda de anúncios direcionados para usuários com potencial de serem clientes de determinado anúncio, produto ou serviço. Nós, que nos cadastramos e utilizamos diariamente as redes sociais, somos o “produto” que eles vendem. E muitas vezes não nos damos conta disso. O filme mostra o esforço dos algoritmos (programas por detrás das redes) em nos manter o maior tempo possível online, enviado conteúdo que nos interessa, para que possamos estar mais tempo disponíveis aos anúncios.
Teoricamente, esse mecanismo foi criado para criar a “melhor experiência para o usuário”. Na prática, pode ser usado facilmente para manipulação de opiniões e comportamentos, e ainda abre uma porta gigante para a proliferação de notícias falsas (as já famosas fake news). Aí são dois problemas bem graves: são as empresas que decidem o que você vê, e isso favorece muito a concentração de informações em um determinado sentido, sejam elas verdadeiras ou não. Ou seja, antigamente, todas as informações que consumíamos vinham de fontes como jornais, revistas, veículos que – embora por vezes enviesados – tinham um compromisso mínimo com a verdade, com a credibilidade a ser mantida. Com o advento da Internet, e posteriormente das redes sociais, qualquer um pode escrever literalmente qualquer coisa e atingir um público potencialmente gigante. Sem controle, validação ou qualificação da informação. Imagina o poder do estrago disso quando falamos em milhões, centenas de milhões de pessoas lendo e repassando essas informações. “Ah, se está todo mundo falando, deve ser verdade!”. Aí começam a se difundir coisas absurdas, teorias conspiratórias, fatos históricos revisitados, tudo sem necessariamente comprovação, rigor científico ou jornalístico.
Interesses implícitos por trás de tudo que chega para você
E como as empresas podem se comprometer em combater isso? A informação é muito rápida, propaga-se exponencialmente e temos literalmente centenas de milhões de pessoas compartilhando conteúdo. Por minuto, em 2020, temos em média: cerca de 190 mil tweets, 350 mil stories no Instagram, 500 horas de vídeos novos no Youtube, e mais de 4 milhões de likes no Facebook. As empresas dizem estar aprimorando os algoritmos de forma a minimizar a propagação. Mas isso vai contra o seu própio faturamento, diminuindo o tempo que os usuários ficam online. Só o tempo dirá o que pode acontecer.
Um problema adicional é o de realmente criar uma dependência do usuário, o que pode ser potencialmente perigoso em especial para crianças. Já há estudos que mostram que as sensações no cérebro que ocorrem quando recebemos likes ou comentários positivos nas redes são equivalentes àquelas de quando se utilizam alguns tipos de drogas (notícia aqui).
Isso significa que as redes sociais são tudo de ruim? Não necessariamente. Tudo que é em excesso faz mal, já dizia a minha mãe. Particularmente acho importante que cada um entenda o que isso lhe traz de bom e de ruim, e tente equilibrar. No limite, podemos até descobrir que não precisamos das redes. Mas diminuir as notificações, evitar clicar muito nas sugestões, controlar o tempo que fica online, tanto o seu próprio quanto o das crianças, talvez seja fundamental. A vida offline tem seus encantos, afinal. ou não?
De qualquer forma, acho o documentário imperdível, vale a pena assistir para pensar a respeito. Um outro muito interessante que trata de um assunto correlato é o documentário Privacidade Hackeada(The great hack), também da Netflix, que trata de como as redes foram utilizadas para espalhar notícias falsas de forma a influenciar nas eleições presidenciais de 2016 nos Estados Unidos.
Enfim, são informações assustadoras, que nos dão margem para pensar bastante a respeito. Nem que seja para que continue usando as redes, mas ao menos agora entendendo melhor por onde estará navegando.
Essa semana me peguei pensando nesse filme, não sei bem o porquê. É um filme de 2007, sobre a estória (real) de um rapaz (Christopher) que no início da década de 90, após se formar, resolve desconectar-se do mundo e da sociedade por completo, e inicia uma jornada para o Alaska, sozinho, após desfazer-se de tudo: dinheiro, identidade, carro, qualquer coisa que pudesse vinculá-lo à sua antiga vida, uma vida em sociedade.
Eu assisti a esse filme algumas vezes, gostei muito, uma fotografia bem feita, uma trilha sonora que é um espetáculo à parte, feita sob encomenda pelo Eddie Vedder, do Pearl Jam (sou suspeito, sou muito fã dele). As letras de duas das músicas em especial passam por muitas situações do filme:
“Sociedade, tenha piedade de mim Espero que não fique brava se eu discordar Sociedade, realmente louca Espero que não esteja solitária sem mim” – em Society
“De joelhos dobrados não há como ser livre Levantando um copo vazio, eu pergunto silenciosamente Se todos meus destinos aceitarão aquele que eu sou Para que eu possa respirar” – em Guaranteed
E o filme fala disso, de discordar e não estar conseguindo respirar, viver, na sociedade moderna. Quem tenta “escapar” das regras, é louco. Será mesmo? Ou loucos mesmo seriam aqueles que não questionam? Que permanecem na lógica de estar sempre correndo atrás de tudo, sofrendo a pressão de ter mais, de ser mais, muitas vezes sem se perguntar o porquê… Desde sempre, estamos sendo confrontados com objetivos, metas, expectativas que outros colocam sobre nós. Se não tivéssemos nada disso, será que faríamos as mesmas escolhas?
No caso da estória que inspirou o filme, não consta que o rapaz fosse violento, revoltado… ele estava bastante descontente com as relações familiares, com as coisas que esperavam dele (trabalhar para conseguir dinheiro, dirigir um carro melhor, etc), e simplesmente queria estar à parte daquilo tudo, e assim o fez. Encontrou e encantou pessoas ao longo da sua jornada, fez uma “base” num ônibus abandonado no meio do nada, que ele batizou de “Magic Bus” (Ônibus Mágico), e que posteriormente virou ponto de peregrinação de mochileiros, ocasionando inúmeros acidentes, até ser removido de lá pelo governo local. Ele buscou o seu caminho, e acabou encontrando algumas experiências que não viveria de outra forma, além de ter encontrado também a morte prematura (perdão pelo spoiler, mas é fato conhecido…). Valeu a pena? Só ele poderia responder…
Acho a estória inspiradora, mas não no sentido de seguir os passos dele, mas sim no sentido de dar vazão a esse tipo de inquietação e questionamento, por quanto tempo devemos estar sempre nos dedicando a ter as coisas, a conquistar coisas, sem olhar para nossas próprias necessidades. A sociedade nos pressiona a conquistar, ter resultados, independente de nossas próprias aspirações mais profundas. Expectativas são criadas no nosso nascimento, projeções são feitas em cima de cada um de nós, por vezes enviesadas por frustrações de nossos pais, que podem enxergar na geração seguinte a chance de alcançar o que não lhes foi possível.
Negar tudo isso é difícil, olhar para si e se permitir fazer coisas que fogem das expectativas a seu próprio respeito, não é um exercício fácil. Acho que o caminho do equilíbrio é sempre o melhor, embora nem sempre consigamos enxergá-lo. Cada um é responsável pelo seu próprio caminho (ou deveria ser), pelas suas escolhas, seus erros e acertos. E temos que conviver com eles ao longo da vida, faz parte. Às vezes é difícil enxergar as implicações, mas elas estarão lá. O melhor acontece quando conseguimos levar as coisas com leveza, com a importante serenidade de aceitar o que não pode ser mudado, o que passou, o que já foi. Não se deveria perder tempo com arrependimentos ou descaminhos já escolhidos, eles ficaram pra trás, e ali permanecerão… Talvez em tom de arrependimento, uma das conclusões finais no diário de Christopher – que foi usado para escrever o livro e o filme – diz algo sobre a felicidade, que ele acaba descobrindo no meio da sua aventura solitária:
“A felicidade só é real quando é compartilhada.”
Christopher McCandless
De alguma forma, a busca dele estaria sempre incompleta se ele não pudesse compartilhar, de dividir o sentimento, a completude, a felicidade que ele buscava, e cuja busca não terminou…
São raros os casos em que eu leio um livro, depois vejo o filme baseado nele, e o filme me surpreende positivamente. Esse foi um caso que fiz questão de assistir ao filme logo que foi lançado, há bastante tempo, em 2008. Escrevi a respeito no meu blog antigo, na época, e agora, 12 anos depois, no meio de uma pandemia, achei interessante revisitar esse assunto.
Quando ouvi que o livro seria adaptado para o cinema, fiquei extremamente curioso . Esse era um livro cuja adaptação para o cinema seria extremamente complexa e poderia ter um resultado muito ruim. Mas, para minha feliz surpresa, o diretor Fernando Meirelles conseguiu traduzir em grande parte a crueza do livro, amenizando em algumas, contando com uma fotografia muito boa e acabou na minha opinião com um resultado final bem interessante.
Foi o primeiro livro que li do Saramago, se não me engano. Um livro extremamente forte, denso, nas palavras do próprio autor:
“Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso.”
Realmente o livro narra uma situação angustiante, onde uma espécie de doença que deixa as pessoas cegas, de uma hora pra outra. Mas não é uma estória a respeito da doença em si, mas uma estória a respeito da perda da dignidade humana, em um cenário extremo onde numa pandemia se perdem as noções de humanidade, empatia, sociedade, onde instintos básicos, selvagens de sobrevivência afloram e os personagens passam a se aproximar muito mais de animais do que ao que costumamos entender por seres humanos.
Como sempre, estórias fortes e densas despertam reações, algumas vezes com razão, e em outras de maneira desproporcional e – por que não dizer – despropositada. Na época do lançamento, a Federação Nacional de Cegos dos EUA protestou e promoveu boicote ao filme. Acabaram associando as barbáries do filme, perpetradas por cegos, como uma tentativa de estereótipo. Mas qualquer um que consiga entender que o filme não é sobre a cegueira, não é sobre a doença, é sobre a perda da nossa humanidade, saberia dizer que não há motivos para tal interpretação.
Cena do filme de Fernando Meirelles (fonte: divulgação)
Trazendo um paralelo para a pandemia que nos foi apresentada em 2020, eu continuo achando que situações extremas nos trazem o que há de melhor e pior dentro de cada um de nós. O funcionário público de alto escalão que dá a “carteirada”, os “cidadãos de bem” que desrespeitam agentes públicos e trabalhadores, essas pessoas sempre existiram, e suas posturas e atitudes não são novas, só foram amplificadas pela situação. Acredito fortemente que independentemente de religião, posição política, social, ou qualquer outro motivo, devemos respeito ao próximo, e sempre fazermos o exercício de nos colocarmos no lugar do outro. Além da pandemia da COVID-19, acho que há também uma pandemia silenciosa de cegueira. Não aquela cegueira física retratada por Saramago, mas uma cegueira seletiva metafórica, que impede algumas pessoas de enxergarem a noção do que é sermos humanos, no sentido mais amplo da palavra… Que venham tempos melhores por aí…
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