“Causos” de viagem – parte 1

27 09 2020

Uma das coisas mais divertidas de se viajar são as situações pelas quais passamos, algumas que causam irritação ou problemas na hora, outras nem tanto, umas que nos tocam e marcam profundamente, e todas invariavelmente rendem boas histórias para serem contadas. Fiquei lembrando algumas por aqui, e achei que valia um post (na verdade uma série de posts), espero que gostem.

Senhora simpática dirigindo ônibus em Dublin, Irlanda

Subi num ônibus em Dublin, capital da Irlanda, para ir conhecer a Kilmainham Gaol, uma prisão desativada, cheia de História e que foi usada como local de filmagens de alguns filmes (recomendo a visita, inclusive!). Eu havia me informado a respeito do ônibus e do trajeto, tinha um mapa da cidade aberto na mão, e subi com ele aberto no ônibus, que era dirigido por uma senhora. Eu ali, tranquilo, de pé no ônibus olhando pro mapa e pro lado de fora, para ir acompanhando, notei que ela estava incomodada, ficava virando a cabeça e olhando para mim o tempo todo. Depois de um tempo, ela não se conteve e perguntou: “Você sabe onde está indo?”. Fiquei espantado, não é comum na Europa que alguém lhe aborde dessa maneira (no Brasil é super comum, mas não esperaria algo assim por ali…). “Eu pareço perdido?”, disse olhando para ela. Ela deu uma gargalhada… “Sim, você parece perdido”. Aí eu disse que estava indo para Kilmainham Gaol, ela disse que eu podia fechar o mapa e ficar tranquilo que ela me avisaria. Chegando lá, ela parou fora do ponto e me apontou simpaticamente o caminho até a prisão, que ficava a algumas quadras dali. Agradeci a gentileza inesperada, e fiquei bem feliz em descobrir que embora a cultura de outros países às vezes possa parecer “fria” para nós, latinos, vez ou outra somos surpreendidos positivamente…

Garçom simpático em Helsinki, Finlândia

Voltei para o Hostel após um dia de caminhadas pela cidade, fui tomar um banho e me esqueci de que, embora houvesse bastante sol lá fora, já passava das 10 da noite, e minhas chances de encontrar um lugar para jantar estavam se reduzindo. Traído pelo cérebro acostumado com a realidade dos trópicos, onde só é tarde se está escuro, oras…
Pois bem, saí andando pela cidade com a missão de achar algo para comer. Descobri que numa segunda-feira, 23hs, pode demorar um pouco. Só os (poucos) pubs estavam abertos, e aí todos diziam a mesma coisa, só temos snacks, essas coisas. Aí já conformado fui entrando num pub irlandês, para comer um sanduíche mesmo. Qual não foi a minha surpresa quando o cara da entrada me disse: “Ei, mas você não preferiria comida ao invés de sanduíche? Como disse que sim, indicou um restaurante meio escondido do outro lado da rua, no qual eu não tinha entrado por parecer meio caro (eu já tinha percebido naquela altura que Helsinki não é uma cidade das mais baratas). “Lá eles ainda servem comida a esse horário”, ele me disse. “Mas não é muito caro?” “O Mesmo que aqui.”, ele me respondeu.
Agradeci e fui ao restaurante indicado, que – eu chequei – não tinha nenhuma relação com o pub… Achei muito legal da parte do cara perder um cliente, uma venda, para deixá-lo mais satisfeito. No dia seguinte, voltei lá para tomar uma cerveja e deixar uma boa gorjeta…

Senhora russa simpática em São Petersburgo, Rússia

A barreira da língua é extremamente frustrante, ao menos para mim…
Eu estava em Pushkin, no subúrbio de São Petersburgo, procurando onde pegar a lotação (sim, tem disso na Rússia, e até uma palavra para tal, “marshutky” ou маршрутки, eu aprendi) para o metrô, estação Moscovskaya(московская). Aí, com meu russo nível jardim da infância, dirigi-me a uma senhora sentada no ponto de ônibus, em russo: “Pazjalsta, marshutky Moscovskaya?”(“Por favor, lotação Moscovskaya?”). Ela sorriu, respondeu algo em russo e (o mais importante) me apontou o caminho para o ponto que eu queria. Agradeci (“Spaciba”), e aí ela continuou sorrindo e falando russo… A única coisa que consegui dizer foi “Ya nyznaiu, ya nie gavariú pa rusky”(Não entendo, eu não falo russo)… Tenta ser simpático, passa vergonha… não é fácil não…

Tem mais estórias por vir, veja a parte 2.





São Petersburgo (parte 2)

20 09 2020

Segue o post sobre minha visita a São Petersburgo, na Rússia, em junho de 2013… A primeira parte está aqui.

O Hermitage

Um dia tem que ser separado para visitar o Hermitage, um dos museus mais famosos do mundo, consta que tem a maior coleção de pinturas do mundo, e em acervo total só perde para o Louvre, em Paris. O edifício em si é uma peça de arte à parte. Foi construído no século XVIII pela Czarina Catarina, foi usado como Palácio de Inverno dos Czares até a Revolução Russa em 1917. Fotos são restritas (ao menos eram em 2013 quando estive lá), vale a pena dar uma olhada no vídeo oficial abaixo, 4 minutos somente. Visitar um palácio é sempre garantia de uma arquitetura deslumbrante, salas com mobílias da época imperial, uma bela viagem pela História da Rússia, que eu conhecia muito pouco.

Passeio de barco

Como estava no verão, havia passeios de barco pelo rio Neva que corta a cidade. É um passeio diferente, e há muita gente na rua durante a madrugada toda, já que a noite não chega a ficar totalmente escura. O ponto alto do passeio é a abertura da ponte levadiça, toda iluminada. Passeio 100% pra turista, mas eu curti, provavelmente um dos passeios que eu consideraria imperdível estando lá. Mas, esse passeio só ocorre no verão, por motivos óbvios. Provavelmente seriam viagens completamente diferentes se fossem feitas no verão (cheguei a pegar 37 graus durante o dia) ou no inverno (temperaturas negativas, e escuridão 18 horas por dia).

Ponte levadiça no passeio de barco na white night
Foto tirada no passeio noturno de barco
Palácio Peterhof

O Palácio de Verão do Czar Pedro, o Grande, assim como todo o centro histórico de São Petersburgo, faz parte do Patrimônio Mundial da UNESCO. Foi um palácio construído inspirado no palácio de Versailles, morada da família real francesa, na época a referência máxima de requinte, sofisticação e modernidade. A cidade fica a 30 km de São Petersburgo, e fui convidado para uma excursão para lá com uma turma que estava aprendendo russo com uma ucraniana, que se ofereceu como guia. Quem me convidou foi um dos alunos, Roberto, um italiano simpático que estava no mesmo AirBnB que eu. Na turma ainda haviam mais duas holandesas, pelo que me lembro.

O passeio foi muito agradável, o dia estava quente e ensolarado e nos permitiu aproveitar bastante. O único dissabor foi um quase furto que sofri, quando estava no meio de uma aglomeração assistindo a uma apresentação de música tradicional, e senti uma mão tentando entrar no bolso da minha bermuda. Dei um pulo assustado, o rapaz que estava tentando me roubar disfarçou e saiu andando, mesmo comigo gritando em inglês com ele. Finalmente não aconteceu nada, mas fica a lição para ficar atento a esse tipo de coisa, seja qual for o país onde você se encontra.

O Palácio em si e os jardins são lindos, é um passeio que vale muito a pena.

Peterhof
Jardins de Peterhof
Jardins de Peterhof

Museu Militar

Para quem gosta de História, como eu, o Museu Militar de São Petersburgo é uma parada obrigatória. Armas e armaduras medievais, tanques, mísseis, e até o carro militar com o qual Lênin desfilou ao vencer a Revolução Russa no início do século passado.

Besta medieval
Armaduras medievais
Carro usado por Lenin na revolução

Por último, como costumo fazer nas minhas viagens, procuro por restaurantes e lugares em que não haja muitos turistas. Às vezes consigo, às vezes não. Por indicação da minha anfitriã, fui a um lugar chamado Cat Café, de comida georgiana. Sem menu ou atendimento em inglês. Experiência divertida, comida muito boa, valeu a pena. Já em Moscou (fica para outro post) acabei comendo coisas sem saber até hoje do que se tratavam… Meu russo ainda é muito ruim, mas depois de uma semana vendo as placas no alfabeto cirílico, ao menos pronunciar alguma coisa eu já sabia… marcas famosas sendo escritas em russo também ajudam, como pode ser visto nas fotos abaixo. Reconhece?

Pronúncia ocidental, alfabeto cirílico

Espero que tenha gostado do relato, foi uma das viagens mais marcantes que já fiz, e valeu a pena ter esperado tanto para conseguir fazê-la.

Abraço e até uma próxima!





São Petersburgo (parte 1)

13 09 2020

Essa era uma viagem de sonho para mim. Por muitos anos adiei tentando encontrar um jeito barato de ir para a Rússia, e em especial para essa cidade. Mas acabei desistindo de esperar por uma oportunidade barata, e montei um roteiro pelo qual passei por Amsterdan, Estocolmo, Helsinki, Tallin, São Petersburgo e Moscou, em junho de 2013. Nessa viagem fiz trechos de navio (Estocolmo – Helsinki e Helsinki – Tallin) e de trem (Tallin – São Petersburgo e São Petersburgo – Moscou), viagem inesquecível.

Com sua arquitetura ímpar, construída e pensada para ser a capital do Império Russo, numa tentativa (de certa forma) de “ocidentalizar” o Império. Tudo ali foi pensado para ser ostentação, mostrar o poder do império, ser um pólo cultural, de influência, relevância política e cartão postal da grande Rússia.

Igreja do Sangue derramado, a mais emblemática de São Petersburgo

Para esta viagem fiquei num AirBnB (host: Katia, com quem tinha acertado minha chegada) na Avenida Nevsky, que é uma avenida bem localizada. O prédio ficava um pouco afastado da região central, mas dava pra caminhar um tanto ou pegar um ônibus na própria avenida, bem tranquilo. Cheguei na cidade de trem, vindo de Tallin (Estônia), e já fui direto para o endereço. Chegando no prédio, confesso que tomei um susto: cara de prédio abandonado, interfone que não funcionava… precisei esperar alguém sair do prédio para que eu entrasse… o apartamento ficava no quarto andar. Olhei para o elevador (daqueles antigos, de estrutura vazada), e tive a certeza de que também não funcionava… lá fui eu com mochilão subir as escadas. Lá chegando, fui recebido pelo Romain, marido da Katia. O apartamento me surpreendeu positivamente: super bonitinho e organizado, decorado, parecia uma casa de bonecas.

Meu quarto em São Petersburgo

O apartamento era grande, com vários quartos, e o meu era esse da foto acima. Havia um outro quarto que eles também anunciavam no AirBnB, com várias camas, e acabei conhecendo alguns dos hóspedes que estavam lá por aqueles dias.

A época que escolhi para essa viagem foi providencial: junho, início do verão, temperaturas altas e dias mais longos. Nesse período é onde acontecem as white nights, ou “noites brancas”. O Sol praticamente não se põe, às duas da manhã parece finalzinho de tarde… isso é muito legal para se aproveitar os passeios, os moradores locais aproveitam bastante para compensar o período de inverno rigoroso e de noites longas. Por outro lado, pode ser complicado se tiver dificuldade para dormir com claridade, pior se estiver num quarto sem cortinas ou com cortinas finas, como era o meu caso no quarto acima… rs

Uma cidade, vários nomes…

São Petersburgo nem sempre foi chamada assim… No início do século XVIII, durante uma guerra com os suecos, a cidade (que se chamava Nyen) foi capturada e passou a ser russa. Uma fortaleza foi construída (Fortaleza de Pedro e Paulo) numa ilha no Rio Neva, e ali seria o início da cidade fundada pelo Czar Pedro I (Pedro, o grande), que tinha, como já disse anteriormente, o objetivo de trazer para lá a capital do Império Russo, buscando uma certa “ocidentalização” da Rússia. Por conta disso, não foram poupados esforços (e dinheiro) para fazer uma cidade deslumbrante do ponto de vista arquitetônico, rivalizando com as principais capitais do continente.

Na estação de trem, nomes da cidade ao longo do tempo: São Petersburgo (1703), Petrogrado (1914), Leningrado (1924), e novamente São Petersburgo (1991)
Fortaleza de Pedro e Paulo, numa ilha no Rio Neva

Em 1914, por conta da I Guerra Mundial, alguns nomes de influência germânica sofreram modificações, e o nome da cidade foi um deles, passou a se chamar Petrogrado (“cidade de Pedro”). Esse nome durou até 1924, quando da morte de Lênin, quando o governo decidiu mudá-lo para Leningrado (“cidade de Lênin”). O nome foi mantido até 1991, após a desintegração da União Soviética, quando foi feito um plebiscito e os moradores optaram por retornar ao antigo nome, São Petersburgo.

Monumento aos defensores de “Leningrado”, durante o cerco nazista na II Guerra Mundial
Fortaleza e os túmulos dos Czares

A Fortaleza de Pedro e Paulo, que deu origem à cidade, é aberta à visitação e acho que também é um ponto imperdível. O ponto que chama mais a atenção é a Catedral de São Pedro e São Paulo, cuja torre tem cerca de 120 metros de altura. Existem outros prédios no complexo, como a antiga prisão, antiga casa da moeda, o museu da tortura, mas a catedral é o que chama mais a atenção, pela beleza arquitetônica e pelo fato de que lá dentro estão os túmulos de vários Czares (alguns deles são considerados santos pela Igreja Ortodoxa Russa), dentre eles Pedro, o grande, e os últimos Romanov, executados na Revolução Russa em julho de 1918.

Entrada da Fortaleza de Pedro e Paulo
Interior da Catedral
Túmulo de Pedro, o grande

É muito interessante estar lá e entender um tanto da História de um país que é para nós tão distante, em termos geográficos, históricos e culturais. Os seis dias que passei em São Petersburgo foram inesquecíveis, e com tanta coisa que acabei tendo que separar as informações, e devo continuar em um próximo post… aguarde que tem mais em breve.

Continua na parte 2





Na natureza selvagem (filme/livro)

7 09 2020

Essa semana me peguei pensando nesse filme, não sei bem o porquê. É um filme de 2007, sobre a estória (real) de um rapaz (Christopher) que no início da década de 90, após se formar, resolve desconectar-se do mundo e da sociedade por completo, e inicia uma jornada para o Alaska, sozinho, após desfazer-se de tudo: dinheiro, identidade, carro, qualquer coisa que pudesse vinculá-lo à sua antiga vida, uma vida em sociedade.

Eu assisti a esse filme algumas vezes, gostei muito, uma fotografia bem feita, uma trilha sonora que é um espetáculo à parte, feita sob encomenda pelo Eddie Vedder, do Pearl Jam (sou suspeito, sou muito fã dele). As letras de duas das músicas em especial passam por muitas situações do filme:

“Sociedade, tenha piedade de mim
Espero que não fique brava se eu discordar
Sociedade, realmente louca
Espero que não esteja solitária sem mim”
– em Society

“De joelhos dobrados não há como ser livre
Levantando um copo vazio, eu pergunto silenciosamente
Se todos meus destinos aceitarão aquele que eu sou
Para que eu possa respirar”
– em Guaranteed

E o filme fala disso, de discordar e não estar conseguindo respirar, viver, na sociedade moderna. Quem tenta “escapar” das regras, é louco. Será mesmo? Ou loucos mesmo seriam aqueles que não questionam? Que permanecem na lógica de estar sempre correndo atrás de tudo, sofrendo a pressão de ter mais, de ser mais, muitas vezes sem se perguntar o porquê… Desde sempre, estamos sendo confrontados com objetivos, metas, expectativas que outros colocam sobre nós. Se não tivéssemos nada disso, será que faríamos as mesmas escolhas?

No caso da estória que inspirou o filme, não consta que o rapaz fosse violento, revoltado… ele estava bastante descontente com as relações familiares, com as coisas que esperavam dele (trabalhar para conseguir dinheiro, dirigir um carro melhor, etc), e simplesmente queria estar à parte daquilo tudo, e assim o fez. Encontrou e encantou pessoas ao longo da sua jornada, fez uma “base” num ônibus abandonado no meio do nada, que ele batizou de “Magic Bus” (Ônibus Mágico), e que posteriormente virou ponto de peregrinação de mochileiros, ocasionando inúmeros acidentes, até ser removido de lá pelo governo local. Ele buscou o seu caminho, e acabou encontrando algumas experiências que não viveria de outra forma, além de ter encontrado também a morte prematura (perdão pelo spoiler, mas é fato conhecido…). Valeu a pena? Só ele poderia responder…

Acho a estória inspiradora, mas não no sentido de seguir os passos dele, mas sim no sentido de dar vazão a esse tipo de inquietação e questionamento, por quanto tempo devemos estar sempre nos dedicando a ter as coisas, a conquistar coisas, sem olhar para nossas próprias necessidades. A sociedade nos pressiona a conquistar, ter resultados, independente de nossas próprias aspirações mais profundas. Expectativas são criadas no nosso nascimento, projeções são feitas em cima de cada um de nós, por vezes enviesadas por frustrações de nossos pais, que podem enxergar na geração seguinte a chance de alcançar o que não lhes foi possível.

Negar tudo isso é difícil, olhar para si e se permitir fazer coisas que fogem das expectativas a seu próprio respeito, não é um exercício fácil. Acho que o caminho do equilíbrio é sempre o melhor, embora nem sempre consigamos enxergá-lo. Cada um é responsável pelo seu próprio caminho (ou deveria ser), pelas suas escolhas, seus erros e acertos. E temos que conviver com eles ao longo da vida, faz parte. Às vezes é difícil enxergar as implicações, mas elas estarão lá. O melhor acontece quando conseguimos levar as coisas com leveza, com a importante serenidade de aceitar o que não pode ser mudado, o que passou, o que já foi. Não se deveria perder tempo com arrependimentos ou descaminhos já escolhidos, eles ficaram pra trás, e ali permanecerão… Talvez em tom de arrependimento, uma das conclusões finais no diário de Christopher – que foi usado para escrever o livro e o filme – diz algo sobre a felicidade, que ele acaba descobrindo no meio da sua aventura solitária:

“A felicidade só é real quando é compartilhada.”

Christopher McCandless

De alguma forma, a busca dele estaria sempre incompleta se ele não pudesse compartilhar, de dividir o sentimento, a completude, a felicidade que ele buscava, e cuja busca não terminou…

Se quiser ouvir a trilha sonora completa: tem no Spotify e também no YouTube, e se quiser se aventurar no livro, tem aqui.

O ônibus mágico…