Sou um apaixonado por viagens, se você me conhece minimamente já sabe disso, não é novidade… Mas há um tipo de viagem que no geral me atrai mais, acaba geralmente me trazendo mais prazer. Não que eu não goste de passeios urbanos, culturais, gastronômicos e afins. Mas pra mim, um movimento de ficar um tempo em meio à Natureza, preferencialmente desconectado do resto do mundo, isso traz todo um encanto a mais. Cachoeiras, então, são a “cereja do bolo”, ainda mais se der pra tomar aquele banho gelado…
Aí acontece que resolvi fazer um post genérico, com uma seleção de fotos no meio da natureza, até para matar um pouco das saudades, sem estar falando de um local ou viagem em especial…
Na Chapada dos Guimarães (MT)
Cachoeira do Taboleiro, na Serra do Cipó (MG)
Quando estou no alto de uma montanha, ou numa trilha no meio do nada, o que sinto nesses momentos, e que me satisfaz, é algo que me traz uma sensação boa de paz, de tranquilidade, e de conexão com a natureza, com o divino, com algo que transcende esse plano, algo mais do que uma simples desconexão com a vida do “dia-a-dia”.
De tempos em tempos eu sinto que preciso de momentos assim, de “descompressão”, de estar só comigo mesmo, ou ao menos com pessoas diferentes, que no geral – e isso é uma outra coisa que adoro nesse tipo de viagem – são pessoas com uma energia muito boa, um astral muito bom, e por vezes acabam se tornando amigos, ou companheiros para novas viagens, trocas de dicas e experiências, etc. A minha ida ao Nepal contou com dicas de amigos que conheci no Monte Roraima, para onde só fui por conta de um contato que conheci na Serra Fina; na Serra Negra fiz amizades que me chamaram para a Serra do Cipó, e por aí vai…
Por várias vezes me peguei sozinho, simplesmente quase em estado de meditação, enquanto estava no alto de uma montanha vendo as nuvens por cima, ou congelando embaixo de uma queda d’água, ou ainda olhando para a cachoeira e ficando hipnotizado pela imagem e barulho da água caindo, imaginando que ela permanece ali, caindo, por dezenas de milhares de anos, da mesma forma…
No Rocky Mountains Park, no Colorado (EUA)
Banho de cachoeira em Ilhabela (SP)
Cachoeira na Chapada dos Veadeiros (GO)
Caminhando sobre a “Devil’s Bridge”, em Sedona, no Arizona (EUA)
Turma da viagem à Chapada dos Veadeiros (GO) reunida
Para mim, que não sou uma pessoa religiosa, considero essas “fugas para o mato” como o meu momento de comunhão com a natureza, de conexão comigo mesmo, momento de parar para respirar. Para sentir os cheiros, para ouvir os barulhos, dormir com o barulho de uma queda d’água bem pertinho, poder olhar para as estrelas sem luzes para atrapalhar, dormir facilmente por conta do cansaço, sem se importar minimamente em estar em uma barraca, em um saco de dormir…
Uma das minhas fotos preferidas, tirada pelo guia Sherpa sem que eu percebesse, próximo ao Annapurna, no Nepal
Olhando as nuvens por cima, no alto do Monte Roraima
Serra dos Órgãos, na travessia Petrópolis – Teresópolis
Olhando para o vale em Gonçalves (MG)
Parada pra pose na Travessia Petrópolis-Teresópolis
E o que faz uma pessoa como eu, que gosta tanto desse tipo de viagem, que vive em São Paulo, cidade grande, e enfrenta uma pandemia durante a qual fica impossibilitado de viajar? Pois então… essas experiências não podem ser vividas no mundo virtual, ao menos por enquanto a tecnologia ainda não permite isso… podem então imaginar a crise de abstinência pela qual estou passando… a única viagem nos últimos tempos foi uma “fugida” para São Luiz do Paraitinga, numa pousada/refúgio que conheço há bastante tempo para um final de semana, e somente agora, setembro de 2021, estamos tentando planejar uma viagem um pouco mais longa, mas ainda com muitas restrições e cuidados, pois apesar da vacinação estar avançando, a pandemia ainda deve ser motivo de preocupação por um bom tempo…
Espero no futuro poder novamente planejar viagens com um pouco mais de segurança, e em especial conseguir continuar conhecendo lugares especiais, com paisagens lindas e experiências que vão ficando para o resto da vida…
“Viajar é fatal para o preconceito, intolerância e ideias limitadas” – Mark Twain
Este é o terceiro e último post da sequência, você deve ter lido o primeiro aqui e o segundo aqui.
No nosso 9o dia de viagem, e o 4o na trilha, depois de deixarmos Wyñaywayna a ansiedade crescia cada vez mais para o nosso destino final.
Ao chegarmos na Porta do Sol, a entrada “por cima” de Machu Picchu, ao final da trilha, entendemos o motivo de falarem tanto dessa entrada. Realmente é algo de mágico ver a cidade icônica surgindo à sua frente após uma espécie de portal de pedra
Primeira imagem ao passar pela Porta do Sol
Enfim, Machu Picchu (vista da Porta do Sol)
E então, nesse último dia de caminhada, passamos rapidamente pelas ruínas (iríamos voltar no dia seguinte), e fomos para Águas Calientes, logo abaixo da montanha, onde pela primeira vez em 4 dias nos aguardavam um chuveiro quente e uma cama…
10o dia – Reentrada em Machu Picchu
No dia seguinte, já descansados e recuperados da caminhada, entramos novamente em Machu Picchu, dessa vez “por baixo”, junto com os turistas que não fazem a trilha. Entendemos ali o porquê da sugestão da agência (Pisa Trekking) para deixarmos um dia inteiro para ver a cidade. Ficamos com mais tempo, pudemos caminhar com mais tranquilidade, subimos até o topo da famosa montanha (que la´descobrimos, chama-se Waynapicchu, ou “montanha jovem”, em Quechua. Além disso, voltamos à porta do Sol mais uma vez (o que é uma subidinha para quem caminhou 4 dias, não é mesmo?).
Machu Picchu sob o Sol da manhã
Assim, passamos um dia agradável visitando o conjunto de ruínas mais famosos da região com bastante calma, para no final do dia fazermos o caminho de volta a Cuzco, mas dessa vez de trem. Nossa, mas que sensação estranha no trem… dava a impressão de que se fizéssemos o trajeto caminhando iríamos mais depressa…
Buraco sob as ruínas… Reza a lenda que é uma passagem direta para São Tomé das Letras, em Minas Gerais… preferi não entrar para investigar
Ruínas e mais ruínas em Machu Pichu. Esse maior é o Templo do Sol
Machu Picchu vista “ao contrário”, do alto da Waynapicchu
Turista indo embora feliz, bilhete do trem na mão
Chegamos ao fim…
E como eu disse no início, foi uma viagem que superou as expectativas, é possível aprender bastante sobre a cultura Inca, sua História e – claro – ver as ruínas que restaram da sua civilização. Há várias alternativas para quem não quer ou não pode fazer a trilha completa: ir direto via Águas Calientes, fazer a trilha curta de poucas horas somente passando por Wyñaywayna , e entrar pela porta do Sol… A escolha de chegarmos no final do dia foi boa, mas acho que chegar vendo o nascer do Sol também deve ser uma experiência legal, enfim, variações, gostos, opiniões são sempre diversas… Uma outra coisa importante é fazer a aclimatação na altitude, como fizemos em Puno. Faz bastante diferença. No meu primeiro dia em Puno eu tinha dor de cabeça de esforço ao subir pequenos lances de escada, o efeito é impressionante…
Continuação do relato da viagem ao Peru em 2006, a primeira parte está aqui.
Quarto dia de caminhada, quase chegando em Machu Picchu
5o dia: Vale Sagrado
No nosso passeio para o Vale Sagrado, conhecemos a que seria nossa companheira de caminhada, a Celina, também brasileira, de São Paulo. Foi uma outra feliz coincidência, ela era muito legal e nos demos muito bem ao longo dos 6 dias que passamos juntos. No vale sagrado fomos em vários sítios, sendo os principais Pisac e Ollantaytambo, duas grandes ruínas e com destaque para essa última, uma das mais famosas e bonitas que vimos. Curiosamente, não consegui encontrar fotos de Ollantaytambo (já são quase 15 anos da viagem, alguma coisa se perde…), então acabei colocando algumas fotos que achei na rede mesmo para ilustrar aqui, paciência… as que não são minhas têm as fontes indicadas…
Ruínas em Pisac
Ruínas do Templo do Sol, em Pisac
Em Pisac e em Ollantaytambo vimos belos exemplos de terraceamento, que é uma técnica de plantação que criam “escadas” ao longo da encosta para se colocar as plantações. Isso diminui a erosão por chuvas, pois dificulta a àgua a descer com muita velocidade, além de possibilitar plantios em regiões – como aquelas onde os Incas viviam – onde há falta de terrenos planos. Além disso, eram posicionadas de forma a se beneficiar ao máximo do Sol, e feitas de maneira calculada de forma a serem criados microclimas particulares que permitiam o cultivo de diferentes plantações em áreas mais altas ou mais baixas, de acordo com a necessidade de cada planta.
Detalhe dos encaixes das pedras no muro em Ollantaytambo (foto minha!)
6o dia ao 9o dia: Trilha Inca
Durante a caminhada toda, pudemos aprender muito sobre a História Inca. Como já disse, nosso guia Jim era formado em História e especialista no assunto. A viagem realmente teria sido outra sem ele. Aprendemos que a Trilha Inca (hoje chamada de Trilha Inca “Clássica”) era um caminho de peregrinação, uma espécie de iniciação espiritual, e não usada no cotidiano para o trânsito de pessoas, animais e mercadorias. Esses iam normalmente pelo vale, região mais plana por onde passa hoje o trem que vai de Cuzco a Águas Calientes, cidade que fica “ao pé da montanha”, logo abaixo de Macchu Picchu. Uma informação que faz bastante sentido.
Existem maneiras diferentes de fazer a trilha, optamos por fazer 4 dias de caminhada, chegando em Machu Picchu no final da tarde, descermos até Águas Calientes para dormir (além de termos o primeiro banho em quatro dias) e deixar o dia seguinte para entrar novamente e visitar Machu Picchu com mais calma. Grande parte dos turistas costumam fazer o último acampamento mais perto do final da trilha, acordar bem cedo e entrar pela Porta do Sol com o Sol nascendo. Uma outra ainda é ir de trem e pegar somente o final da trilha, passando por Wiñaywayna, o conjunto mais completo de ruínas da trilha.
A trilha inicia no km 82 da ferrovia, e fomos até lá de van. Na entrada do parque, um dos carimbos mais queridos que já recebi no passaporte:
Carimbos de entrada na trilha (09/out) e entrada via Águas Calientes (13/out)
Placa de início da famosa trilha
Iniciando a trilha, lá fomos nós para 4 dias de caminhadas, acampando em barracas no meio das montanhas, sem banho, e querendo ver tudo, cada detalhe ao redor. Contamos com o auxílio da equipe de carregadores, que iam na frente com os mantimentos, barracas, mochilas e tudo o mais. A caminhada fica realmente muito mais tranquila, menos preocupação com o peso e pode se aproveitar melhor. Depois dessa viagem fiz algumas trilhas com carregadores e outras sem, carregando tudo, e posso dizer, cada abordagem tem suas vantagens e seu valor próprio.
Início da trilha, ainda no vale
Ao longo da trilha, muitas vistas inesquecíveis, ruínas, um contato direto com a natureza e com a História Inca. Até sobre algumas orquídeas que são endêmicas da região aprendemos um pouco. Há uma em especial que me chamou a atenção, chamada de waqanki, que em Quechua significa algo como “você vai chorar”: há uma lenda Inca sobre um amor impossível de uma princesa com um soldado que teria dado origem a essa flor.
Orquídea Waqanki
Algumas das primeiras ruínas ao longo da trilha
No segundo dia, o trecho mais pesado de caminhada, o chamado Warmiwañuska, que em Quechua significa algo como “o passo da mulher morta”. É a subida para se alcançar o ponto mais alto da trilha, cerca de 4215 metros de altitude. Esse é o dia onde alguns turistas (especialmente os que não fizeram aclimatação, como fizemos em Puno) passam mal com falta de ar. Depois desse dia o Jim contou que tinha um pequeno cilindro de oxigênio na mochila para emergências… felizmente não precisamos.
Vista “ohando pra trás” do alto do Warmiwañuska
Jim levava essa bandeira para tirar fotos com os brasileiros no Warmiwañuska
Na marcação oficial do Warmiwañuska
Após atingirmos esse ponto mais alto, começamos a descida, ainda teríamos mais dois dias de acampamento pela frente. O primeiro num vale, o Vale de Pacaymayu logo após o Warmiwañuska, e o segundo em Puyupatamarca, a partir de onde já pudemos ver os primeiros sinais da Wayna Picchu (“montanha jovem” em Quechua), a icônica montanha da “cidade perdida” de Macchu Picchu. Caminhadas longas mas bem mais tranquilas do que as do dia anterior , com muito verde e água pelo caminho.
Vista do vale no nosso 2o acampamento, em Pacaymayu
E, claro, muitas ruínas ao longo da caminhada, que me deixavam cada vez mais encantado com o nível do trabalho da engenharia civil dos Incas.
Ruínas em Puyupatamarca
Espécie de escada com um orifício de apoio à direita
Detalhe do orifício de apoio
Fotos ao longo da descida
No nosso último acampamento em Puyupatamarca tirei a primeira foto da Wayna Picchu, ainda que bem de longe. Ao acordarmos no dia seguinte, já fomos caminhando para passar por Wyñaywayna, e depois, finalmente, a porta do Sol que nos descortinaria Macchu Picchu.
Wyñaywayna
Wyñaywayna merece ser apreciada. São as ruínas mais bem conservadas de toda a trilha, e a poucos minutos do último acampamento da trilha, que leva seu nome (no qual não ficamos, conforme expliquei no início).
O final do nosso último dia de caminhada e a tão esperada chegada a Machu Picchu ficam para o post da semana que vem, até lá…
Essa é realmente uma das viagens mais emblemáticas para qualquer mochileiro, ao menos para aqueles que viveram o século XX, eu acho… Para mim foi uma das primeiras viagens com caminhadas nas montanhas, acampamento, etc… acabei resgatando um texto que escrevi a respeito, em 2006, acho que é a melhor referência que tenho dessa viagem…
Existiam, na época, duas maneiras de chegar a Machu Picchu, a primeira seria indo de trem até a cidade de Águas Calientes, e de lá subir (caminhando ou de ônibus) até o parque arqueológico de Machu Picchu, e a segunda seria fazer a trilha de quatro dias pela chamada Trilha Inca “Clássica”, e de lá descer até Machu Picchu. É interessante notar a entrada por cima ou por baixo, porque quem vem por baixo tem a impressão de que a cidade fica no alto. Na verdade, para os padrões da região, os cerca de 2500 metros de altitude é bem baixo… A nossa escolha foi fazer a trilha completa, e a entrada na cidade pela chamada Porta do Sol, através da qual você passa e a cidade se descortina à sua frente, lá embaixo, com essa vista:
Foto clássica na chegada “por cima” a Machu Picchu
“Machu Picchu es un viaje a la serenidad del alma, a la eterna fusión con el cosmos, allí sentimos nuestra fragilidad. Es una de las maravillas más grandes de Sudamérica. Un reposar de mariposas en el epicentro del gran círculo de la vida. Otro milagro más. “
Pablo Neruda
(segue texto escrito por mim em 2006)
De uma maneira geral, foi um grande exercício de superação pessoal, daqueles para mostrar para nós mesmos que somos capazes de fazer. A caminhada de mais de 40 km durante quatro dias no meio do mato, andando e acampando em altitudes entre 2500 e 4200 metros não é uma tarefa que possa ser classificada como trivial (ainda que com carregadores ajudando) para pessoas normais, que não sejam exatamente o que possa ser chamado de “atleta”. E consegui passar por ela. Uma vitória, que já teria por si só valido a viagem. Mas, além disso, houve a experiência de poder sentir um pouco do que foi a civilização Inca. Sobre o guia ao longo desses dias, o Jim, eu acredito que possa ser considerado um patrimônio da trilha, pelo conhecimento e vivência do lugar. Formado em História, conseguiu nos mostrar coisas que transcendem os livros, além das sensações de estar nos lugares, sentir o ambiente e as coisas que fizeram parte da vida desse povo. E foi muito legal tomar conhecimento do quão avançados eram, e a forma brutal como foram “colonizados” cultural e religiosamente pelos europeus católicos. Quando os Incas conquistavam outros povos na América do Sul – e não foram poucos -, eles respeitavam a cultura e religião daquele povo, absorviam o que havia de interessante, útil e passavam a sua cultura e tecnologia para o povo conquistado, a partir de então sob o controle do Império Inca. Um tipo de conquista inteligente. Diferente da colonização católica, que simplesmente não poderia admitir que os povos ditos “selvagens” pudessem ter algo a lhes oferecer em algum campo do conhecimento. E com isso certamente deixaram de aprender muitas coisas valiosas, uma vez que so estavam preocupados em conseguir mão-de-obra, terras e almas pagãs para serem – por vezes forçadamente – convertidas ao catolicismo. As construções incas eram mais resistentes a terremotos do que as dos espanhóis, só para dar um exemplo simples dentre tantos outros.
E o fato de fazer a caminhada toda, o que é feito por uma parcela pequena dos turistas que vão a Machu Picchu, é entrar em contato com um ambiente diferente, uma energia que transcende aquelas matas, aqueles morros e que chega ao seu ápice ao adentrar na cidade perdida através do portal do Sol. Alguns dizem que as pessoas que trilham aquele caminho passam por transformações. Não sei se voltei transformado, mas que algo diferente acontece ali, a mim pareceu inegável… Viver a Trilha Inca, o caminho mais comprido entre Ollantaytambo e Machu Picchu, é perseguir um pouco desta História, é trilhar o mesmo caminho que trilhavam os peregrinos prestes a serem iniciados na religião Inca como sacerdotes. E ver em cada uma daquelas ruínas a beleza e o respeito a natureza que os cercava, através da qual eles entravam em contato com Deus. E não importa o nome, rosto ou rostos que davam a esse Deus, mas era o Deus que estava nas pedras, que estava no Sol, na natureza que lhes era dada como dádiva, mas também sobre a qual tinham responsabilidades, e exploravam com muito cuidado e com uma consciência infinitas vezes maior do que a dos conquistadores, auto-intitulados mensageiros da verdade para propagá-la às almas dos pobres selvagens, para que estes fossem salvos. Talvez os povos da América Latina estivessem melhores hoje se alguma coisa tivesse sido diferente por ali…
Até então, essa viagem a Machu Picchu era uma das mais sonhadas e desejadas da minha lista. Muito planejada e esperada, foi uma viagem fantástica, que realmente excedeu todas as expectativas, muito legal mesmo. Contratamos um pacote completo de viagem com a Pisa Trekking. Optamos pelo passeio mais completo, com dois dias em Puno, conhecendo o Lago Titicaca, dois dias em Cuzco, e a trilha completa de 4 dias até Machu Picchu. A estada em Puno (3800 metros de altitude, bem mais alta do que Cuzco e Machu Picchu) nos ajudou a aclimatar, acostumar o corpo com a altitude para minimizar os efeitos dela altitude quando fôssemos fazer a trilha.
1o dia de viagem: São Paulo – Lima – Juliaca – Puno
No nosso primeiro dia, praticamente só viagem: saímos de São Paulo de madrugada, chegamos em Lima e ficamos no aeroporto aguardando o embarque para Juliaca. Chegando em Juliaca, fomos levados de van para Puno, no hotel Sillustani. No caminho, tivemos nossa primeira impressão do Peru: Juliaca é uma cidade que nos chamou a atenção Vista de Puno a partir do mirante do Condorpor ser muito povoada e muito confusa, em matéria de trânsito, muitas pessoas na rua, ruas lotadas de camelôs, bicicletas e pedestres disputando espaço nas ruas com os carros, uma verdadeira bagunça. Depois de chegarmos ao hotel em Puno, saímos à noite para conhecermos a cidade, que fica na beira do Lago Titicaca. Puno é uma cidade bem pequena, que ainda engatinha na exploração do turismo. Alguns bons restaurantes, alguns museus, um belo mirante (Mirante do Condor), que dá uma visão do Lago (parcial, porque o lago é enorme). Tem uma escadaria enorme para chegar lá em cima (mais de 4000 metros de altitude), mas vale a pena.
Vista da cidade de Puno e o Lago Titicaca ao anoitecer, a partir do Mirante do Condor
2o dia: Lago Titicaca
No dia seguinte em Puno, fomos fazer nosso passeio de barco no Lago Titicaca, os barcos que levavam os turistas eram como um ônibus de excursão: muitos turistas, guia com microfone explicando as coisas, serviço de bordo e tudo o mais. No passeio conhecemos as ilhas flutuantes de Uros, que são ilhas feitas com totora (uma espécie de junco que cresce no lago). Os habitantes de lá constroem casas e barcos também feitos de totora, e ficam oferecendo seus artesanatos aos turistas. Conhecemos as casas e andamos em um dos barcos deles. Depois partimos para uma ilha mais afastada, a ilha de Taquile, onde vive uma comunidade socialista ainda hoje, com decisões sendo tomadas pela comunidade e que vivem praticamente da venda de artesanatos também. Almoçamos em Taquile, em um ponto alto da ilha com uma bela vista do lago(que parece um mar, pois não se consegue enxergar o horizonte). No começo da noite, fomos ao já citado Mirante do Condor.
Barco com turistas no Lago Titicaca
Chegada nas ilhas flutuantes
Peruana bordando na ilha
Casas feitas de totora
Barco de totora
3o dia: Sillustani, caminho para Cuzco
No nosso terceiro dia no Peru, acordamos bem cedo para irmos a Sillustani, um cemitério Inca que fica perto de Puno, no caminho para Cuzco. Lá existem chulpas, que são construções onde eram guardados os mortos. As chulpas são construções cilíndricas, com uns 6, 8 metros de altura, e com uma entrada de mais ou menos 80 cm de altura, sempre virada para o nascer do Sol. E a porta ficava aberta, para que os familiares e amigos pudessem visitar seus mortos… as múmias eram colocadas em posição fetal na parte de dentro da chulpa, nas paredes. Uma coisa muito interessante que notamos lá é que além das chulpas Incas, haviam também em Sillustani chulpas de uma outra civilização que viveu ali antes de ser conquistada pelos Incas. As construções eram mais toscas, sem acabamento ou trabalho fino nas rochas como as dos Incas. Mas o interessante disso é mostrar que quando os Incas conquistavam um povo, não faziam uma conquista predatória, mas sim respeitavam a cultura do povo conquistado, absorvendo para a sua própria o que fosse interessante, e passando sua cultura e tecnologia para os povos conquistados. Uma forma bem mais inteligente de se colonizar um povo do que os católicos europeus fizeram, sem admitir que poderiam aprender algo com os “selvagens” que encontraram na América.
Chulpa Inca em Sillustani
Chulpa pré-inca em Sillustani
Lhama posando para foto em Sillustani
Mais uma chulpa Inca, dá pra ver a perfeição no encaixe e tratamento das pedras
Chulpa Inca
Em seguida, pegamos um ônibus turístico Inka Express, que faz a viagem Puno-Cuzco na chamada rota do Sol, com paradas em alguns pontos turísticos. Paramos em Pukara, onde visitamos um museu, depois em La Raya, a 4350 metros de altitude, onde pudemos ver de perto e fotografar os picos nevados. Passamos ainda pelo belíssimo sitio arqueológico de Raqchi, e pela vila de Andahuaylillas, antes de chegar em Cuzco, a antiga capital do Império Inca. Cuzco é uma cidade muito bonita, arquitetura e relevo lembram em muito Ouro Preto (muitas igrejas antigas e muitas ladeiras), uma cidade turística, com muitas opções e estrutura para os viajantes. Ficamos no Hotel Sueños del Inca, muito bom e não é dos mais caros. Dentre as opções de Cuzco, há um bilhete com um preço único (na época, aproximadamente 50 reais) que lhe dá direito a entrar uma vez em cada um dos museus e sítios arqueológicos ao redor da cidade. No nosso caso, estava incluído no pacote. Dos restaurantes, gostamos muito do Chez Maggi, do Pacha Papa (em San Blás) e do bar cubano La Bodeguita, todos bem próximos à Plaza de Armas.
Picos nevados no caminho para Cuzco
Muitas opções de coisas para comprar, aos pés dos picos nevados
Sítio arqueológico em Raqchi
Raqchi
Foto 100% turista em Raqchi
4o dia: Sítios Arqueológicos em Cuzco
Nesse dia conhecemos o nosso guia para a Trilha Inca: Jim, um peruano formado em História que trabalhava com a Pisa já há mais de dez anos, e fala muito bem o português. Ele foi nosso guia a partir deste dia até deixarmos Machu Picchu, e foi uma das melhores coisas da viagem: muito prestativo, inteligente e conhecedor profundo da História dos Incas e da Trilha em particular. Entre os sítios arqueológicos que visitamos, vale destacar Sacsayhuaman, ruínas de um lugar onde os Incas se refugiaram para lutar contra os espanhóis que estavam em Cuzco. Construção gigantesca e belíssima, de onde se tem também uma bonita vista da cidade de Cuzco. Visitamos também um antigo cemitério Inca e depois voltamos a cidade, onde conhecemos o Coricancha, um templo Inca em cima do qual foi erguida uma igreja católica. O templo é belíssimo, com as estruturas do prédio original muito bem conservadas, onde pode se notar algumas características da arquitetura dos Incas, como as paredes inclinadas (fortalecem a sustentação), portas duplas presentes principalmente nos lugares considerados sagrados, portas e janelas trapezoidais, entre outras coisas. Depois fomos sozinhos ao Museu Inca, que fica também próximo à Plaza de Armas.
Cuzco e sua arquitetura colonial
Plaza de Armas, em Cuzco
Rua em Cuzco
Ruínas em Sacsayhuaman
Dá pra se ter uma noção do tamanho das pedras
Sacsayhuaman
Sacsayhuaman
Coricancha, em Cuzco. A Igreja católica foi erguida sobre a estrutura do tempo Inca, que conseguia resistir a terremotos
Coricancha à noite, uma das minhas fotos preferidas que tirei, até hoje
Porta dupla (muito comum na arquitetura Inca) no Coricancha
Janelas perfeitamente alinhadas no CoricanchaParedes trapezoidais no Coricancha
Como já ficou muito grande até agora, o relato continua na semana que vem…
Chá quente no alto do Ghorepani, olhando para o Annapurna
Em 2014 resolvi que estava na hora finalmente de ir conhecer o Nepal. Depois da viagem para São Petesburgo, era a viagem no topo da lista de desejos. Uma viagem em que conheceria uma cultura bem diferente, distante metafórica e fisicamente do meu mundo cotidiano. Além disso, poderia fazer trilhas na região onde estão algumas das montanhas mais altas do mundo. Sem escalar nada, que não é muito a minha pegada. Peguei as dicas com a Tânia, uma amiga que conheci na viagem ao Monte Roraima, ela tinha ido ao Nepal e ao Butão algum tempo antes. Taí uma das melhores coisas de viajar bastante: conhecer pessoas com astral bom, que troquem experiências e dicas. Procurei um amigo “trilheiro” para dividir essa aventura, e o Carlos, amigo de longa data, topou a loucura.
Nos dias de preparação para a viagem, escrevi o seguinte post no Facebook:
“Preparando as coisas para a viagem, contando as horas… As pessoas têm me perguntado: “Por que Nepal?”. E a resposta tem sido: “E por que não?”…
O mundo é grande demais para conseguirmos conhecê-lo por inteiro, nossa existência por aqui é comparativamente curta demais. Dessa forma, acho que a experiência de vivenciar situações e culturas que são completamente diferente das nossas, do nosso dia-a-dia, do nosso lugar comum. A tecnologia tem tornado o mundo cada vez menor e menor, mas há algumas coisas que ainda não são transmitidas e faz-se necessário estar lá fisicamente, outros sentidos a serem exercitados, sair um pouco (ou bastante, depende do ponto de vista) da nossa zona de conforto. Ao menos para mim, isso faz parte de estar vivo e é patologicamente indispensável… E o Nepal traz tudo isso, junto com montanhas das mais altas e bonitas do mundo… e lá vamos nós…
— Setembro de 2014
Nosso último alojamento
Entrei em contato com a Maroon Treks e optamos pelo pacote de trekking Ghorepani-Poonhill, com algumas alterações. O roteiro incluiu 2 dias em Kathmandu (capital do Nepal), seguido de um voo para Pokhara (interior do país, região do Annapurna, famosa montanha), 6 dias de caminhada nas montanhas dormindo em alojamentos, depois voo de volta para Kathmandu. No dia seguinte, um voo panorâmico pelo Everest (a montanha mais alta do mundo), jantar de despedida em Kathmandu, e em seguida pegaríamos um voo para o Butão, mas aí já é uma outra estória…
A viagem de ida tinha que contar com uma conexão, não há voos diretos do Brasil para o Nepal. Acabamos escolhendo a escala em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, pela Etihad, era o voo mais em conta na época. Aí começaram os detalhes: as escalas de ida e volta seriam longas (12 e 8 horas respectivamente), então teríamos que ter um visto para pernoitar nos Emirados, num hotel pago pela companhia aérea. Fomos informados de que até existia um hotel dentro do aeroporto(se ficássemos lá não precisaríamos de visto), mas estava em reformas. Fizemos o procedimento junto à Etihad, que ficou responsável por isso. Chegando perto da data, nada do visto chegar. Dois dias antes do embarque, o meu chegou, mas o do Carlos não. Sem explicação. Então teoricamente eu poderia ir para o hotel e ele deveria ficar no aeroporto. Sem opções, embarcamos.
Depois de 14hs de voo, tendo dormido, zerado os filmes disponíveis que valiam a pena, chegamos em Abu Dhabi. Não podemos dizer que conhecemos a cidade (na verdade, cidade-Estado), só ficamos no aeroporto. Depois de ficar conversando para ver se havia alguma solução para o fato do Carlos estar sem visto, acabaram achando vagas para nós no tal hotel do aeroporto.
Entrada do hotel do aeroportoNa mesa do quarto, indicação da direção de Meca, para rezar.
No dia seguinte, embarque para o Nepal. Chegando no aeroporto de Kathmandu, a visão completamente diferente de outros aeroportos ao redor do mundo: nenhuma mala de rodinhas, somente mochilas, e das grandes. Estávamos na capital mundial dos mochileiros, com certeza. No caso do Nepal, pagamos pelo visto lá mesmo, no aeroporto, na chegada.
Mochilões para todos os lados…
Nosso contato estava aguardando no desembarque, fomos recepcionados com colares laranjas de boas-vindas e levados direto ao Hotel, para check-in e na sequência para o escritório da agência para o briefing do pacote. À noite, fomos para o bairro turístico tomar a nossa primeira cerveja Nepalesa (dizem que feita com águas do Himalaia), a Gorkha. Lager normal, nada espetacular. Caminhamos um pouco por ali, e já percebemos o trânsito louco e sem sinalização, mão inglesa, e a simplicidade do lugar, das construções e das pessoas. Um país bem pobre, com muito pouco para se investir em infrarestrutura.
Colar nepalês de boas-vindasCerveja nepalesa
Dia seguinte, city tour em Kathmandu, visitando alguns dos templos mais famosos, como o templo Hindu Pasupatinath, onde pudermos ver uma arquitetura e cores totalmente diferentes do que estamos acostumados, além de vacas circulando livremente (a vaca é um animal sagrado para eles).
Entrada do Pasupatinath TempleDetalhe da decoração no templo, com desenhos digamos, não convencionais para costumes ocidentais, com temática sexualSaindo do templo: nosso guia (de azul), Carlos (de branco), além da vaquinha cujo nome desconheço
Uma coisa que impressiona a nós, ocidentais, são os rituais funerários que ocorrem nesse tempo, à margem do rio. Os corpos são preparados ali e queimados ali mesmo, sobre o concreto. Uma maneira diferente, respeitosa à maneira deles. Os mais abastados conseguem queimar seus mortos no templo, os outros o fazem fora do templo, mais abaixo ao longo do rio.
Corpo sendo preparado para ritualCorpo sendo consumido pelas chamas, observado pelos parentes e amigosMacaquinho morador do templo, e corpos queimando ao fundo
Um outro templo muito famoso é o Boudanath Temple, também conhecido como “Templo dos Macacos” pela quantidade absurda de macaquinhos que vivem por ali. Chama a atenção os “Olhos de Buda” no teto do templo, além das dezenas de sinos de reza (prayer bells). Lá há também um atelier-escola de desenhos de mandalas, comprei uma que mandei emoldurar aqui no Brasil e fica em casa.
Macaquinhos circulam livremente… se não cuidar do seu lanche, já era…Prayer Bell gigante no templo BoudanathTeto do templo BoudanathTeto to templo BoudanathAs pessoas passam por esses sinos girando-os para fazer barulho, e entoando o mantra “Om mani padme hum” , que tenho no anel que uso até hojeAltar no templo Boudanath
O templo é muito bonito, embora bastante sujo, principalmente por conta das oferendas que ficam lá por dias, aparentemente. De qualquer forma, é um lugar imperdível numa passagem por Kathmandu.
Outro lugar que visitamos é a Patan Durbar Square, cheio de templos menores, todos com muitas decorações em madeira esculpida (carving). Infelizmente, boa parte desses templos em Kathmandu foram seriamente danificados, alguns completamente destruídos, alguns meses após nossa visita, por causa do terremoto de 2015, conforme pode ser visto nas fotos aqui e aqui.
Patan Durbar SquarePatan Durbar SquarePatan Durbar SquarePatan Durbar SquareDetalhe de escultura em templo da Patan Durbar Square. Figuras de posições sexuais são comumente representadas por lá.
No dia seguinte era o dia de iniciarmos a trilha, 6 dias em completo isolamento caminhando pelas montanhas. Para tanto, fomos logo cedo ao aeroporto de Kathmandu para pegar o avião para Pokhara, na região oeste do país. O terminal doméstico do aeroporto é praticamente um grande galpão, tijolos aparentes, os guichês são de plástico, tipo daqueles de feiras de negócios. Fomos pela companhia Simrik Airlines. A atendente que nos recepcionou no finger e nos acompanhou até a aeronave era a mesma do check-in. Operação bem enxuta mesmo… O avião era um bimotor de 19 lugares, sendo que as primeiras 8 fileiras tinham somente um assento de cada lado (um em cada janela), e a última tinha 3 poltronas, bem apertadas. E era nessa última fileira os nossos lugares (eu, Carlos e o guia). Foi o menor avião no qual entrei na vida. Principalmente depois de ele ficar lotado, cheio de europeus de mais de 1,80 de altura, a sensação claustrofóbica apertou… respira fundo e vamos lá…
Entrada do terminal doméstico do aeroporto de Kathmandu Check-in da Simrik AirlinesAvião que nos levou a PokharaAeroporto de Pokhara
Bom, lá estávamos prontos para iniciar a trilha, um carro estava nos aguardando no aeroporto, no próximo post conto como foi essa parte da aventura… até lá!
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