Roma (série)

26 09 2021
imagem daqui

Essa série, de 2005, em duas temporadas produzidas pela HBO, acredito que seja uma das melhores, se não a melhor série que retrata esse período histórico do último século antes de Cristo, no período de transição da República para o Império. O que mais chama a atenção é o trabalho e atenção que tiveram para reproduzir uma sociedade de mais de 2000 anos atrás. As roupas, a cidade cenográfica, tudo com bastante cuidado, a HBO contou com a parceria da BBC na produção para que tudo fosse reproduzido da maneira mais fiel quanto possível, dados os registros históricos disponíveis. Até por todo esse trabalho, a produção ficou extremamente cara, e acabou tendo somente duas temporadas das cinco inicialmente planejadas.

A República Romana foi um período que durou mais de 4 séculos, onde o poder era exercido pelo cônsul e este era aconselhado pelo Senado e tinha poderes limitados também pelo Senado. O fim da República tem início na ascensão de Júlio César, e é justamente esse período que é retratado na série.

A série mostra os fatos históricos, fala das batalhas, alianças políticas, traições, todas as coisas contadas nos livros de História, mas conta também o ponto de vista de pessoas comuns, no caso dois soldados, Tito Pulo e Lucius Vorenus, que são os principais personagens da série, mostrando momentos de suas vidas “comuns”, longe dos livros de História, mas também os colocando, como elementos de ficção, com papéis decisivos em vários fatos históricos, o que na minha opinião enriquece a narrativa e contribui para engajar o espectador com aquela sensação de querer ver o próximo episódio, ou mesmo ter empatia e torcer por estes personagens (com as figuras históricas não há muito como fazer isso, pois já se sabe de antemão o desenrolar de suas vidas). E é justamente o ponto de vista de dois “plebeus”, que não faziam parte da sociedade romana dos “patrícios”, que torna a série diferente, audaciosa e a faz valer a pena ser vista.

A separação entre as classes é muito nítida, e num primeiro olhar pode até chocar como os plebeus e escravos se submetem a praticamente tudo em favor das classes mais favorecidas, os patrícios, nobres proprietários de terras, “bem nascidos”. Matar um escravo era uma questão de se ressarcir o dono do escravo pelo prejuízo, e não tratado como homicídio. Haviam lugares que podiam ser frequentados por plebeus, e outros somente pelos nobres. As roupas usadas por cada um identificavam facilmente a classe à qual pertenciam. Guardadas as devidas proporções, avançamos enquanto sociedade nesses 21 séculos em alguns desses pontos, em outros nem tanto…

A religiosidade romana também é retratada de maneira muito interessante, retratando alguns detalhes do paganismo politeísta, onde existiam vários deuses cultuados, cada um com sua função bem definida e rituais que deviam ser seguidos. Os personagens faziam oferendas, tinham pequenos altares, e os próprios ritos civis, políticos e militares tinham um viés religioso também. Outra característica que é marcante também é a questão da sensualidade e sexualidade, explorada em vários momentos durante a trama, e que acaba garantindo mais audiência, como a HBO bem sabe…

É uma bela série para quem gosta de História e de uma produção bem-feita, realmente uma pensa ter tido somente duas temporadas, gostaria de ter visto mais, acho que seria bem interessante.





Urso Branco (Black Mirror)

2 05 2021

Esse foi um dos episódios de Black Mirror que mais me “pesaram”, tipo um soco no estômago mesmo. Recomendo muito, mas realmente (ao menos para mim) foi extremamente chocante. Não só pela estória em si, mas por pensar como algumas coisas horríveis que acontecem ali podem sim acontecer na vida real.

ALERTA DE SPOILER: recomendo que você assista primeiro e depois volte aqui para ler…

Victoria, a personagem principal, fugindo dos “caçadores” e sendo filmada por todos

1a parte: Perseguição

O episódio começa com a moça (Victoria, descobriremos somente bem depois) acordando sentada em uma cadeira, em uma casa vazia, sem saber quem é e sem se lembrar de nada, que casa era aquela, o que estava fazendo ali, enfim, sem saber de nada. Ela vê seus pulsos enfaixados, remédios espalhados no chão, casa arrumada, algumas fotos nos porta-retratos espalhados por ali, dentre eles o de uma menina, que ela reconhece vagamente e imagina que possa ser sua filha. As TVs na casas ficam emitindo um zunido e mostrando uma figura geométrica estranha:

Imagem que aparecia nas TVs

Ao sair da casa, vê as ruas vazias, e algumas pessoas nas janelas das casas, todas a observando e a filmando através de celulares. Ela grita, pede ajuda, mas ninguém fala com ela, seguem filmando… Ela segue andando, vai atrás de uma moça que tirou foto dela com o celular, mas não a alcança… De repente chega um carro, de onde desce um rapaz encapuzado, tira uma espingarda do porta-malas e passa a perseguí-la. Há várias pessoas pela rua, mas ninguém a ajuda, seguem usando seus celulares para filmá-la enquanto ela foge em pânico, sem entender a situação. Ela encontra um casal que aparentemente também está fugindo, o rapaz acaba morto e ela escapa com a moça.

O ritmo da narrativa é alucinante, como um thriller acelerado, onde o espectador fica envolvido sem conseguir entender, e, portanto, compartilha da angústia e pânico da personagem. É quando a estória te prende, e você se sente naquela realidade absurda. Um mascarado com um taco de beisebol, uma outra com uma pequena serra elétrica, todos atrás delas. Ao longo da fuga elas são capturadas, Victoria chega a começara sofrer tortura física e é salva pela companheira de fuga. Ao longo do tempo a moça explica para Victoria que tudo começou com um sinal de rádio/TV (que ela associa à imagem vista nas TVs) que é enviado de uma central, que transformou algumas pessoas em “zumbis” de celulares e outras aproveitaram a situação e saíram praticando maldades e matando pessoas a esmo, os tais “caçadores”. E para solucionar isso de alguma forma, elas têm que ir a essa central e destruí-la. Victoria aparentemente continua perdida, não vêm muito sentido em tudo aquilo, mas vai com a moça até a tal central (mesmo porque ela não tinha outra alternativa a não ser acompanhar a moça).

2a parte: A explicação

Ao chegar na tal estação, dentro de uma sala cheia de computadores e aparentemente prestes a destruir tudo, os “caçadores” as encontram. Quando parece que tudo vai dar errado, Victoria consegue pegar a arma de um deles e atira. E da arma não sai um tiro, mas apenas confetes. Aí tudo começa a ser explicado, ela estava em uma espécie de “reality show” e todos os outros eram atores. As pessoas com celulares eram espectadores que pagavam para acompanhar o desenrolar dos fatos e registrar com fotos e vídeos. Mas por que ela estava passando por isso? Era uma punição. Ela torturou e matou uma menina (aquela da foto) e registrou tudo com o celular. Então havia sido decidido que a punição dela seria viver uma situação de tortura e pânico (como teria sido a da sua vítima) por vários e vários dias seguidos. E para que as sensações fossem verdadeiras, genuínas, a cada final de dia eles apagavam a memória dela e a deixavam acordar na mesma situação, todos os dias, para viver o seu martírio.

Minha opinião

E o que achei pessoalmente dessa estória? Que ela mostra e escancara a banalização da crueldade e do senso punitivista da sociedade. Pessoas pagariam ingresso para entrar em um parque “temático” onde na verdade o que assistiriam seria o sofrimento de uma pessoa condenada? Eu acredito que existiriam pessoas que pagariam para isso. E isso diz muito a respeito de onde estamos enquanto sociedade. Esse tipo de “show” se aproxima muito dos espetáculos nas arenas romanas, onde seres humanos considerados inferiores ou condenados eram expostos, violentados, trucidados em eventos públicos. O sadismo em deliciar-se com o sofrimento alheio, independentemente do motivo, não me parece algo minimamente saudável… “Ah, mas tem que pagar na mesma moeda!”… Como disse Gandhi, “Olho por olho, e a Humanidade acabará cega…”. Se alguém lhe faz algum mal, por que retribuir com o mal? A forma como você retribui diz muito mais sobre você e pesa sobre você. Veja que não se trata de perdoar ou não perdoar. É mais simples do que isso, é simplesmente não querer vingança, revanche, ou qualquer outro nome que se dê a esse sentimento que busca “reparação” de alguma forma. Que haja julgamento, que haja punição, mas que seja dentro de um sentimento de humanidade que deveríamos ter com qualquer um. E não por uma questão moral ou religiosa, na minha opinião. Simplesmente pelo motivo de não juntar sentimentos e coisas ruins dentro de nós mesmos… Para que possamos nos livrar desse peso, e levar conosco somente as coisas mais leves possíveis…





Men against fire (Black Mirror)

28 03 2021

Desde a primeira vez que assisti a um episódio de Black Mirror (que realmente eu não me lembro qual foi), achei essa uma das melhores séries de todos os tempos. Embora não seja uma “série” no sentido de ter uma sequência entre os episódios, o futuro distópico é realmente um tema fascinante, ao menos para mim. Tirando um ou dois episódios, achei todos até hoje excelentes, por nos fazer pensar a respeito de tecnologias e comportamentos que podemos ter no futuro (e alguns já estão presentes mesmo hoje). Como sou aficionado por tecnologia desde sempre, para mim é realmente um prato cheio. Geralmente são bastante tensos, e com revelações incríveis ao longo dos episódios, que são em geral curtos e densos o bastante para prender muito a atenção.

O quinto episódio da terceira temporada é um dos que mais me chamou a atenção. O título original em inglês é “Men against fire”, que seria algo como “Homens que são contra atirar” (depois descobri que é o título de um livro de um militar americano, vou comentar mais abaixo), mas a Netflix colocou o título em português como “Engenharia reversa”. Vou tentar separar o post em duas partes, onde na primeira não vou contar nada que estrague a experiência de quem se anime a assistir. Na segunda, já coloco um alerta de spoiler para proteger os incautos, rs

1a parte: Caça às “baratas”

No início é mostrado um soldado iniciante juntando-se a um batalhão, saindo para uma missão em uma vila que havia sido atacada por “baratas” (“roaches”, em inglês). Percebemos que essas tais baratas não são os insetos, mas alguns seres que atacam vilas, roubam comida, fogem… os moradores da vila ficam revoltados, e inclusive queimam a comida que foi deixada, por estar “infectada”. Uma integrante do batalhão chega a dizer que as baratas precisam ser exterminadas, porque transmitem doenças, são sujas, eles não podem deixar que elas procriem, senão vão infestar o mundo inteiro.

Quando finalmente um grupo das baratas é encontrado, nós vemos que são seres quase humanos, mas deformados, que emitem grunhidos ao invés de falar, escondem-se dos soldados e fogem quando encontrados. Via de regra, os soldados os matam sem pestanejar. Nessa parte já fica claro que há uma guerra, uma missão de encontrar e exterminar esses seres que são chamados de baratas, e os soldados são treinados para essa missão específica. Não fica claro de onde vieram, como surgiram, mas a mensagem é clara: a humanidade precisa ser protegida dessa praga que são as baratas, e os soldados têm a honra de cumprir essa missão.

*** Atenção! Alerta de spoiler, só leia abaixo se já assistiu ao episódio, ou se não vai assistir ***

2a parte: Quem são as “baratas”?

Aqui a coisa começa a ficar realmente interessante. Os soldados possuem equipamentos implantados que permitem que eles enviem e recebam mensagens e imagens entre si, enxerguem em tempo real exatamente o que a câmera de um drone está filmando, coisas assim. O soldado iniciante, chamado de Stripe, depois do primeiro contato com algumas baratas, começa a ter alguns problemas com esse seu equipamento implantado, que chamam de “máscara”. Eles fazem alguns exames, mas não acham nada de errado e ele volta à campo para uma nova missão. Aí na missão percebemos a grande jogada da estória: a tal “máscara” implantada no cérebro dos soldados faz com que eles enxerguem determinadas pessoas como as tais baratas. Isso mesmo, as tais baratas eram pessoas, seres humanos normais, o tempo todo, mas os soldados tinham o cérebro “programado” para enxergá-los como seres diferentes, repugnantes, praticamente animais.

Aí podem vir as perguntas: Por que esse grupo de seres humanos vivia se escondendo, roubava comida de outras vilas e eram perseguidos? Simplesmente porque eram perseguidos e segregados, por serem de uma determinada raça ou etnia (não fica claro) diferente daquela “dominante”. Eles foram identificados geneticamente, pelo seu DNA, como um tipo de raça “inferior”, com maior tendência a doenças e outros “problemas”, e alguém tomou a decisão de segregá-los, persegui-los, e, ao longo do tempo, caçá-los e exterminá-los. A tecnologia havia dado acesso a ferramentas que permitiam, em tempo real, segregar essas pessoas, e ainda fazer com que soldados enxergassem neles verdadeiros monstros, para que fosse simples, quase natural, que as matassem. Os soldados que se alistavam voluntariamente concordavam em ter o implante da “máscara” e ter sua memória recente apagada para que não se lembrassem, e achassem natural irem caçar as baratas. Ao perceber isso, o soldado entra em desespero e com uma angústia que é obviamente compartilhada com o espectador.

No exato momento em que o mecanismo todo, e sua justificativa, são percebidos, é impossível – ao menos para mim – não fazer um paralelo com perseguições e segregações que ocorrem na vida real, seja de ordem étnica, religiosa, social, ou qualquer outra. A mais óbvia é a ideia da eugenia, da “raça pura” usada por Hitler para justificar as perseguições na Alemanha nazista, mas existem muitas outras que existiram ao longo da História, e algumas permanecem até hoje. Tornar o “diferente” como “inimigo”, desumanizá-lo ao ponto de que capturá-los, torturá-los, matá-los torna-se normal. Romanos perseguindo povos diferentes, chamados por eles de “bárbaros”, cristãos justificando matar muçulmanos, os “infiéis” nas Cruzadas, a Inquisição Católica queimando os chamados “hereges”, “bruxos”, por não compartilharem de suas fés e dogmas, judeus e árabes disputando territórios e criando abismos entre povos e culturas que poderiam ser tão próximos, brigas entre etnias na África ainda nos tempos de hoje (aliás, se não viu o filme “Hotel Ruanda”, recomendo, mostra um recorte a respeito, numa estória real). Não temos a tecnologia das “máscaras” para transformar os diferentes em monstros, mas temos outros mecanismos, lavagem cerebral, propaganda e comunicação massiva, dentre outros. Como na maioria dos episódios de Black Mirror, fica uma sensação ruim, um gosto amargo na boca, uma mistura de “vontade de que aquele futuro distópico nunca chegue” com “ele já está aqui ao meu lado há tempos”…

Mais recentemente descobri que o título do episódio “Men against fire” é o mesmo de um livro escrito por um militar americano do século XX, que trata justamente do “problema” que ocorria no front de batalha, com uma porcentagem muito grande de soldados que não conseguiam matar os inimigos. Erravam de propósito ou simplesmente não apertavam o gatilho. Esse “problema” teria sido resolvido ou minimizado de alguma forma com a “desumanização” do inimigo para os soldados, de maneira análoga ao vista no episódio de Black Mirror. Não li o livro, não sei como isso teria sido tratado, mas fiquei curioso, quem sabe algum dia procure saber mais a respeito.

Bom, espero que tenha achado interessante, até uma próxima!





O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale) – série

8 11 2020
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Agora, em meio à pandemia, ficamos procurando indicações de séries para assistir. Por sugestão de uma amiga, começamos a assistir a The Handmaid’s Tale, disponível no Brasil pela Globoplay. Em pouco mais de três semanas, assistimos à primeira (2017) e à segunda (2018) temporadas, e estamos nos preparando para a terceira (2019). Por conta da pandemia, a quarta temporada que seria nesse ano foi adiada para 2021. A série é baseada em um livro publicado na década de 80, e pelo que entendi o livro termina da forma como termina a primeira temporada, então as subsequentes não são uma adaptação, e sim roteiros novos.

Vou tentar passar minhas impressões e por que resolvi escrever a respeito, com o mínimo de spoilers quanto possível. Se quiser parar por aqui a leitura, só digo que recomendo muito, é uma estória muito forte, dramática, e que levanta muitos questionamentos atuais, como toda boa estória distópica. Depois que assistir, passa aqui de novo pra terminar de ler.

Aliás, falando em estórias distópicas, assistindo a essa série me remeteu bastante a alguns episódios de Black Mirror, com situações futurísticas catastróficas, apocalípticas, mas, que se analisarmos com um pouco mais de frieza, não estão muito distantes da nossa realidade, por mais assustador que isso seja. Qualquer dia escrevo sobre alguns episódios de Black Mirror também…

Voltando a Handmaid’s Tale, a estória se passa em um futuro não muito distante, onde teria havido um golpe de estado nos Estados Unidos, por um grupo religioso que implementa uma sociedade patriarcal, praticamente medieval, que subjuga as mulheres e que separa a sociedade em castas muito bem definidas. Um dos pilares dessa sociedade é que a maioria das mulheres haviam ficado estéreis, e as poucas que restaram férteis são “treinadas” para serem handmaids (“aias”), para gerarem os filhos dos “comandantes”, os representantes das camadas “superiores” da sociedade, que controlam o governo. As aias moram nas casas de seus comandantes, e mensalmente no seu período fértil são estupradas por seus comandantes em uma “cerimônia”, que conta inclusive com a participação da esposa estéril. E essa “cerimônia” é justificada inclusive por uma passagem bíblica: “Vendo Raquel que não dava filhos a Jacó, teve inveja de sua irmã, e disse a Jacó: Dá-me filhos, senão morro. E ela disse: Eis aqui minha serva Bila, coabita com ela, para que dê à luz sobre meus joelhos, e eu assim receba filhos por ela” (Gênesis 30:1:3)

Uma das partes mais impactantes da série é justamente a realização dessas cerimônias, onde elas deitam na cama do casal, sobre os joelhos das esposas, e são seguras por estas pelos punhos, para que sejam “fecundadas” pelos seus maridos. Há uma ideia plenamente difundida, e justificada “biblicamente” de que as mulheres não têm direito a praticamente nada (não podem ter propriedades, empregos, dinheiro e nem podem sequer LER) e devem se dedicar exclusivamente à família (as “esposas”, mulheres dos aristocratas), aos afazeres domésticos (as “Marthas”, mulheres estéreis mantidas praticamente como escravas), e à procriação (as “Aias”). Inclusive as roupas que elas têm que usar identificam claramente sua posição na sociedade. Em um mundo onde quase todas são estéreis, as Aias possuem um aura de “abençoadas” por ainda serem capazes de engravidar e gerar uma vida.

A “cerimônia”. Imagem daqui.

A atmosfera criada pela fotografia da série ajuda no tom sombrio. Não há cores vivas, não há luz, não há alegria. É tudo sempre muito angustiante, e a trilha sonora colabora também.

Existe, claro, a questão da exploração das mulheres, que foi exaustivamente debatida desde o lançamento da série. É um tema central e extremamente relevante, mas justamente por ter sido muito discutido não pretendo escrever muito sob esse prisma. Não por não o achar relevante, mas justamente por ser o principal ponto de discussão, gostaria de levantar outros que me chamaram a atenção.

A premissa inicial da série é que um grupo fundamentalista cristão autodenominado “Os filhos de Jacó” inicia uma série de atentados nos Estados Unidos e provavelmente conseguem culpar alguma minoria (acho que muçulmanos, não ficou muito claro até agora) e por conta disso justificam a instauração de um estado de sítio com uma escalada gradual da retirada de direitos, em especial das mulheres, até que os EUA mudam até de nome, passam a ser chamados “Gilead” e se tornam uma ditadura teocrata. Ou seja, um governo ditatorial cujos poderes são justificados pela religião. No caso, a cristã. Perseguindo e matando quem não se encaixa ou não concorda com eles, seja por religião, orientação sexual ou comportamento. Isso gera situações que existem em alguns lugares do mundo, hoje, como exilados que formam grupos de refugiados em países vizinhos (no caso, o Canadá). Existem muitos países hoje, em 2020, que recebem refugiados fugindo de regimes ditatoriais, perseguição étnica ou religiosa. Mas já pensou o “tapa na cara” da civilização ocidental ao se dizer que isso poderia acontecer nos EUA? Em tempos de intolerância crescente em que vivemos atualmente, vêm novamente à cabeça a angústia do tipo da série “Black Mirror“: o futuro tão ruim como está sendo descrito está longe de ser real? Talvez não muito.

Como os países reagiriam a isso? Na série, há citações a campanhas ao redor do mundo, sanções econômicas, e dá a entender que ainda existe uma guerra civil em curso, devidamente abafada para se passar internamente uma sensação de paz e tranquilidade para a comunidade de Gilead. No mundo real, há vários países que sofrem sanções, por diferentes motivos. Mas a hipocrisia faz com que os interesses econômicos se sobreponham a quaisquer outros. Existem ditaduras que sofrem com sanções e isolamento, e outras tão “ruins” quanto, mas que não sofrem nada. Se o país em questão tiver um peso econômico grande e/ou um grande poderio militar, ele pode fazer virtualmente qualquer coisa que não sofrerá nada. Fato.

Enfim, é importante que se reflita a respeito do potencial desastroso de darmos poderes a pessoas e grupos que de alguma forma incentivem ou sejam minimamente permissivos com intolerância ou discursos de ódio, de qualquer tipo. Faz-se necessário, mais do que nunca, tomar cuidado com discursos moralistas que pregam maldisfarçadamente intolerância e incitam a violência. Impossível não se lembrar do episódio onde uma menina de 10 anos que era estuprada pelo tio desde os 5 anos, teve seu direito ao aborto garantido pela Justiça, teve que ir para outro estado para poder fazer o procedimento e no próprio hospital foi hostilizada e xingada por grupos evangélicos. Uma vítima de violência, buscando o apoio do Estado para ter seu direito garantido, e ainda sofre essa violência. Estamos doentes como sociedade, a partir do momento que algo assim torna-se corriqueiro ou minimamente aceitável. Onde está o “fazer o bem” pregado pela religião, nessa situação?

Precisamos nos preocupar com perda de direitos, mesmo que não nos afete, pois o pensamento deve ser coletivo, não individualista. Espero sinceramente que possamos fazer isso… Termino citando Bertold Bretch, e esperando que tempos melhores nos aguardem mais à frente…

Primeiro levaram os negros

Bertolt Brecht (1898-1956)

Primeiro levaram os negros

Mas não me importei com isso

Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários

Mas não me importei com isso

Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis

Mas não me importei com isso

Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados

Mas como tenho meu emprego

Também não me importei

Agora estão me levando

Mas já é tarde.

Como eu não me importei com ninguém

Ninguém se importa comigo.