Como faz um tempo que não saio pra fazer uma trilha longa, travessia com acampamento no alto da montanha, ou coisas assim, fui procurar alguma trilha curta pra fazer em algum dia de sol durante um final de semana em São Paulo, onde moro atualmente. Nunca tinha ido ao Parque da Cantareira, um pedaço preservado da Mata Atlântica a cerca de apenas 10km em linha reta da Praça da Sé, no centro da cidade. “Cantareira” foi o nome dado à Serra pelos tropeiros, que faziam o comércio entre São Paulo e as outras regiões do país, nos Séculos XVI e XVII. Era costume, na época, armazenar água em jarros de barro, chamados cântaros, e as prateleiras onde eram guardados chamavam-se Cantareira, daí vem o nome.
Achei um passeio legal, uma trilha bem tranquila, que pode ser um pouco puxada para quem não está acostumado. Bem sinalizada, boa parte dela em asfalto, mas com várias trilhas “secundárias” em mata mais fechada. O ponto alto (literalmente) da trilha é a Pedra Grande, onde num dia com céu aberto como aquele em que eu fui, é possível ter uma visão ampla da cidade ao longe, após algumas áreas verdes e os bairros mais próximos.
Dei sorte, o tempo estava bom e com céu aberto
Dentro do parque, acabei explorando um pouco mais além da Pedra Grande, fui até o lago, depois peguei a trilha da Suçuarana, que terminou (na verdade, começa, eu fiz o caminho inverso) na portaria do núcleo “Águas Claras”, já no município de Mairiporã.
Mapa logo na entrada do Núcleo Pedra Grande do parque
O pessoal do parque indica que a ida e volta até a Pedra Grande, a partir da portaria da Rua do Horto (Núcleo Pedra Grande) leva 3 horas, e a ida e volta até o Lago leva cerca de cinco horas. Depois que fiz a caminhada, deduzi que provavelmente esses tempos são para iniciantes ou pessoas não acostumadas com grandes caminhadas. Após completar a Trilha da Suçuarana, acabei entrando em uma outra trilha que faz parte do núcleo Águas Claras, a Trilha da Samambaiaçu, um pouco mais fechada e bem bonita.
E achei que não ia sair da cidade…
Foram horas agradáveis para passar no meio da mata, com espaço para um piquenique à beira do lago, e sem ter que se deslocar para fora da cidade (se bem que, dependendo de onde esteja na própria cidade, o deslocamento até lá é considerável…)
Lago das Carpas
Foram horas agradáveis, recomendo para quem não conheça e quiser se aventurar…
Sou um apaixonado por viagens, se você me conhece minimamente já sabe disso, não é novidade… Mas há um tipo de viagem que no geral me atrai mais, acaba geralmente me trazendo mais prazer. Não que eu não goste de passeios urbanos, culturais, gastronômicos e afins. Mas pra mim, um movimento de ficar um tempo em meio à Natureza, preferencialmente desconectado do resto do mundo, isso traz todo um encanto a mais. Cachoeiras, então, são a “cereja do bolo”, ainda mais se der pra tomar aquele banho gelado…
Aí acontece que resolvi fazer um post genérico, com uma seleção de fotos no meio da natureza, até para matar um pouco das saudades, sem estar falando de um local ou viagem em especial…
Na Chapada dos Guimarães (MT)
Cachoeira do Taboleiro, na Serra do Cipó (MG)
Quando estou no alto de uma montanha, ou numa trilha no meio do nada, o que sinto nesses momentos, e que me satisfaz, é algo que me traz uma sensação boa de paz, de tranquilidade, e de conexão com a natureza, com o divino, com algo que transcende esse plano, algo mais do que uma simples desconexão com a vida do “dia-a-dia”.
De tempos em tempos eu sinto que preciso de momentos assim, de “descompressão”, de estar só comigo mesmo, ou ao menos com pessoas diferentes, que no geral – e isso é uma outra coisa que adoro nesse tipo de viagem – são pessoas com uma energia muito boa, um astral muito bom, e por vezes acabam se tornando amigos, ou companheiros para novas viagens, trocas de dicas e experiências, etc. A minha ida ao Nepal contou com dicas de amigos que conheci no Monte Roraima, para onde só fui por conta de um contato que conheci na Serra Fina; na Serra Negra fiz amizades que me chamaram para a Serra do Cipó, e por aí vai…
Por várias vezes me peguei sozinho, simplesmente quase em estado de meditação, enquanto estava no alto de uma montanha vendo as nuvens por cima, ou congelando embaixo de uma queda d’água, ou ainda olhando para a cachoeira e ficando hipnotizado pela imagem e barulho da água caindo, imaginando que ela permanece ali, caindo, por dezenas de milhares de anos, da mesma forma…
No Rocky Mountains Park, no Colorado (EUA)
Banho de cachoeira em Ilhabela (SP)
Cachoeira na Chapada dos Veadeiros (GO)
Caminhando sobre a “Devil’s Bridge”, em Sedona, no Arizona (EUA)
Turma da viagem à Chapada dos Veadeiros (GO) reunida
Para mim, que não sou uma pessoa religiosa, considero essas “fugas para o mato” como o meu momento de comunhão com a natureza, de conexão comigo mesmo, momento de parar para respirar. Para sentir os cheiros, para ouvir os barulhos, dormir com o barulho de uma queda d’água bem pertinho, poder olhar para as estrelas sem luzes para atrapalhar, dormir facilmente por conta do cansaço, sem se importar minimamente em estar em uma barraca, em um saco de dormir…
Uma das minhas fotos preferidas, tirada pelo guia Sherpa sem que eu percebesse, próximo ao Annapurna, no Nepal
Olhando as nuvens por cima, no alto do Monte Roraima
Serra dos Órgãos, na travessia Petrópolis – Teresópolis
Olhando para o vale em Gonçalves (MG)
Parada pra pose na Travessia Petrópolis-Teresópolis
E o que faz uma pessoa como eu, que gosta tanto desse tipo de viagem, que vive em São Paulo, cidade grande, e enfrenta uma pandemia durante a qual fica impossibilitado de viajar? Pois então… essas experiências não podem ser vividas no mundo virtual, ao menos por enquanto a tecnologia ainda não permite isso… podem então imaginar a crise de abstinência pela qual estou passando… a única viagem nos últimos tempos foi uma “fugida” para São Luiz do Paraitinga, numa pousada/refúgio que conheço há bastante tempo para um final de semana, e somente agora, setembro de 2021, estamos tentando planejar uma viagem um pouco mais longa, mas ainda com muitas restrições e cuidados, pois apesar da vacinação estar avançando, a pandemia ainda deve ser motivo de preocupação por um bom tempo…
Espero no futuro poder novamente planejar viagens com um pouco mais de segurança, e em especial conseguir continuar conhecendo lugares especiais, com paisagens lindas e experiências que vão ficando para o resto da vida…
“Viajar é fatal para o preconceito, intolerância e ideias limitadas” – Mark Twain
De todas as trilhas e travessias que fiz, no Brasil e fora, essa é uma cujas lembranças guardo com um carinho especial. Era 2009, estava em um momento de indefinições na minha vida pessoal e profissional, e nesses momentos, ao menos para mim, não há nada melhor do que ir pro meio do mato, subir umas montanhas, desconectar-se do cotidiano e alinhar as próprias energias para seguir em frente.
No meio da trilha, com o “cajado” arrumado ali mesmo…
A forma como decidi fazer essa trilha foi inusitada… eu tinha férias marcadas, e pela primeira vez na vida (e arrisco dizer que talvez seja a única até hoje) eu não tinha nada programado. Aí acabou me chegando um anúncio via e-mail de fazer essa trilha no feriadão de 9 de julho. Mandei um e-mail pedindo a vaga, e para meu espanto recebi uma ligação algum tempo depois, do dono da agência que estava organizando a trilha: “Você quer fazer a Serra Fina? Quais travessias você já fez?”. Respondi que já tinha feito a Trilha Inca Clássica, a travessia Petrópolis-Teresópolis na Serra dos Órgãos, a antiga trilha do ouro (São José do Barreiro – Paraty), e algumas menores. “Ah, então você já pode fazer a Serra Fina!”, ele respondeu. “E digo mais: depois dessa, Brasil acabou pra você, vai ter que buscar mais coisas fora!”. Achei uma abordagem peculiar, para dizer o mínimo… Mas, como fui “aprovado”, ‘bora pra trilha!
A trilha se inicia na cidade de Passa Quarto, em Minas Gerais, na divisa com São Paulo e Rio. Saindo da cidade de São Paulo, segue pela Dutra, pega a estrada para Cruzeiro (ainda em SP) e depois chega-se a Passa Quatro. Fui na véspera, o pacote incluía a primeira noite na pousada na cidade, e as três seguintes na montanha, no meio da trilha. Uma das coisas que mais gosto nesse tipo de viagem é justamente o tipo de gente que você encontra, no geral um pessoal com uma energia muito boa, um pessoal que topa qualquer coisa, e acabamos fazendo boas amizades, para futuras viagens e para a vida, mesmo. No caso, na nossa turma havia um rapaz do Acre, um do Rio Grande do Sul, três meninas de São Paulo, um rapaz de São Paulo e um gaúcho morador de São Bernardo. É muito interessante conhecer pessoas nessa situação, pessoas de bem com a vida, dispostas a compartilhar experiências, a conviver de maneira intensa e próxima à natureza por alguns dias.
Comecei a entender ali o porquê de aquela trilha ser considerada pesada, o que justificaria a abordagem seletiva do rapaz da agência: é uma trilha relativamente pesada, comparável com várias outras no Brasil, mas com um agravante que há longos trechos onde não há como conseguir água, então durante boa parte precisamos carregar toda a água necessária para os dois primeiros dias de caminhada (isso inclui para beber, cozinhar e lavar utensílios, além da higiene básica). A trilha inclui passagem por 3 dos picos mais altos do Brasil: Pedra da Mina, Pico do Capim Amarelo e o Pico dos Três Estados. Cada um tem que levar toda a sua bagagem (incluindo o saco de dormir) e bastante água para ser usada pelo grupo ao longo dos dias. A logística também é bem interessante, os guias costumavam deixar lá nos pontos de acampamento alguns mantimentos armazenados e alguns utensílios básicos, para não terem que ficar carregando lá pra cima toda vez que levassem um grupo. Bom, na manhã seguinte à nossa chegada, conhecemos o nosso guia Rodolfo e sua equipe. Mochila nas costas com somente as coisas indispensáveis no alto da montanha (o que não é pouco!), saímos para subir a montanha.
Última foto com o boné que “o vento levou”, literalmente.
No primeiro dia, subida até o Pico do Capim Amarelo, onde encontramos outros grupos. Seguimos por várias encostas com vistas maravilhosas do vale e da cidade de Cruzeiro ao longe. Muito vento, de cerca de 30 km/h, que foi quando perdi meu boné, que hoje descansa na montanha… Abastecemos de água no último ponto possível antes da Pedra da Mina (que só alcançaríamos no dia seguinte), cada um levando cerca de 4 litros na mochila. Muito companheirismo na caminhada, o pessoal ia se conhecendo, as refeições eram uma curtição à parte: macarronada na primeira noite, quando acampamos praticamente sozinhos no chamado “Maracanã”. Depois ficamos sabendo que todos os outros grupos abortaram a subida para a Pedra da Mina e voltaram pra cidade, por conta do mau tempo que se desenhava. Mas lá estávamos nós, prontos para prosseguir no segundo dia.
Vista da cidade de Cruzeiro
Parada para descanso da galera no primeiro dia
Na subida do primeiro dia
Eu tenho poucas fotos dessa trilha, porque a partir da primeira noite passada no alto da montanha, o tempo ficou bastante ruim, com muito vento e um pouco de chuva, além do frio que já era esperado lá em cima. Na época as fotos eu tirava com uma câmera DSLR, que não suportava bem esse tipo de ambiente. Hoje em dia, com câmeras de celular, fica bem mais fácil…
Pôr-do-Sol visto do nosso acampamento no “Maracanã”
Nosso acampamento da primeira noite, no “Maracanã”
Guias arrumando as coisas para nosso jantar
Depois da primeira noite acampados, mal dormida e com muito, muito vento, seguimos até o pé do Pedra da Mina. Acampamos por lá para subirmos no dia seguinte. Dependendo do tempo, seguiríamos para o vale e depois ao Pico dos 3 Estados, ou abortaríamos, descendo da Pedra da Mina e voltando a Passa Quatro pela descida do Paiolinho. No jantar, arroz com farofa mineira, com bacon e linguiça defumada… 😛 Muita conversa, um tanto de pinga com mel só para aquecer, e vamos dormir… uma noite pior do que a anterior, com ventos que até chegaram a derrubar uma das barracas às 3 da manhã. No dia seguinte, tempo só piorando, ventos cada vez mais fortes e muita neblina. Na subida, os ventos estavam cada vez piores, cerca de 70 km/h, que nos derrubaram por várias vezes. As rajadas ainda traziam muita umidade, o que dava o efeito de uma chuva lateral bem forte, nos molhando bastante. Todos juntos, com muita determinação, conseguimos subir ao topo, ficamos muito pouco tempo lá em cima por conta do clima (frio e vento muito forte, anunciando chuva), e em seguida começamos a difícil descida pelo Paiolinho, abortando o resto da caminhada por conta da chuva forte que segundo o nosso guia, iria cair no final do dia. Ao final da descida, após mais de 6 horas praticamente ininterruptas de caminhada, uma miragem: um boteco com 4 frangos assados e muitas garrafas de cerveja… para a turma cansada, um verdadeiro banquete… E, com a sensação de um desafio vencido, apesar de não termos completado a travessia, voltamos à civilização.
Manhã no acampamento, muita neblina e animação do pessoal
Como sempre, deixei um totem de pedra na montanha
Foto clássica, “voando” na neblina
Tem lugar melhor pra se trocar uma ideia no final do dia?
Povo animado no acampamento, apontando para a Pedra da Mina, para onde iríamos na manhã seguinte
E realmente, naquela noite que acabamos passando na pousada (ao invés de ser nossa terceira noite na montanha conforme o programado), caiu uma tremenda chuva, como vi poucas vezes na vida. Se tivéssemos passado mais uma noite na montanha, teríamos passado realmente por maus momentos… essa é a diferença de fazer trilhas com guias experientes e – principalmente – que conheçam o terreno e a região.
O legal disso tudo é sentir ultrapassando alguns limites, mostrando a si mesmo até onde podemos ir, além de sentir de maneira muito forte a nossa insignificância e fragilidade frente à força da natureza, quando se está desprovido de conforto e estrutura, e tudo com o que se conta é o próprio corpo e o que ele seja capaz de carregar. E a convivência com pessoas fantásticas nesses momentos, como essa turma que se formou, só torna a aventura, embora dura, mais prazerosa ainda. Uma experiência que recomendo…
Este é o terceiro e último post da sequência, você deve ter lido o primeiro aqui e o segundo aqui.
No nosso 9o dia de viagem, e o 4o na trilha, depois de deixarmos Wyñaywayna a ansiedade crescia cada vez mais para o nosso destino final.
Ao chegarmos na Porta do Sol, a entrada “por cima” de Machu Picchu, ao final da trilha, entendemos o motivo de falarem tanto dessa entrada. Realmente é algo de mágico ver a cidade icônica surgindo à sua frente após uma espécie de portal de pedra
Primeira imagem ao passar pela Porta do Sol
Enfim, Machu Picchu (vista da Porta do Sol)
E então, nesse último dia de caminhada, passamos rapidamente pelas ruínas (iríamos voltar no dia seguinte), e fomos para Águas Calientes, logo abaixo da montanha, onde pela primeira vez em 4 dias nos aguardavam um chuveiro quente e uma cama…
10o dia – Reentrada em Machu Picchu
No dia seguinte, já descansados e recuperados da caminhada, entramos novamente em Machu Picchu, dessa vez “por baixo”, junto com os turistas que não fazem a trilha. Entendemos ali o porquê da sugestão da agência (Pisa Trekking) para deixarmos um dia inteiro para ver a cidade. Ficamos com mais tempo, pudemos caminhar com mais tranquilidade, subimos até o topo da famosa montanha (que la´descobrimos, chama-se Waynapicchu, ou “montanha jovem”, em Quechua. Além disso, voltamos à porta do Sol mais uma vez (o que é uma subidinha para quem caminhou 4 dias, não é mesmo?).
Machu Picchu sob o Sol da manhã
Assim, passamos um dia agradável visitando o conjunto de ruínas mais famosos da região com bastante calma, para no final do dia fazermos o caminho de volta a Cuzco, mas dessa vez de trem. Nossa, mas que sensação estranha no trem… dava a impressão de que se fizéssemos o trajeto caminhando iríamos mais depressa…
Buraco sob as ruínas… Reza a lenda que é uma passagem direta para São Tomé das Letras, em Minas Gerais… preferi não entrar para investigar
Ruínas e mais ruínas em Machu Pichu. Esse maior é o Templo do Sol
Machu Picchu vista “ao contrário”, do alto da Waynapicchu
Turista indo embora feliz, bilhete do trem na mão
Chegamos ao fim…
E como eu disse no início, foi uma viagem que superou as expectativas, é possível aprender bastante sobre a cultura Inca, sua História e – claro – ver as ruínas que restaram da sua civilização. Há várias alternativas para quem não quer ou não pode fazer a trilha completa: ir direto via Águas Calientes, fazer a trilha curta de poucas horas somente passando por Wyñaywayna , e entrar pela porta do Sol… A escolha de chegarmos no final do dia foi boa, mas acho que chegar vendo o nascer do Sol também deve ser uma experiência legal, enfim, variações, gostos, opiniões são sempre diversas… Uma outra coisa importante é fazer a aclimatação na altitude, como fizemos em Puno. Faz bastante diferença. No meu primeiro dia em Puno eu tinha dor de cabeça de esforço ao subir pequenos lances de escada, o efeito é impressionante…
Continuação do relato da viagem ao Peru em 2006, a primeira parte está aqui.
Quarto dia de caminhada, quase chegando em Machu Picchu
5o dia: Vale Sagrado
No nosso passeio para o Vale Sagrado, conhecemos a que seria nossa companheira de caminhada, a Celina, também brasileira, de São Paulo. Foi uma outra feliz coincidência, ela era muito legal e nos demos muito bem ao longo dos 6 dias que passamos juntos. No vale sagrado fomos em vários sítios, sendo os principais Pisac e Ollantaytambo, duas grandes ruínas e com destaque para essa última, uma das mais famosas e bonitas que vimos. Curiosamente, não consegui encontrar fotos de Ollantaytambo (já são quase 15 anos da viagem, alguma coisa se perde…), então acabei colocando algumas fotos que achei na rede mesmo para ilustrar aqui, paciência… as que não são minhas têm as fontes indicadas…
Ruínas em Pisac
Ruínas do Templo do Sol, em Pisac
Em Pisac e em Ollantaytambo vimos belos exemplos de terraceamento, que é uma técnica de plantação que criam “escadas” ao longo da encosta para se colocar as plantações. Isso diminui a erosão por chuvas, pois dificulta a àgua a descer com muita velocidade, além de possibilitar plantios em regiões – como aquelas onde os Incas viviam – onde há falta de terrenos planos. Além disso, eram posicionadas de forma a se beneficiar ao máximo do Sol, e feitas de maneira calculada de forma a serem criados microclimas particulares que permitiam o cultivo de diferentes plantações em áreas mais altas ou mais baixas, de acordo com a necessidade de cada planta.
Detalhe dos encaixes das pedras no muro em Ollantaytambo (foto minha!)
6o dia ao 9o dia: Trilha Inca
Durante a caminhada toda, pudemos aprender muito sobre a História Inca. Como já disse, nosso guia Jim era formado em História e especialista no assunto. A viagem realmente teria sido outra sem ele. Aprendemos que a Trilha Inca (hoje chamada de Trilha Inca “Clássica”) era um caminho de peregrinação, uma espécie de iniciação espiritual, e não usada no cotidiano para o trânsito de pessoas, animais e mercadorias. Esses iam normalmente pelo vale, região mais plana por onde passa hoje o trem que vai de Cuzco a Águas Calientes, cidade que fica “ao pé da montanha”, logo abaixo de Macchu Picchu. Uma informação que faz bastante sentido.
Existem maneiras diferentes de fazer a trilha, optamos por fazer 4 dias de caminhada, chegando em Machu Picchu no final da tarde, descermos até Águas Calientes para dormir (além de termos o primeiro banho em quatro dias) e deixar o dia seguinte para entrar novamente e visitar Machu Picchu com mais calma. Grande parte dos turistas costumam fazer o último acampamento mais perto do final da trilha, acordar bem cedo e entrar pela Porta do Sol com o Sol nascendo. Uma outra ainda é ir de trem e pegar somente o final da trilha, passando por Wiñaywayna, o conjunto mais completo de ruínas da trilha.
A trilha inicia no km 82 da ferrovia, e fomos até lá de van. Na entrada do parque, um dos carimbos mais queridos que já recebi no passaporte:
Carimbos de entrada na trilha (09/out) e entrada via Águas Calientes (13/out)
Placa de início da famosa trilha
Iniciando a trilha, lá fomos nós para 4 dias de caminhadas, acampando em barracas no meio das montanhas, sem banho, e querendo ver tudo, cada detalhe ao redor. Contamos com o auxílio da equipe de carregadores, que iam na frente com os mantimentos, barracas, mochilas e tudo o mais. A caminhada fica realmente muito mais tranquila, menos preocupação com o peso e pode se aproveitar melhor. Depois dessa viagem fiz algumas trilhas com carregadores e outras sem, carregando tudo, e posso dizer, cada abordagem tem suas vantagens e seu valor próprio.
Início da trilha, ainda no vale
Ao longo da trilha, muitas vistas inesquecíveis, ruínas, um contato direto com a natureza e com a História Inca. Até sobre algumas orquídeas que são endêmicas da região aprendemos um pouco. Há uma em especial que me chamou a atenção, chamada de waqanki, que em Quechua significa algo como “você vai chorar”: há uma lenda Inca sobre um amor impossível de uma princesa com um soldado que teria dado origem a essa flor.
Orquídea Waqanki
Algumas das primeiras ruínas ao longo da trilha
No segundo dia, o trecho mais pesado de caminhada, o chamado Warmiwañuska, que em Quechua significa algo como “o passo da mulher morta”. É a subida para se alcançar o ponto mais alto da trilha, cerca de 4215 metros de altitude. Esse é o dia onde alguns turistas (especialmente os que não fizeram aclimatação, como fizemos em Puno) passam mal com falta de ar. Depois desse dia o Jim contou que tinha um pequeno cilindro de oxigênio na mochila para emergências… felizmente não precisamos.
Vista “ohando pra trás” do alto do Warmiwañuska
Jim levava essa bandeira para tirar fotos com os brasileiros no Warmiwañuska
Na marcação oficial do Warmiwañuska
Após atingirmos esse ponto mais alto, começamos a descida, ainda teríamos mais dois dias de acampamento pela frente. O primeiro num vale, o Vale de Pacaymayu logo após o Warmiwañuska, e o segundo em Puyupatamarca, a partir de onde já pudemos ver os primeiros sinais da Wayna Picchu (“montanha jovem” em Quechua), a icônica montanha da “cidade perdida” de Macchu Picchu. Caminhadas longas mas bem mais tranquilas do que as do dia anterior , com muito verde e água pelo caminho.
Vista do vale no nosso 2o acampamento, em Pacaymayu
E, claro, muitas ruínas ao longo da caminhada, que me deixavam cada vez mais encantado com o nível do trabalho da engenharia civil dos Incas.
Ruínas em Puyupatamarca
Espécie de escada com um orifício de apoio à direita
Detalhe do orifício de apoio
Fotos ao longo da descida
No nosso último acampamento em Puyupatamarca tirei a primeira foto da Wayna Picchu, ainda que bem de longe. Ao acordarmos no dia seguinte, já fomos caminhando para passar por Wyñaywayna, e depois, finalmente, a porta do Sol que nos descortinaria Macchu Picchu.
Wyñaywayna
Wyñaywayna merece ser apreciada. São as ruínas mais bem conservadas de toda a trilha, e a poucos minutos do último acampamento da trilha, que leva seu nome (no qual não ficamos, conforme expliquei no início).
O final do nosso último dia de caminhada e a tão esperada chegada a Machu Picchu ficam para o post da semana que vem, até lá…
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