Chapada Diamantina

13 12 2020

Se me pedissem para montar uma lista curta de lugares imperdíveis para se conhecer no Brasil, certamente a Chapada Diamantina, na região de Lençóis, na Bahia, teria seu lugar garantido. Fiz no Carnaval de 2013 a Travessia do Vale do Paty, onde você literalmente atravessa o vale, pernoita na casa dos moradores do Parque Nacional. Casas simples, na época a maior parte delas não tinha nem energia elétrica. Um total de 90 km de caminhada ao longo da semana. Contratei para o passeio a Terra Chapada Expedições, agência pioneira do ecoturismo na região. Tentei convencer alguém a me acompanhar, mas como não consegui, acabei fechando o pacote sozinho. Teria um guia e um carregador para me acompanhar durante todo o percurso.

Região das mais bonitas do Brasil

O roteiro incluía 8 dias e 7 noites, 4 delas dentro do parque nacional. Fui de avião para Salvador, de lá peguei um ônibus para Lençóis, mas desci na cidade de Palmeiras. Lá um carro da agência estava esperando para me levar ao povoado do Guiné, onde passaria a primeira noite. Dia de viagem comprida, mais de 400 km de ônibus. Chegando lá, ainda mais um bom tempinho de carro até o Guiné.

No dia seguinte, fomos para a trilha logo após o café da manhã. Dia de entrada no parque, bastante descida e bastante calor, passando pelos belíssimos Gerais do Rio Preto, lanche com vista privilegiada do vale. Ao final da tarde, chegamos à casa do Sr. Wilson para jantar e o primeiro pernoite.

Casa do Sr Wilson, a única que tinha geladeira com cerveja gelada dentro do parque
Mochila e minha cama na casa do Sr Wilson

O que mais chama atenção na Chapada são os paredões de pedra, que me lembram bastante o Grand Canyon (que eu só vim a conhecer naquele mesmo ano, mas em julho) nos Estados Unidos, mas com muito mais verde. Portanto, menos seco e – na minha opinião – mais bonito também.

Vista do quintal do Sr Wilson no final da tarde

No segundo dia, logo após o café já fomos visitar as cachoeiras do Funil e do Lajedo, fizemos o lanche por lá, e depois fomos fazer a “escalaminhada” ao Morro do Castelo, onde há uma gruta para atravessarmos e dá uma vista impressionante do vale.

Banho na cachoeira do Lajedo
Gruta na subida do Monte Castelo
Vista do alto do Monte Castelo
Vista do alto do Monte Castelo – com minhas botas

Após a descida e subida do Morro do Castelo, fomos para a casa da Dona Lê, onde jantei e passei a segunda noite. No terceiro dia, muita caminhada, muitas vistas bonitas ao longo do Vale, e chegamos no final do dia à casa do Sr Jóia, para jantar e pernoite.

Caminhando e atravessando riachos
Média de mais de 14km por dia de caminhada
Paredões são vistos por todos os lados, ao longo da mata
Vista da janela do quarto, na casa do Sr Jóia

Dia seguinte inteiramente dedicado à caminhada ao Cachoeirão por baixo. Mais de 300 metros de cachoeira, com um poço para um banho revigorante, lanche no local, e depois de um bom tempo de contemplação, reinicia a caminhada para jantar na casa do Sr Eduardo, e pernoite na casa de Dona Linda, na minha última noite no parque.

Poço do Cachoeirão
Uma das fotos mais bonitas que tirei por lá
Muito verde e muita água, por todo o caminho
As cores vão mudando ao longo do dia, vários tons de dourado
Dias e dias caminhando, totalmente desconectado do mundo exterior

No último dia de caminhada por dentro do parque, era dia de sair do vale e subir em direção a Andaraí, no lado oposto por onde havíamos entrado quatro dias antes. Foi o dia em que o tempo ficou mais fechado, uma leve névoa de despedida que acabou proporcionando uma visão diferente do vale. Sem nenhum pingo de chuva, apenas aquela umidade abafada.

Uma última olhada antes da saída para Andaraí

Depois de vários dias caminhando longe da civilização, fiquei em Andaraí esperando meu transporte para o Vale do Capão, uma vila fora do parque, com pousadas, restaurante, banho quente, essas facilidades da vida moderna. Quando meu transporte chegou, perguntei por brincadeira se algo de muito diferente havia acontecido no mundo naqueles dias que eu não tinha ficado sabendo. A resposta foi: “O Papa renunciou!”. Fiquei espantado, nem sabia que Papa renunciava… rs E realmente fiquei sabendo da notícia com uns dias de atraso, lá no Vale as novidades demoram a chegar…

A noite no Vale do Capão foi bem agradável, se um dia voltar pra lá vou ver se me programo para ficar por ali uns dias, vila simpática, pequena e bem arrumadinha. No dia seguinte, ainda tinha no pacote uma trilha para a famosa Cachoeira da Fumaça, com 380 metros de altura, para tirar uma foto lá de cima… quem me conhece sabe o medo que tenho de altura, mas tive que tirar essa foto abaixo… nem dá pra ver a cachoeira, mas estou lá no topo dela…

Foi o mais perto da ponta que consegui chegar…

Ainda fora do parque, passei antes de ir embora por dois pontos imperdíveis: o Poço Azul e o Morro do Pai Inácio. Lugares para passar um tempo e tirar belas fotos.

Poço Azul, dá pra fazer snorkeling e almoçar por lá
Do alto do Pai Inácio, vista dos paredões da Chapada Diamantina

Foram dias daqueles que são os meus favoritos: descansar a mente cansando o corpo, desligar-se do mundo por um tempo, conectar-se com a Natureza, que é a minha forma particular de comunhão com o mundo, com a vida. Cada um tem suas preferências, coisas únicas que potencialmente lhe tragam prazer, alegria, paz. Naquelas trilhas, naqueles locais, encontrei meus momentos.

Mesmo para quem não é adepto de caminhadas, há muitos passeios, cachoeiras, trilhas de bicicleta, que podem ser explorados por ali, num dos pontos mais bonitos e mágicos desse Brasil enorme… Está certamente na lista de lugares para onde pretendo voltar… Espero que tenha gostado do post, até uma próxima!





Nepal (parte 2)

22 11 2020

E lá estávamos, no início da trilha após o passeio de que falei no post anterior, Nepal (parte 1).

Início da trilha
Animação e disposição para passar pela primeira (de muitas!) ponte na trilha

A trilha começava em torno de 1000 metros de altitude, e tínhamos 4-6 horas de caminhada até nosso primeiro alojamento em Ghorepani, que ficava a 2874m de altitude, com uma vista espetacular das montanhas da região do Annapurna, incluindo o próprio.

Ao longo do caminho, muito verde, corredeiras, rios, pontes suspensas, bastante gente na trilha. Subindo também guias com mantimentos, dentre os quais inclusive galinhas vivas em gaiolas. Uma preocupação que tive a todo momento porque tinham me avisado: ao longo do percurso, vários lugares vendem água em garrafa, supostamente mineral. Foi dito que por vezes eles acabam reaproveitando garrafas com água de torneira ou dos rios. Para evitar dissabores, sempre fazia questão de eu mesmo verificar o lacre, e não aceitamos nenhuma garrafa que viesse com o lacre aberto. A última coisa que precisaríamos seria ter algum desarranjo no meio do caminho, já pensou?

Mais uma das várias pontes
Escada de pedra, mais de 3000 degraus…
Pequenas cachoeiras ao longo do percurso
Não poderia deixar de montar meu totem de pedra, minha pequena
reverência à Natureza
Pequenas vilas ao longo da trilha

A ideia era dormir cedo, acordar às 4h da manhã para fazer uma trilha noturna até o topo Poonhill a 3210m de altitude, e ver o nascer do Sol por entre as montanhas. No alojamento não há muito o que fazer mesmo, tomar banho, comer, e ir dormir. E lá fomos nós, lanternas nas testas e nas mãos, dar boas-vindas ao Sol lá de cima.

Placa ao chegar no topo, antes do Sol nascer
Sol nascendo nas montanhas nepalesas

Lá em cima, uma banquinha vendendo chá e café, e o espetáculo da Natureza, gratuito, ia se descortinando… meu guia tirou uma foto minha sem que eu percebesse, enquanto eu estava tomando chá (limão, gengibre e mel, meu favorito na trilha). Essa foto é uma das minhas preferidas até hoje:

As melhores fotos são aquelas em momentos espontâneos, não?
Vista que compensa ter acordado às 4h
Observando as montanhas
Selfie com montanhas
Vale comemorar, claro!
Não somos os únicos malucos no mundo…
Tirar selfie é a parte fácil… difícil é chegar até ali

Depois disso, descemos a montanha, pudemos tomar o café da manhã para mais um dia de trilha, 6hs de caminhada até Tadapani, já a 2710m de altitude. Depois de Tadapani, mais três dias de caminhada: Tadapani para Ghandruk (1940m), no dia seguinte para Tolka(1790m), para no último dia descermos até Phedi(830m), onde o carro nos pegaria para levar de volta a Pokhara. Caminho de volta com muitas paisagens bonitas, mata fechada, corredeiras de água por todo o caminho. A comida nos alojamentos ao longo do caminho não variava muito, muito arroz, frango, algumas frituras típicas. Uma noite que eu não aguentava mais, pedi batatas cozidas. Elas vieram servidas com casca e tudo…

Batatas para dar uma pausa nas frituras…
Muitas plantações de arroz ao longo do caminho
Por lá também há escolas, e quadra com bela paisagem para se jogar
Essas vilas mudaram muito pouco nos últimos 100 anos
Nosso último alojamento
Com o guia e carregador, que nos acompanharam por todos os dias
Lavanderia das montanhas
Uma alpinista sul-coreano financiou uma escola como reconhecimento pela
ajuda dos sherpas pela subida a 16 montanhas no Himalaia
Finalzinho da trilha
Ponte no final da trilha

Nessa noite jantamos em Pokhara, encontramos até uns pubs e restaurantes legais, num deles inclusive havia uma garrafa de Sagatiba, e conversei com o barman se ele sabia o que era, ele disse que era uma bebida do Brasil que o chefe havia comprado. “Sabe o que fazer com ela?”. Ele disse que não, meio sem graça. Expliquei que basicamente ele podia usar como usa a vodka, mas a mais famosa bebida era com gelo, limão e açúcar.

Jantar em Pokhara
Mais uma cerveja nepalesa

No dia seguinte, pegamos o aviãozinho de volta para Kathmandu. Não havia lugar marcado na volta, então eu fiquei literalmente grudado no finger para ficar bem na frente, praticamente no cangote do piloto. Nosso último passeio em Kathmandu era um voo panorâmico para sobrevoar o Everest (já que não fomos até lá). Fomos cedo para o aeroporto, voos atrasaram porque estava muito fechado. Aí liberaram o primeiro avião (não era o nosso) para o Everest, e este informou que o tempo fechado deixou tudo sem visibilidade. Voltamos meio frustrados, mas tivemos o pagamento pelo voo devolvido. Os que foram no primeiro avião não tiveram essa sorte…

De uma maneira geral, foi uma experiência muito legal de estar tão longe de casa, física, metafórica e culturalmente falando, e estar em lugares tão únicos como aqueles. De lá fomos para o Butão, viagem que conto num próximo post. Espero que tenha gostado, até a próxima!





Monte Roraima (parte 3 – final)

1 11 2020
Todas as botas reunidas, no alto do Maverick – ponto mais alto do Monte Roraima

Esse post é continuação da série: “Monte Roraima” – parte 1 e parte 2.

No segundo dia que passamos caminhando lá em cima do monte, visitamos alguns dos lugares mais impressionantes, com vistas inesquecíveis, certamente um dos pontos mais bonitos em que estive na vida. Existem vários pontos diferentes a serem visitados no Roraima, mas como só tínhamos 3 dias, tivemos que escolher: fomos ao mirante chamado “La Ventana” (“A janela” em espanhol), ao conjunto de piscinas naturais chamadas de “Jacuzzi”, onde rolou o banho do dia (esse foi dos melhores), e nos despedimos subindo no topo do “Maverick”, ponto mais alto do Monte Roraima, que ficava de frente ao nosso acampamento.

La Ventana é um dos pontos mais visitados, que pode proporcionar as melhores vistas e fotos, de um verdadeiro abismo incessantemente sendo coberto e descoberto pela neblina. Lá tirei algumas das melhores fotos, do abismo e do Kukenán, monte vizinho ao Roraima:

Em “La Ventana”, Kukenán ao fundo
Dá pra ver as nuvens, mas não o chão lá embaixo…
O Kukenán
O abismo é impressionante
Eu até que fiz um esforço para tentar ver o final do abismo
A sensação de estar entre as nuvens é sem igual
Não conheço a moça, era de outro grupo, mas foi uma das fotos mais bonitas que eu tirei, e ilustra a nossa pequenez diante do espetáculo da Natureza
As “jacuzzi” foram formadas pela ação do tempo ao longo dos anos
Melhor banho da viagem

Subindo para o Maverick, já no final da tarde, o tom era de despedida, pois iríamos na manhã seguinte iniciar o caminho de volta. Mas nem por isso deixou de ser divertido e com belas imagens lá de cima, a começar pelço nosso próprio acampamento:

Nosso acampamento, as barracas laranjas
Dá pra ver o local privilegiado e isolado em que acampamos

Chegando lá em cima, estava chovendo e com neblina pesada. Ficamos lá esperando melhorar, e fomos recompensados, com direito a árco-íris inclusive.

Vista do alto do Maverick
Sensação de missão cumprida, e gostinho de quero mais
Antes de ir embora, um totem de pedra como sinal de respeito e agradecimento

No dia seguinte, levantamos acampamento e descemos a montanha, mais uma vez sob chuva (que ficou indo e vindo todos os dias em que estávamos lá em cima, não podia ser diferente na descida), e fizemos uma caminhada longa, pois iríamos acampar na margem do Kukenan, o local do primeiro acampamento da caminhada da vinda (o último lugar com cerveja, lembra?). Nesse dia a caminhada ficou mais chata e com menos fotos por conta da chuva, e teve o que foi o momento mais tenso de toda a viagem: o Rio Kukenan, que atravessamos tranquilamente na ida, estava muito cheio, sem termos como passar. Ficamos junto com vários grupos até a água baixar e termos condição de passar com o auxílio de cordas. Ficamos bastante tempo, e acabamos iniciando a travessia com o rio ainda alto, mas para evitar passar a noite daquele lado do rio, onde não havia muito espaço para acampar todos os grupos.

Mesmo nos momentos tensos, o negócio é dar risada… certo?
Pra completar, uma cascavel no meio da trilha, após passarmos o rio

Aqui vale um comentário sobre o grupo de guias que estava conosco: eles permaneceram dando ajuda a todos os outros grupos, só saímos do rio quando todos haviam passado. Já outros guias acabaram deixando alguns pra trás e já se adiantaram para montar o acampamento, que ficava a uns 200, 300 metros dali. A noite já estava começando, ficando escuro, e inclusive ajudamos alguns “perdidos” de outros grupos que ficaram pra trás. Acabamos ficando com os “piores” locais para armar as barracas, justamente porque nossos guias ficaram por último. Prefiro um grupo de guias que preze pela segurança em primeiro lugar, sempre.

Depois da tensão da travessia, hora de celebrar a nossa última noite de acampamento. Dessa vez não pedi uma cerveja só não, já pedimos 2 caixas e dividimos com o grupo de guias na comemoração, com cerveja quente mesmo:

Turma na última noite, já acampando no caminho de volta
Último amanhecer na trilha, desmontando acampamento
A mochila, companheira da caminhada toda, com o Kukenán ao fundo

O último dia de caminhada teve (mais uma vez!) chuva, muita chuva. Os caminhos pelos quais viemos estavam bem diferentes, alguns até viraram pequenos cursos d’água ou corredeiras. Vários tombos, caminhando com cuidado, devagar… ao final o tempo abriu e me permitiu tirar uma bela foto do final da trilha:

“Cuide hoje, para que possa voltar amanhã”, diz a placa no final da trilha

E assim foi… um lugar mágico, com paisagens únicas, diferentes de quaisquer outras em qualquer outro lugar do mundo. Lugar quase mágico, que me deixou com uma sensação de querer voltar um dia. A caminhada pesada, o esforço que fez parte de toda essa experiência, tudo isso soma ainda uma sensação de superação, de ter cumprido uma jornada grande, que precisou contar com nossos próprios esforços físicos.

E se alguém se empolgou e quer montar uma expedição pra lá, pode me chamar, quem sabe já não é hora de conseguir voltar pra lá? Já se vão quase 10 anos…





Monte Roraima (parte 2)

25 10 2020
Monte Roraima, visto do acampamento próximo à sua base

Esse post é continuação do Monte Roraima (parte 1).

Ao terceiro dia de expedição, finalmente era a hora de subir a montanha. O paredão de centenas de metros, para o qual ficamos olhando de longe por dois dias, estava ali pertinho. O dia praticamente inteiro seria de subida (sem escalada) pela trilha na encosta da montanha. Uma coisa que nos chamava a atenção era a frequência com que a neblina cobria e descobria a montanha, e ao longo daquele dia (e dos próximos) sentiríamos aquilo bem de perto.

Como todos os dias, acordamos cedo, arrumamos as coisas, tomamos café da manhã e… começar a caminhar! Aliás, todas as refeições ficavam por conta dos carregadores, uma turma nota 1000, conforme pudemos constatar ao longo dos dias (mais detalhes à frente). Não tenho fotos dessa subida, porque foi o dia em que começamos a sentir na pele – literalmente – o clima da região. Choveu bastante, em praticamente toda a nossa subida. Vários momentos em que eu sentia a água escorrendo pelo pescoço, por dentro do anorak impermeável, descendo pelo corpo todo, molhando até as meias. É daqueles momentos em que você tem certeza de que gosta desse tipo de passeio, ou não. No meu caso, só me dava vontade de continuar caminhando e chegar ao topo. Vinha água do céu, escorria pela lateral da montanha, formando pequenas cascatas, vinha pela lateral quando ventava, enfim, de todos os lados.

Ao terminar a subida fomos premiados por um tempo melhor, com neblina mas sem chuva. A sensação de chegar lá em cima é indescritível. Logo na subida já vimos um helicóptero caído. Explico: qualquer resgate que tenha que ocorrer na região tem que ser feito de helicóptero. Alguns dias antes da nossa chegada um turista havia se acidentado no final da subida, e para seu resgate chamaram o helicóptero. Consta que o piloto oficial estava ausente no dia, e mandaram o reserva. A aproximação do topo é crítica por conta da neblina e ventos. Resultado, o helicóptero caiu e ficaram os dois (turista e piloto) aguardando o próximo. Ficamos sabendo que além daquele haviam mais dois abandonados lá em cima, um do exército brasileiro, e outro da Rede Globo, que caiu com o então apresentador do “Globo Ecologia”, Danton Melo, em 1998. Melhor mesmo é ir caminhando, e não precisar de resgate… Pelo sim, pelo não, eu particularmente havia contratado um seguro viagem que cobria o resgate de helicóptero, pelo qual sem o seguro seriam necessários uns R$ 2 mil, na época.

Primeira foto no alto do Monte Roraima
Turma “explorando” o helicóptero na chegada no monte

Uma vez lá em cima, seguimos caminhando até nosso ponto de acampamento. E a lógica é a seguinte: quem chega primeiro pega os melhores locais. Na medida em que acampamentos vão sendo desmontados e liberados, os guias comunicam-se entre si. Dessa forma, se seus guias são bem relacionados entre os pares, boas chances de conseguir um bom acampamento. Caso contrário… Felizmente, nossos guias eram bem relacionados e conseguimos (segundo nos disseram) um dos melhores pontos, na encosta de uma das formações rochosas lá em cima. Com mais de 30km2 de área, tem bastante lugar para acampar…

As primeiras formações já impressionam e aumentam a expectativa do que está por vir nos próximos dias
Um dos pontos de acampamento, não o nosso (note na “caverna” próxima ao topo)

O visual lá em cima por onde caminhamos é bem diferente da chamada “savana” por onde havíamos passado nos dias anteriores. Muita rocha vulcânica, escura, e vegetação rala. Conforme falei anteriormente, algumas plantas e animais são endêmicos, ou seja, só existem lá em cima e em nenhum outro lugar do mundo. Um famoso habitante que encontramos logo no primeiro dia foi o “sapinho do Roraima” (Oreophrynella quelchii), um sapo pequeno (veja foto) que não salta, e faz a alegria dos turistas para fotos.

Sapinho do Roraima
Oreophrynella quelchii é o nome científico dele
Vista a partir do nosso acampamento, no cair da tarde

Chegamos no local de acampamento no final da tarde (alguns guias já vão na frente para garantir e montar o acampamento), com a proteção parcial de formações rochosas, de frente para o Maverick (ponto mais alto do Roraima) e com a vista para várias pequenas lagoas onde seria o local do banho para aquela noite.

Barraca já montada, tudo certo para o descanso
Claro que tem que ter bagunça no acampamento com a turma
Nascer do Sol no nosso acampamento do topo

Uma vez acampados lá em cima, íamos passar 3 noites. Poderíamos manter o mesmo acampamento ou ir para outros lugares, dependendo do que preferiríamos explorar. Optamos por permanecer no mesmo local de acampamento por todas as noites. Uma coisa curiosa a respeito dessa viagem: para usar o banheiro, nos acampamentos são feitos buracos e depois tampados. No topo isso não é possível por ser tudo de rocha, então é necessário usar sacos (adaptados numa cadeira de plástico furada), juntar cal e fechar o saco, que vai ser levado embora pelos carregadores. Nada pode ser deixado lá em cima…

No primeiro dia explorando o topo, fomos para o chamado Vale dos Cristais, onde o chão é coberto por – adivinhe! – cristais, passamos no marco da Tríplice Fronteira (Brasil, Guiana e Venezuela), e terminamos o dia no chamado “El foso”, um lago com uma pequena cascata. Local de banho, que pode ser acessado pela forma rápida (pulando lá de cima) ou lenta (dando a volta e entrando por baixo. Eu optei pela forma lenta, não estava com pressa… E ao longo do caminho visuais incríveis com formas esculpidas pela natureza ao longo dos anos que nos fazem imaginar animais, figuras humanas ou quaisquer outras que a imaginação permitir.

Consegue ver um elefante?
Pense num trekker feliz…
Formações incríveis ao longo do caminho
Às vezes parece que estamos em outro planeta
No Vale dos Cristais
No marco da Tríplice Fronteira
Chegando em “El Foso”
Dava pra encarar um mergulho lá de cima, mas preferi
dar a volta para o banho lá embaixo
Entrada d’El Foso, por baixo

Nesse dia pegamos um pouco de chuva ao longo das caminhadas, mas nada que atrapalhasse muito. Voltamos ao acampamento cansados, mas com muita energia e expectativa pelo dia seguinte, mais um dia inteiro caminhando pelo topo do Roraima.

Achei que esse relato caberia em 2 posts, mas acabei me estendendo um pouco… termina na parte 3, até lá!





Causos de viagem – parte 2

11 10 2020

As viagens trazem experiências inesquecíveis, por motivos bons ou ruins, mas sempre rendem boas estórias e risadas… essa série de posts iniciou com a parte 1, e segue por aqui…

Controle de Imigração em Abu Dhabi, Emirados Árabes Unidos

Na viagem de volta do Nepal (outubro de 2014), tivemos que fazer uma parada de 14hs em Abu Dhabi. O avião estava cheio de nepaleses que estavam indo para lá trabalhar na construção civil e outros empregos de baixa qualificação. Ficamos numa fila com esses outros passageiros, para fazer identificação biométrica pela íris. O oficial da imigração, trajando a Kandora, aquela roupa branquíssima típica da região, estava sendo ríspido, falando em inglês: “Here!” (aqui!), “Where are you from?” (de onde você é?), “Next!” (próximo), para cada um que passava pelo procedimento. Um deles ficou ali ao lado após passar, provavelmente esperando por um amigo que ainda estava na fila, e foi enxotado: “Go, go! Don’t stay here!” (Vá, vá, não fique aqui não!). Aí chegou a minha vez: “De onde você é?”, “Brasil”. Nesse momento, abriu um sorriso na cara do oficial: “Brasil? Germany’s beaten you so hard, hum?” (Brasil? A Alemanha bateu forte em vocês, hein?), me sacaneando pelos 7×1 da Copa que tinha sido no Brasil. “Don’t mention it” (Nem fale nisso), respondi. Custava ele ser grosso e ríspido comigo, igual era com os nepaleses?

Garçom explicando nomes em espanhol em Sevilha, Espanha

Ao sentarmos para almoçar em Sevilha, havia um item no cardápio que nos chamou a atenção: Cola de Toro. Não sabia o que era cola, então fomos perguntar ao garçom. Ele falou que era a cola do touro, a cola! Continuamos sem entender. Como o problema era a tradução, lá veio a mímica: ele colocou a mão pra trás, grudada na bunda e balançando: “La cola!”. Aí entendemos, cola é cauda, rabo. Inevitável, começamos a dar risada. Em tempo: Acabamos pedindo o tal prato, e gostamos, o gosto se aproxima muito da costela.

Menina sueca tentando conversar (em sueco) comigo em Estocolmo

No geral as crianças têm muita curiosidade com relação a estrangeiros. Estava em um parque em Estocolmo, descansando da caminhada. Uma menina se aproxima, fica me olhando. Sete ou oito anos no máximo, cabelos e olhos escuros(fora do estereótipo sueco, portanto). Arrisco:

“Olá!”
“Olá!”, ela responde.
“Speak english?”
“No!”, com cara séria.
“Habla español?”, arrisquei, já que ela havia respondido ao meu “Olá!”.

A resposta veio em um sueco impecavelmente ininteligível para mim. Aí eu mandei: “Svenska?(Sueco?)”, gastando o sueco que não tinha (aliás, não tenho!). Os olhos dela brilharam e balançou afirmativamente a cabeça, achando que iria rolar uma conversa. Ergui os ombros dizendo “Sorry”, que dó. Ela murchou, deu de costas e foi fazer outra coisa…
Quer ser simpático sempre, às vezes não dá mesmo…