Sobre o tempo…

26 07 2020

“Batidas na porta da frente… É o tempo…
Eu bebo um pouquinho pra ter argumento… Mas fico sem jeito calado, ele ri… Ele zomba do quanto eu chorei… Porque sabe passar, e eu não sei…”

Aldir Blanc, em “Resposta ao tempo”

Eu tenho mania de guardar coisas… algumas úteis, outras nem tanto, outras ainda com potencial de serem úteis em hipotéticas e improváveis situações futuras… Limpando e arrumando algumas coisas nesses dias encontrei algo curioso: o meu primeiro cartão de visitas! Era o ano de 1995, tinha meu diploma de Técnico em Eletrônica pela ETESP no final do ano anterior e decidi sair do emprego de técnico de laboratório na Proceda, após 7 meses de contrato, e resolvi virar freelancer como técnico de campo para equipamentos de informática, fiz o cartão na boa e velha HP DeskJet da mãe. Bons tempos aqueles, ainda morando com a mãe, 18 anos e muita energia para trabalhar, e arriscar…

Na época, era telefone de casa(da mãe!) e PAGER da Mobi

Quando vi o cartão comecei a lembrar da época: comprei um pager (hoje peça de museu, certamente!), prestava serviços para algumas empresas, cheguei a colocar anúncio no jornal (classificados de domingo!), aprendi naquele período como lidar com clientes, cometi os primeiros erros, e enquanto isso estudava à noite no Anglo para prestar o vestibular de Engenharia de Computação na Unicamp. Fui entrevistado pela Folha para o caderno de vestibulares Fovest, numa matéria que dizia “Vestibulandos surfam na rede”(achei essa matéria guardada também, veja abaixo!), já que a Internet era uma novidade, e o Google nem existia… Prestei dois anos seguidos até conseguir a tão sonhada vaga. Em 1996 parei com essa estória de freela e fui trabalhar como técnico na Megaprom Informática, mais uma vez visitando clientes, trabalhando com suporte e manutenção… tempo bom, que não volta mais…

Usar Internet era motivo de matéria no jornal, em 1996. Estou atrás do rapaz de boné.

Graças ao esforço da minha família, que apesar das dificuldades conseguia me ajudar financeiramente, consegui parar de trabalhar e me dedicar integralmente à faculdade de Engenharia de Computação da Unicamp, a partir de 1997. Saindo da casa da mãe, mudando de cidade… Era um dos pouquíssimos da turma que já havia tido alguma experiência profissional. A maioria ali estava com 17 anos, e havia saído imediatamente do segundo grau para lá. Foi, à época, meio estranho para mim, mas por pura falta de informação mesmo… eu era uma exceção, mas antes de entrar achei que não seria.

De lá pra cá, 23 anos se passaram… formatura após 5 anos, fui trabalhar com desenvolvimento na Motorola em Jaguariúna, casei em 2002, e me separei em 2009. Mudei para São Carlos, onde trabalhei também com desenvolvimento na Opto Eletrônica, por quase dois anos. Depois disso, final de 2011, recebi uma proposta na Avnet e voltei para São Paulo, para atuar como Engenheiro de Aplicações de Campo. Depois de 15 anos, voltava finalmente a uma função onde era necessário lidar diretamente com clientes. E só aí me lembrei como gostava disso, e como sabia fazer um bom trabalho. De volta às origens, de certa forma… Em 2015 tive uma proposta para trabalhar em Belo Horizonte, na Unitec. Arrumei as coisas, casei pela segunda vez e lá fomos nós para BH. Ficamos por 3 anos, e desde outubro de 2018 estou de volta a São Paulo, trabalhando na Vermont.

Acho que esse momento de quarentena me fez pensar em tanta coisa pelo que passei nesses anos todos, desde aquele primeiro cartão… Fui construindo uma carreira com a qual fico muito satisfeito. E no lado pessoal, conheci pessoas fantásticas, perdi pessoas, algumas afastadas pela vida, outras pelos acontecimentos, outras sem motivo nenhum… altos, baixos, realizações, frustrações, sofrimentos sentidos e infligidos a outros… Acho que com mais vitórias do que derrotas, mais alegrias do que tristezas, e – faz parte – um tanto de arrependimentos… Uma vez um colega me perguntou sobre uma determinada situação da vida dele que implicava em uma decisão importante a ser tomada… eu disse a ele: qualquer que seja a sua escolha, em algum momento do caminho (talvez mais de uma vez ao longo dele) você irá olhar pra trás e ter a certeza de que a outra escolha teria sido melhor… simplesmente porque a realidade competir com a utopia do que não se realizou não é justo… não tem como ser…

E que venham mais uns 23, 25 anos para que eu possa encontrar coisas antigas, datadas do longínquo ano da pandemia de 2020…

“E o tempo se rói com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
Pra tentar reviver…

No fundo é uma eterna criança
Que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder
Me esquecer…

Adir Blanc, em “Resposta ao Tempo”





Istambul

19 07 2020

Para o meu primeiro post de viagens, acabei escolhendo essa que foi meu primeiro contato com um país que se afastava um tanto das tradições ocidentais, embora fique ali literalmente “na fronteira” entre o Ocidente e o Oriente. Onde coloquei o “pé” na Ásia pela primeira vez… Como fiz essa viagem há bastante tempo, algumas coisas podem ser traídas pela memória, mas ainda consigo me lembrar de boa parte delas. Istambul é a maior cidade e a mais conhecida da Turquia (mas não é sua capital, a capital turca é Ankara!), cortada ao meio pelo Estreito de Bósforo, o que faz com que a cidade fique parte na Europa, parte na Ásia, oficialmente. Uma cidade com arquitetura magnífica, e com muita História, muitos locais e fatos que influenciaram civilizações ao longo do tempo.

Essa viagem à Turquia foi a última escala do giro pela Europa em abril de 2008 (depois de Berlim, Barcelona e Atenas). No planejamento da viagem, procurando por dicas na internet, em um site sobre viagens, encontrei um brasileiro (Dilermando) que já tinha ido para Istambul, e pegamos várias dicas preciosas. Entrei em contato, e aí eu descobri que eu, que programo bastante as viagens, na verdade sou um amador… ele me passou uma planilha onde planejava dia-a-dia uma estadia completa de uma semana em Istambul, com horários, locais e detalhes… Achei meio exagerado, mas é uma solução quando se tem pouco tempo. De qualquer forma, tirei informações importantes para montar o roteiro.

A hospedagem foi no Hotel Antique, que é bem simples porém extremamente bem localizado, muito próximo ao centro turístico da cidade, vizinho da Mesquita Azul e da Hagia Sophia, duas construções magníficas e principais pontos turísticos da cidade.

Vista de Istambul: Mesquita Azul (à esquerda), Hagia Sophia (à direita)

A chegada em Istambul foi no dia 5, no aeroporto Ataturk, vindo de Atenas, na Grécia – Aqui já cabe uma dica: indo para Istambul de avião, verifique se o aeroporto de destino é esse, algumas empresas, notadamente as low cost, costumam fazer vôos para outro aeroporto, distante uns 60 km da cidade, o que pode lhe fazer gastar um tanto a mais e perder um tempo precioso -, o acesso a partir do aeroporto de Ataturk é fácil, via metrô e tram chega-se facilmente ao bairro de Sultanahmet, o centro turístico. A primeira impressão sobre a cidade, ainda vista do avião, foi a quantidade de mesquitas na cidade(são quase 3000, depois fiquei sabendo), identificadas pelos minaretes, que são as torres, mais finas do que as torres das igrejas cristãs. Destes minaretes saem o som com versos em árabe chamando todos para a hora da reza. Junto com os chás servidos em pequenos “shots”, são as imagens que mais me remetem a Istambul…

Minarete de Mesquita em Istambul
Chá na doceria em Istambul

E pelo caminho do aeroporto para a cidade, pode-se ver esses templos, de todos os tamanhos e por todos os lados. Chegando ao hotel, mochila descarregada e já iniciei a caminhada pela cidade. A primeira escolha foi ir caminhando de Sultanhamet até o Grande Bazar, passando pela praça em frente a Hagia Sophia e à Mesquita Azul. O Grande Bazar é um mercado antigo, onde se vende praticamente de tudo. O que espanta nele é o tamanho, enorme, gigante. Dificilmente você consegue entrar por onde saiu ou ter a noção de onde está quando sai. Dezenas de ruas apertadas, vendedores pulando à sua frente oferecendo todo tipo de quinquilharias e, é claro, os maravilhosos doces de Istambul… 😛 Uma delícia a parte, simplesmente maravilhosos. Na saída do Grande Bazar, fomos caminhando pelas ruas tortuosas do bairro para chegarmos ao Mercado Egípcio, ponto de venda de especiarias (e doces também), que fica um pouco mais ao norte do Grande Bazar. Era sábado e as ruas estavam lotadas de gente, o comércio local fervilhando. Cuidados normais quando se está no meio de aglomerações: cuidado com bolsas, carteiras, qualquer coisa que possa ser sorrateiramente retirada de você quando estiver distraído. Nada de pânico, mas é uma dica saudável. Ali e em qualquer outro lugar de comércio, vai uma dica: pechinche e negocie, sempre. Eles aparentemente até gostam disso, ficam um pouco decepcionados quando você leva o produto pelo preço anunciado, sem barganhar… vai entender…

Grande Bazar
Doces no mercado egípcio
Especiarias no mercado egípcio

Passeios imperdíveis

Dentre os passeios imperdíveis, posso destacar: Hagia Sophia, Mesquita Azul, Museu Militar, Palácio Topikapi, a apresentação dos Dervixes Rodopiantes (dança sufi), além de um passeio de barco pelo Bósforo, até o Mar Negro. Passeios pelas ruas são altamente recomendáveis, o grande número de mulheres de burca pode lhe chamar a atenção se for a primeira vez num país com predominância muçulmana. De qualquer forma, a boa educação manda ter discrição, e evitar fotos.

Hagia Sophia

A visita a esse local, por si só, já valia a viagem. É uma das construções mais impressionantes e bonitas que já vi. Foi erguida no século VI para ser a catedral de (na época) Constantinopla, no Império Bizantino. Com a queda de Constantinopla em 1453 (retomada pelos turcos, fato que marcou o fim da Idade Média), passou a ser uma mesquita, e assim permaneceu até o século passado, quando virou um museu, na década de 1930. Essas mudanças geraram um fato curioso, que faz desse um lugar tão único: o interior da catedral foi originalmente decorado todo com mosaicos feitos de milhares de pedaços de vidro e folhas de ouro. Várias representações de figuras bíblicas, imperadores, imperatrizes e herdeiros. A questão é que a religião muçulmana não permite a reprodução de figuras humanas, assim, quando a catedral foi transformada em mesquita no século XV, todos os mosaicos foram “tampados”, cimentados e pintados com motivos islâmicos. Esse tesouro artístico ficou assim por séculos, até que quando ela foi “secularizada” e transformada em museu no século XX, os mosaicos com imagens cristãs de 15 séculos atrás apareceram, e passaram a conviver lado a lado com a decoração muçulmana, criando uma atmosfera única no mundo, emoldurada pela grandeza de seu domo central.

Recentemente, em julho de 2020, o presidente turco revogou a lei do século passado que a transformou em museu, e agora ela passa a ser novamente uma mesquita. Não tenho informações a respeito de como ficarão as visitas e os mosaicos descritos acima. Espero que continue sendo um local de visitação onde símbolos de ambas as religiões possam conviver de alguma forma. Mas não sei se isso vai ocorrer.

Interior da Hagia Sophia
Mosaico decorado com folhas de ouro na Hagia Sophia
Entrada da Hagia Sophia

É uma construção magnífica, que realmente vale a pena passar horas visitando, entendendo sua História e admirando seu interior.

Mesquita Azul
Entrada da Mesquita Azul

A Mesquita Azul (Blue Mosque) ou Mesquita do Sultão Amade (em turco: Sultanahmet Camii) foi construída no século XVII pelo Sultão Amade para fazer frente à Hagia Sophia. Fica praticamente em frente, separadas por uma praça florida. É uma peça também única da arquitetura no estilo clássico otomano, e mosaicos de cor predominantemente azul

Mesquita Azul à noite

Todas as mesquitas têm um código de vestimenta para serem visitadas: é necessário deixar o sapato do lado de fora para entrar. Shorts, minissaias, bermudas ou camisetas sem mangas não são recomendados. Mulheres devem cobrir os cabelos. No geral, nas mesquitas que são frequentadas por turistas, há funcionários distribuindo panos e véus para que as pessoas cubram as partes que – segundo eles – desrespeitam o lugar. Respeito e empatia fazem bem, aqui e em qualquer lugar do mundo, sempre.

Mesquita Azul
Na entrada de cada mesquita, uma fonte para se lavar antes de entrar
Momento da reza em uma mesquita
Interior da mesquita Rüstem Pasha

Palácio Topikapi

Esse palácio (hoje um enorme museu) foi construído logo após a (re)tomada de Constantinopla(Istambul) pelos turcos, no século XV, ordenada pelo Sultão Mehmet, “O conquistador”, e foi o mais importante palácio até o início do século XVII. Uma das principais atrações é o harém, onde viviam as mulheres da família do Sultão. Segundo consta, todas as noites ele ia até lá para escolher dentre as suas dezenas de mulheres qual passaria a noite com ele. A maior parte da exposição do palácio não permite fotos, mas tirei algumas do harém (permitidas) e da entrada do palácio, onde antigamente ficavam lanças que expunham cabeças dos condenados executados bem ali, na praça em frete.

Mesmo sem fotos, as coisas de que mais me lembro de ter visto lá dentro foram: um relicário que continha as barbas do profeta (sim, o próprio, Maomé) e o cajado de Moisés, bem conservado e guardado atrás de um vidro. Outras duas peças importantes são a famosa Adaga Topikapi, cravejada de esmeraldas, e o Diamante Spoonmaker’s, considerado o quarto maior diamante do mundo. Uma outra coisa que me chamou a atenção tem a ver com a História da Religião Muçulmana: lá vi a estória de que Maomé, quando teve sua primeira revelação onde Deus, através do anjo Gabriel teria lhe revelado coisas que seriam a base do Corão, iniciou sua pregação e teria enviado uma carta ao Papa, explicando as revelações. Se essa carta existiu provavelmente nunca foi levada a sério, mas já imaginaram como o mundo seria diferente hoje se tivesse sido?

Entrada do Palácio Topikapi. Na lança acima ficavam expostas as cabeças dos condenados decapitados
Entrada do Harém do Sultão
Corredor do Harém do Sultão

Museu Militar

O que mais me chamou a atenção nesse museu é como é interessante ver como a História é contada “pelo outro lado”. Para nós, nas aulas de História na escola, o marco do final da Idade Média foi a “tomada de Constantinopla pelos turcos”, e pronto. Sem detalhes. Indo nesse museu (e também no Topikapi) a batalha épica é contada com detalhes, e ali descobrimos que a cidade foi tomada “de volta”, considerando que durante séculos ficou sob o domínio cristão do Império Romano do Oriente (ou Império Bizantino), e os muçulmanos estariam a tomando de volta, após anos de perseguição no contexto das Cruzadas. A campanha do Sultão Maomé II, “O conquistador”, e explicada com minúcias, está lá exposta a corrente que “fechava” o Estreito de Bósforo para evitar invasões por barcos. É contado como ele conseguiu transportar os barcos via terra, para invadir pelo outro lado do Bósforo. Uma coisa imperdível é a apresentação da banda do exército Otomano, com instrumentos e trajes típicos. Vale a pena se informar para saber datas e horários das apresentações (são frequentes mas não diárias).

Apresentação da Banda do Exército Otomano
Corrente usada para fechar o Estreito de Bósforo, exposta no Museu Militar
Passeio ao Mar Negro

Essa foi uma dica espetacular do Dilermando: pegar o barco de linha (não é um barco turístico) no cais de Eminönü, para fazer o trajeto de Istambul a Anadolu Kavagi, já na extremidade norte do estreito do Bósforo – descer em Anadolu Kavagi, subir à pé às ruínas da fortaleza bizantina do século XIV no alto do morro, de onde pode-se ver o Mar Negro – maravilhoso !

Fotografando o Mar Negro
Casas ao longo do passeio de barco
Ruínas ao longo do passeio de barco
Ruínas proximas ao mirante do Mar Negro
Dança Sufi

Como última dica imperdível de Istambul, fica o espetáculo dos Dervixes Rodopiantes. Os dervixes são uma confraria religiosa muçulmana de caráter ascético ou místico (sufi). A ordem dos  Dervixes Rodopiantes fundou-se no século XIII e é a mais conhecida da Turquia. Eles entram em uma espécie de transe durante a dança, e (obviamente) rodopiam durante vários minutos que parecem não ter fim… um espetáculo bonito, de pouco menos de uma hora, vale a pena.

Dançarino

Se você chegou até aqui, obrigado… Foi ficando meio grande esse post, pensei até na possibilidade de dividir em duas partes, mas acabei desistindo… Espero que tenha gostado.
Até a próxima!





Factfulness (livro)

12 07 2020

“10 razões pelas quais você está errado sobre o mundo – e por que as coisas estão melhores do que você pensa”, assim diz o subtítulo original desse livro. Quase uma ode ao otimismo, “O hábito libertador de só ter opiniões baseadas em fatos”, diz a versão traduzida.

Li esse livro em 2018, atraído por uma notícia que estavam falando muito bem do dito cujo. Ainda não havia a versão em português, então acabei lendo no original. O autor, o sueco Hans Rosling, faleceu antes de ter terminado esse livro, que foi finalizado por seu filho e sua nora (se não me engano), e ele tem uma TED Talk de muito sucesso. Ele era médico, pesquisava e ensinava Saúde Pública e tornou-se um grande estudioso e entusiasta de dados e estatísticas.

Ele tem um teoria interessante que diz que, no geral, as pessoas tendem a ser muito pessimistas em relação ao mundo, por várias razões: visão enviesada e limitada, dados desatualizados (o mundo mudou desde que entramos na escola, certo?), notícias enviesadas (notícia ruim vende muito mais!), e a nossa tendência de usar a intuição, que acaba por enviesar ainda mais nossas opiniões. Um exercício básico que ele faz no livro é o seguinte: para qualquer pergunta com 3 alternativas a um grupo de tamanho estatisticamente significativo, um sorteio aleatório de respostas mostraria que cada resposta irá obter um terço (33%) das escolhas. Aleatoriamente, um grupo de chimpanzés (ou qualquer outro animal) teria 33% de acerto, qualquer que fosse a questão. No caso dele, ele sempre usa o hipotético “resultado dos chimpanzés” como referência.

Ao fazer questões a diversas plateias qualificadas ao redor do mundo em palestras, invariavelmente as pessoas acertavam menos do que os chimpanzés. Perguntas sobre índices de vacinação, escolaridade, renda, violência, economia… Raramente chegavam a mais de 20% de acerto, qualquer que fosse o público em questão. E a resposta do público era invariavelmente pessimista, pior do que a realidade. Achei um ponto de vista interessante. O mundo, se olharmos de uma perspectiva macro, considerando a população inteira de mais de 7 bilhões (e creio que a China tem um peso grande nisso), tem estatisticamente melhorado, os dados provam isso, não se questiona.

Porém, isso não significa que não haja populações inteiras, centenas de milhões de pessoas, em situação precária, seja do ponto de vista de acesso a serviços básicos de saúde e educação, perspectivas de melhoria de vida para seus descendentes ou mesmo comida e água para sobreviver. Imagino como pessoas que sofrem hoje a esse nível receberiam a notícia de que pesquisadores chegaram à conclusão de que o mundo está melhorando. Doenças foram erradicadas, expectativa de vida idem, evoluções tecnológicas trazem coisas que melhoram a nossa vida. Mas não são para todos.

Na minha opinião, analisar dessa maneira faz sentido sob algum ponto de vista, mas as conclusões são bem limitadas, não consigo afirmar que estamos evoluindo enquanto sociedade, enquanto civilização. Dados do início de 2020 indicam que 2 mil pessoas no mundo têm mais dinheiro do que os 60% (mais de 4 bilhões de pessoas) mais pobres (estudo original em inglêsmatéria em português). Toda essa concentração tem aumentado ao longo do tempo, é absurda e sem sentido, mas nos acostumamos a ela. Nós nos acostumamos quando a enxergamos pelas janelas dos carros, quando olhamos além dos limites dos condomínios. E nesse ano, devido à pandemia, temos grandes chances de sairmos piores ainda nesse sentido. Acho que antes de dizer que estamos melhorando, precisamos aprender não somente a nos indignar mais, mas a possibilitar a implementação de políticas de Estado de proteção social de longo prazo, local e globalmente. E isso não pode esperar. A velha falácia de “primeiro aumentar o bolo, para depois dividi-lo” exige uma espera que quem sofre, quem tem fome, não pode esperar. Não há essa possibilidade. Eventualmente um modelo de ruptura possa nascer, como sugere esse artigo “A alternativa para os próximos 20 anos é uma forma sustentável de capitalismo, que não será vista como capitalismo“. A conferir.

Concluindo, o livro e o ponto de vista nos trazem dados e argumentos, que nos trazem esperança, mas acho que precisam nos fazer pensar. Números podem trazer grandes informações, mas também podem esconder grandes verdades, dependendo de como forem vistos…





Pandemia e quarentena…

5 07 2020

Hoje, 05 de julho, eu completo 110 dias em “modo quarentena”, trancado em casa com a esposa, saindo somente para compras no sacolão do bairro, duas ou três vezes na semana, no máximo, o resto das coisas, tudo online… hoje, depois de 45 dias, acabei me permitindo dar a pedalada de domingo de manhã… Cá estamos, vivendo uma situação que nossa geração jamais imaginou viver… gerações anteriores conviveram, em menor e maior grau, ao passar dos anos, com a possibilidade de uma guerra nuclear potencialmente apocalíptica… os filmes blockbusters refletiam esse medo, na minha infância… na medida que essa possibilidade ficava mais remota, os temas tiveram que se renovar: catástrofes naturais, invasão alienígena, colisão de asteróides, e por aí vai… mais recentemente algumas visões apocalípticas com algum supervírus assassino também começaram a ser mais comuns…

Mas o fato é que a grande maioria das pessoas não imaginava ter que passar pela situação que estamos passando. Muito já se disse sobre isso, do ponto de vista do impacto que teria nas nossas vidas, nosso modo de ver e fazer as coisas, do impacto psicológico (outro dia li uma psicóloga de uma universidade europeia, especialista em traumas, dizendo que esse nosso confinamento é “o maior experimento psicológico da história”. Não tenho conhecimento para avaliar, mas tenho observado muitas das reações ao longo das semanas, nos contatos virtuais com as pessoas (porque contato físico é somente com minha esposa), e têm variado bastante… bom humor, momentos de pânico, desespero… o excesso de informações que o acesso à Internet trouxe não colabora muito para o equilíbrio…

Mas o que eu acho é que de uma maneira geral situações extremas trazem à tona o que existe de pior e melhor nas pessoas, em graus diferentes. Pessoas que têm dificuldade em ter empatia com o próximo, com o diferente, não agem de maneira diferente durante esse período. E é justamente nesse momento pelo que passamos que mais precisamos da empatia, do respeito e entendimento em relação ao próximo. Cada um tem um modo de encarar, uma visão de mundo, cada um tem uma trajetória e uma bagagem única, capacidades e limitações também únicas. Eu tenho o privilégio de conseguir manter uma rotina minimamente equilibrada, não temos filhos, meu trabalho consegue ser feito remotamente com pouquíssimo impacto, eu e minha esposa conseguimos conviver bem, sem grandes problemas… mas há uma infinidade de pessoas que não podem, que têm outras dores, outras demandas e que não podem ser deixadas de lado. Do lado profissional, muitos estão tendo que se readequar, reinventar… as ditas entregas, a forma como você lida com seus prazos, isso tudo teve que mudar. Escrevi um artigo sobre isso no LinkedIn, em especial sobre como os gestores conseguem lidar com essa situação.

A empatia deveria acontecer tanto do lado pessoal quanto profissional. Temos que tomar cuidado para tentarmos sempre nos colocar no lugar do outro, hoje mais do que nunca… e não é excesso de “politicamente correto”, não. É simplesmente ser humano, no sentido mais amplo e simples da palavra… Alguns estão tendo maior capacidade de adaptação do que outros, uns mais facilidades que outros… há aqueles que se aproveitam da situação (no sentido negativo) para relaxarem, trabalharem menos… ninguém pediu essa situação, mas também ninguém sabe como e quando sair dessa situação. As pessoas dizem umas às outras, “Vai passar”, “Sairemos dessa melhores”… Mas na verdade ninguém sabe, ninguém pode afirmar com certeza nada disso…

A falta de empatia, de preocupação com o que é diferente, de entender o diferente, sempre me incomodou… mas nos tempos atuais, tem me irritado muito. Espero que realmente possamos sair de alguma forma melhores de tudo isso, embora eu não esteja lá muito otimista em relação a isso…