A “Pérola do Adriático”, segundo George Bernard Shaw
… ou seria King’s Landing? Ou Porto Real? Acho que para quem não assistiu à série Game of Thrones não vai entender…
Dubrovnik é uma cidade no litoral da Croácia, no Mar Adriático, e que foi cenário para várias cenas da série. Como somos (Laura e eu) fãs dá série, isso pesou bastante para escolhermos a cidade como um de nossos destinos, em junho de 2019. Queríamos uma praia na Croácia, e procuramos evitar Split que é o ponto mais popular por lá. Embora Dubrovnik também seja uma cidade bem cheia de turistas, a vontade de visitar pontos das filmagens falou mais alto.
Chegamos lá de avião, vindo de Zagreb, e ficar na janela do lado esquerdo foi bem legal, pudemos ver todo o litoral enquanto o avião se aproximava.
Dubrovnik vista do avião
Final de junho, bastante calor, bom período para estarmos lá. Mas essa também é a opinião de muitos turistas, então, fomos preparados para uma cidade lotada. Ficamos hospedados em um AirBnB dentro da parte histórica (murada) da cidade, uma boa escolha pra ficar mais no clima de cidade medieval, bem no meio da área turística, mesmo pagando um pouco mais por isso, e também tendo os turistas fazendo barulho durante a noite toda. O prédio em que ficamos era um edifício que, se não era da era medieval, era bem próximo… portas grandes e pesadas de madeira maciça, uma cisterna logo no hall de entrada. Uma vez dentro do apartamento, todas as facilidades da vida moderna… rs
Laura e a porta do nosso prédio em Dubrovnik
Rua em Dubrovnik
Como costumavam ser as cidades medievais, a parte histórica/turística de Dubrovnik é uma cidade toda murada, o que dá um charme adicional. Há inúmeros portais de entrada na cidade, que “cresceu para fora das muralhas, em particular nas encostas e ao longo do litoral. Dubrovnik fica numa parte da Croácia que é uma “tripa” de litoral, limitado pelo mar por um lado, e pela Bósnia e Hezergovina do outro, nas montanhas. Essa “tripa” inclusive é separada da outra parte da Croácia por uma parte da Bósnia, ua situação interessante. Quando saímos de Dubrovnik para irmos para Sarajevo, fomos de ônibus e cruzamos as fronteiras algumas vezes pelo caminho…
Croácia em amarelo, Bósnia em branco (Dubrovnik é uma faixa vermelha ao sul)
Mesmo para quem conhece outras cidades medievais, como é o meu caso, a arquitetura ainda impressiona, e essa proximidade com o mar deixa a cidade mais simpática e colorida. Por ser uma cidade extremamente turística, fomos super bem tratados, bem acolhidos, com a exceção de uma vendedora em uma loja de quinquilharias que estava muito de mau humor…
Dubrovnik à noite
Um dos portões de entrada da cidade antiga em Dubrovnik
Os passeios que fizemos foram praticamente todos dentro da cidade antiga, há um modo de circular por cima das muralhas, dando a volta completa (se for no verão, leve água, pare para descansar, tome sorvete nos pontos de parada, vá com calma). Essa caminhada proporciona belas vistas da cidade e da baía. Há alguns lugares que fazem menção a Game of Thrones, como a escadaria da vergonha e a “Baía da Água Negra”. Há passeios programados guiados pelos locais de filmagem, mas acabamos fazendo sozinhos mesmo.
“Escadaria da vergonha”, na série e ao vivo
Baía (da “Água Negra” em Game of Thrones)
E a praia?
O único passeio que fizemos fora das muralhas da cidade foi quando pegamos um Uber e fomos a Cava, onde há o Coral Beach Club, uma praia bonita, tranquila aparentemente frequentada somente por turistas. As coisas ali eram bem caras, mas tinha toda a infra, com espreguiçadeiras, toalhas, banheiros, etc
Coral Beach Club, em Cava
Mar Adriático: check!
Um bom lugar para se passar algumas horas, relaxar, tomar banho de mar (não podia voltar sem dar um mergulho no Mar Adriático!). Nos despedimos da Croácia em grande estilo, com aquela sensação gostosa mas um pouquinho frustrante de que poderíamos ter ficado um tantinho mais… mas ainda tínhamos mais destinos antes de voltar pra casa…
Durante muito tempo eu não acreditei muito no poder, seriedade ou necessidade de alguém ter que fazer terapia. Eu realmente acreditava que os problemas que qualquer pessoa pudesse ter pudessem ser resolvidos sem esse tipo de ajuda, com uma conversa com um bom amigo, ou consigo mesmo, o que seria fácil e eficiente. Tinha uma opinião muito forte e estabelecida a respeito. Procurar por esse tipo de ajuda seria uma fraqueza, sinal de que a pessoa teria falhado miseravelmente em resolver seus problemas sozinho. Pessoas dignas de pena, portanto. Pensando nisso hoje fico imaginando de onde eu havia tirado isso. Quando somos crianças, as nossas “opiniões” sobre todas as coisas do mundo são formadas a partir do que ouvimos os adultos dizerem. Não por maldade ou má intenção dos adultos, mas por vezes uma colocação fora de contexto, ou mesmo num contexto incompreensível para uma criança que esteja ouvindo, o que foi falado pode ficar com ela por muito, muito tempo… não sei se foi o meu caso, realmente não me lembro.
Mas, o fato é que cresci com esse preconceito junto comigo, e não tinha nenhum problema com ele. Do alto da minha autossuficiência, eu me bastava, eu me resolvia comigo e com o mundo e estava tudo certo… até o dia em que não estava mais… e esse dia chegou. Foi por volta dos meus já longínquos 29-30 anos, não me recordo muito bem. Mas lá estava eu, sem saber como lidar com muitas questões, algumas já guardadas por muito tempo, outras tantas que eu não entendia, e umas ainda que eu nem sabia sequer que existiam. Não foi um momento de desespero ou pânico, eu diria, mas um momento que a necessidade acabou se impondo. Havia algo errado, e isso estava causando sofrimento para mim e para pessoas ao meu redor. E num determinado momento, lá estava eu, em um consultório, diante de uma profissional (extremamente bem recomendada por uma pessoa de confiança e da área), uma menina, aparentemente mais nova do que eu, começamos a conversar e ela simplesmente me pergunta o porquê de eu estar ali. Eu me lembro muito claramente daquele momento, em que eu tive que decidir o que responder e quase – sim, por pouco – fui embora dizendo que na verdade tinha sido um engano. Depois fiquei pensando se algumas pessoas fazem isso, ou se passa pela cabeça de alguém fazer isso… Bom, mas fiquei, comecei a falar, falar, praticamente sem parar por um bom tempo. E ali iniciou-se para mim um processo no qual fui me conhecendo, descobrindo algumas coisas que me incomodavam e que eu nem sabia. Fui construindo uma relação de confiança com a terapeuta, fui descobrindo (eu, curioso sobre tudo) que haviam linhas muito diferentes dentro da psicanálise, fui descobrindo o processo aos poucos. E descobri que num tratamento com um bom profissional, o processo não é dele, é seu. O(a) terapeuta está ali para auxiliar, para “limpar” alguma visão turva, algo pontual que porventura você não esteja enxergando. Ele ou ela não está ali para resolver nada, mas para lhe acompanhar no processo. E, posso dizer pela minha experiência, que é um processo muito enriquecedor. Aprendi que posso fazer coisas, curar feridas, as que não posso curar posso fazer com que não sejam parte central da minha vida, dentre outras coisas… e o mais importante, que a pessoa mais importante de nossa vida, de quem temos que cuidar antes de tudo, somos nós mesmos. Se não estivermos bem, não adianta cuidarmos dos outros, sejam filhos, pais, cônjuges, o que for. É preciso estar bem consigo mesmo para poder cuidar bem dos outros. E isso não significa ser egoísta, mas simplesmente buscar o equilíbrio, sempre, para que saiba bem seus próprios limites e consiga ficar bem consigo mesmo, para ser uma pessoa melhor para si e para os outros. Fiquei alguns anos na terapia, acabei interrompendo por motivos alheios à minha vontade, mas foram ensinamentos a respeito de mim mesmo que foram valiosos por toda a vida.
E por conta disso eu acho que todo mundo deveria fazer terapia? Não, não necessariamente, não mesmo. Uma outra coisa aprendida nesse processo, e também ao longo da vida, é que cada um tem um caminho, uma abordagem ou receita que sirva para si, em seu próprio tempo. O que serve para mim não serve necessariamente para o outro. O que achei na terapia que me ajudou, outra pessoa acha de alguma outra forma de se autoconhecer. As trajetórias, as bagagens de cada um são diferentes, o tempo e a disposição também. O que acho importante é que as pessoas não tenham a resistência que eu tive, e sem a qual eu poderia ter perdido menos tempo e ter descoberto meu próprio caminho mais cedo. As pessoas precisam entender que precisar de ajuda não é sinal de fraqueza ou falha, mas de lucidez e coragem. Somos seres humanos, cheios de fragilidades e incertezas, e não temos a obrigação de darmos conta de tudo o tempo todo. Espero que mais e mais pessoas possam ser mais felizes, levar uma vida mais plena. E lembrando sempre que a felicidade não é a ausência de problemas, mas sim a sua capacidade de lidar com eles. Uns problemas vão, outros vêm, alguns permanecem. Eles fazem parte da vida, e vão continuar fazendo sempre. Cabe a cada um de nós decidirmos o que fazer com eles.
Se no Brasil existe um pedacinho do Paraíso, certamente fica nesse lugar…
Esta ilha é realmente paradisíaca e indescritível em suas maravilhas… A cor de suas águas hipnotiza e aparenta se tratar de uma miragem, dada sua beleza! Para quem gosta de praia e um lindo mar é um passeio imperdível dentre aqueles mais sonhados… as referências datam de outubro de 2005, quando estive por lá…
A ilha, vista do avião ao chegar
Pôr-do-sol
Praia da Conceição no Bar do Meio: tive a experiência de acompanhar o pôr-do-Sol ao som de Pink Floyd num bar que fica na Praia do Meio (Bar do Meio) e foi no primeiro dia da viagem. Experiência para ficar realmente deslumbrado com a beleza do local.
Pôr-do-sol no Forte do Boldró: Com vista para os Morros Dois Irmãos, o local fica bastante movimentado a partir das 17hs, com turistas procurando a bela paisagem. Há no local um barzinho com música ao vivo. Fui na última noite na ilha.
Pôr-do-SolPôr-do-Sol
Caminhada – Praias do mar de dentro
Seguindo por uma trilha indispensável aos que gostam de caminhar: iniciando pela trilha da Costa Azul, com saída na praia da Conceição até a praia do Bode. O ponto mais difícil para a passagem está nas pedras entre as praias da Conceição e do Boldró. Ao longo dessa trilha, vários pontos bonitos para fotografar e também acompanhar os mergulhos certeiros dos atobás no mar, muito próximo à praia, para capturar peixes. Segue pela trilha Esmeralda, saindo da praia da Cacimba do Padre até a Baía do Sancho. No final da praia da Cacimba do Padre estão localizados os morros dois irmãos, um dos mais conhecidos símbolos de Noronha. A partir daí, chega-se à Baía dos Porcos (não sem antes perder preciosos momentos num mirante à sua direita, de onde se observa bem de perto aquela que é é considerada a segunda praia mais bonita do Brasil – na minha opinião, o lugar mais bonito da ilha). A Baía dos Porcos, apesar das pedras ao seu redor, permite a prática de snorkel e se observa uma rica fauna marinha, principalmente entre as pedras. Na maré baixa, forma-se um aquário natural nos corais, repleto de peixes, cuja entrada para mergulho é proibida, mas a visão que se tem de cima dele é deslumbrante. Seguindo pelo último trecho da trilha para a Baía do Sancho, considerada a praia mais bonita do Brasil. Na época de chuvas (não era o caso na época), há a formação de uma cachoeira no paredão ao seu redor. Muita vida marinha e um mar bem tranqüilo para a prática de snorkelling. Há escadas entre as rochas que permitem o acesso à baía (escadas de metal incrustadas numa fenda entre as rochas, certa dificuldade em se utilizar delas). Ao topo, tem-se uma visão bonita da baía, e um acesso ao imperdível mirante da baía dos Porcos, um lugar emocionante com uma vista simplesmente indescritível de tão bela. Ao final do dia, o pôr-do-sol na baía do Sancho, também muito belo…
Baía dos Porcos
Baía do Sueste
Fui de ônibus circular na rodovia BR-363 até lá. Local de alimentação das tartarugas marinhas. Uma praia bela com um mangue ao fundo (o único em ilha oceânica do Brasil) e com muita vida em suas águas. A prática de snorkel é freqüente, porém não vi nenhuma tartaruga, como a maioria dos turistas, mas vi um filhote de tubarão e uma arraia grande, além de várias espécies de peixes que se tornaram conhecidos ao longo dos outros dias. Do Sueste, caminha-se até a ponta das Caracas, um mirante belo para se apreciar o mar e aves marinhas que voam muito próximas de nós (atobás, fragatas, entre outros). Dali seguem mais uns 15 minutos de caminhada até a praia do Leão, local de desova das tartarugas e considerada a 3a praia mais bonita do Brasil. De dezembro a junho o acesso a ela é interditado por ser época da desova. Ao final dessa praia, há uma agradável e transparente piscina natural muito rasa formada entre as rochas e corais, com muita vida marinha.
Mergulho
Certamente um local maravilhoso para aqueles que gostam de outras sensações no mar… as fotos subaquáticas foram muitas, mas quando não sai mal enquadrada, sai fora de foco, os peixes não colaboram, não ficam quietos… mas deu pra salvar algumas…
Mariquita, um dos peixes mais comuns por lá
Fiz à época os mergulhos autônomos com a operadora Atlantis (a mais recomendada). No primeiro dia fomos em dois pontos: o Buraco do Inferno e Cagarras rasas. Conhecemos vários peixes, arraias, uma moréia verde e uma pintada, em uma água translúcida num mergulho muito bom.
Raia encontrada em mergulho livre
Fomos também, em outro dia, ao Canal da Rata onde encontramos uma tartaruga verde; e Cagarras fundas, com mar bem agitado devido à chegada de um suel (fenômeno que causa muita agitação do mar e alta da maré) na ilha.
Frade, bastante comum também
No geral, em qualquer lugar na ilha em que haja água, você pode colocar um snorkel e sair nadando, praticando mergulho livre (sem cilindro) e certamente você encontrará muita vida marinha, risco de esbarrar em tartarugas, tubarões-lixa, raias, e vários outros amigos…
Peixe-borboleta
Atalaia
Trilha da Praia do Atalaia, um lugar com formações rochosas que formam uma grande piscina natural (um verdadeiro aquário) na maré baixa, com muitos peixes ornamentais, corais e esponjas. O acesso ao local é controlado pelo Ibama, que permite um número reduzido de pessoas por vez com tempo controlado de flutuação na piscina. Mais um passeio recomendável e imperdível.
AtalaiaPraia do Atalaia
A praia do Leão é considerada uma das mais bonitas do Brasil, e é o local onde fica o “berçário” das tartarugas… dependendo da época do ano, o acesso é proibido.
Praia do Leão
Baía do Sancho
Voltando à praia do Sancho, depois de visitá-la via caminhada, desta vez de ônibus pela BR e de lá uma carona até a entrada da baía. Descemos pela fenda após mais preciosos momentos no mirante da Baía dos Porcos. O mar agitado e o guarda do IBAMA desaconselhavam o banho de mar e o snorkelling. Para chegar ao Sancho, existem 3 meios: de barco, pela trilha vindo da vizinha Baía dos Porcos, e pelo alto do “paredão” que a cerca, descendo por fendas e escadas entre as rochas. Vale a pena ir para lá dos 3 jeitos, só para ter uma desculpa para visitar mais vezes esse lugar maravilhoso…
Chegando à Praia do SanchoPraia do Sancho, considerada a mais bonita do Brasil
Passeio de Barco
Fiz o passeio de barco pelo mar de dentro (embarcação Naonda, R$ 70/pessoa). Nesse passeio, saímos do porto e fomos até as ilhas secundárias, e depois até o outro extremo na Ponta da Sapata. No caminho, passamos por todas as praias deste lado de ilha e durante algum tempo fomos acompanhados pelos golfinhos rotadores, que chegam muito próximo ao barco, proporcionando uma emoção única, além de belas fotos. No passeio passamos pela Baía dos Golfinhos, somente do lado de fora dela, pois o acesso não é permitido, não se chega nem por terra nem por mar, o mais próximo que se chega é do alto de um paredão de pedra, no Mirante dos Golfinhos
Golfinhos acompanhando o barco
Mirante dos golfinhos
É preciso separar um dia para acordar bem cedo e ir ao mirante dos golfinhos – que permite uma vista da Baía dos Golfinhos – para ver o seu rodopio matinal. Por volta das 6hs eles chegam em grupos à baía dando um espetáculo para quem lá está. Um binóculo ajuda bem, eles não costumam brincar tão perto assim…
A volta
A volta dá uma sensação forte de tristeza, aquele é um local de extrema concentração de belezas naturais. Certamente, para quem curte a natureza em sua forma intocada, irá desfrutar belas paisagens, águas, animais e muito mais!!!
Dicas gerais:
– Lugares imperdíveis: praticamente todos… não deixe de passar pelos mirantes, tirar muitas fotos, colocar o snorkel e a máscara para qualquer lado, certamente vai ver coisas lindas por lá…
– Procure se programar para ficar uma semana, para que possa conhecer praticamente toda a ilha e até repetir um ou dois passeios preferidos. Assistir ao pôr-do-sol cada dia em um lugar para encontrar o preferido também é uma bela pedida…
– Vale a pena contratar um pacote? Na época, não valia a pena. Os pacotes faziam conjugado com Recife ou Natal, e isso limitava os dias na ilha (ainda por cima conta que você perde horas consideráveis no dia de chegada e no dia de partida). Contratei somente o voo e hospedagem. Os passeios podiam ser facilmente contratados na ilha, sem necessidade de agendamento prévio, e muitos deles davam para fazer sozinho. Isso foi há 15 anos, algo pode ter mudado…
– No avião, para ir a Noronha vindo do Recife, fiquei à esquerda (no caso do Boeing da Varig, assentos ABC), e o avião se aproxima da ilha por este lado, mas entra pelo outro, o que proporciona uma volta completa com uma vista muito bonita ao redor da ilha.
– Andar de ônibus ou caminhar é uma boa pedida, fiquei a semana sem sentir uma grande necessidade de alugar um buggy, quando necessário conseguimos umas caronas amigas, pedidas assim, na estrada mesmo.
São raros os casos em que eu leio um livro, depois vejo o filme baseado nele, e o filme me surpreende positivamente. Esse foi um caso que fiz questão de assistir ao filme logo que foi lançado, há bastante tempo, em 2008. Escrevi a respeito no meu blog antigo, na época, e agora, 12 anos depois, no meio de uma pandemia, achei interessante revisitar esse assunto.
Quando ouvi que o livro seria adaptado para o cinema, fiquei extremamente curioso . Esse era um livro cuja adaptação para o cinema seria extremamente complexa e poderia ter um resultado muito ruim. Mas, para minha feliz surpresa, o diretor Fernando Meirelles conseguiu traduzir em grande parte a crueza do livro, amenizando em algumas, contando com uma fotografia muito boa e acabou na minha opinião com um resultado final bem interessante.
Foi o primeiro livro que li do Saramago, se não me engano. Um livro extremamente forte, denso, nas palavras do próprio autor:
“Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso.”
Realmente o livro narra uma situação angustiante, onde uma espécie de doença que deixa as pessoas cegas, de uma hora pra outra. Mas não é uma estória a respeito da doença em si, mas uma estória a respeito da perda da dignidade humana, em um cenário extremo onde numa pandemia se perdem as noções de humanidade, empatia, sociedade, onde instintos básicos, selvagens de sobrevivência afloram e os personagens passam a se aproximar muito mais de animais do que ao que costumamos entender por seres humanos.
Como sempre, estórias fortes e densas despertam reações, algumas vezes com razão, e em outras de maneira desproporcional e – por que não dizer – despropositada. Na época do lançamento, a Federação Nacional de Cegos dos EUA protestou e promoveu boicote ao filme. Acabaram associando as barbáries do filme, perpetradas por cegos, como uma tentativa de estereótipo. Mas qualquer um que consiga entender que o filme não é sobre a cegueira, não é sobre a doença, é sobre a perda da nossa humanidade, saberia dizer que não há motivos para tal interpretação.
Cena do filme de Fernando Meirelles (fonte: divulgação)
Trazendo um paralelo para a pandemia que nos foi apresentada em 2020, eu continuo achando que situações extremas nos trazem o que há de melhor e pior dentro de cada um de nós. O funcionário público de alto escalão que dá a “carteirada”, os “cidadãos de bem” que desrespeitam agentes públicos e trabalhadores, essas pessoas sempre existiram, e suas posturas e atitudes não são novas, só foram amplificadas pela situação. Acredito fortemente que independentemente de religião, posição política, social, ou qualquer outro motivo, devemos respeito ao próximo, e sempre fazermos o exercício de nos colocarmos no lugar do outro. Além da pandemia da COVID-19, acho que há também uma pandemia silenciosa de cegueira. Não aquela cegueira física retratada por Saramago, mas uma cegueira seletiva metafórica, que impede algumas pessoas de enxergarem a noção do que é sermos humanos, no sentido mais amplo da palavra… Que venham tempos melhores por aí…
Sarajevo, na antiga Iugoslávia (para os mais velhos), atual capital da Bósnia e Herzegovina (esse é o nome completo do país, e não somente Bósnia, lá aprendi que são duas regiões distintas separadas pelas montanhas: Bósnia a parte mais alta, Herzegovina a parte mediterrânea), foi um dos nossos destinos do verão de 2019. Eu sempre tive muita curiosidade de conhecer essa região, por uma série de motivos que na verdade norteiam a minha vontade e o meu prazer de viajar: conhecer e conversar com pessoas de culturas diferentes, belezas naturais, e, acima de tudo um lugar cuja história recente me deixava muito curioso, por conta da guerra nos anos 90, final da minha adolescência e início da minha vida adulta. Eu me lembrava das notícias da época, mas gostaria de ver, andar pelas ruas, conversar com pessoas que viveram aquela época, ouvir sobre o que estaria por trás das notícias que cruzavam o Atlântico. Após passarmos por Paris, Ljubljana(Eslovênia), Zagreb e Dubrovnik (Croácia), chegamos em Sarajevo… Depois de vários dias pulando de um AirBnB para outro, em Sarajevo optamos por usar minha pontuação e ficarmos no Novotel, acima da média para o que estamos acostumados.
Latin Bridge, local do assassinato que iniciou a I Guerra Mundial
Sarajevo é uma cidade que fica em um vale, cortada por um rio, e essa geografia tem papéis importantes nos acontecimentos históricos por lá. A Latin Bridge (foto acima) é uma ponte onde o herdeiro do Império Austro-Húngaro foi assassinado, sendo este o estopim para o início da I Guerra Mundial em 1914. E o fato da cidade ficar em um vale favoreceu a ação dos atiradores sérvios durante a Guerra da Bósnia nos anos 90 (nota: os Sérvios e Croatas a chamam de “Guerra Civil”, os Bósnios a chamam de “Agressão”, uma demonstração de que as feridas ainda estão por lá). Uma guerra por território que se transformou na tentativa dos Sérvios (cristãos ortodoxos) de através de uma “limpeza étnica” eliminar os Bósnios (muçulmanos).
A atmosfera, ao menos no setor mais turístico central, é muito acolhedora. Cuidados básicos com cobranças a mais dos turistas, como em quase qualquer lugar, é recomendável, em especial com taxistas. As construções, em especial as mais próximas ao rio, estão cheias de buracos de balas, o que impressiona. A culinária é um capítulo à parte, muita influência do oriente médio(o que no Brasil chamamos de árabe/turca/síria), misturada com a culinária mediterrânea, muito carneiro, falafel, kafta, molhos… os doces são um capítulo á parte, prove a melhor Baklava do mundo no Baklava ducan Sarajevo. No geral, come-se bem e barato (informação de junho/2019, com o Euro valendo cerca de R$ 4,50, e o BAM – moeda local – valendo R$ 2,25).
Locais que devem ser visitados necessariamente:
Latin Bridge
Catedral Ortodoxa
Baščaršija(Leia-se Bacharchia), bairro central e turístico
Túnel de Sarajevo
Mesquita Gazi Husrev-beg
Sebilj, fonte (de água) feita de madeira, estilo Otomano
Interior da Mesquita Gazi Husrev-beg
As mesquitas são muito bonitas, é bom sempre se informar sobre estarem abertas à visitação turística ou não, e os horários. Um cuidado especial deve ser tomado em relação à vestimenta, sapatos devem ser deixados de fora, e mulheres devem necessariamente cobrir os cabelos. Em geral são fornecidos véus ou lenços se as turistas precisarem. Em todas as mesquitas há fontes de àgua onde os fiéis se lavam antes de entrar na mesquita, no geral os turistas não as utilizam.
O Túnel de Sarajevo tem uma estória que vale a pena contar: no início do cerco a Sarajevo pelas tropas sérvias (que durou inacreditáveis 4 anos!), o presidente da França esteve no aeroporto da cidade, em conversas com as forças sérvias para negociar que o aeroporto pudesse ficar seguro para ações humanitárias da ONU (e não negociou o cerco em si). Com essa zona “livre”, os habitantes de Sarajevo que resistiam ao cerco fizeram um túnel de quase 1 km saindo de uma casa e atravessando por baixo do aeroporto, por onde abasteceriam a cidade por anos com mantimentos, armas, transportavam feridos, até animais. Essa casa e parte do túnel são visitáveis ainda hoje. É uma estória impressionante de luta e resistência. Consta que embora os espiões sérvios soubessem da existência do túnel, o deixaram pois achavam que estariam evacuando a cidade, quando na verdade o utilizavam para fortalecer suas forças de resistência.
Prédios com marcas de balas de mais de 20 anos atrás
Durante o cerco, os atiradores nas montanhas e locais altos alvejavam os pedestres. Consegue imaginar uma rua onde ao invés de placas “Cuidado, veículos”, havia placas “Cuidado, atiradores”? Pois então…
Fotos do cerco expostas na visita ao túnel
Além de Sarajevo
Tivemos a sorte de contratar a Funky Tours (encontrada via Trip Advisor), com a guia Armina (que foi uma excelente guia e nos ensinou tudo a respeito do país e da guerra) para um passeio de um dia para Međugorje (leia-se Mêdiugori), um local de peregrinação cristã onde há relatos de aparição de Nossa Senhora. Esse tour incluía algumas paradas que valeram muito a pena, num parque com cachoeiras (Kravica Waterfalls) e numa cidade chamada Mostar, que por si só já valeria ficar um ou dois dias por lá.
Mostar é aparentemente uma cidade turística, e sua principal atração é uma ponte, destruída da guerra e reconstruída posteriormente, e onde há competições de salto no rio. Durante nossa passagem por lá haviam homens “treinando” para pular e pedindo obviamente uma contribuição dos turistas. Alguns pagaram, mas demoramos uns bons minutos lá e nada de pulo…
Ponte em Mostar, com o candidato a saltador lá em cima, turistas com câmeras a postos…Cachoeira no caminho de volta de Međugorje
Međugorje é uma cidade que praticamente vive em função dos peregrinos, que vêm de todas as partes do mundo, e me lembrou muito de Aparecida do Norte, guardadas as devidas proporções. Uma catedral com uma grande área externa, local amplo para caminhar, com várias imagens religiosas pelo caminho. Como lugares assim ao redor do mundo, tem uma energia muito boa, um ambiente muito gostoso também. O principal atrativo da cidade é subir até a colina das aparições.
Área externa da Catedral em MeđugorjeColina das aparições
Uma outra parada interessante e rápida foi em uma cidade pequena chamada Počitelj, cidade toda feita de pedra, construída na Idade Média pelos turcos, foi destruída pela guerra e reconstruída após seu fim.
Počitelj
Para terminar, ao longo do dia agradável que tivemos com Armina, ela nos recomendou dois filmes que retratam partes humanas da guerra dos anos 90: No man’s land (Terra de Ninguém), um filme bósnio que se passa numa trincheira da guerra, e In the land of blood and honey (Na terra do amor e ódio), filme da Angelina Jolie. Ambos filmes muito bons, que assistimos quando voltamos de viagem. De uma maneira geral ficamos com a impressão de que as feridas da guerra ainda permanecem lá, a convivência entre os “diferentes” muçulmanos, cristãos e cristãos ortodoxos ainda é tensa, o governo é meio que dividido entre 3 presidentes, cada um eleito por uma das 3 divisões do país… pense num arranjo que não tem como dar certo no longo prazo…
Sarajevo foi uma experiência muito boa, conheci uma cidade sobre a qual tinha bastante curiosidade, sentimos e respiramos um pouco de sua história, e foi para mim para a lista de cidades preferidas ao redor do mundo.
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