
Durante muito tempo eu não acreditei muito no poder, seriedade ou necessidade de alguém ter que fazer terapia. Eu realmente acreditava que os problemas que qualquer pessoa pudesse ter pudessem ser resolvidos sem esse tipo de ajuda, com uma conversa com um bom amigo, ou consigo mesmo, o que seria fácil e eficiente. Tinha uma opinião muito forte e estabelecida a respeito. Procurar por esse tipo de ajuda seria uma fraqueza, sinal de que a pessoa teria falhado miseravelmente em resolver seus problemas sozinho. Pessoas dignas de pena, portanto. Pensando nisso hoje fico imaginando de onde eu havia tirado isso. Quando somos crianças, as nossas “opiniões” sobre todas as coisas do mundo são formadas a partir do que ouvimos os adultos dizerem. Não por maldade ou má intenção dos adultos, mas por vezes uma colocação fora de contexto, ou mesmo num contexto incompreensível para uma criança que esteja ouvindo, o que foi falado pode ficar com ela por muito, muito tempo… não sei se foi o meu caso, realmente não me lembro.
Mas, o fato é que cresci com esse preconceito junto comigo, e não tinha nenhum problema com ele. Do alto da minha autossuficiência, eu me bastava, eu me resolvia comigo e com o mundo e estava tudo certo… até o dia em que não estava mais… e esse dia chegou. Foi por volta dos meus já longínquos 29-30 anos, não me recordo muito bem. Mas lá estava eu, sem saber como lidar com muitas questões, algumas já guardadas por muito tempo, outras tantas que eu não entendia, e umas ainda que eu nem sabia sequer que existiam. Não foi um momento de desespero ou pânico, eu diria, mas um momento que a necessidade acabou se impondo. Havia algo errado, e isso estava causando sofrimento para mim e para pessoas ao meu redor. E num determinado momento, lá estava eu, em um consultório, diante de uma profissional (extremamente bem recomendada por uma pessoa de confiança e da área), uma menina, aparentemente mais nova do que eu, começamos a conversar e ela simplesmente me pergunta o porquê de eu estar ali. Eu me lembro muito claramente daquele momento, em que eu tive que decidir o que responder e quase – sim, por pouco – fui embora dizendo que na verdade tinha sido um engano. Depois fiquei pensando se algumas pessoas fazem isso, ou se passa pela cabeça de alguém fazer isso… Bom, mas fiquei, comecei a falar, falar, praticamente sem parar por um bom tempo. E ali iniciou-se para mim um processo no qual fui me conhecendo, descobrindo algumas coisas que me incomodavam e que eu nem sabia. Fui construindo uma relação de confiança com a terapeuta, fui descobrindo (eu, curioso sobre tudo) que haviam linhas muito diferentes dentro da psicanálise, fui descobrindo o processo aos poucos. E descobri que num tratamento com um bom profissional, o processo não é dele, é seu. O(a) terapeuta está ali para auxiliar, para “limpar” alguma visão turva, algo pontual que porventura você não esteja enxergando. Ele ou ela não está ali para resolver nada, mas para lhe acompanhar no processo. E, posso dizer pela minha experiência, que é um processo muito enriquecedor. Aprendi que posso fazer coisas, curar feridas, as que não posso curar posso fazer com que não sejam parte central da minha vida, dentre outras coisas… e o mais importante, que a pessoa mais importante de nossa vida, de quem temos que cuidar antes de tudo, somos nós mesmos. Se não estivermos bem, não adianta cuidarmos dos outros, sejam filhos, pais, cônjuges, o que for. É preciso estar bem consigo mesmo para poder cuidar bem dos outros. E isso não significa ser egoísta, mas simplesmente buscar o equilíbrio, sempre, para que saiba bem seus próprios limites e consiga ficar bem consigo mesmo, para ser uma pessoa melhor para si e para os outros. Fiquei alguns anos na terapia, acabei interrompendo por motivos alheios à minha vontade, mas foram ensinamentos a respeito de mim mesmo que foram valiosos por toda a vida.
E por conta disso eu acho que todo mundo deveria fazer terapia? Não, não necessariamente, não mesmo. Uma outra coisa aprendida nesse processo, e também ao longo da vida, é que cada um tem um caminho, uma abordagem ou receita que sirva para si, em seu próprio tempo. O que serve para mim não serve necessariamente para o outro. O que achei na terapia que me ajudou, outra pessoa acha de alguma outra forma de se autoconhecer. As trajetórias, as bagagens de cada um são diferentes, o tempo e a disposição também. O que acho importante é que as pessoas não tenham a resistência que eu tive, e sem a qual eu poderia ter perdido menos tempo e ter descoberto meu próprio caminho mais cedo. As pessoas precisam entender que precisar de ajuda não é sinal de fraqueza ou falha, mas de lucidez e coragem. Somos seres humanos, cheios de fragilidades e incertezas, e não temos a obrigação de darmos conta de tudo o tempo todo. Espero que mais e mais pessoas possam ser mais felizes, levar uma vida mais plena. E lembrando sempre que a felicidade não é a ausência de problemas, mas sim a sua capacidade de lidar com eles. Uns problemas vão, outros vêm, alguns permanecem. Eles fazem parte da vida, e vão continuar fazendo sempre. Cabe a cada um de nós decidirmos o que fazer com eles.
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