Monte Roraima (parte 2)

25 10 2020
Monte Roraima, visto do acampamento próximo à sua base

Esse post é continuação do Monte Roraima (parte 1).

Ao terceiro dia de expedição, finalmente era a hora de subir a montanha. O paredão de centenas de metros, para o qual ficamos olhando de longe por dois dias, estava ali pertinho. O dia praticamente inteiro seria de subida (sem escalada) pela trilha na encosta da montanha. Uma coisa que nos chamava a atenção era a frequência com que a neblina cobria e descobria a montanha, e ao longo daquele dia (e dos próximos) sentiríamos aquilo bem de perto.

Como todos os dias, acordamos cedo, arrumamos as coisas, tomamos café da manhã e… começar a caminhar! Aliás, todas as refeições ficavam por conta dos carregadores, uma turma nota 1000, conforme pudemos constatar ao longo dos dias (mais detalhes à frente). Não tenho fotos dessa subida, porque foi o dia em que começamos a sentir na pele – literalmente – o clima da região. Choveu bastante, em praticamente toda a nossa subida. Vários momentos em que eu sentia a água escorrendo pelo pescoço, por dentro do anorak impermeável, descendo pelo corpo todo, molhando até as meias. É daqueles momentos em que você tem certeza de que gosta desse tipo de passeio, ou não. No meu caso, só me dava vontade de continuar caminhando e chegar ao topo. Vinha água do céu, escorria pela lateral da montanha, formando pequenas cascatas, vinha pela lateral quando ventava, enfim, de todos os lados.

Ao terminar a subida fomos premiados por um tempo melhor, com neblina mas sem chuva. A sensação de chegar lá em cima é indescritível. Logo na subida já vimos um helicóptero caído. Explico: qualquer resgate que tenha que ocorrer na região tem que ser feito de helicóptero. Alguns dias antes da nossa chegada um turista havia se acidentado no final da subida, e para seu resgate chamaram o helicóptero. Consta que o piloto oficial estava ausente no dia, e mandaram o reserva. A aproximação do topo é crítica por conta da neblina e ventos. Resultado, o helicóptero caiu e ficaram os dois (turista e piloto) aguardando o próximo. Ficamos sabendo que além daquele haviam mais dois abandonados lá em cima, um do exército brasileiro, e outro da Rede Globo, que caiu com o então apresentador do “Globo Ecologia”, Danton Melo, em 1998. Melhor mesmo é ir caminhando, e não precisar de resgate… Pelo sim, pelo não, eu particularmente havia contratado um seguro viagem que cobria o resgate de helicóptero, pelo qual sem o seguro seriam necessários uns R$ 2 mil, na época.

Primeira foto no alto do Monte Roraima
Turma “explorando” o helicóptero na chegada no monte

Uma vez lá em cima, seguimos caminhando até nosso ponto de acampamento. E a lógica é a seguinte: quem chega primeiro pega os melhores locais. Na medida em que acampamentos vão sendo desmontados e liberados, os guias comunicam-se entre si. Dessa forma, se seus guias são bem relacionados entre os pares, boas chances de conseguir um bom acampamento. Caso contrário… Felizmente, nossos guias eram bem relacionados e conseguimos (segundo nos disseram) um dos melhores pontos, na encosta de uma das formações rochosas lá em cima. Com mais de 30km2 de área, tem bastante lugar para acampar…

As primeiras formações já impressionam e aumentam a expectativa do que está por vir nos próximos dias
Um dos pontos de acampamento, não o nosso (note na “caverna” próxima ao topo)

O visual lá em cima por onde caminhamos é bem diferente da chamada “savana” por onde havíamos passado nos dias anteriores. Muita rocha vulcânica, escura, e vegetação rala. Conforme falei anteriormente, algumas plantas e animais são endêmicos, ou seja, só existem lá em cima e em nenhum outro lugar do mundo. Um famoso habitante que encontramos logo no primeiro dia foi o “sapinho do Roraima” (Oreophrynella quelchii), um sapo pequeno (veja foto) que não salta, e faz a alegria dos turistas para fotos.

Sapinho do Roraima
Oreophrynella quelchii é o nome científico dele
Vista a partir do nosso acampamento, no cair da tarde

Chegamos no local de acampamento no final da tarde (alguns guias já vão na frente para garantir e montar o acampamento), com a proteção parcial de formações rochosas, de frente para o Maverick (ponto mais alto do Roraima) e com a vista para várias pequenas lagoas onde seria o local do banho para aquela noite.

Barraca já montada, tudo certo para o descanso
Claro que tem que ter bagunça no acampamento com a turma
Nascer do Sol no nosso acampamento do topo

Uma vez acampados lá em cima, íamos passar 3 noites. Poderíamos manter o mesmo acampamento ou ir para outros lugares, dependendo do que preferiríamos explorar. Optamos por permanecer no mesmo local de acampamento por todas as noites. Uma coisa curiosa a respeito dessa viagem: para usar o banheiro, nos acampamentos são feitos buracos e depois tampados. No topo isso não é possível por ser tudo de rocha, então é necessário usar sacos (adaptados numa cadeira de plástico furada), juntar cal e fechar o saco, que vai ser levado embora pelos carregadores. Nada pode ser deixado lá em cima…

No primeiro dia explorando o topo, fomos para o chamado Vale dos Cristais, onde o chão é coberto por – adivinhe! – cristais, passamos no marco da Tríplice Fronteira (Brasil, Guiana e Venezuela), e terminamos o dia no chamado “El foso”, um lago com uma pequena cascata. Local de banho, que pode ser acessado pela forma rápida (pulando lá de cima) ou lenta (dando a volta e entrando por baixo. Eu optei pela forma lenta, não estava com pressa… E ao longo do caminho visuais incríveis com formas esculpidas pela natureza ao longo dos anos que nos fazem imaginar animais, figuras humanas ou quaisquer outras que a imaginação permitir.

Consegue ver um elefante?
Pense num trekker feliz…
Formações incríveis ao longo do caminho
Às vezes parece que estamos em outro planeta
No Vale dos Cristais
No marco da Tríplice Fronteira
Chegando em “El Foso”
Dava pra encarar um mergulho lá de cima, mas preferi
dar a volta para o banho lá embaixo
Entrada d’El Foso, por baixo

Nesse dia pegamos um pouco de chuva ao longo das caminhadas, mas nada que atrapalhasse muito. Voltamos ao acampamento cansados, mas com muita energia e expectativa pelo dia seguinte, mais um dia inteiro caminhando pelo topo do Roraima.

Achei que esse relato caberia em 2 posts, mas acabei me estendendo um pouco… termina na parte 3, até lá!





Monte Roraima (parte 1)

18 10 2020

Essa foi uma das trilhas mais fantásticas que fiz até hoje. 8 dias de caminhada, cerca de 11 km por dia em média, na tríplice fronteira Brasil-Venezuela-Guiana, com algumas das paisagens mais diferentes e deslumbrantes que já vi pessoalmente. Fui no Carnaval de 2011, e gostaria muito de voltar lá no futuro. O lugar é um dos poucos no planeta em que quase não há intervenção humana, tudo em um meio natural de beleza exuberante e impressionante. A geografia do local permitiu existir ali um certo isolamento do resto do mundo, o que proporcionou que algumas espécies da fauna e flora sejam endêmicas, ou seja, só existem lá e em nenhum outro lugar do mundo. É indescritível a sensação de ver o imenso paredão se aproximando, e no dia seguinte estar andando sobre uma das montanhas mais antigas da Terra. Essa montanha inclusive inspirou Sir Arthur Conan Doyle (o criador de Sherlock Holmes) a escrever seu romance O Mundo Perdido, onde uma expedição alcança um platô no meio da selva onde ainda existem dinossauros e espécies pré-históricas. Felizmente, essa parte é ficção, ou então eles se escondem muito bem…

No alto do Roraima, com seu “irmão” Kukenán ao fundo

O Monte Roraima é um platô (uma elevação, tipo um planalto no alto de um “paredão” de rocha) de mais de 30km2 de área, cerca de 1000 metros de altura e 2800 de altitude, uma área imensa para explorar. O ponto de “subida” é pelo lado venezuelano, e é possível acampar lá em cima por vários dias, em locais diferentes, de acordo com o que se programar para visitar.

A primeira coisa para uma expedição desse formato é o planejamento. Fui com uma amiga, Fabiana, e fizemos contato diretamente com um operador local, a Roraima Mystic Tours. O serviço foi excelente, embora mais recentemente vi alguns relatos de problemas com essa operadora. As operadoras brasileiras são no geral mais caras, precisam contar com algum suporte local, e no final das contas, acho que as empresas locais sempre merecem o nosso apoio, em qualquer lugar. Claro que é uma decisão pessoal, há questões de confiança, de comodidade envolvidas, etc. Por conta de problemas na economia da Venezuela, não era possível na época fazermos transferência para a reserva, a reserva foi feita “na confiança” por parte do operador local. Outra coisa importante de se decidir é que época ir. Pelo clima do local, lá chove. Sempre. Não tem muito como escapar disso. Consta, conforme nos disseram à época, que fevereiro é das épocas com menos chuva, por isso acho que o Carnaval é uma boa escolha.

Escolhemos fazer o pacote de 8 dias, sendo 2 dias de caminhada até a base do monte, subida do monte no terceiro dia, 3 noites acampando lá em cima, mais dois dias de caminhada de volta. Das coisas que vimos e que deixamos de ver, acho que 3 noites/4 dias lá em cima seria o mínimo para valer o esforço. De novo, é uma opinião pessoal.

A logística para se chegar até lá também demanda preparação, e pode ser considerado o início da aventura… Pegamos um avião em São Paulo, conexão em Manaus e descemos em Boa Vista. Pelos poucos horários de voo, chegamos em Boa Vista no início da madrugada, fomos direto para o hotel (Uiramutam Palace), para sairmos pela manhã. Na manhã seguinte fomos até a rodoviária da cidade e pegamos um táxi para nos levar até a fronteira, que fica na cidade de Pacaraima. Os taxistas de Boa Vista não tinham autorização para ir para a Venezuela, então fizemos esse trecho de pouco mais de 200km nesse táxi. Fui surpreendido positivamente pelo estado da rodovia, meus conceitos pré-estabelecidos esperavam uma estrada de terra, ou esburacada, mas é na verdade uma pista simples, mas (na época, 2011) bem cuidada, então a viagem correu sem percalços. Chegando em Pacaraima, fiz pela primeira vez na vida um cruzamento de fronteira à pé. Primeiro passamos na Polícia Federal, carimbamos os passaportes, aí caminhamos até o outro lado da fronteira, para o posto venezuelano.

Mochileiro na fronteira

Do lado venezuelano, novo carimbo no passaporte, e ficamos esperando por algum carro para nos levar até Santa Elena de Uiarén, a primeira cidade do lado de lá. Lá chegando fomos direto à agência Mystic Tours para fazer o acerto. Fomos orientados pela agência a trocar o dinheiro numa determinada rua (não nas casas de câmbio, pois as taxas eram irreais), mas para tomar cuidado, nos deram direitinho a taxa que deveríamos negociar. O dinheiro (bolivares) já estava extremamente desvalorizado, e acho que deve ter piorado bastante. O nosso pacote completo (guias, carregadores, todas as refeições, barracas, etc) saiu na época por menos de R$ 800.

No início da noite tivemos o briefing na agência para explicar como seria a expedição. Tínhamos a opção de contratar um carregador extra para nossa própria mochila (além dos carregadores que iam levar todo o equipamento e comida para todo o grupo), mas decidimos encarar sem (eu com 17 kg e Fabiana com 12 kg de mochila). Conhecemos também o resto do grupo, todos brasileiros: Tania com seu filho Khalil, Emerson amigo deles, todos de São Paulo, e Marcela e Thiago, de Boa Vista. Como sempre acontece em viagens desse tipo, um pessoal super alto astral, super gente boa, demos realmente muita sorte com o grupo. Dormimos no Hotel Michelle, indicado pela agência. Bem simples, mas com água quente, serviu bem.

Dia seguinte, turma cheia de energia, fomos levados de carro até o local de início da trilha, em Paraitepuy. O primeiro dia são 16km de caminhada quase tudo plano, e fizemos acampamento no Rio Kukenan, já com uma vista para o Monte Roraima, ainda longe. Esse ponto é o último lugar onde é possível comprar cerveja (quente!), em um pequeno quiosque mantido pelos índios, o último sinal de civilização… rs Tive que tomar uma lata ao menos. Ao montar acampamento, tempo para o banho, no rio.

Local de acampamento no Rio Kukenán
No acampamento, já com vista para o Roraima e o Kukenán

No dia seguinte, atravessamos o rio (água pelas canelas) e seguimos por mais 7km até a base da montanha. Já é um dia com bastante subida, uma bela variação de altitude, e vendo a aproximação do nosso alvo, o imenso paredão ficando cada vez maior. Tivemos sorte de não pegarmos chuva, apenas uma garoa refrescante nesses primeiros dois dias de caminhada. Bastante calor, bastante cansaço, mas com uma energia indescritível para nos prepararmos para o próximo dia, finalmente a subida ao topo.

Acampamento no pé do Roraima (à direita), e a vista para o Kukenán (ao fundo)
Vista do Monte Roraima a partir do acampamento
As nuvens ficam permanentemente cobrindo e descobrindo a montanha

Segunda noite de acampamento, mais um dia com banho de rio antes de dormir, da água que corre lá de cima do paredão. A sensação de superação e de contato total com a Natureza são coisas que me movem a fazer viagens como essa. Às vezes as pessoas veem as fotos, ouvem meus relatos e não entendem o que me move. Não sei se há explicação, mas realmente é uma parte da vida sem a qual eu não conseguiria passar, eu acho.

Gostou do relato até aqui? A parte da subida ao topo e os 3 dias de exploração lá em cima ficam para o próximo post, aguarde!

Continua no post Monte Roraima (parte 2).





Causos de viagem – parte 2

11 10 2020

As viagens trazem experiências inesquecíveis, por motivos bons ou ruins, mas sempre rendem boas estórias e risadas… essa série de posts iniciou com a parte 1, e segue por aqui…

Controle de Imigração em Abu Dhabi, Emirados Árabes Unidos

Na viagem de volta do Nepal (outubro de 2014), tivemos que fazer uma parada de 14hs em Abu Dhabi. O avião estava cheio de nepaleses que estavam indo para lá trabalhar na construção civil e outros empregos de baixa qualificação. Ficamos numa fila com esses outros passageiros, para fazer identificação biométrica pela íris. O oficial da imigração, trajando a Kandora, aquela roupa branquíssima típica da região, estava sendo ríspido, falando em inglês: “Here!” (aqui!), “Where are you from?” (de onde você é?), “Next!” (próximo), para cada um que passava pelo procedimento. Um deles ficou ali ao lado após passar, provavelmente esperando por um amigo que ainda estava na fila, e foi enxotado: “Go, go! Don’t stay here!” (Vá, vá, não fique aqui não!). Aí chegou a minha vez: “De onde você é?”, “Brasil”. Nesse momento, abriu um sorriso na cara do oficial: “Brasil? Germany’s beaten you so hard, hum?” (Brasil? A Alemanha bateu forte em vocês, hein?), me sacaneando pelos 7×1 da Copa que tinha sido no Brasil. “Don’t mention it” (Nem fale nisso), respondi. Custava ele ser grosso e ríspido comigo, igual era com os nepaleses?

Garçom explicando nomes em espanhol em Sevilha, Espanha

Ao sentarmos para almoçar em Sevilha, havia um item no cardápio que nos chamou a atenção: Cola de Toro. Não sabia o que era cola, então fomos perguntar ao garçom. Ele falou que era a cola do touro, a cola! Continuamos sem entender. Como o problema era a tradução, lá veio a mímica: ele colocou a mão pra trás, grudada na bunda e balançando: “La cola!”. Aí entendemos, cola é cauda, rabo. Inevitável, começamos a dar risada. Em tempo: Acabamos pedindo o tal prato, e gostamos, o gosto se aproxima muito da costela.

Menina sueca tentando conversar (em sueco) comigo em Estocolmo

No geral as crianças têm muita curiosidade com relação a estrangeiros. Estava em um parque em Estocolmo, descansando da caminhada. Uma menina se aproxima, fica me olhando. Sete ou oito anos no máximo, cabelos e olhos escuros(fora do estereótipo sueco, portanto). Arrisco:

“Olá!”
“Olá!”, ela responde.
“Speak english?”
“No!”, com cara séria.
“Habla español?”, arrisquei, já que ela havia respondido ao meu “Olá!”.

A resposta veio em um sueco impecavelmente ininteligível para mim. Aí eu mandei: “Svenska?(Sueco?)”, gastando o sueco que não tinha (aliás, não tenho!). Os olhos dela brilharam e balançou afirmativamente a cabeça, achando que iria rolar uma conversa. Ergui os ombros dizendo “Sorry”, que dó. Ela murchou, deu de costas e foi fazer outra coisa…
Quer ser simpático sempre, às vezes não dá mesmo…





O dilema das redes (documentário)

4 10 2020
(Foto: Freepik)

Nas últimas semanas um documentário lançado pela Netflix o documentário O dilema das redes (The social dilemma), que explica de maneira didática, literalmente desenhando a forma como as redes sociais se empenham em aumentar o tempo dos usuários em suas ferramentas, aumentar o chamado “engajamento” online. Quanto mais tempo o usuário fica online, mais ele é valioso para que possa ser alvo de propagandas (que é o que gera dinheiro para as plataformas), sugestões de conteúdo (para aumentar ainda mais o engajamento), alimentando e gerando lucros para o sistema.

Até mesmo por conta de trabalhar com tecnologia, eu sempre fui um dos primeiros a adotar as plataformas quando surgiam. Primeiro os comunicadores instantâneos, sendo o ICQ o primeiro de que me lembro, lá em 1997 ainda. Aí o Napster, plataforma usada para compartilhar músicas. Depois o Orkut, que trouxe a possibilidade até então inimaginável de ter ali, ao alcance de alguns cliques, contato com pessoas com as quais você não tinha tido contato por anos. Era como um grande álbum de todas as pessoas que haviam passado pela sua vida em algum momento, ali, na distância de um clicar do mouse.

Ao longo do tempo os aplicativos, as redes, tudo isso passou a ser parte da nossa vida, do nosso dia-a-dia, sem nem nos darmos conta acabamos nos esquecendo de como era a vida antes disso. O que não nos damos conta é a quantidade de tempo que ficamos online, e ainda, a quantidade de informações a nosso respeito que nosso comportamento online fornece às corporações. O que dá dinheiro para elas é a venda de anúncios direcionados para usuários com potencial de serem clientes de determinado anúncio, produto ou serviço. Nós, que nos cadastramos e utilizamos diariamente as redes sociais, somos o “produto” que eles vendem. E muitas vezes não nos damos conta disso. O filme mostra o esforço dos algoritmos (programas por detrás das redes) em nos manter o maior tempo possível online, enviado conteúdo que nos interessa, para que possamos estar mais tempo disponíveis aos anúncios.

Teoricamente, esse mecanismo foi criado para criar a “melhor experiência para o usuário”. Na prática, pode ser usado facilmente para manipulação de opiniões e comportamentos, e ainda abre uma porta gigante para a proliferação de notícias falsas (as já famosas fake news). Aí são dois problemas bem graves: são as empresas que decidem o que você vê, e isso favorece muito a concentração de informações em um determinado sentido, sejam elas verdadeiras ou não. Ou seja, antigamente, todas as informações que consumíamos vinham de fontes como jornais, revistas, veículos que – embora por vezes enviesados – tinham um compromisso mínimo com a verdade, com a credibilidade a ser mantida. Com o advento da Internet, e posteriormente das redes sociais, qualquer um pode escrever literalmente qualquer coisa e atingir um público potencialmente gigante. Sem controle, validação ou qualificação da informação. Imagina o poder do estrago disso quando falamos em milhões, centenas de milhões de pessoas lendo e repassando essas informações. “Ah, se está todo mundo falando, deve ser verdade!”. Aí começam a se difundir coisas absurdas, teorias conspiratórias, fatos históricos revisitados, tudo sem necessariamente comprovação, rigor científico ou jornalístico.

Interesses implícitos por trás de tudo que chega para você

E como as empresas podem se comprometer em combater isso? A informação é muito rápida, propaga-se exponencialmente e temos literalmente centenas de milhões de pessoas compartilhando conteúdo. Por minuto, em 2020, temos em média: cerca de 190 mil tweets, 350 mil stories no Instagram, 500 horas de vídeos novos no Youtube, e mais de 4 milhões de likes no Facebook. As empresas dizem estar aprimorando os algoritmos de forma a minimizar a propagação. Mas isso vai contra o seu própio faturamento, diminuindo o tempo que os usuários ficam online. Só o tempo dirá o que pode acontecer.

Um problema adicional é o de realmente criar uma dependência do usuário, o que pode ser potencialmente perigoso em especial para crianças. Já há estudos que mostram que as sensações no cérebro que ocorrem quando recebemos likes ou comentários positivos nas redes são equivalentes àquelas de quando se utilizam alguns tipos de drogas (notícia aqui).

Isso significa que as redes sociais são tudo de ruim? Não necessariamente. Tudo que é em excesso faz mal, já dizia a minha mãe. Particularmente acho importante que cada um entenda o que isso lhe traz de bom e de ruim, e tente equilibrar. No limite, podemos até descobrir que não precisamos das redes. Mas diminuir as notificações, evitar clicar muito nas sugestões, controlar o tempo que fica online, tanto o seu próprio quanto o das crianças, talvez seja fundamental. A vida offline tem seus encantos, afinal. ou não?

De qualquer forma, acho o documentário imperdível, vale a pena assistir para pensar a respeito. Um outro muito interessante que trata de um assunto correlato é o documentário Privacidade Hackeada (The great hack), também da Netflix, que trata de como as redes foram utilizadas para espalhar notícias falsas de forma a influenciar nas eleições presidenciais de 2016 nos Estados Unidos.

Enfim, são informações assustadoras, que nos dão margem para pensar bastante a respeito. Nem que seja para que continue usando as redes, mas ao menos agora entendendo melhor por onde estará navegando.