
Esse post é continuação do Monte Roraima (parte 1).
Ao terceiro dia de expedição, finalmente era a hora de subir a montanha. O paredão de centenas de metros, para o qual ficamos olhando de longe por dois dias, estava ali pertinho. O dia praticamente inteiro seria de subida (sem escalada) pela trilha na encosta da montanha. Uma coisa que nos chamava a atenção era a frequência com que a neblina cobria e descobria a montanha, e ao longo daquele dia (e dos próximos) sentiríamos aquilo bem de perto.
Como todos os dias, acordamos cedo, arrumamos as coisas, tomamos café da manhã e… começar a caminhar! Aliás, todas as refeições ficavam por conta dos carregadores, uma turma nota 1000, conforme pudemos constatar ao longo dos dias (mais detalhes à frente). Não tenho fotos dessa subida, porque foi o dia em que começamos a sentir na pele – literalmente – o clima da região. Choveu bastante, em praticamente toda a nossa subida. Vários momentos em que eu sentia a água escorrendo pelo pescoço, por dentro do anorak impermeável, descendo pelo corpo todo, molhando até as meias. É daqueles momentos em que você tem certeza de que gosta desse tipo de passeio, ou não. No meu caso, só me dava vontade de continuar caminhando e chegar ao topo. Vinha água do céu, escorria pela lateral da montanha, formando pequenas cascatas, vinha pela lateral quando ventava, enfim, de todos os lados.
Ao terminar a subida fomos premiados por um tempo melhor, com neblina mas sem chuva. A sensação de chegar lá em cima é indescritível. Logo na subida já vimos um helicóptero caído. Explico: qualquer resgate que tenha que ocorrer na região tem que ser feito de helicóptero. Alguns dias antes da nossa chegada um turista havia se acidentado no final da subida, e para seu resgate chamaram o helicóptero. Consta que o piloto oficial estava ausente no dia, e mandaram o reserva. A aproximação do topo é crítica por conta da neblina e ventos. Resultado, o helicóptero caiu e ficaram os dois (turista e piloto) aguardando o próximo. Ficamos sabendo que além daquele haviam mais dois abandonados lá em cima, um do exército brasileiro, e outro da Rede Globo, que caiu com o então apresentador do “Globo Ecologia”, Danton Melo, em 1998. Melhor mesmo é ir caminhando, e não precisar de resgate… Pelo sim, pelo não, eu particularmente havia contratado um seguro viagem que cobria o resgate de helicóptero, pelo qual sem o seguro seriam necessários uns R$ 2 mil, na época.


Uma vez lá em cima, seguimos caminhando até nosso ponto de acampamento. E a lógica é a seguinte: quem chega primeiro pega os melhores locais. Na medida em que acampamentos vão sendo desmontados e liberados, os guias comunicam-se entre si. Dessa forma, se seus guias são bem relacionados entre os pares, boas chances de conseguir um bom acampamento. Caso contrário… Felizmente, nossos guias eram bem relacionados e conseguimos (segundo nos disseram) um dos melhores pontos, na encosta de uma das formações rochosas lá em cima. Com mais de 30km2 de área, tem bastante lugar para acampar…


O visual lá em cima por onde caminhamos é bem diferente da chamada “savana” por onde havíamos passado nos dias anteriores. Muita rocha vulcânica, escura, e vegetação rala. Conforme falei anteriormente, algumas plantas e animais são endêmicos, ou seja, só existem lá em cima e em nenhum outro lugar do mundo. Um famoso habitante que encontramos logo no primeiro dia foi o “sapinho do Roraima” (Oreophrynella quelchii), um sapo pequeno (veja foto) que não salta, e faz a alegria dos turistas para fotos.



Chegamos no local de acampamento no final da tarde (alguns guias já vão na frente para garantir e montar o acampamento), com a proteção parcial de formações rochosas, de frente para o Maverick (ponto mais alto do Roraima) e com a vista para várias pequenas lagoas onde seria o local do banho para aquela noite.



Uma vez acampados lá em cima, íamos passar 3 noites. Poderíamos manter o mesmo acampamento ou ir para outros lugares, dependendo do que preferiríamos explorar. Optamos por permanecer no mesmo local de acampamento por todas as noites. Uma coisa curiosa a respeito dessa viagem: para usar o banheiro, nos acampamentos são feitos buracos e depois tampados. No topo isso não é possível por ser tudo de rocha, então é necessário usar sacos (adaptados numa cadeira de plástico furada), juntar cal e fechar o saco, que vai ser levado embora pelos carregadores. Nada pode ser deixado lá em cima…
No primeiro dia explorando o topo, fomos para o chamado Vale dos Cristais, onde o chão é coberto por – adivinhe! – cristais, passamos no marco da Tríplice Fronteira (Brasil, Guiana e Venezuela), e terminamos o dia no chamado “El foso”, um lago com uma pequena cascata. Local de banho, que pode ser acessado pela forma rápida (pulando lá de cima) ou lenta (dando a volta e entrando por baixo. Eu optei pela forma lenta, não estava com pressa… E ao longo do caminho visuais incríveis com formas esculpidas pela natureza ao longo dos anos que nos fazem imaginar animais, figuras humanas ou quaisquer outras que a imaginação permitir.








dar a volta para o banho lá embaixo

Nesse dia pegamos um pouco de chuva ao longo das caminhadas, mas nada que atrapalhasse muito. Voltamos ao acampamento cansados, mas com muita energia e expectativa pelo dia seguinte, mais um dia inteiro caminhando pelo topo do Roraima.
Achei que esse relato caberia em 2 posts, mas acabei me estendendo um pouco… termina na parte 3, até lá!










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