Que horas ela volta? (Filme – 2015)

31 07 2022

Esse é um daqueles filmes que julgo extremamente necessários, em especial pela mensagem que traz, não sem citar as brilhantes atuações do elenco. Bastante premiado no Brasil e fora dele (Sundance e Berlim), mostra um tema que os brasileiros em geral gostam de ignorar ou minimizar: diferença social e luta de classes. Com nossa sociedade construída numa base escravocrata, ainda hoje permeia – de forma às vezes mais velada, às vezes menos – o conceito de que há classes mais favorecidas que merecem ser servidas pelas classes menos favorecidas. E qualquer tentativa de movimento no sentido contrário, de que alguém tente ocupar um espaço que em princípio não seria o seu, é visto como um ultraje, uma afronta, uma tentativa pueril de se imaginar num mundo utópico onde todos podem ter as mesmas oportunidades e ocupar os mesmos espaços.

A estória começa mostrando a vida da Val, uma empregada doméstica nordestina que mora na casa dos patrões em São Paulo, é considerada “parte da família”, inclusive criando um laço afetivo quase maternal com o filho do casal, Fabinho. Laço esse bem maior do que ele aparenta ter com a própria mãe, por exemplo. Tudo na mais perfeita ordem, todos felizes, em seus respectivos lugares e papéis que lhe são designados. Até que aparece a filha da Val, Jéssica, que foi criada por uma parente lá no Nordeste, para prestar vestibular em São Paulo. E a diferença entre a filha e a mãe começam a aparecer logo que a menina chega. Val havia pedido permissão para a patroa, Dona Bárbara, para que a menina ficasse com ela, no quartinho de empregada, por um período curto de tempo, até o vestibular. “Claro, você é família, imagina!”. Só que a noção de “fazer parte da família” da mãe e da filha mostram-se muito diferentes. A menina pede pra ficar no quarto de hóspedes, que está vazio, cria um constrangimento que incomoda muito mais a própria mãe do que a patroa, que também fica incomodada mas acaba cedendo, na verdade muito mais pela intervenção do marido (que se mostra encantado com a moça, aliás). A menina também fica bem à vontade para circular na casa, comer as coisas que estão na geladeira (“Menina, esse sorvete não, esse é de Fabinho!” a mãe a repreende mais de uma vez). O maior desconforto acontece pelo fato de Fabinho e Jéssica serem aproximadamente da mesma faixa etária, e estarem ambos prestando o vestibular.

Ao longo do desenrolar da estória, aparecem as opiniões conflitantes e incompatíveis de Jéssica e Val, pelas oportunidades e principalmente espaços que a filha acredita poder ocupar, e que não fazem sentido para o universo da mãe, para seu modo de entender a vida e o mundo. O ápice, pode-se dizer, é quando a menina é aprovada no vestibular, e Fabinho não. Aparecem então o desconforto (velado) da mãe do menino com a situação, e os sentimentos contraditórios da Val, feliz pela filha que mal conhece e triste pelo filho da patroa, que trata como seu próprio filho. O filme é tocante, sensível e como eu disse no início, acredito ser necessário por trazer esse tipo de reflexão entre diferenças de classe, o que entendemos como sociedade, e – principalmente – o que esperamos que possa ser melhorado enquanto sociedade.

A questão da mobilidade social ser extremamente difícil é um problema que no Brasil é maior do que na maioria dos países. Um estudo da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) de 2018 mostra que no nosso país em média são necessárias 9 gerações para que descendentes de uma família de baixa renda alcançar a renda média da população. Exemplificando, em valores de hoje, uma pessoa é considerada de baixa renda se a renda por pessoa da família é menor do que R$ 600 aproximadamente. E a família de renda média seria aquela com rendimento por pessoa de aproximadamente R$1400. O que a pesquisa afirma é que se alguém nasce em uma família de baixa renda, somente os netos dos netos dos netos dessas pessoas da família de baixa renda (9 gerações, portanto) alcançariam o patamar daqueles que nasceram em uma família de renda média. Isso é uma média, obviamente que existem exceções, mas essa é a regra. Parece assustador, não? Na Dinamarca, essa mesma média é de duas gerações, e nos Estados Unidos, “terra das oportunidades”, quatro gerações, ainda segundo a mesma pesquisa. Algo está errado, pelo menos eu acho…

O filme está atualmente (jul/22) disponível no Globoplay e na Netflix, além de poder ser alugado ou comprado em plataformas como Google Play Movies e Apple iTunes. Recomendo!





Hibernação

24 07 2022

Hibernação. Segundo o dicionário, “Estado de inatividade com diminuição do metabolismo de certos animais durante o inverno, período em que suas reservas de alimentação são utilizadas.”. Período em que alguns animais praticamente “desligam” a maior parte das atividades corporais para poderem sobreviver durante um período de privação de alimentos, notadamente o inverno. E quando se fala de hibernar, normalmente o que nos vem à mente são os ursos…

Urso polar hibernando. Foto: Coffeemill / Shutterstock.com

Esse pode ser considerado o estado desse blog. Voltando para dar notícias após 273 dias, praticamente 9 meses inteiros em estado de dormência, como que economizando energia, juntando forças para um eventual retorno após o “inverno”. Tudo bem que nesse caso o tal inverno começou na primavera e atravessou um verão e um outono inteiros, mas acredito que consegui passar a ideia da metáfora. Ao menos espero ter conseguido.

Nesses últimos tempos, na verdade desde meu aniversário de 45 anos em novembro passado, acabei por deixar um pouco de lado esse espaço em detrimento de outras prioridades, como o trabalho, família, estudar e ler sobre coisas diferentes, terminar uma pós graduação e começar a pensar em seguir uma segunda carreira paralela, ideia que brotou no ano passado e sobre a qual ainda pretendo falar em breve, depois de amadurecer um pouco mais as coisas.

Mas o fato é que esse espaço nunca foi encarado por mim como obrigação, era muito mais um espaço de prazer que pretendo retomar, provavelmente com a frequência semanal que consegui manter no primeiro ano dele, vamos ver como as coisas irão evoluir daqui em diante.

Espero poder continuar com esse espaço e com a presença de vocês, que ainda se dão ao trabalho de vir aqui para saber no que ando pensando… agradeço por ter lido até aqui, aguardem os próximos posts…