Meritocracia. Segundo o dicionário, significa “Forma de administração cujos cargos são conquistados segundo o merecimento, em que há o predomínio do conhecimento e da competência”.
Parece um belo conceito, justo, segundo o qual quem merece mais, recebe mais. Seja na vida, seja na escola, seja no trabalho. Fez por merecer, levou. Não conseguiu? Então não se esforçou o suficiente. Mais justo, impossível. Isso seria verdade, ou poderia ser verdade, se as condições iniciais dadas a todos fossem rigorosamente iguais. Será que são?
Fazia bastante tempo que eu estava pensando em escrever algo a respeito. O que me levou a escrever agora foi um fato que ocorreu há algumas semanas. Em um grupo de WhatsApp do qual faço parte alguém chamou a atenção para uma matéria: “Estudante rejeita herança de R$ 22 bilhões: ‘Não poderia ser feliz'”. O que me chocou foram os comentários no grupo: “Que estúpida!”, “Pega o dinheiro e gasta, faz qualquer coisa, monta um museu…”. Fui ler a matéria.
Resumidamente, uma moça rejeitou uma fortuna que a avó desejava deixar para ela, porque ela disse que não poderia receber tamanha quantidade de dinheiro, não se sentia confortável por não ter feito nada para “merecer”, apenas pelo fato de ter nascido numa família bilionária. A moça não fez voto de pobreza, veja bem, ela tem bastante dinheiro, vive uma vida extremamente confortável, e teria abdicado de “apenas” 90% da herança equivalente a R$22 bilhões, ou seja, ainda aceitaria receber cerca de R$ 2.2 bilhões. Por uma questão de MERECIMENTO, ou MÉRITO, do ponto de vista dela, ela não merecia aquele dinheiro. A moça, ainda segundo a mesma matéria, faz parte de um grupo organizado de herdeiros multimilionários que defendem o aumento de impostos para os mais ricos, e me pareceu uma pessoa preocupada com a desigualdade entre as pessoas na sociedade.
Aquilo me pareceu uma questão de visão de mundo com a qual não estamos acostumados a conviver. A nossa sociedade nos acostuma a ver o acúmulo de dinheiro e de bens como um objetivo de todos, para muito além das nossas necessidades. Ao longo do tempo, foi se formando um abismo social, onde as pessoas que possuem muito dinheiro tem mais facilidade para conseguir mais e mais dinheiro, enquanto a imensa maioria das pessoas que têm pouco ou quase nada não têm nenhuma facilidade ou oportunidade para progredir, por mais que se esforcem. Esse estudo da OCDE (Organização pela Cooperação e Desenvolvimento Econômico) mostra que uma família que está entre os 10% mais pobres demora 5 gerações em média para atingir o nível das mais ricas. Ou seja, se você nasce pobre e você, seu filho, seu neto, seu bisneto, seu trineto e seu tataraneto se esforçarem, o filho do seu tataraneto pode nascer em uma família entre as mais ricas. Note que isso é uma média, então, para cada exceção que consegue antecipar várias gerações, há outros tantos que demoram bem mais… O país onde esse tempo é menor é a Dinamarca, onde se levam 2 gerações em média. No Brasil, levam-se 9 gerações. Nos Estados Unidos, “terra das oportunidades”, 5 gerações.
Isto posto, será que realmente faz sentido falar em meritocracia? Nós, enquanto sociedade, estamos fazendo algo para dar condições mínimas de igualdade? Podemos fazer muito nesse sentido, mas aqueles que detêm o poder não fazem, não se interessam por isso. Fico muito incomodado com análises simplistas como aquelas que em geral aparecem nos grupos de WhatsApp, como foi o caso que contei. Eu acabei me lembrando de uma história em quadrinhos (tradução retirada daqui) que reproduzo abaixo:
Vejam bem, nada contra as pessoas que aproveitam as oportunidades, que batalham, que conquistam espaços que em tese poderiam ser de outros. O que incomoda é que pessoas que recebem privilégios, por quaisquer motivos, não enxerguem isso e achem que tudo foi por conta da tal da meritocracia…
Tendo passado mais de uma semana do falecimento de Jô Soares, agora já me sinto um pouco mais à vontade para escrever sobre ele. Não gosto de opinar sobre coisas quando todo mundo está falando a respeito, eu geralmente me sinto mais confortável depois de um certo distanciamento temporal, sei lá. Mesmo escrevendo aqui sem grandes pretensões, via de regra prefiro refletir um tanto antes de escrever.
O próprio Jô assinou uma “carta aberta” há alguns anos atrás como “Influenciador analógico”. Liberdade poética para o uso do “analógico” em contraposição ao “digital”, querendo dizer que era das antigas, não tinha redes sociais, e isso tem um significado bastante interessante, eu acho. Jô sempre foi conhecido e elogiado por ser alguém culto, antenado, inteligente, embora – não sei se muitos sabem – não ter nenhuma formação superior. Mas ele era um leitor ávido, um curioso sobre tudo, que ia atrás de se informar profundamente sobre qualquer assunto que lhe interessava. Poliglota, viajado, conhecia e sabia conversar e opinar, portanto, sobre vários e vários assuntos. Por que então ele se manteve “analógico”, há mais de 5 anos depois que seu programa saiu do ar, seguia escrevendo, produzindo, mas perdeu a visibilidade digamos assim, popular, que ele tinha?
Acredito que isso tenha a ver com o nosso mundo atual, dito “digital”. Nesse mundo a informação é rápida, fugaz, superficial, ninguém mais se interessa por entender algo em profundidade, qualquer pessoa sem nenhuma bagagem – e aqui nem restrinjo à bagagem acadêmica – consegue ter uma visibilidade, milhões e milhões de seguidores, tornar-se “influenciador” e muitas vezes propagar desinformação, bobagens, e conseguir ganhar um espaço e relevância que seriam impensáveis em outros tempos. Vídeos e podcasts que podem ser acelerados para ganhar tempo, tornando qualquer um “especialista” em qualquer assunto em pouco tempo. Conteúdo não vende, o que vende é praticidade, velocidade, tempo… Não há mais espaço, hoje, para uma conversa mais profunda, embasada, essa geração já foi, ficou no passado, nos primeiros anos do século… A era da informação imediata nos trouxe acesso praticamente ilimitado a todo o conhecimento gerado no mundo ao longo de séculos, e isso seria potencialmente transformador para que as pessoas – e a sociedade como um todo, em consequência – ficassem mais cultas, com mais sabedoria, certo? Mas não foi isso que aconteceu, muito pelo contrário… Não há mais espaço para pessoas como Jô Soares, um “exibido assumido”, como ele próprio dizia, cujas conversas e intervenções não caberiam num “fio” de Twitter, num vídeo curto do TikTok, YouTube ou Instagram… O formato hoje limita, pede pelo “empacotamento” e pela velocidade, e a superficialidade como consequência. Hoje é isso que vende, e quem quer ou precisa vender precisa fazer nesse formato, dessa maneira…
O mundo de hoje está melhor por conta disso? Eu particularmente acredito que não… Tive o privilégio de conviver com meu avô, um exemplo de cultura geral e bagagem de conhecimento como poucos, e de certa forma minha formação enquanto ser humano foi bastante impactada por isso. Hoje vejo pessoas terminando o curso superior – o que em tese lhes colocaria no nível da elite intelectual do país – que não leem, não se informam ou não se preocupam em se informar, selecionam somente as informações que lhes chegam pelas redes sociais – cujos algoritmos não primam nem um pouco pela pluralidade de fontes, muito pelo contrário, criam bolhas – e vão formando assim a nossa sociedade dita “digital”.
Paradoxalmente, esse mundo não precisa dos velhos influenciadores “analógicos”, com conteúdo, ao mesmo tempo que nunca tivemos tanta necessidade deles, na minha opinião. O mundo precisa de novos Jô Soares, mas não damos espaço a eles…
Terminei há alguns dias a leitura desse livro. É interessante ler algo que nos leva para algo completamente distante, alheio do nosso dia-a-dia e da nossa realidade. No caso, para a realidade histórica da Europa do século XIX, o último século das grandes monarquias e impérios. Conhecia muito pouco sobre a vida dela, menos ainda do que sabia sobre o Império Austro-Húngaro. A autora, Allison Pataki, escritora de romances históricos, tem um cuidado enorme em mesclar pitadas de ficção sem fugir dos registros históricos, e inclusive ao final do livro ela cita todos os registros históricos das situações em que foi fiel à realidade. Como boa parte do livro é narrado pela própria imperatriz, obviamente não haveriam registros de seus pensamentos, é a parte onde a licença poética pode atuar. E na minha opinião, atua muito bem, nos aproximando com muita empatia dessa personagem histórica.
Sissi, a imperatriz Elisabeth, era um símbolo máximo da beleza, do luxo e do poder da realeza. Mas na sua intimidade passou boa parte da vida sozinha, refém da sua posição e das obrigações que vinham dela. Casou-se cedo, aos 16 com o já imperador Franz Joseph, de 23, da família dos Hasburgos, a então mais poderosa e tradicional das famílias reais europeias. O imperador estava prometido para a irmã mais velha de Sissi, mas ficou realmente apaixonado pela bela irmã mais nova quando as conheceu, e acabou casando-se com ela. Após tornar-se imperatriz, numa posição de alto poder e influência, sofre muito com a rigidez imposta principalmente pela sua sogra, mãe do imperador. Teve quatro filhos, três meninas e um menino: Teve duas filhas meninas (uma morreu criança ainda) antes de ter o tão desejado príncipe herdeiro, todos os três criados praticamente à sua revelia pela sogra, que a considerava imatura para ser mãe. Somente com sua caçula, que nasceu após o menino, conseguiu conviver e participar de sua criação. Foi se afastando do marido, procurando sempre viajar para lugares diferentes, onde pudesse minimamente sair dos protocolos da corte e eventualmente interagir com plebeus, viver mais livremente e mais feliz. Era muito criticada pela sociedade e pela imprensa por ser tão “independente” e distante de seu marido, mesmo estando com ele quando as obrigações importantes lhe exigiam. Ela teve participação importante na pacificação com os húngaros, em um momento em que a Europa inteira era uma panela de pressão por conta de guerras, intrigas e revoluções que pululavam para desespero dos monarcas de então. Ao longo da vida ela e o imperador acabaram se tornando muito mais parceiros protocolares com respeito mútuo do que marido e mulher. Perderam o filho herdeiro, já adulto, de forma trágica, tragédia essa que além de ter marcado a família, acabou criando situações sucessórias que algumas décadas depois desencadearam no estopim para a I Guerra mundial, com o assassinato do então herdeiro Franz Ferdinand em Sarajevo, que só era herdeiro por conta da morte do primo, filho de Franz Joseph e Sissi.
O que me chama muita atenção na história é a forma como ela conseguiu, naquele momento histórico onde as mulheres eram relegadas a posições sem importância, de certa forma sair do lugar comum de esposa submissa aos caprichos e desejos do marido, e até em certo grau um nível de independência dentro do possível. Sofreu bastante por isso, foi muito criticada e agredida pelas posições que tomava. Mesmo assim, era um modelo de referência de beleza e comportamento que acabava ditando modas em toda a Europa do século XIX. Dentro do contexto histórico e mesmo pessoal – ela se casou ainda adolescente -, pode-se dizer que ali foi forjada uma mulher à frente do seu tempo.
O livro está disponível nesse link da Amazon, em versão impressa ou Kindle. Para quem gosta de História, e gosta de uma boa narrativa, recomendo.
Hibernação. Segundo o dicionário, “Estado de inatividade com diminuição do metabolismo de certos animais durante o inverno, período em que suas reservas de alimentação são utilizadas.”. Período em que alguns animais praticamente “desligam” a maior parte das atividades corporais para poderem sobreviver durante um período de privação de alimentos, notadamente o inverno. E quando se fala de hibernar, normalmente o que nos vem à mente são os ursos…
Esse pode ser considerado o estado desse blog. Voltando para dar notícias após 273 dias, praticamente 9 meses inteiros em estado de dormência, como que economizando energia, juntando forças para um eventual retorno após o “inverno”. Tudo bem que nesse caso o tal inverno começou na primavera e atravessou um verão e um outono inteiros, mas acredito que consegui passar a ideia da metáfora. Ao menos espero ter conseguido.
Nesses últimos tempos, na verdade desde meu aniversário de 45 anos em novembro passado, acabei por deixar um pouco de lado esse espaço em detrimento de outras prioridades, como o trabalho, família, estudar e ler sobre coisas diferentes, terminar uma pós graduação e começar a pensar em seguir uma segunda carreira paralela, ideia que brotou no ano passado e sobre a qual ainda pretendo falar em breve, depois de amadurecer um pouco mais as coisas.
Mas o fato é que esse espaço nunca foi encarado por mim como obrigação, era muito mais um espaço de prazer que pretendo retomar, provavelmente com a frequência semanal que consegui manter no primeiro ano dele, vamos ver como as coisas irão evoluir daqui em diante.
Espero poder continuar com esse espaço e com a presença de vocês, que ainda se dão ao trabalho de vir aqui para saber no que ando pensando… agradeço por ter lido até aqui, aguardem os próximos posts…
De todas as trilhas e travessias que fiz, no Brasil e fora, essa é uma cujas lembranças guardo com um carinho especial. Era 2009, estava em um momento de indefinições na minha vida pessoal e profissional, e nesses momentos, ao menos para mim, não há nada melhor do que ir pro meio do mato, subir umas montanhas, desconectar-se do cotidiano e alinhar as próprias energias para seguir em frente.
No meio da trilha, com o “cajado” arrumado ali mesmo…
A forma como decidi fazer essa trilha foi inusitada… eu tinha férias marcadas, e pela primeira vez na vida (e arrisco dizer que talvez seja a única até hoje) eu não tinha nada programado. Aí acabou me chegando um anúncio via e-mail de fazer essa trilha no feriadão de 9 de julho. Mandei um e-mail pedindo a vaga, e para meu espanto recebi uma ligação algum tempo depois, do dono da agência que estava organizando a trilha: “Você quer fazer a Serra Fina? Quais travessias você já fez?”. Respondi que já tinha feito a Trilha Inca Clássica, a travessia Petrópolis-Teresópolis na Serra dos Órgãos, a antiga trilha do ouro (São José do Barreiro – Paraty), e algumas menores. “Ah, então você já pode fazer a Serra Fina!”, ele respondeu. “E digo mais: depois dessa, Brasil acabou pra você, vai ter que buscar mais coisas fora!”. Achei uma abordagem peculiar, para dizer o mínimo… Mas, como fui “aprovado”, ‘bora pra trilha!
A trilha se inicia na cidade de Passa Quarto, em Minas Gerais, na divisa com São Paulo e Rio. Saindo da cidade de São Paulo, segue pela Dutra, pega a estrada para Cruzeiro (ainda em SP) e depois chega-se a Passa Quatro. Fui na véspera, o pacote incluía a primeira noite na pousada na cidade, e as três seguintes na montanha, no meio da trilha. Uma das coisas que mais gosto nesse tipo de viagem é justamente o tipo de gente que você encontra, no geral um pessoal com uma energia muito boa, um pessoal que topa qualquer coisa, e acabamos fazendo boas amizades, para futuras viagens e para a vida, mesmo. No caso, na nossa turma havia um rapaz do Acre, um do Rio Grande do Sul, três meninas de São Paulo, um rapaz de São Paulo e um gaúcho morador de São Bernardo. É muito interessante conhecer pessoas nessa situação, pessoas de bem com a vida, dispostas a compartilhar experiências, a conviver de maneira intensa e próxima à natureza por alguns dias.
Comecei a entender ali o porquê de aquela trilha ser considerada pesada, o que justificaria a abordagem seletiva do rapaz da agência: é uma trilha relativamente pesada, comparável com várias outras no Brasil, mas com um agravante que há longos trechos onde não há como conseguir água, então durante boa parte precisamos carregar toda a água necessária para os dois primeiros dias de caminhada (isso inclui para beber, cozinhar e lavar utensílios, além da higiene básica). A trilha inclui passagem por 3 dos picos mais altos do Brasil: Pedra da Mina, Pico do Capim Amarelo e o Pico dos Três Estados. Cada um tem que levar toda a sua bagagem (incluindo o saco de dormir) e bastante água para ser usada pelo grupo ao longo dos dias. A logística também é bem interessante, os guias costumavam deixar lá nos pontos de acampamento alguns mantimentos armazenados e alguns utensílios básicos, para não terem que ficar carregando lá pra cima toda vez que levassem um grupo. Bom, na manhã seguinte à nossa chegada, conhecemos o nosso guia Rodolfo e sua equipe. Mochila nas costas com somente as coisas indispensáveis no alto da montanha (o que não é pouco!), saímos para subir a montanha.
Última foto com o boné que “o vento levou”, literalmente.
No primeiro dia, subida até o Pico do Capim Amarelo, onde encontramos outros grupos. Seguimos por várias encostas com vistas maravilhosas do vale e da cidade de Cruzeiro ao longe. Muito vento, de cerca de 30 km/h, que foi quando perdi meu boné, que hoje descansa na montanha… Abastecemos de água no último ponto possível antes da Pedra da Mina (que só alcançaríamos no dia seguinte), cada um levando cerca de 4 litros na mochila. Muito companheirismo na caminhada, o pessoal ia se conhecendo, as refeições eram uma curtição à parte: macarronada na primeira noite, quando acampamos praticamente sozinhos no chamado “Maracanã”. Depois ficamos sabendo que todos os outros grupos abortaram a subida para a Pedra da Mina e voltaram pra cidade, por conta do mau tempo que se desenhava. Mas lá estávamos nós, prontos para prosseguir no segundo dia.
Vista da cidade de Cruzeiro
Parada para descanso da galera no primeiro dia
Na subida do primeiro dia
Eu tenho poucas fotos dessa trilha, porque a partir da primeira noite passada no alto da montanha, o tempo ficou bastante ruim, com muito vento e um pouco de chuva, além do frio que já era esperado lá em cima. Na época as fotos eu tirava com uma câmera DSLR, que não suportava bem esse tipo de ambiente. Hoje em dia, com câmeras de celular, fica bem mais fácil…
Pôr-do-Sol visto do nosso acampamento no “Maracanã”
Nosso acampamento da primeira noite, no “Maracanã”
Guias arrumando as coisas para nosso jantar
Depois da primeira noite acampados, mal dormida e com muito, muito vento, seguimos até o pé do Pedra da Mina. Acampamos por lá para subirmos no dia seguinte. Dependendo do tempo, seguiríamos para o vale e depois ao Pico dos 3 Estados, ou abortaríamos, descendo da Pedra da Mina e voltando a Passa Quatro pela descida do Paiolinho. No jantar, arroz com farofa mineira, com bacon e linguiça defumada… 😛 Muita conversa, um tanto de pinga com mel só para aquecer, e vamos dormir… uma noite pior do que a anterior, com ventos que até chegaram a derrubar uma das barracas às 3 da manhã. No dia seguinte, tempo só piorando, ventos cada vez mais fortes e muita neblina. Na subida, os ventos estavam cada vez piores, cerca de 70 km/h, que nos derrubaram por várias vezes. As rajadas ainda traziam muita umidade, o que dava o efeito de uma chuva lateral bem forte, nos molhando bastante. Todos juntos, com muita determinação, conseguimos subir ao topo, ficamos muito pouco tempo lá em cima por conta do clima (frio e vento muito forte, anunciando chuva), e em seguida começamos a difícil descida pelo Paiolinho, abortando o resto da caminhada por conta da chuva forte que segundo o nosso guia, iria cair no final do dia. Ao final da descida, após mais de 6 horas praticamente ininterruptas de caminhada, uma miragem: um boteco com 4 frangos assados e muitas garrafas de cerveja… para a turma cansada, um verdadeiro banquete… E, com a sensação de um desafio vencido, apesar de não termos completado a travessia, voltamos à civilização.
Manhã no acampamento, muita neblina e animação do pessoal
Como sempre, deixei um totem de pedra na montanha
Foto clássica, “voando” na neblina
Tem lugar melhor pra se trocar uma ideia no final do dia?
Povo animado no acampamento, apontando para a Pedra da Mina, para onde iríamos na manhã seguinte
E realmente, naquela noite que acabamos passando na pousada (ao invés de ser nossa terceira noite na montanha conforme o programado), caiu uma tremenda chuva, como vi poucas vezes na vida. Se tivéssemos passado mais uma noite na montanha, teríamos passado realmente por maus momentos… essa é a diferença de fazer trilhas com guias experientes e – principalmente – que conheçam o terreno e a região.
O legal disso tudo é sentir ultrapassando alguns limites, mostrando a si mesmo até onde podemos ir, além de sentir de maneira muito forte a nossa insignificância e fragilidade frente à força da natureza, quando se está desprovido de conforto e estrutura, e tudo com o que se conta é o próprio corpo e o que ele seja capaz de carregar. E a convivência com pessoas fantásticas nesses momentos, como essa turma que se formou, só torna a aventura, embora dura, mais prazerosa ainda. Uma experiência que recomendo…
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