Peru e Trilha Inca (parte 2)

11 04 2021

Continuação do relato da viagem ao Peru em 2006, a primeira parte está aqui.

Quarto dia de caminhada, quase chegando em Machu Picchu

5o dia: Vale Sagrado

No nosso passeio para o Vale Sagrado, conhecemos a que seria nossa companheira de caminhada, a Celina, também brasileira, de São Paulo. Foi uma outra feliz coincidência, ela era muito legal e nos demos muito bem ao longo dos 6 dias que passamos juntos. No vale sagrado fomos em vários sítios, sendo os principais Pisac e Ollantaytambo, duas grandes ruínas e com destaque para essa última, uma das mais famosas e bonitas que vimos. Curiosamente, não consegui encontrar fotos de Ollantaytambo (já são quase 15 anos da viagem, alguma coisa se perde…), então acabei colocando algumas fotos que achei na rede mesmo para ilustrar aqui, paciência… as que não são minhas têm as fontes indicadas…

Ruínas em Pisac
Ruínas do Templo do Sol, em Pisac

Em Pisac e em Ollantaytambo vimos belos exemplos de terraceamento, que é uma técnica de plantação que criam “escadas” ao longo da encosta para se colocar as plantações. Isso diminui a erosão por chuvas, pois dificulta a àgua a descer com muita velocidade, além de possibilitar plantios em regiões – como aquelas onde os Incas viviam – onde há falta de terrenos planos. Além disso, eram posicionadas de forma a se beneficiar ao máximo do Sol, e feitas de maneira calculada de forma a serem criados microclimas particulares que permitiam o cultivo de diferentes plantações em áreas mais altas ou mais baixas, de acordo com a necessidade de cada planta.

Terraceamento em Pisac
Terraceamento em Ollantaytambo – foto daqui
Muros Incas em Ollantaytambo – foto daqui
Detalhe dos encaixes das pedras no muro em Ollantaytambo (foto minha!)

6o dia ao 9o dia: Trilha Inca

Durante a caminhada toda, pudemos aprender muito sobre a História Inca. Como já disse, nosso guia Jim era formado em História e especialista no assunto. A viagem realmente teria sido outra sem ele. Aprendemos que a Trilha Inca (hoje chamada de Trilha Inca “Clássica”) era um caminho de peregrinação, uma espécie de iniciação espiritual, e não usada no cotidiano para o trânsito de pessoas, animais e mercadorias. Esses iam normalmente pelo vale, região mais plana por onde passa hoje o trem que vai de Cuzco a Águas Calientes, cidade que fica “ao pé da montanha”, logo abaixo de Macchu Picchu. Uma informação que faz bastante sentido.

Existem maneiras diferentes de fazer a trilha, optamos por fazer 4 dias de caminhada, chegando em Machu Picchu no final da tarde, descermos até Águas Calientes para dormir (além de termos o primeiro banho em quatro dias) e deixar o dia seguinte para entrar novamente e visitar Machu Picchu com mais calma. Grande parte dos turistas costumam fazer o último acampamento mais perto do final da trilha, acordar bem cedo e entrar pela Porta do Sol com o Sol nascendo. Uma outra ainda é ir de trem e pegar somente o final da trilha, passando por Wiñaywayna, o conjunto mais completo de ruínas da trilha.

A trilha inicia no km 82 da ferrovia, e fomos até lá de van. Na entrada do parque, um dos carimbos mais queridos que já recebi no passaporte:

Carimbos de entrada na trilha (09/out) e entrada via Águas Calientes (13/out)
Placa de início da famosa trilha

Iniciando a trilha, lá fomos nós para 4 dias de caminhadas, acampando em barracas no meio das montanhas, sem banho, e querendo ver tudo, cada detalhe ao redor. Contamos com o auxílio da equipe de carregadores, que iam na frente com os mantimentos, barracas, mochilas e tudo o mais. A caminhada fica realmente muito mais tranquila, menos preocupação com o peso e pode se aproveitar melhor. Depois dessa viagem fiz algumas trilhas com carregadores e outras sem, carregando tudo, e posso dizer, cada abordagem tem suas vantagens e seu valor próprio.

Início da trilha, ainda no vale


Ao longo da trilha, muitas vistas inesquecíveis, ruínas, um contato direto com a natureza e com a História Inca. Até sobre algumas orquídeas que são endêmicas da região aprendemos um pouco. Há uma em especial que me chamou a atenção, chamada de waqanki, que em Quechua significa algo como “você vai chorar”: há uma lenda Inca sobre um amor impossível de uma princesa com um soldado que teria dado origem a essa flor.

Orquídea Waqanki
Algumas das primeiras ruínas ao longo da trilha

No segundo dia, o trecho mais pesado de caminhada, o chamado Warmiwañuska, que em Quechua significa algo como “o passo da mulher morta”. É a subida para se alcançar o ponto mais alto da trilha, cerca de 4215 metros de altitude. Esse é o dia onde alguns turistas (especialmente os que não fizeram aclimatação, como fizemos em Puno) passam mal com falta de ar. Depois desse dia o Jim contou que tinha um pequeno cilindro de oxigênio na mochila para emergências… felizmente não precisamos.

Vista “ohando pra trás” do alto do Warmiwañuska
Jim levava essa bandeira para tirar fotos com os brasileiros no Warmiwañuska
Na marcação oficial do Warmiwañuska

Após atingirmos esse ponto mais alto, começamos a descida, ainda teríamos mais dois dias de acampamento pela frente. O primeiro num vale, o Vale de Pacaymayu logo após o Warmiwañuska, e o segundo em Puyupatamarca, a partir de onde já pudemos ver os primeiros sinais da Wayna Picchu (“montanha jovem” em Quechua), a icônica montanha da “cidade perdida” de Macchu Picchu. Caminhadas longas mas bem mais tranquilas do que as do dia anterior , com muito verde e água pelo caminho.

Vista do vale no nosso 2o acampamento, em Pacaymayu

E, claro, muitas ruínas ao longo da caminhada, que me deixavam cada vez mais encantado com o nível do trabalho da engenharia civil dos Incas.

Ruínas em Puyupatamarca
Espécie de escada com um orifício de apoio à direita
Detalhe do orifício de apoio

No nosso último acampamento em Puyupatamarca tirei a primeira foto da Wayna Picchu, ainda que bem de longe. Ao acordarmos no dia seguinte, já fomos caminhando para passar por Wyñaywayna, e depois, finalmente, a porta do Sol que nos descortinaria Macchu Picchu.

Wyñaywayna

Wyñaywayna merece ser apreciada. São as ruínas mais bem conservadas de toda a trilha, e a poucos minutos do último acampamento da trilha, que leva seu nome (no qual não ficamos, conforme expliquei no início).

O final do nosso último dia de caminhada e a tão esperada chegada a Machu Picchu ficam para o post da semana que vem, até lá…





“Causos” de viagem – parte 3

27 12 2020
Imagem daqui.

Sequência de “causos” marcantes ocorridos nas minhas viagens… já publiquei a parte 1 e parte 2

Ônibus de excursão errado em Cusco, Peru

Quando contratamos a excursão para passear em Cusco, antes de iniciarmos a Trilha Inca, tínhamos uma espécie de tour privado, com poucas pessoas. Ficou marcado do guia, que havíamos encontrado no dia anterior, ir nos pegar no dia seguinte, no hotel. Importante: na época, não havia celular para falarmos com o guia. No horário marcado, estávamos lá sentados na recepção, aguardando. Entra um guia bem mais novo, falando castelhano super rápido, perguntando meu nome: Cristiano, disse eu. “Ah, venha, venha, estamos atrasados”, ele disse. “Onde está o Jim?”, perguntei, querendo saber do nosso guia. “Venha, venha, depois!”. Desconfiei, mas fomos com ele. Subimos num ônibus grande, cheio de turistas, perguntei ao motorista sobre o Jim, ele também estava todo apressado e me mandou subir. Começamos a sair pela cidade, parando em outros hotéis e pegando mais turistas. A cada parada eu tentava explicar que achava que estava no lugar errado. Até que chegou uma parada e vi o “guia” do lado de fora do ônibus levando um esporro de um casal, e reconheci que era um casal que estava no nosso hotel. Tinham acabado de descobrir que tinham pego o casal errado, no caso, nós. O nome do cara do outro casal era Christian (tremendo azar!). O tal “guia” entrou num carro conosco para nos levar de volta ao hotel. Xinguei ele com todos os nomes que meu castelhano permitia (não pelo erro, mas por não ter me ouvido, o tempo todo dizendo que não devia estar ali e perguntando pelo Jim). Fomos devolvidos ao hotel, e nosso guia de verdade estava esperando… felizmente deu tempo, e tivemos um belo dia de passeios.

Garçom mal-educado em Buenos Aires, Argentina

Estava passando pela frente do famoso Café Tortoni, na não menos famosa Avenida de Mayo. Já havíamos comido, mas pensávamos em voltar ali para tomar um café mais tarde. Achamos que daria para verificar o menu, ter uma ideia do que tinha e dos preços, para voltar mais tarde. Não havia menu na entrada, então entramos e pedimos ao garçom. Ele nos convidou a sentar. Expliquei que voltaríamos mais tarde, agora só queríamos ver o menu. Ele fechou a cara, disse “Se te sientas, te lo daré”, deu as costas e nos deixou ali, parados…

Menino que não sabia usar lápis, no Nepal

Essa foi uma das situações que mais me tocaram em todas as viagens que fiz. Quando fui fazer essa viagem, fui avisado que iríamos passar por vilas com pessoas bem simples, e que as crianças gostavam de receber lápis de cera, livrinhos de pintar, essas coisas, então levei alguns na mochila comigo. Numa vila específica, entreguei um livrinho e um estojinho de lápis para um menino, não tinha mais de 4 anos. Os olhinhos brilharam, ele agarrou os presentes e ficou circulando com eles. Umas turistas que estavam por lá fizeram menção de ajudá-lo, abrir o estojo e o livrinho, ele ficou desesperado, acho que pensou que iam tirar dele. Fiquei com a impressão de que ele jamais tinha visto aquelas coisas, nem sabia o que fazer com elas. Fiquei alguns minutos ali, pensando e observando o menino, e imaginando o abismo entre a realidade dele e a minha, as oportunidades que ele vai ter, em comparação com as crianças no Brasil, ou de outros países. Fiquei pensando o quanto estamos longe de ter um mundo igualitário e justo para todos..

Procurando cerveja na sexta-feira santa em Dublin, Irlanda

Em 2010, peguei duas semanas de “férias” ao sair de um emprego e antes de começar outro. Fui para Barcelona visitar um casal de amigos, Sílvia e Fabiano, que estavam morando por lá. Por sugestão do Fabiano, fui procurar voos low cost para sair de Barcelona, pois eles moravam perto de um aeroporto secundário com muitos desses voos. Acabei achando uma promoção de 30 euros ida e volta Barcelona-Dublin, com limitação de ir numa terça e voltar no sábado de aleluia, sem despachar bagagem. Uma verdadeira pechincha. Topei. A viagem a Dublin foi bem legal, apesar do tempo estar meio frio e chuvoso (a primavera tinha acabado de começar, teoricamente). Mas o engraçado dessa viagem, que deixo para descrever em outro post, foi na minha última noite em Dublin, que era justamente a sexta-feira santa. Eu sabia que a Irlanda era um país bem católico, mas também sabia que era um povo bem festivo e que bebia muito. Mas na sexta-feira santa, por força de lei, era proibido vender bebidas alcoólicas. Fui para o Temple Bar, bairro turístico e boêmio da cidade, e todos os restaurantes estavam com placas indicando isso. A maioria dos bares, fechados, os abertos continham placas semelhantes.
Entrei em um restaurante, pedi uma massa para o jantar, e a garçonete me perguntou o que eu queria beber. “Não posso nem pensar numa Guinness hoje, né?”, perguntei. Ela respondeu séria que não, mas tinham muitos refrigerantes e sucos para eu escolher. Pedi um suco de maçã. “Duplo sem gelo!”, ainda brinquei. E assim minha última noite em Dublin foi completamente sem bebida alcoólica…





O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale) – série

8 11 2020
Imagem daqui

Agora, em meio à pandemia, ficamos procurando indicações de séries para assistir. Por sugestão de uma amiga, começamos a assistir a The Handmaid’s Tale, disponível no Brasil pela Globoplay. Em pouco mais de três semanas, assistimos à primeira (2017) e à segunda (2018) temporadas, e estamos nos preparando para a terceira (2019). Por conta da pandemia, a quarta temporada que seria nesse ano foi adiada para 2021. A série é baseada em um livro publicado na década de 80, e pelo que entendi o livro termina da forma como termina a primeira temporada, então as subsequentes não são uma adaptação, e sim roteiros novos.

Vou tentar passar minhas impressões e por que resolvi escrever a respeito, com o mínimo de spoilers quanto possível. Se quiser parar por aqui a leitura, só digo que recomendo muito, é uma estória muito forte, dramática, e que levanta muitos questionamentos atuais, como toda boa estória distópica. Depois que assistir, passa aqui de novo pra terminar de ler.

Aliás, falando em estórias distópicas, assistindo a essa série me remeteu bastante a alguns episódios de Black Mirror, com situações futurísticas catastróficas, apocalípticas, mas, que se analisarmos com um pouco mais de frieza, não estão muito distantes da nossa realidade, por mais assustador que isso seja. Qualquer dia escrevo sobre alguns episódios de Black Mirror também…

Voltando a Handmaid’s Tale, a estória se passa em um futuro não muito distante, onde teria havido um golpe de estado nos Estados Unidos, por um grupo religioso que implementa uma sociedade patriarcal, praticamente medieval, que subjuga as mulheres e que separa a sociedade em castas muito bem definidas. Um dos pilares dessa sociedade é que a maioria das mulheres haviam ficado estéreis, e as poucas que restaram férteis são “treinadas” para serem handmaids (“aias”), para gerarem os filhos dos “comandantes”, os representantes das camadas “superiores” da sociedade, que controlam o governo. As aias moram nas casas de seus comandantes, e mensalmente no seu período fértil são estupradas por seus comandantes em uma “cerimônia”, que conta inclusive com a participação da esposa estéril. E essa “cerimônia” é justificada inclusive por uma passagem bíblica: “Vendo Raquel que não dava filhos a Jacó, teve inveja de sua irmã, e disse a Jacó: Dá-me filhos, senão morro. E ela disse: Eis aqui minha serva Bila, coabita com ela, para que dê à luz sobre meus joelhos, e eu assim receba filhos por ela” (Gênesis 30:1:3)

Uma das partes mais impactantes da série é justamente a realização dessas cerimônias, onde elas deitam na cama do casal, sobre os joelhos das esposas, e são seguras por estas pelos punhos, para que sejam “fecundadas” pelos seus maridos. Há uma ideia plenamente difundida, e justificada “biblicamente” de que as mulheres não têm direito a praticamente nada (não podem ter propriedades, empregos, dinheiro e nem podem sequer LER) e devem se dedicar exclusivamente à família (as “esposas”, mulheres dos aristocratas), aos afazeres domésticos (as “Marthas”, mulheres estéreis mantidas praticamente como escravas), e à procriação (as “Aias”). Inclusive as roupas que elas têm que usar identificam claramente sua posição na sociedade. Em um mundo onde quase todas são estéreis, as Aias possuem um aura de “abençoadas” por ainda serem capazes de engravidar e gerar uma vida.

A “cerimônia”. Imagem daqui.

A atmosfera criada pela fotografia da série ajuda no tom sombrio. Não há cores vivas, não há luz, não há alegria. É tudo sempre muito angustiante, e a trilha sonora colabora também.

Existe, claro, a questão da exploração das mulheres, que foi exaustivamente debatida desde o lançamento da série. É um tema central e extremamente relevante, mas justamente por ter sido muito discutido não pretendo escrever muito sob esse prisma. Não por não o achar relevante, mas justamente por ser o principal ponto de discussão, gostaria de levantar outros que me chamaram a atenção.

A premissa inicial da série é que um grupo fundamentalista cristão autodenominado “Os filhos de Jacó” inicia uma série de atentados nos Estados Unidos e provavelmente conseguem culpar alguma minoria (acho que muçulmanos, não ficou muito claro até agora) e por conta disso justificam a instauração de um estado de sítio com uma escalada gradual da retirada de direitos, em especial das mulheres, até que os EUA mudam até de nome, passam a ser chamados “Gilead” e se tornam uma ditadura teocrata. Ou seja, um governo ditatorial cujos poderes são justificados pela religião. No caso, a cristã. Perseguindo e matando quem não se encaixa ou não concorda com eles, seja por religião, orientação sexual ou comportamento. Isso gera situações que existem em alguns lugares do mundo, hoje, como exilados que formam grupos de refugiados em países vizinhos (no caso, o Canadá). Existem muitos países hoje, em 2020, que recebem refugiados fugindo de regimes ditatoriais, perseguição étnica ou religiosa. Mas já pensou o “tapa na cara” da civilização ocidental ao se dizer que isso poderia acontecer nos EUA? Em tempos de intolerância crescente em que vivemos atualmente, vêm novamente à cabeça a angústia do tipo da série “Black Mirror“: o futuro tão ruim como está sendo descrito está longe de ser real? Talvez não muito.

Como os países reagiriam a isso? Na série, há citações a campanhas ao redor do mundo, sanções econômicas, e dá a entender que ainda existe uma guerra civil em curso, devidamente abafada para se passar internamente uma sensação de paz e tranquilidade para a comunidade de Gilead. No mundo real, há vários países que sofrem sanções, por diferentes motivos. Mas a hipocrisia faz com que os interesses econômicos se sobreponham a quaisquer outros. Existem ditaduras que sofrem com sanções e isolamento, e outras tão “ruins” quanto, mas que não sofrem nada. Se o país em questão tiver um peso econômico grande e/ou um grande poderio militar, ele pode fazer virtualmente qualquer coisa que não sofrerá nada. Fato.

Enfim, é importante que se reflita a respeito do potencial desastroso de darmos poderes a pessoas e grupos que de alguma forma incentivem ou sejam minimamente permissivos com intolerância ou discursos de ódio, de qualquer tipo. Faz-se necessário, mais do que nunca, tomar cuidado com discursos moralistas que pregam maldisfarçadamente intolerância e incitam a violência. Impossível não se lembrar do episódio onde uma menina de 10 anos que era estuprada pelo tio desde os 5 anos, teve seu direito ao aborto garantido pela Justiça, teve que ir para outro estado para poder fazer o procedimento e no próprio hospital foi hostilizada e xingada por grupos evangélicos. Uma vítima de violência, buscando o apoio do Estado para ter seu direito garantido, e ainda sofre essa violência. Estamos doentes como sociedade, a partir do momento que algo assim torna-se corriqueiro ou minimamente aceitável. Onde está o “fazer o bem” pregado pela religião, nessa situação?

Precisamos nos preocupar com perda de direitos, mesmo que não nos afete, pois o pensamento deve ser coletivo, não individualista. Espero sinceramente que possamos fazer isso… Termino citando Bertold Bretch, e esperando que tempos melhores nos aguardem mais à frente…

Primeiro levaram os negros

Bertolt Brecht (1898-1956)

Primeiro levaram os negros

Mas não me importei com isso

Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários

Mas não me importei com isso

Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis

Mas não me importei com isso

Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados

Mas como tenho meu emprego

Também não me importei

Agora estão me levando

Mas já é tarde.

Como eu não me importei com ninguém

Ninguém se importa comigo.





Monte Roraima (parte 2)

25 10 2020
Monte Roraima, visto do acampamento próximo à sua base

Esse post é continuação do Monte Roraima (parte 1).

Ao terceiro dia de expedição, finalmente era a hora de subir a montanha. O paredão de centenas de metros, para o qual ficamos olhando de longe por dois dias, estava ali pertinho. O dia praticamente inteiro seria de subida (sem escalada) pela trilha na encosta da montanha. Uma coisa que nos chamava a atenção era a frequência com que a neblina cobria e descobria a montanha, e ao longo daquele dia (e dos próximos) sentiríamos aquilo bem de perto.

Como todos os dias, acordamos cedo, arrumamos as coisas, tomamos café da manhã e… começar a caminhar! Aliás, todas as refeições ficavam por conta dos carregadores, uma turma nota 1000, conforme pudemos constatar ao longo dos dias (mais detalhes à frente). Não tenho fotos dessa subida, porque foi o dia em que começamos a sentir na pele – literalmente – o clima da região. Choveu bastante, em praticamente toda a nossa subida. Vários momentos em que eu sentia a água escorrendo pelo pescoço, por dentro do anorak impermeável, descendo pelo corpo todo, molhando até as meias. É daqueles momentos em que você tem certeza de que gosta desse tipo de passeio, ou não. No meu caso, só me dava vontade de continuar caminhando e chegar ao topo. Vinha água do céu, escorria pela lateral da montanha, formando pequenas cascatas, vinha pela lateral quando ventava, enfim, de todos os lados.

Ao terminar a subida fomos premiados por um tempo melhor, com neblina mas sem chuva. A sensação de chegar lá em cima é indescritível. Logo na subida já vimos um helicóptero caído. Explico: qualquer resgate que tenha que ocorrer na região tem que ser feito de helicóptero. Alguns dias antes da nossa chegada um turista havia se acidentado no final da subida, e para seu resgate chamaram o helicóptero. Consta que o piloto oficial estava ausente no dia, e mandaram o reserva. A aproximação do topo é crítica por conta da neblina e ventos. Resultado, o helicóptero caiu e ficaram os dois (turista e piloto) aguardando o próximo. Ficamos sabendo que além daquele haviam mais dois abandonados lá em cima, um do exército brasileiro, e outro da Rede Globo, que caiu com o então apresentador do “Globo Ecologia”, Danton Melo, em 1998. Melhor mesmo é ir caminhando, e não precisar de resgate… Pelo sim, pelo não, eu particularmente havia contratado um seguro viagem que cobria o resgate de helicóptero, pelo qual sem o seguro seriam necessários uns R$ 2 mil, na época.

Primeira foto no alto do Monte Roraima
Turma “explorando” o helicóptero na chegada no monte

Uma vez lá em cima, seguimos caminhando até nosso ponto de acampamento. E a lógica é a seguinte: quem chega primeiro pega os melhores locais. Na medida em que acampamentos vão sendo desmontados e liberados, os guias comunicam-se entre si. Dessa forma, se seus guias são bem relacionados entre os pares, boas chances de conseguir um bom acampamento. Caso contrário… Felizmente, nossos guias eram bem relacionados e conseguimos (segundo nos disseram) um dos melhores pontos, na encosta de uma das formações rochosas lá em cima. Com mais de 30km2 de área, tem bastante lugar para acampar…

As primeiras formações já impressionam e aumentam a expectativa do que está por vir nos próximos dias
Um dos pontos de acampamento, não o nosso (note na “caverna” próxima ao topo)

O visual lá em cima por onde caminhamos é bem diferente da chamada “savana” por onde havíamos passado nos dias anteriores. Muita rocha vulcânica, escura, e vegetação rala. Conforme falei anteriormente, algumas plantas e animais são endêmicos, ou seja, só existem lá em cima e em nenhum outro lugar do mundo. Um famoso habitante que encontramos logo no primeiro dia foi o “sapinho do Roraima” (Oreophrynella quelchii), um sapo pequeno (veja foto) que não salta, e faz a alegria dos turistas para fotos.

Sapinho do Roraima
Oreophrynella quelchii é o nome científico dele
Vista a partir do nosso acampamento, no cair da tarde

Chegamos no local de acampamento no final da tarde (alguns guias já vão na frente para garantir e montar o acampamento), com a proteção parcial de formações rochosas, de frente para o Maverick (ponto mais alto do Roraima) e com a vista para várias pequenas lagoas onde seria o local do banho para aquela noite.

Barraca já montada, tudo certo para o descanso
Claro que tem que ter bagunça no acampamento com a turma
Nascer do Sol no nosso acampamento do topo

Uma vez acampados lá em cima, íamos passar 3 noites. Poderíamos manter o mesmo acampamento ou ir para outros lugares, dependendo do que preferiríamos explorar. Optamos por permanecer no mesmo local de acampamento por todas as noites. Uma coisa curiosa a respeito dessa viagem: para usar o banheiro, nos acampamentos são feitos buracos e depois tampados. No topo isso não é possível por ser tudo de rocha, então é necessário usar sacos (adaptados numa cadeira de plástico furada), juntar cal e fechar o saco, que vai ser levado embora pelos carregadores. Nada pode ser deixado lá em cima…

No primeiro dia explorando o topo, fomos para o chamado Vale dos Cristais, onde o chão é coberto por – adivinhe! – cristais, passamos no marco da Tríplice Fronteira (Brasil, Guiana e Venezuela), e terminamos o dia no chamado “El foso”, um lago com uma pequena cascata. Local de banho, que pode ser acessado pela forma rápida (pulando lá de cima) ou lenta (dando a volta e entrando por baixo. Eu optei pela forma lenta, não estava com pressa… E ao longo do caminho visuais incríveis com formas esculpidas pela natureza ao longo dos anos que nos fazem imaginar animais, figuras humanas ou quaisquer outras que a imaginação permitir.

Consegue ver um elefante?
Pense num trekker feliz…
Formações incríveis ao longo do caminho
Às vezes parece que estamos em outro planeta
No Vale dos Cristais
No marco da Tríplice Fronteira
Chegando em “El Foso”
Dava pra encarar um mergulho lá de cima, mas preferi
dar a volta para o banho lá embaixo
Entrada d’El Foso, por baixo

Nesse dia pegamos um pouco de chuva ao longo das caminhadas, mas nada que atrapalhasse muito. Voltamos ao acampamento cansados, mas com muita energia e expectativa pelo dia seguinte, mais um dia inteiro caminhando pelo topo do Roraima.

Achei que esse relato caberia em 2 posts, mas acabei me estendendo um pouco… termina na parte 3, até lá!





Monte Roraima (parte 1)

18 10 2020

Essa foi uma das trilhas mais fantásticas que fiz até hoje. 8 dias de caminhada, cerca de 11 km por dia em média, na tríplice fronteira Brasil-Venezuela-Guiana, com algumas das paisagens mais diferentes e deslumbrantes que já vi pessoalmente. Fui no Carnaval de 2011, e gostaria muito de voltar lá no futuro. O lugar é um dos poucos no planeta em que quase não há intervenção humana, tudo em um meio natural de beleza exuberante e impressionante. A geografia do local permitiu existir ali um certo isolamento do resto do mundo, o que proporcionou que algumas espécies da fauna e flora sejam endêmicas, ou seja, só existem lá e em nenhum outro lugar do mundo. É indescritível a sensação de ver o imenso paredão se aproximando, e no dia seguinte estar andando sobre uma das montanhas mais antigas da Terra. Essa montanha inclusive inspirou Sir Arthur Conan Doyle (o criador de Sherlock Holmes) a escrever seu romance O Mundo Perdido, onde uma expedição alcança um platô no meio da selva onde ainda existem dinossauros e espécies pré-históricas. Felizmente, essa parte é ficção, ou então eles se escondem muito bem…

No alto do Roraima, com seu “irmão” Kukenán ao fundo

O Monte Roraima é um platô (uma elevação, tipo um planalto no alto de um “paredão” de rocha) de mais de 30km2 de área, cerca de 1000 metros de altura e 2800 de altitude, uma área imensa para explorar. O ponto de “subida” é pelo lado venezuelano, e é possível acampar lá em cima por vários dias, em locais diferentes, de acordo com o que se programar para visitar.

A primeira coisa para uma expedição desse formato é o planejamento. Fui com uma amiga, Fabiana, e fizemos contato diretamente com um operador local, a Roraima Mystic Tours. O serviço foi excelente, embora mais recentemente vi alguns relatos de problemas com essa operadora. As operadoras brasileiras são no geral mais caras, precisam contar com algum suporte local, e no final das contas, acho que as empresas locais sempre merecem o nosso apoio, em qualquer lugar. Claro que é uma decisão pessoal, há questões de confiança, de comodidade envolvidas, etc. Por conta de problemas na economia da Venezuela, não era possível na época fazermos transferência para a reserva, a reserva foi feita “na confiança” por parte do operador local. Outra coisa importante de se decidir é que época ir. Pelo clima do local, lá chove. Sempre. Não tem muito como escapar disso. Consta, conforme nos disseram à época, que fevereiro é das épocas com menos chuva, por isso acho que o Carnaval é uma boa escolha.

Escolhemos fazer o pacote de 8 dias, sendo 2 dias de caminhada até a base do monte, subida do monte no terceiro dia, 3 noites acampando lá em cima, mais dois dias de caminhada de volta. Das coisas que vimos e que deixamos de ver, acho que 3 noites/4 dias lá em cima seria o mínimo para valer o esforço. De novo, é uma opinião pessoal.

A logística para se chegar até lá também demanda preparação, e pode ser considerado o início da aventura… Pegamos um avião em São Paulo, conexão em Manaus e descemos em Boa Vista. Pelos poucos horários de voo, chegamos em Boa Vista no início da madrugada, fomos direto para o hotel (Uiramutam Palace), para sairmos pela manhã. Na manhã seguinte fomos até a rodoviária da cidade e pegamos um táxi para nos levar até a fronteira, que fica na cidade de Pacaraima. Os taxistas de Boa Vista não tinham autorização para ir para a Venezuela, então fizemos esse trecho de pouco mais de 200km nesse táxi. Fui surpreendido positivamente pelo estado da rodovia, meus conceitos pré-estabelecidos esperavam uma estrada de terra, ou esburacada, mas é na verdade uma pista simples, mas (na época, 2011) bem cuidada, então a viagem correu sem percalços. Chegando em Pacaraima, fiz pela primeira vez na vida um cruzamento de fronteira à pé. Primeiro passamos na Polícia Federal, carimbamos os passaportes, aí caminhamos até o outro lado da fronteira, para o posto venezuelano.

Mochileiro na fronteira

Do lado venezuelano, novo carimbo no passaporte, e ficamos esperando por algum carro para nos levar até Santa Elena de Uiarén, a primeira cidade do lado de lá. Lá chegando fomos direto à agência Mystic Tours para fazer o acerto. Fomos orientados pela agência a trocar o dinheiro numa determinada rua (não nas casas de câmbio, pois as taxas eram irreais), mas para tomar cuidado, nos deram direitinho a taxa que deveríamos negociar. O dinheiro (bolivares) já estava extremamente desvalorizado, e acho que deve ter piorado bastante. O nosso pacote completo (guias, carregadores, todas as refeições, barracas, etc) saiu na época por menos de R$ 800.

No início da noite tivemos o briefing na agência para explicar como seria a expedição. Tínhamos a opção de contratar um carregador extra para nossa própria mochila (além dos carregadores que iam levar todo o equipamento e comida para todo o grupo), mas decidimos encarar sem (eu com 17 kg e Fabiana com 12 kg de mochila). Conhecemos também o resto do grupo, todos brasileiros: Tania com seu filho Khalil, Emerson amigo deles, todos de São Paulo, e Marcela e Thiago, de Boa Vista. Como sempre acontece em viagens desse tipo, um pessoal super alto astral, super gente boa, demos realmente muita sorte com o grupo. Dormimos no Hotel Michelle, indicado pela agência. Bem simples, mas com água quente, serviu bem.

Dia seguinte, turma cheia de energia, fomos levados de carro até o local de início da trilha, em Paraitepuy. O primeiro dia são 16km de caminhada quase tudo plano, e fizemos acampamento no Rio Kukenan, já com uma vista para o Monte Roraima, ainda longe. Esse ponto é o último lugar onde é possível comprar cerveja (quente!), em um pequeno quiosque mantido pelos índios, o último sinal de civilização… rs Tive que tomar uma lata ao menos. Ao montar acampamento, tempo para o banho, no rio.

Local de acampamento no Rio Kukenán
No acampamento, já com vista para o Roraima e o Kukenán

No dia seguinte, atravessamos o rio (água pelas canelas) e seguimos por mais 7km até a base da montanha. Já é um dia com bastante subida, uma bela variação de altitude, e vendo a aproximação do nosso alvo, o imenso paredão ficando cada vez maior. Tivemos sorte de não pegarmos chuva, apenas uma garoa refrescante nesses primeiros dois dias de caminhada. Bastante calor, bastante cansaço, mas com uma energia indescritível para nos prepararmos para o próximo dia, finalmente a subida ao topo.

Acampamento no pé do Roraima (à direita), e a vista para o Kukenán (ao fundo)
Vista do Monte Roraima a partir do acampamento
As nuvens ficam permanentemente cobrindo e descobrindo a montanha

Segunda noite de acampamento, mais um dia com banho de rio antes de dormir, da água que corre lá de cima do paredão. A sensação de superação e de contato total com a Natureza são coisas que me movem a fazer viagens como essa. Às vezes as pessoas veem as fotos, ouvem meus relatos e não entendem o que me move. Não sei se há explicação, mas realmente é uma parte da vida sem a qual eu não conseguiria passar, eu acho.

Gostou do relato até aqui? A parte da subida ao topo e os 3 dias de exploração lá em cima ficam para o próximo post, aguarde!

Continua no post Monte Roraima (parte 2).