Minha primeira viagem à América Central, e acho que ela tinha que ser para Cuba. Primeiro, porque (quem acompanha os posts aqui já deve ter notado) fujo um pouco do “óbvio”, ou lugares mais comuns para os quais as pessoas costumam viajar (vide Nepal, Butão, Rússia, Venezuela, Bósnia, entre outros…). E segundo, porque Cuba sempre teve algo que me atraiu, tem obviamente a questão política, que não vem ao caso nesse post, mas também uma cultura riquíssima e um povo muito receptivo, além de praias lindas com águas “caribenhamente transparentes”, enfim, tudo para ser uma viagem muito legal.
Fui em abril de 2015 com um grande amigo (Alex) para essa viagem, fomos de Copa Airlines com conexão no Panamá, descemos em Havana onde ficamos hospedados em uma casa de família (sem AirBnB, foi uma indicação de um amigo que tinha ido anteriormente). Ficamos alguns dias lá, e uns outros em Cayo Largo, uma ilha pequena com praias e resorts. A cidade de Havana traz aquela sensação de estar parado no tempo há uns 60 anos, por conta dos veículos e da arquitetura, como se tudo tivesse parado realmente no tempo quando se iniciou o bloqueio econômico que até hoje impede que os cubanos tenham legalmente acesso a bens de consumo há muito normais em quaisquer outros países do mundo.
El Malecón, famoso calçadão à beira-mar em Havana. Ao fundo, Castillo de San Salvador de la Punta, antigo forte militar, hoje abriga um museu.
As figuras dos heróis da Revolução estão em toda a parte. Em especial na Plaza de la Revolución, parada obrigatória para os turistas, uma das maiores praças do mundo (cerca de 760 mil metros quadrados), onde alguns prédios governamentais ostentam as figuras de Che Guevara e Camilo Cienfuegos. Além disso, o Museu da Revolução também é imperdível para se ouvir a História do ponto de vista deles.
138 bandeiras cubanas em um monumento, propositalmente colocado em frente ao prédio da representação dos interesses americanos (já que os EUA não têm embaixada lá)
Placa explicativa do monumento das 138 bandeiras
Prédio do Ministério do Interior
Chama eterna em homenagem aos heróis da Pátria, no Museu da Revolução
É muito fácil caminhar pela cidade, misturar-se aos locais e ficar dentro da atmosfera cubana. Os principais artigos cubanos para consumo do turista são os famosos charutos, o rum e a música. Nos sentimos bastante seguros ao caminhar, e mesmo sendo reconhecidos obviamente como turistas, não fomos assediados e nem tentaram nos enganar em nenhum momento. Fomos visitar a fábrica de charutos, onde o processo é totalmente manual, e os trabalhadores montam os charutos um a um. Na chamada Havana Vieja, há a Basílica Menor de San Francisco de Asís, construção do século XVI.
Praça em Havana Vieja
Basílica Menor de San Francisco de Asís, em Havana ViejaTotalmente ambientado em Havana Vieja (só falta o crachá escrito “turista”)
La bodeguita del medio, bar famoso pelos autógrafos de famosos e anônimos nas paredes
Lendo o Granma, jornal oficial do Partido Comunista Cubano, na varanda da casa onde nos hospedamos
Há uma separação clara entre os locais que são frequentados pelos turistas e pelos locais, inclusive no dinheiro utilizado. Enquanto os cubanos usam o Peso Cubano, os turistas usam os CUCs (ou peso conversível), que equivale ao dólar. Ainda era assim quando estivemos lá, mas parece que agora em 2021 foi feita uma unificação das moedas e essa separação não existe mais.
Em Cayo Largo, lugar para descansar e desligar totalmente: praias, mergulhos, mojitos e é só. Inclusive um local onde pela primeira vez fui a uma praia de nudismo. Sensação boa de poder mergulhar mais, assim, livremente, se consegue me entender… não, não tenho fotos, somente das outras praias…
Praias desertas, areia branca e água transparente
Mar caribenho é isso aí…
Nadando na Playa Paraíso, em Cayo LargoPraia próxima ao nosso hotel em Cayo LargoBom para mergulho e snorkeling também
Uma frustração nessa viagem foi eu não ter reservado um mergulho autônomo com antecedência, acreditei que poderia fazer a reserva quando chegasse lá, mas não consegui, estavam todos os passeios lotados. Coisas que vamos aprendendo ao longo das viagens, sempre procuro fazer as reservas localmente para evitar atravessadores e também colaborar com os locais, mas dessa vez não deu certo, teve que ficar para uma próxima vez…
Essa cidade na região da Toscana é uma das poucas que visitei mais de uma vez, e devo dizer que vale muito, muito a pena, especialmente para quem gosta de História e de Arte. Sem tentar fugir do clichê, é literalmente um museu a céu aberto. Berço das obras renascentistas, é uma cidade deslumbrante, para onde quer que olhe. E está a menos de duas horas de trem de Roma, custa literalmente muito pouco dar uma escapada pra lá caso esteja na região. O centro histórico ou cidade antiga é cheio de hotéis e locais de visitação, a maioria imperdíveis, e dá pra fazer tudo a pé mesmo.
Estátua réplica de David, na Piazzale Michelângelo
A presença de David, o herói bíblico imortalizado por Michelângelo numa que é talvez a mais famosa escultura do mundo (talvez rivalizando com a Pietà e a Vênus de Milo) está em toda parte, nas praças, nos anúncios, souvenirs, no famoso avental com o dorso dele (e outras partes). O original, que é realmente impressionante pelo tamanho e pela riqueza de detalhes, fica no museu da Galleria dell’Accademia , e fotos são estritamente proibidas. Para os olhos somente. Se quiser fotos, tem que comprar as oficiais.
Há uma praça chamada Piazza della Signoria, onde chegou a ficar o David original (hoje só tem mais uma cópia), que fica no centro, que é repleta de estátuas, e fica na frente do Palazzo Vecchio, com sua torre do relógio do século XIV, só essa praça já valeria a visita à cidade.
Olha ele aí de novo!
Hércules e o Centauro Nesso
Menelao e Patroclo
Netuno
Rapto de Polissena
Rapto das Sabinas – detalhe
Piazza della Signoria
Palazzo Vecchio, visto da Piazza della Signoria
Do outro lado do rio, há a Piazza Michelangelo, de onde se tem uma bonita vista da cidade antiga e (claro!) mais uma estátua de David. Outro ponto icônico da cidade é a Ponte Vecchio, uma ponte em arcos medievais que existe desde a época do Império Romano, originalmente de madeira mas desde sempre conhecida pelo comércio que fica em cima dela.
Vista da cidade a partir da Piazza Michelangelo
O Duomo e o Palazzo Vecchio, foto tirada com zoom a partir da Piazza Michelangelo
Ponte Vecchio, a mais famosa da cidade
Passeando pelas ruas você pode se perder imaginando como as pessoas viviam ali na Renascença, tanto os famosos quanto as pessoas comuns. As famílias ricas, que pagavam os artistas para fazerem obras a seu serviço, os cientistas, tão perseguidos pela Inquisição… e de repente, você se depara com a casa onde viveu Galileu Galilei:
Placa faz alusão ao ex-morador ilustre, e tem um retrato dele na parede
Um museu imperdível (além da Galleria dell’Accademia e da Galleria Ufizzi) é o Museu Dell’Opera di Santa Maria del Fiore, com várias esculturas de Michelângelo e Donatello. Fica atrás da Catedral de Santa Maria del Fiore (Catedral de Florença), famosa pelo seu domo, na mesma praça em que ainda ficam o Batistério de San Giovanni e a torre da catedral, com entrada separada. O bastistério é uma construção octagonal, e três dos seus oito lados se abrem com três grandes portas que são famosas pelas suas decorações, realizadas entre os séculos XIV e XVI. São três portas de bronze muito bonitas e grupos de mármore e bronze sobre elas, e que ilustram histórias bíblicas.
Estátuas representando o batismo de Jesus, que originalmente ficavam no batistério, hoje no museu
Pietá inacabada de Michelângelo
Madalena de Donatello
Catedral e a torre
Catedral e o famoso domo
Torre da Catedral
Vista do alto da torre
Porta do batistério
Uma coisa engraçada que ocorreu na nossa ida à Florença em 2017 foi em relação à hospedagem. Programamos passar somente uma noite na cidade, então fiz a reserva usando pontuação da rede de hotéis e acabei selecionando um muito bem localizado, a menos de 300 metros do batistério. Chegamos cedo na cidade, e no melhor estilo mochilão, fomos ao hotel somente para deixar a bagagem, já que o check-in era só à tarde. Quando voltamos para o check-in, apresentamos os documentos e também a minha carteira do programa de pontos da rede. Na época eu viajava muito a trabalho, então tinha o status mais alto. Quando o rapaz viu o meu cartão, checou no computador e pediu que esperássemos um pouco, pois iriam preparar a suíte presidencial, uma cortesia pela minha categoria(!!!!!). Era uma suíte com 120 metros quadrados, uma sala de estar, dois banheiros, uma cama gigantesca e um monte de mimos… definitivamente não era o tipo de hospedagem com a qual estávamos acostumados… valeu a noite!
Ah, um último detalhe a respeito da cidade: o restaurante Zazá, onde comi um gnocchi ao molho trufado que foi uma das melhores refeições que fiz em viagens até hoje… fica a dica…
Durante essa semana voltou a se falar muito sobre pessoas que chegam a seu limite, em função da ginasta Simone Biles ter desistido de várias provas nas Olímpiadas onde ela era franca favorita, dizendo que não estava mentalmente bem para competir, e que deveria priorizar a sua saúde mental ao invés de colocar-se em risco nas provas (sim, a ginástica de alto desempenho é algo fisicamente perigoso se não for praticado corretamente). Ao ser questionada a respeito de todas as expectativas que haviam sobre sua performance, as medalhas e tal, praticamente “deu de ombros”, respondendo algo como “As expectativas são dos outros, isso portanto é problema deles, eu devo cuidar de mim.”.
Ainda mais exacerbada em tempos de redes sociais, comunicação e acesso a informações em tempo real, a cobrança que colocamos em geral nos atletas é algo que consideramos normal. Mas deveria ser? Fico particularmente incomodado em Olimpíadas, em especial quando se trata de esportes individuais, e um atleta que atinge a 5a, 6a posição, ou mesmo prata ou bronze, e tenta se justificar, dizendo que devia ter feito melhor, que não estava em um bom dia, etc. Quando na verdade não se trata disso, mas trata-se somente do fato de que ele se esforçou, eventualmente foi ao seu limite, mas um outro competidor (ou outros) foi melhor, e isso não deveria ser um problema. Atletas de alto desempenho, para chegarem a uma disputa olímpica, ultrapassaram centenas, milhares de outros atletas que por diversos motivos não chegaram até ali. E o fato de perder, às vezes literalmente por centésimos de segundo, uma final, uma semifinal ou mesmo estar entre os 10, 20 melhores atletas da sua modalidade no mundo inteiro, não deveria ser um problema, algo pelo que haveria a necessidade de se desculpar.
Uma declaração que foi meio contrário a esse “senso comum” foi a do nadador Bruno Fratus ao ganhar a medalha de bronze, dizendo que na final só entrou na piscina e ficou pensando em “Vai ser feliz, independente do que ocorra aqui!”. Acho que isso é bem mais saudável, e me parece que foi o que ocorreu no caso da Rayssa, medalhista de 13 anos do skate, e da Rebeca Andrade (que até agora levou 2 medalhas, pode levar mais uma), da ginástica, que deixaram a pressão de lado, buscaram fazer o seu melhor e aproveitar o momento de estar entre as melhores do mundo. No caso da Rayssa, praticamente só se divertindo, conforme ela mesma disse.
Fazendo um paralelo com nossas próprias vidas, tanto no campo pessoal quanto profissional, o quanto no dia-a-dia não nos esforçamos para satisfazer expectativas de outros, miramos objetivos que não são nossos, e nos esquecemos de simplesmente ter um propósito, e mesmo nos permitirmos ter prazer e diversão ao longo do caminho. A vida cobra muita coisa a toda hora, de todos nós, para conseguirmos objetivos, atingirmos metas, ser aprovado em processos seletivos, desde antes da vida adulta. E muitas vezes não nos permitimos repensar o caminho, fazermos mudanças e questionarmos os propósitos. “Está valendo a pena?”, “Quero mesmo fazer isso?”, “Estou fazendo isso por que quero ou porque outros querem?” e outras várias perguntas. Na vida profissional, somos cobrados para ter uma carreira de sucesso, conseguir ir subindo e evoluindo, precisando estar sempre atualizado… Mas, aqui também, como nas Olimpíadas, não há lugar para todos no topo. E isso não deveria ser um problema. Cada um deveria tratar da vida, da carreira, das conquistas e frustrações de uma maneira mais leve. Vamos ganhar algumas batalhas e perder outras, sempre. Mais importante do que os objetivos deveria ser o caminho percorrido, e, principalmente, o que você consegue tirar ao longo dele. Não deixar que o peso do mundo permaneça em nossas costas, ninguém deveria precisar lidar com isso, jamais. As novas gerações estão tendo um peso ainda maior, por conta da velocidade das coisas, da disponibilidade de informações e acesso a tudo muito rápido, a cobrança tende a ser maior ainda…
Que possamos ter mais leveza em tudo, para o bem da nossa saúde, para o bem das pessoas que convivem conosco, e para o bem da sociedade como um todo e das próximas gerações… Às vezes, o peso de que precisamos nos livrar não está no corpo, fisicamente falando, e nem nos pertence…
De todas as trilhas e travessias que fiz, no Brasil e fora, essa é uma cujas lembranças guardo com um carinho especial. Era 2009, estava em um momento de indefinições na minha vida pessoal e profissional, e nesses momentos, ao menos para mim, não há nada melhor do que ir pro meio do mato, subir umas montanhas, desconectar-se do cotidiano e alinhar as próprias energias para seguir em frente.
No meio da trilha, com o “cajado” arrumado ali mesmo…
A forma como decidi fazer essa trilha foi inusitada… eu tinha férias marcadas, e pela primeira vez na vida (e arrisco dizer que talvez seja a única até hoje) eu não tinha nada programado. Aí acabou me chegando um anúncio via e-mail de fazer essa trilha no feriadão de 9 de julho. Mandei um e-mail pedindo a vaga, e para meu espanto recebi uma ligação algum tempo depois, do dono da agência que estava organizando a trilha: “Você quer fazer a Serra Fina? Quais travessias você já fez?”. Respondi que já tinha feito a Trilha Inca Clássica, a travessia Petrópolis-Teresópolis na Serra dos Órgãos, a antiga trilha do ouro (São José do Barreiro – Paraty), e algumas menores. “Ah, então você já pode fazer a Serra Fina!”, ele respondeu. “E digo mais: depois dessa, Brasil acabou pra você, vai ter que buscar mais coisas fora!”. Achei uma abordagem peculiar, para dizer o mínimo… Mas, como fui “aprovado”, ‘bora pra trilha!
A trilha se inicia na cidade de Passa Quarto, em Minas Gerais, na divisa com São Paulo e Rio. Saindo da cidade de São Paulo, segue pela Dutra, pega a estrada para Cruzeiro (ainda em SP) e depois chega-se a Passa Quatro. Fui na véspera, o pacote incluía a primeira noite na pousada na cidade, e as três seguintes na montanha, no meio da trilha. Uma das coisas que mais gosto nesse tipo de viagem é justamente o tipo de gente que você encontra, no geral um pessoal com uma energia muito boa, um pessoal que topa qualquer coisa, e acabamos fazendo boas amizades, para futuras viagens e para a vida, mesmo. No caso, na nossa turma havia um rapaz do Acre, um do Rio Grande do Sul, três meninas de São Paulo, um rapaz de São Paulo e um gaúcho morador de São Bernardo. É muito interessante conhecer pessoas nessa situação, pessoas de bem com a vida, dispostas a compartilhar experiências, a conviver de maneira intensa e próxima à natureza por alguns dias.
Comecei a entender ali o porquê de aquela trilha ser considerada pesada, o que justificaria a abordagem seletiva do rapaz da agência: é uma trilha relativamente pesada, comparável com várias outras no Brasil, mas com um agravante que há longos trechos onde não há como conseguir água, então durante boa parte precisamos carregar toda a água necessária para os dois primeiros dias de caminhada (isso inclui para beber, cozinhar e lavar utensílios, além da higiene básica). A trilha inclui passagem por 3 dos picos mais altos do Brasil: Pedra da Mina, Pico do Capim Amarelo e o Pico dos Três Estados. Cada um tem que levar toda a sua bagagem (incluindo o saco de dormir) e bastante água para ser usada pelo grupo ao longo dos dias. A logística também é bem interessante, os guias costumavam deixar lá nos pontos de acampamento alguns mantimentos armazenados e alguns utensílios básicos, para não terem que ficar carregando lá pra cima toda vez que levassem um grupo. Bom, na manhã seguinte à nossa chegada, conhecemos o nosso guia Rodolfo e sua equipe. Mochila nas costas com somente as coisas indispensáveis no alto da montanha (o que não é pouco!), saímos para subir a montanha.
Última foto com o boné que “o vento levou”, literalmente.
No primeiro dia, subida até o Pico do Capim Amarelo, onde encontramos outros grupos. Seguimos por várias encostas com vistas maravilhosas do vale e da cidade de Cruzeiro ao longe. Muito vento, de cerca de 30 km/h, que foi quando perdi meu boné, que hoje descansa na montanha… Abastecemos de água no último ponto possível antes da Pedra da Mina (que só alcançaríamos no dia seguinte), cada um levando cerca de 4 litros na mochila. Muito companheirismo na caminhada, o pessoal ia se conhecendo, as refeições eram uma curtição à parte: macarronada na primeira noite, quando acampamos praticamente sozinhos no chamado “Maracanã”. Depois ficamos sabendo que todos os outros grupos abortaram a subida para a Pedra da Mina e voltaram pra cidade, por conta do mau tempo que se desenhava. Mas lá estávamos nós, prontos para prosseguir no segundo dia.
Vista da cidade de Cruzeiro
Parada para descanso da galera no primeiro dia
Na subida do primeiro dia
Eu tenho poucas fotos dessa trilha, porque a partir da primeira noite passada no alto da montanha, o tempo ficou bastante ruim, com muito vento e um pouco de chuva, além do frio que já era esperado lá em cima. Na época as fotos eu tirava com uma câmera DSLR, que não suportava bem esse tipo de ambiente. Hoje em dia, com câmeras de celular, fica bem mais fácil…
Pôr-do-Sol visto do nosso acampamento no “Maracanã”
Nosso acampamento da primeira noite, no “Maracanã”
Guias arrumando as coisas para nosso jantar
Depois da primeira noite acampados, mal dormida e com muito, muito vento, seguimos até o pé do Pedra da Mina. Acampamos por lá para subirmos no dia seguinte. Dependendo do tempo, seguiríamos para o vale e depois ao Pico dos 3 Estados, ou abortaríamos, descendo da Pedra da Mina e voltando a Passa Quatro pela descida do Paiolinho. No jantar, arroz com farofa mineira, com bacon e linguiça defumada… 😛 Muita conversa, um tanto de pinga com mel só para aquecer, e vamos dormir… uma noite pior do que a anterior, com ventos que até chegaram a derrubar uma das barracas às 3 da manhã. No dia seguinte, tempo só piorando, ventos cada vez mais fortes e muita neblina. Na subida, os ventos estavam cada vez piores, cerca de 70 km/h, que nos derrubaram por várias vezes. As rajadas ainda traziam muita umidade, o que dava o efeito de uma chuva lateral bem forte, nos molhando bastante. Todos juntos, com muita determinação, conseguimos subir ao topo, ficamos muito pouco tempo lá em cima por conta do clima (frio e vento muito forte, anunciando chuva), e em seguida começamos a difícil descida pelo Paiolinho, abortando o resto da caminhada por conta da chuva forte que segundo o nosso guia, iria cair no final do dia. Ao final da descida, após mais de 6 horas praticamente ininterruptas de caminhada, uma miragem: um boteco com 4 frangos assados e muitas garrafas de cerveja… para a turma cansada, um verdadeiro banquete… E, com a sensação de um desafio vencido, apesar de não termos completado a travessia, voltamos à civilização.
Manhã no acampamento, muita neblina e animação do pessoal
Como sempre, deixei um totem de pedra na montanha
Foto clássica, “voando” na neblina
Tem lugar melhor pra se trocar uma ideia no final do dia?
Povo animado no acampamento, apontando para a Pedra da Mina, para onde iríamos na manhã seguinte
E realmente, naquela noite que acabamos passando na pousada (ao invés de ser nossa terceira noite na montanha conforme o programado), caiu uma tremenda chuva, como vi poucas vezes na vida. Se tivéssemos passado mais uma noite na montanha, teríamos passado realmente por maus momentos… essa é a diferença de fazer trilhas com guias experientes e – principalmente – que conheçam o terreno e a região.
O legal disso tudo é sentir ultrapassando alguns limites, mostrando a si mesmo até onde podemos ir, além de sentir de maneira muito forte a nossa insignificância e fragilidade frente à força da natureza, quando se está desprovido de conforto e estrutura, e tudo com o que se conta é o próprio corpo e o que ele seja capaz de carregar. E a convivência com pessoas fantásticas nesses momentos, como essa turma que se formou, só torna a aventura, embora dura, mais prazerosa ainda. Uma experiência que recomendo…
Realmente não me lembro quando e por que razão acabei assistindo a esse filme, de 2007(“The man from Earth” – “O homem da Terra”), assisti algumas vezes e ele tornou-se um dos meus favoritos, uma ficção científica extremamente simples, com um roteiro genial e premissas fantásticas que permitem aos espectadores um leque praticamente infinito de questionamentos e reflexões. Hoje (julho de 2021), pelo que vi só está disponível na plataforma MovieSaints (para alugar, não sei se há opção legendada) e no YouTube há uma versão com legendas em português, mas não sei se permanecerá ali, já notei outras versões sendo retiradas ao longo do tempo.
A estória passa praticamente inteira em um mesmo lugar, a casa de um professor, John Oldman, que está deixando a Universidade, de repente, sem explicações, e sem dizer para onde está indo. Também sem avisar, alguns de seus colegas vão até lá para improvisar uma despedida. Acabam ficando horas e horas ali, conversando, e é essa conversa que traz praticamente toda a parte interessante da estória. Os colegas obviamente estão curiosos por que razão um professor bem-sucedido, que estaria para assumir um cargo importante na Universidade, simplesmente larga tudo e vai embora. Estão ali catedráticos de diferentes áreas: Biologia, Arqueologia, Literatura, Antropologia, História (que é a área do professor Oldman).
O filme em si é cheio de sutilezas e detalhes, e acho que isso é uma das características que fazem dele um delicioso exercício intelectual e filosófico para quem está assistindo. Diante da insistência dos colegas pelos motivos da partida, o professor Oldman diz que de tempos em tempos ele tem essa necessidade de mudar, e que já passou por isso algumas vezes (embora aparente não ter mais de 35 ou 40 anos, no máximo). Essa desculpa não satisfaz a audiência, então ele começa a contar o que seria a sua estória de vida. Ele começa: “Imaginem um homem pré-histórico, nascido há 14 mil anos atrás, que por algum motivo desconhecido simplesmente não envelhece e não morre, e supostamente estaria vivo atualmente entre nós.”. Aquele pequeno grupo de intelectuais acadêmicos começa a achar divertida a estória, e começam a supor que Oldman estaria escrevendo um livro de ficção. “Imaginem que vida que esse homem teria tido, quantas oportunidades de aprender, de vivenciar tantas coisas diferentes, por tanto tempo!”. Com o passar da conversa, regada a um pouco de uísque, o professor Oldman continua a contar, em primeira pessoa, a estória desse suposto homem das cavernas imortal. Em um misto de espanto e curiosidade, os outros o encorajam e seguem ouvindo. Fazem um comentário sobre um quadro que viram no meio da mudança, que parecia ter o estilo de Van Gogh. Ele afirma que foi o próprio Van Gogh que lhe deu, quando conviveram no século XIX. Os colegas seguem fazendo várias perguntas, que ele responde tranquilamente, sem pestanejar. Conta de suas experiências tendo convivido com povos e culturas bastante diferentes, conhecido inúmeros personagens históricos pessoalmente. Note uma das principais sutilezas (talvez não tão sutil assim), o próprio nome dele, Oldman, pode ser traduzido literalmente como “homem velho”.
E ele segue contando que no princípio, entre os homens das cavernas, ele percebeu que não envelhecia. O grupo acabou por expulsá-lo achando que ele era amaldiçoado e estaria sugando suas vidas de alguma forma. A partir de então ele passou a conviver em grupos durante um tempo, e sempre partia quando começavam a perceber que ele não envelhecia. E passou a fazer isso indefinidamente, era fácil nos tempos em que os homens eram nômades, foi ficando mais difícil com surgimento de tribos, cidades, autoridades estabelecidas. Fala de quando viveu entre os sumérios, entre os fenícios, e de quando teria convivido e aprendido coisas com Buda.
Alguns dos colegas ficam fascinados com a estória, outros extremamente incomodados e incrédulos. Chamam um outro professor, aparentemente de psiquiatria, para participar da conversa, mas com a real intenção de avaliar o estado do professor Oldman. Em alguns momentos o próprio professor Oldman parece ter se arrependido de ter começado a estória. “Só queria me despedir de vocês como eu realmente sou, fazer isso pela primeira vez, mas talvez não tenha sido uma boa ideia.”
O clima começa a ficar meio tenso na conversa à medida em que a noite se aproxima. Um ou dois momentos que poderiam ser chamados de um grande clímax ocorrem, mas prefiro deixar para que você, que lê esse texto agora, possa assistir ao filme sem que eu o tenha estragado. Ao final, que ao menos para mim não foi óbvio, fica aquela associação de que o filme inteiro foi uma conversa ao redor do fogo, como temos feito há milhares de anos, contando estórias que viram História, passando de geração para geração, mudam-se os meios, alteram-se as mensagens, e o fluxo segue…
A mensagem que fica é de ficar pensando (filosofando?) a respeito dos caminhos da Humanidade, como foram forjadas suas crenças, seus mitos, tudo o que nos trouxe até aqui hoje, até mesmo nossa própria mortalidade. O que nos diria um suposto homem das cavernas que tivesse atravessado tudo isso e seguisse caminhando entre nós? Com o passar do tempo, a velocidade das informações, facilidade de fotos e vídeos, seria cada vez mais complicado para ele permanecer incógnito ao londo das gerações… O filme tem as coisas que gosto quando assisto ou leio uma estória: é intelectualmente instigante, o enredo não é óbvio ou previsível, e ao final me deixa com um monte de coisas para pensar a respeito… e são essas coisas que busco em uma boa estória.
Espero que tenha gostado se chegou até aqui, até uma próxima vez!
P.S.: Há uma sequência de 2017, chamada “Man from Earth: Holocene” (Homem da Terra: Holoceno), disponível no Vimeo para compra, e no MovieSaints para alugar. Eu particularmente não gostei muito, achei que foi uma sequência desnecessária. Foi imaginada uma situação, 10 anos após o primeiro filme, onde ele estaria lecionando em outro local, e alguns alunos começam a desconfiar de algo e vão investigar o passado dele… achei meio “hollywoodiano” em excesso, ainda mais comparado com o primeiro filme… mas, fica a referência, talvez sejá só uma má vontade da minha parte…
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