Cris na China (parte 1)

2 08 2026

As pessoas…

Depois de muito tempo sem postar aqui, estou de volta… já nem conto quantas vezes comecei e interrompi as coisas por aqui, desde meus primeiros textos que até hoje andam perdidos no ciberespaço…

Bom, mas vamos lá: A China sempre foi um daqueles lugares que eu pensava que um dia desejava conhecer. Estava na minha lista havia bastante tempo, embora nunca tivesse aparecido uma oportunidade concreta — e também não ocupasse exatamente o topo dela, como já aconteceu com outros destinos, como São Petersburgo ou o Nepal.

Até que, no ano passado, uma viagem de trabalho acabou me levando para lá. E, como sempre procuro fazer quando viajo a trabalho, aproveitei a oportunidade para conhecer um pouco do país além dos escritórios, reuniões e visitas profissionais.

Já faz algum tempo que voltei, mas resolvi finalmente escrever sobre essa experiência. E, como foram muitos dias, lugares, descobertas e situações diferentes, achei melhor dividir o relato em três textos. Neste primeiro, quero falar principalmente sobre as pessoas — talvez uma das maiores surpresas que tive durante a viagem.

Geograficamente, a China foi o lugar mais distante (até hoje) que já visitei. E talvez também tenha sido um dos mais distantes do ponto de vista cultural, ao lado de países como o Butão e a Rússia. Ainda assim, uma das primeiras coisas que me chamou a atenção foi justamente a proximidade das pessoas.

Vendo de longe, muitas vezes temos a impressão de que os chineses são fechados ou distantes. Depois de passar alguns dias por lá, fiquei com a sensação de que boa parte dessa imagem vem simplesmente da barreira do idioma.

O inglês não é tão difundido quanto em outros países e, quando não existe uma língua em comum, uma pessoa pode parecer menos acessível do que realmente é. Mas bastava surgir alguma oportunidade de interação para essa impressão mudar rapidamente.

Eu havia tido aulas de mandarim durante algum tempo, mas nunca tinha utilizado. Em alguns momentos, eu tentava falar as poucas palavras e frases em mandarim das quais ainda lembrava. Nada muito elaborado, longe disso. Era muito básico, mas a reação das pessoas quase sempre era de surpresa e simpatia, como se não esperassem que um estrangeiro fizesse aquele esforço. Primeiro vinha uma expressão de espanto e, logo depois, normalmente um sorriso.

Isso acontecia também no trabalho. As reuniões começavam sempre em inglês, naturalmente, mas, de vez em quando, quando as pessoas conversavam entre si em mandarim, eu brincava dizendo:

— Essa parte eu entendi.

Nem sempre era verdade. Ou, pelo menos, eu havia entendido muito menos do que deixava parecer. Mas eles riam, e aquilo ajudava a quebrar um pouco a formalidade. E nós, brasileiros, adoramos uma conversa informal, não é verdade? Muito mais do que a média de qualquer outro país, atrevo-me a dizer.

Em uma das visitas que fiz, cumprimentei uma executiva da empresa em mandarim, dizendo que era um prazer conhecê-la. Ela ficou surpresa e perguntou por que eu havia estudado chinês.

Selfie no aeroporto… aeroportos são todos iguais… rs

Respondi que, no Brasil, as pessoas também me faziam aquela pergunta. E que eu normalmente respondia com outra:

— Por que você ainda não está estudando mandarim?

Ela riu e disse que era uma resposta inteligente.

É claro que eu não falo mandarim. Estudei muito pouco e conheço apenas algumas frases. Mas, especialmente para quem trabalha com tecnologia e mantém contato frequente com empresas chinesas, sempre me pareceu natural tentar compreender um pouco. Naturalmente já me interesso por estudar línguas, e essa língua é um tremendo desafio intelectual, certamente.

Mais do que a utilidade prática, percebi que o esforço era visto como uma demonstração de respeito. E bastavam algumas palavras para diminuir uma distância que, à primeira vista, parecia muito maior.

Essa receptividade não apareceu apenas nas relações profissionais.

Em uma estação de metrô, uma senhora percebeu que eu estava olhando para o mapa e começou a tentar me ajudar. Ela não falava inglês, eu não tinha mandarim suficiente para explicar muita coisa, mas, ainda assim, apontava as linhas e as estações para mostrar qual direção eu deveria seguir.

O mais curioso é que eu nem estava propriamente perdido. Mas ela imaginou que eu pudesse precisar de ajuda e decidiu se aproximar mesmo assim.

Em pontos turísticos, também tive várias pequenas interações desse tipo. Algumas vezes eu pedia para alguém tirar uma foto minha; em outras, eu me oferecia para fotografar pessoas ou grupos. Mesmo sem uma língua em comum, quase sempre havia sorrisos, gestos e alguma tentativa de comunicação.

Talvez a cordialidade chinesa não se manifeste exatamente da mesma maneira que a brasileira. Nós costumamos falar com desconhecidos, fazer comentários, cumprimentar todo mundo e criar intimidade rapidamente. Lá, pelo menos na minha experiência, a aproximação parecia mais discreta. Mas ela existia.

Outra coisa que me chamou bastante a atenção foi a quantidade de pessoas usando roupas tradicionais nos parques, nas ruas e em pontos turísticos. Para um olhar ocidental, às vezes parecia quase uma espécie de cosplay histórico.

Muitas estavam completamente produzidas, com roupas elaboradas, penteados, maquiagem e acessórios, aparentemente apenas para passear e fazer fotografias. Era comum encontrá-las posando em jardins, diante de templos ou em construções antigas, como se fizessem parte da própria paisagem. Aquilo me pareceu ao mesmo tempo curioso e bonito. Em vez de as roupas tradicionais aparecerem somente em cerimônias ou apresentações turísticas, elas estavam ali sendo usadas por pessoas comuns, muitas vezes jovens, que pareciam se divertir muito com aquilo.

No ambiente de trabalho, as diferenças culturais ficavam ainda mais evidentes.

Durante alguns dias, tive um posto de trabalho no meio do escritório. Em uma das manhãs, cheguei cerca de dez minutos antes do início do expediente. O local estava praticamente vazio, as luzes apagadas e tudo em silêncio. Quando deu exatamente o horário, as pessoas começaram a chegar quase ao mesmo tempo. Entravam, iam diretamente para suas mesas e começavam a trabalhar.

Não havia aquela sequência tão brasileira de “bom dia” para todo mundo, conversa no café, comentários sobre o trânsito ou pequenas conversas no corredor. Para uma pessoa extrovertida como eu, aquilo parecia bastante estranho.

Ao meio-dia, acontecia algo parecido. Todos levantavam e saíam para almoçar, quase simultaneamente. As luzes eram apagadas ou bastante reduzidas durante o intervalo, como uma forma de deixar claro que aquele era o momento de descanso, e não de continuar trabalhando.

Havia uma separação muito mais evidente entre o tempo profissional e o pessoal, mas isso não significava falta de simpatia. Com o tempo, por meio das brincadeiras, das conversas e das minhas tentativas de falar mandarim, fui criando uma relação mais informal com algumas pessoas. Era apenas uma informalidade construída de outra maneira e em outro ritmo.

A comida também teve um papel importante nessa aproximação.

Os chineses da empresa que estavam me acompanhando (foram pessoas diferentes ao longo dos dias) demonstravam bastante preocupação com o que um visitante ocidental gostaria de comer. Perguntavam se eu preferia um restaurante chinês ou algum lugar com comida ocidental.

Minha resposta normalmente era:

— I’m wide open. (estou bastante aberto a experimentar)

Eu estava realmente aberto a experimentar praticamente qualquer coisa, com a única ressalva em relação à pimenta, que realmente não gosto, atrapalha meu paladar e me estraga qualquer refeição.

Quando percebiam que eu queria provar a comida local, ficavam bastante animados. E as refeições eram uma experiência à parte.

Em uma mesma mesa, podiam aparecer camarão, peixe, pato, porco, boi, frango e até pombo. Para nós, brasileiros, acostumados normalmente a uma organização um pouco diferente dos pratos, aquela diversidade toda em uma única refeição causava certo espanto.

Havia muita fartura, muitos pratos compartilhados e uma grande preocupação para que eu experimentasse tudo.

O pombo foi provavelmente a experiência mais diferente. Não diria que se tornou meu prato preferido, mas fazia parte da proposta de estar aberto ao que aparecesse pela frente.

Curiosamente, a refeição menos divertida aconteceu justamente em uma noite em que estávamos acompanhados por outros brasileiros e fomos a uma hamburgueria. Não estava ruim, evidentemente, mas, depois de atravessar metade do mundo, comer hambúrguer não parecia exatamente a maior das aventuras gastronômicas.

Ao final da parte profissional da viagem, passei também algum tempo conhecendo Shanghai. É uma cidade extremamente moderna e cosmopolita, frequentemente comparada a lugares como Nova York ou Paris.

Um dos seus pontos mais conhecidos é o Bund, uma região às margens do rio onde se vê, de um lado, uma sequência de edifícios históricos e, do outro, o horizonte moderno de Pudong, com seus arranha-céus iluminados e coloridos, talvez a imagem mais conhecida de Shanghai e da China moderna.

É um contraste muito bonito entre duas margens e também entre duas épocas.

Talvez aquela paisagem resumisse um pouco do que eu havia encontrado até ali: um país com uma história muito antiga, uma cultura bastante diferente da nossa e, ao mesmo tempo, uma modernidade impressionante.

Mas essa modernidade não estava apenas nos arranha-céus de Xangai. Ela aparecia nos trens, nos pagamentos, nos veículos elétricos, na infraestrutura e até na forma como as fábricas funcionam.

Mas essa parte fica para o próximo post…