Um ano dentro de casa…

21 03 2021
Imagem daqui

Essa semana completei um ano cumprindo o isolamento social, tão falado e tão necessário para o mínimo controle da pandemia do COVID-19.

Um ano que vi pouquíssimas pessoas do meu convívio social, limitei minhas saídas de casa para poucos momentos, ao longo do tempo fomos vendo como nos sentíamos seguros e confortáveis com a situação, saindo para caminhadas no condomínio, na avenida aqui ao lado, andar de bicicleta… De uma maneira geral, tomando cuidados simples individualmente, nos mantivemos seguros. Dentro de casa, adaptação total para home office em tempo integral. Eu já fazia boa parte do trabalho em casa, mas a Laura não. Montamos na medida do possível os dois pontos de trabalho e conseguimos ficar bem.

Mas temos a consciência de que somos privilegiados, e muito mais ainda numa situação como essa: temos condições de trabalhar de casa, empregos que nos permitem isso com um mínimo de adaptação, não dependemos de ficar saindo de casa, utilizando transporte público ou ir a locais com outras pessoas. Mas muita gente não consegue, não pode fazer isso. Por isso acho que o fato de ainda estarmos, depois de um ano, discutindo sobre a necessidade ou não de medidas rígidas para controlar a circulação do vírus mostra muito sobre como fizemos as coisas erradas até agora…

Eu, que sou completamente avesso a julgar os outros, sei que cada um tem seus limites, e acho que as pessoas fazem as suas escolhas e arcam com as consequências delas, para o bem e para o mal. Mas o problema em questão é que as escolhas que as pessoas fazem impactam outras vidas, a partir do momento em que não há mais recursos para atender doentes em quase nenhum lugar do país. É um grande problema coletivo que precisa de contribuições e sacrifícios individuais, e é isso que as pessoas não enxergam, ou não querem enxergar. É ruim não poder circular, não poder fazer o que gostaria? É, mas são limites que a situação nos impõe, sem alternativas. E é pelas pessoas que não têm escolha, que devemos fazer esse esforço. De novo, é um problema coletivo, gigante, que necessita de contribuições e sacrifícios individuais. Talvez se as pessoas conseguissem enxergar dessa maneira conseguiríamos conter o avanço da doença enquanto ainda não temos vacinação em massa.

Ao longo desse tempos todos aprendemos coisas que podemos fazer à distância, reuniões familiares restritas às telas de computadores e celulares, lives dos artistas preferidos, nada disso substitui à altura a vida real, mas como se diz no popular, “é o que temos para hoje”. A minha rotina pessoal nos últimos doze meses tem se restringido a bastante trabalho, estudo, aulas virtuais de Yoga (que têm me ajudado a manter o equilíbrio e a calma), quando estava aberta a academia cheguei a nadar, sempre com distanciamento e com horário marcado, além das caminhadas e pedaladas. E torcendo muito para que a vacinação acelere para que possamos ter um mínimo de normalidade de novo, para que possamos nos abraçar de novo…





Ensaio sobre a cegueira, em tempos de Covid…

9 08 2020

São raros os casos em que eu leio um livro, depois vejo o filme baseado nele, e o filme me surpreende positivamente. Esse foi um caso que fiz questão de assistir ao filme logo que foi lançado, há bastante tempo, em 2008. Escrevi a respeito no meu blog antigo, na época, e agora, 12 anos depois, no meio de uma pandemia, achei interessante revisitar esse assunto.

Quando ouvi que o livro seria adaptado para o cinema, fiquei extremamente curioso . Esse era um livro cuja adaptação para o cinema seria extremamente complexa e poderia ter um resultado muito ruim. Mas, para minha feliz surpresa, o diretor Fernando Meirelles conseguiu traduzir em grande parte a crueza do livro, amenizando em algumas, contando com uma fotografia muito boa e acabou na minha opinião com um resultado final bem interessante.

Foi o primeiro livro que li do Saramago, se não me engano. Um livro extremamente forte, denso, nas palavras do próprio autor:

Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso.”

Realmente o livro narra uma situação angustiante, onde uma espécie de doença que deixa as pessoas cegas, de uma hora pra outra. Mas não é uma estória a respeito da doença em si, mas uma estória a respeito da perda da dignidade humana, em um cenário extremo onde numa pandemia se perdem as noções de humanidade, empatia, sociedade, onde instintos básicos, selvagens de sobrevivência afloram e os personagens passam a se aproximar muito mais de animais do que ao que costumamos entender por seres humanos.

Como sempre, estórias fortes e densas despertam reações, algumas vezes com razão, e em outras de maneira desproporcional e – por que não dizer – despropositada. Na época do lançamento, a Federação Nacional de Cegos dos EUA protestou e promoveu boicote ao filme. Acabaram associando as barbáries do filme, perpetradas por cegos, como uma tentativa de estereótipo. Mas qualquer um que consiga entender que o filme não é sobre a cegueira, não é sobre a doença, é sobre a perda da nossa humanidade, saberia dizer que não há motivos para tal interpretação.

Cena do filme de Fernando Meirelles (fonte: divulgação)

Trazendo um paralelo para a pandemia que nos foi apresentada em 2020, eu continuo achando que situações extremas nos trazem o que há de melhor e pior dentro de cada um de nós. O funcionário público de alto escalão que dá a “carteirada”, os “cidadãos de bem” que desrespeitam agentes públicos e trabalhadores, essas pessoas sempre existiram, e suas posturas e atitudes não são novas, só foram amplificadas pela situação. Acredito fortemente que independentemente de religião, posição política, social, ou qualquer outro motivo, devemos respeito ao próximo, e sempre fazermos o exercício de nos colocarmos no lugar do outro. Além da pandemia da COVID-19, acho que há também uma pandemia silenciosa de cegueira. Não aquela cegueira física retratada por Saramago, mas uma cegueira seletiva metafórica, que impede algumas pessoas de enxergarem a noção do que é sermos humanos, no sentido mais amplo da palavra… Que venham tempos melhores por aí…