O dilema das redes (documentário)

4 10 2020
(Foto: Freepik)

Nas últimas semanas um documentário lançado pela Netflix o documentário O dilema das redes (The social dilemma), que explica de maneira didática, literalmente desenhando a forma como as redes sociais se empenham em aumentar o tempo dos usuários em suas ferramentas, aumentar o chamado “engajamento” online. Quanto mais tempo o usuário fica online, mais ele é valioso para que possa ser alvo de propagandas (que é o que gera dinheiro para as plataformas), sugestões de conteúdo (para aumentar ainda mais o engajamento), alimentando e gerando lucros para o sistema.

Até mesmo por conta de trabalhar com tecnologia, eu sempre fui um dos primeiros a adotar as plataformas quando surgiam. Primeiro os comunicadores instantâneos, sendo o ICQ o primeiro de que me lembro, lá em 1997 ainda. Aí o Napster, plataforma usada para compartilhar músicas. Depois o Orkut, que trouxe a possibilidade até então inimaginável de ter ali, ao alcance de alguns cliques, contato com pessoas com as quais você não tinha tido contato por anos. Era como um grande álbum de todas as pessoas que haviam passado pela sua vida em algum momento, ali, na distância de um clicar do mouse.

Ao longo do tempo os aplicativos, as redes, tudo isso passou a ser parte da nossa vida, do nosso dia-a-dia, sem nem nos darmos conta acabamos nos esquecendo de como era a vida antes disso. O que não nos damos conta é a quantidade de tempo que ficamos online, e ainda, a quantidade de informações a nosso respeito que nosso comportamento online fornece às corporações. O que dá dinheiro para elas é a venda de anúncios direcionados para usuários com potencial de serem clientes de determinado anúncio, produto ou serviço. Nós, que nos cadastramos e utilizamos diariamente as redes sociais, somos o “produto” que eles vendem. E muitas vezes não nos damos conta disso. O filme mostra o esforço dos algoritmos (programas por detrás das redes) em nos manter o maior tempo possível online, enviado conteúdo que nos interessa, para que possamos estar mais tempo disponíveis aos anúncios.

Teoricamente, esse mecanismo foi criado para criar a “melhor experiência para o usuário”. Na prática, pode ser usado facilmente para manipulação de opiniões e comportamentos, e ainda abre uma porta gigante para a proliferação de notícias falsas (as já famosas fake news). Aí são dois problemas bem graves: são as empresas que decidem o que você vê, e isso favorece muito a concentração de informações em um determinado sentido, sejam elas verdadeiras ou não. Ou seja, antigamente, todas as informações que consumíamos vinham de fontes como jornais, revistas, veículos que – embora por vezes enviesados – tinham um compromisso mínimo com a verdade, com a credibilidade a ser mantida. Com o advento da Internet, e posteriormente das redes sociais, qualquer um pode escrever literalmente qualquer coisa e atingir um público potencialmente gigante. Sem controle, validação ou qualificação da informação. Imagina o poder do estrago disso quando falamos em milhões, centenas de milhões de pessoas lendo e repassando essas informações. “Ah, se está todo mundo falando, deve ser verdade!”. Aí começam a se difundir coisas absurdas, teorias conspiratórias, fatos históricos revisitados, tudo sem necessariamente comprovação, rigor científico ou jornalístico.

Interesses implícitos por trás de tudo que chega para você

E como as empresas podem se comprometer em combater isso? A informação é muito rápida, propaga-se exponencialmente e temos literalmente centenas de milhões de pessoas compartilhando conteúdo. Por minuto, em 2020, temos em média: cerca de 190 mil tweets, 350 mil stories no Instagram, 500 horas de vídeos novos no Youtube, e mais de 4 milhões de likes no Facebook. As empresas dizem estar aprimorando os algoritmos de forma a minimizar a propagação. Mas isso vai contra o seu própio faturamento, diminuindo o tempo que os usuários ficam online. Só o tempo dirá o que pode acontecer.

Um problema adicional é o de realmente criar uma dependência do usuário, o que pode ser potencialmente perigoso em especial para crianças. Já há estudos que mostram que as sensações no cérebro que ocorrem quando recebemos likes ou comentários positivos nas redes são equivalentes àquelas de quando se utilizam alguns tipos de drogas (notícia aqui).

Isso significa que as redes sociais são tudo de ruim? Não necessariamente. Tudo que é em excesso faz mal, já dizia a minha mãe. Particularmente acho importante que cada um entenda o que isso lhe traz de bom e de ruim, e tente equilibrar. No limite, podemos até descobrir que não precisamos das redes. Mas diminuir as notificações, evitar clicar muito nas sugestões, controlar o tempo que fica online, tanto o seu próprio quanto o das crianças, talvez seja fundamental. A vida offline tem seus encantos, afinal. ou não?

De qualquer forma, acho o documentário imperdível, vale a pena assistir para pensar a respeito. Um outro muito interessante que trata de um assunto correlato é o documentário Privacidade Hackeada (The great hack), também da Netflix, que trata de como as redes foram utilizadas para espalhar notícias falsas de forma a influenciar nas eleições presidenciais de 2016 nos Estados Unidos.

Enfim, são informações assustadoras, que nos dão margem para pensar bastante a respeito. Nem que seja para que continue usando as redes, mas ao menos agora entendendo melhor por onde estará navegando.





Terapia é pra quem precisa…

23 08 2020

Durante muito tempo eu não acreditei muito no poder, seriedade ou necessidade de alguém ter que fazer terapia. Eu realmente acreditava que os problemas que qualquer pessoa pudesse ter pudessem ser resolvidos sem esse tipo de ajuda, com uma conversa com um bom amigo, ou consigo mesmo, o que seria fácil e eficiente. Tinha uma opinião muito forte e estabelecida a respeito. Procurar por esse tipo de ajuda seria uma fraqueza, sinal de que a pessoa teria falhado miseravelmente em resolver seus problemas sozinho. Pessoas dignas de pena, portanto. Pensando nisso hoje fico imaginando de onde eu havia tirado isso. Quando somos crianças, as nossas “opiniões” sobre todas as coisas do mundo são formadas a partir do que ouvimos os adultos dizerem. Não por maldade ou má intenção dos adultos, mas por vezes uma colocação fora de contexto, ou mesmo num contexto incompreensível para uma criança que esteja ouvindo, o que foi falado pode ficar com ela por muito, muito tempo… não sei se foi o meu caso, realmente não me lembro.

Mas, o fato é que cresci com esse preconceito junto comigo, e não tinha nenhum problema com ele. Do alto da minha autossuficiência, eu me bastava, eu me resolvia comigo e com o mundo e estava tudo certo… até o dia em que não estava mais… e esse dia chegou. Foi por volta dos meus já longínquos 29-30 anos, não me recordo muito bem. Mas lá estava eu, sem saber como lidar com muitas questões, algumas já guardadas por muito tempo, outras tantas que eu não entendia, e umas ainda que eu nem sabia sequer que existiam. Não foi um momento de desespero ou pânico, eu diria, mas um momento que a necessidade acabou se impondo. Havia algo errado, e isso estava causando sofrimento para mim e para pessoas ao meu redor. E num determinado momento, lá estava eu, em um consultório, diante de uma profissional (extremamente bem recomendada por uma pessoa de confiança e da área), uma menina, aparentemente mais nova do que eu, começamos a conversar e ela simplesmente me pergunta o porquê de eu estar ali. Eu me lembro muito claramente daquele momento, em que eu tive que decidir o que responder e quase – sim, por pouco – fui embora dizendo que na verdade tinha sido um engano. Depois fiquei pensando se algumas pessoas fazem isso, ou se passa pela cabeça de alguém fazer isso… Bom, mas fiquei, comecei a falar, falar, praticamente sem parar por um bom tempo. E ali iniciou-se para mim um processo no qual fui me conhecendo, descobrindo algumas coisas que me incomodavam e que eu nem sabia. Fui construindo uma relação de confiança com a terapeuta, fui descobrindo (eu, curioso sobre tudo) que haviam linhas muito diferentes dentro da psicanálise, fui descobrindo o processo aos poucos. E descobri que num tratamento com um bom profissional, o processo não é dele, é seu. O(a) terapeuta está ali para auxiliar, para “limpar” alguma visão turva, algo pontual que porventura você não esteja enxergando. Ele ou ela não está ali para resolver nada, mas para lhe acompanhar no processo. E, posso dizer pela minha experiência, que é um processo muito enriquecedor. Aprendi que posso fazer coisas, curar feridas, as que não posso curar posso fazer com que não sejam parte central da minha vida, dentre outras coisas… e o mais importante, que a pessoa mais importante de nossa vida, de quem temos que cuidar antes de tudo, somos nós mesmos. Se não estivermos bem, não adianta cuidarmos dos outros, sejam filhos, pais, cônjuges, o que for. É preciso estar bem consigo mesmo para poder cuidar bem dos outros. E isso não significa ser egoísta, mas simplesmente buscar o equilíbrio, sempre, para que saiba bem seus próprios limites e consiga ficar bem consigo mesmo, para ser uma pessoa melhor para si e para os outros. Fiquei alguns anos na terapia, acabei interrompendo por motivos alheios à minha vontade, mas foram ensinamentos a respeito de mim mesmo que foram valiosos por toda a vida.

E por conta disso eu acho que todo mundo deveria fazer terapia? Não, não necessariamente, não mesmo. Uma outra coisa aprendida nesse processo, e também ao longo da vida, é que cada um tem um caminho, uma abordagem ou receita que sirva para si, em seu próprio tempo. O que serve para mim não serve necessariamente para o outro. O que achei na terapia que me ajudou, outra pessoa acha de alguma outra forma de se autoconhecer. As trajetórias, as bagagens de cada um são diferentes, o tempo e a disposição também. O que acho importante é que as pessoas não tenham a resistência que eu tive, e sem a qual eu poderia ter perdido menos tempo e ter descoberto meu próprio caminho mais cedo. As pessoas precisam entender que precisar de ajuda não é sinal de fraqueza ou falha, mas de lucidez e coragem. Somos seres humanos, cheios de fragilidades e incertezas, e não temos a obrigação de darmos conta de tudo o tempo todo. Espero que mais e mais pessoas possam ser mais felizes, levar uma vida mais plena. E lembrando sempre que a felicidade não é a ausência de problemas, mas sim a sua capacidade de lidar com eles. Uns problemas vão, outros vêm, alguns permanecem. Eles fazem parte da vida, e vão continuar fazendo sempre. Cabe a cada um de nós decidirmos o que fazer com eles.





Sobre o tempo…

26 07 2020

“Batidas na porta da frente… É o tempo…
Eu bebo um pouquinho pra ter argumento… Mas fico sem jeito calado, ele ri… Ele zomba do quanto eu chorei… Porque sabe passar, e eu não sei…”

Aldir Blanc, em “Resposta ao tempo”

Eu tenho mania de guardar coisas… algumas úteis, outras nem tanto, outras ainda com potencial de serem úteis em hipotéticas e improváveis situações futuras… Limpando e arrumando algumas coisas nesses dias encontrei algo curioso: o meu primeiro cartão de visitas! Era o ano de 1995, tinha meu diploma de Técnico em Eletrônica pela ETESP no final do ano anterior e decidi sair do emprego de técnico de laboratório na Proceda, após 7 meses de contrato, e resolvi virar freelancer como técnico de campo para equipamentos de informática, fiz o cartão na boa e velha HP DeskJet da mãe. Bons tempos aqueles, ainda morando com a mãe, 18 anos e muita energia para trabalhar, e arriscar…

Na época, era telefone de casa(da mãe!) e PAGER da Mobi

Quando vi o cartão comecei a lembrar da época: comprei um pager (hoje peça de museu, certamente!), prestava serviços para algumas empresas, cheguei a colocar anúncio no jornal (classificados de domingo!), aprendi naquele período como lidar com clientes, cometi os primeiros erros, e enquanto isso estudava à noite no Anglo para prestar o vestibular de Engenharia de Computação na Unicamp. Fui entrevistado pela Folha para o caderno de vestibulares Fovest, numa matéria que dizia “Vestibulandos surfam na rede”(achei essa matéria guardada também, veja abaixo!), já que a Internet era uma novidade, e o Google nem existia… Prestei dois anos seguidos até conseguir a tão sonhada vaga. Em 1996 parei com essa estória de freela e fui trabalhar como técnico na Megaprom Informática, mais uma vez visitando clientes, trabalhando com suporte e manutenção… tempo bom, que não volta mais…

Usar Internet era motivo de matéria no jornal, em 1996. Estou atrás do rapaz de boné.

Graças ao esforço da minha família, que apesar das dificuldades conseguia me ajudar financeiramente, consegui parar de trabalhar e me dedicar integralmente à faculdade de Engenharia de Computação da Unicamp, a partir de 1997. Saindo da casa da mãe, mudando de cidade… Era um dos pouquíssimos da turma que já havia tido alguma experiência profissional. A maioria ali estava com 17 anos, e havia saído imediatamente do segundo grau para lá. Foi, à época, meio estranho para mim, mas por pura falta de informação mesmo… eu era uma exceção, mas antes de entrar achei que não seria.

De lá pra cá, 23 anos se passaram… formatura após 5 anos, fui trabalhar com desenvolvimento na Motorola em Jaguariúna, casei em 2002, e me separei em 2009. Mudei para São Carlos, onde trabalhei também com desenvolvimento na Opto Eletrônica, por quase dois anos. Depois disso, final de 2011, recebi uma proposta na Avnet e voltei para São Paulo, para atuar como Engenheiro de Aplicações de Campo. Depois de 15 anos, voltava finalmente a uma função onde era necessário lidar diretamente com clientes. E só aí me lembrei como gostava disso, e como sabia fazer um bom trabalho. De volta às origens, de certa forma… Em 2015 tive uma proposta para trabalhar em Belo Horizonte, na Unitec. Arrumei as coisas, casei pela segunda vez e lá fomos nós para BH. Ficamos por 3 anos, e desde outubro de 2018 estou de volta a São Paulo, trabalhando na Vermont.

Acho que esse momento de quarentena me fez pensar em tanta coisa pelo que passei nesses anos todos, desde aquele primeiro cartão… Fui construindo uma carreira com a qual fico muito satisfeito. E no lado pessoal, conheci pessoas fantásticas, perdi pessoas, algumas afastadas pela vida, outras pelos acontecimentos, outras sem motivo nenhum… altos, baixos, realizações, frustrações, sofrimentos sentidos e infligidos a outros… Acho que com mais vitórias do que derrotas, mais alegrias do que tristezas, e – faz parte – um tanto de arrependimentos… Uma vez um colega me perguntou sobre uma determinada situação da vida dele que implicava em uma decisão importante a ser tomada… eu disse a ele: qualquer que seja a sua escolha, em algum momento do caminho (talvez mais de uma vez ao longo dele) você irá olhar pra trás e ter a certeza de que a outra escolha teria sido melhor… simplesmente porque a realidade competir com a utopia do que não se realizou não é justo… não tem como ser…

E que venham mais uns 23, 25 anos para que eu possa encontrar coisas antigas, datadas do longínquo ano da pandemia de 2020…

“E o tempo se rói com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
Pra tentar reviver…

No fundo é uma eterna criança
Que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder
Me esquecer…

Adir Blanc, em “Resposta ao Tempo”





Factfulness (livro)

12 07 2020

“10 razões pelas quais você está errado sobre o mundo – e por que as coisas estão melhores do que você pensa”, assim diz o subtítulo original desse livro. Quase uma ode ao otimismo, “O hábito libertador de só ter opiniões baseadas em fatos”, diz a versão traduzida.

Li esse livro em 2018, atraído por uma notícia que estavam falando muito bem do dito cujo. Ainda não havia a versão em português, então acabei lendo no original. O autor, o sueco Hans Rosling, faleceu antes de ter terminado esse livro, que foi finalizado por seu filho e sua nora (se não me engano), e ele tem uma TED Talk de muito sucesso. Ele era médico, pesquisava e ensinava Saúde Pública e tornou-se um grande estudioso e entusiasta de dados e estatísticas.

Ele tem um teoria interessante que diz que, no geral, as pessoas tendem a ser muito pessimistas em relação ao mundo, por várias razões: visão enviesada e limitada, dados desatualizados (o mundo mudou desde que entramos na escola, certo?), notícias enviesadas (notícia ruim vende muito mais!), e a nossa tendência de usar a intuição, que acaba por enviesar ainda mais nossas opiniões. Um exercício básico que ele faz no livro é o seguinte: para qualquer pergunta com 3 alternativas a um grupo de tamanho estatisticamente significativo, um sorteio aleatório de respostas mostraria que cada resposta irá obter um terço (33%) das escolhas. Aleatoriamente, um grupo de chimpanzés (ou qualquer outro animal) teria 33% de acerto, qualquer que fosse a questão. No caso dele, ele sempre usa o hipotético “resultado dos chimpanzés” como referência.

Ao fazer questões a diversas plateias qualificadas ao redor do mundo em palestras, invariavelmente as pessoas acertavam menos do que os chimpanzés. Perguntas sobre índices de vacinação, escolaridade, renda, violência, economia… Raramente chegavam a mais de 20% de acerto, qualquer que fosse o público em questão. E a resposta do público era invariavelmente pessimista, pior do que a realidade. Achei um ponto de vista interessante. O mundo, se olharmos de uma perspectiva macro, considerando a população inteira de mais de 7 bilhões (e creio que a China tem um peso grande nisso), tem estatisticamente melhorado, os dados provam isso, não se questiona.

Porém, isso não significa que não haja populações inteiras, centenas de milhões de pessoas, em situação precária, seja do ponto de vista de acesso a serviços básicos de saúde e educação, perspectivas de melhoria de vida para seus descendentes ou mesmo comida e água para sobreviver. Imagino como pessoas que sofrem hoje a esse nível receberiam a notícia de que pesquisadores chegaram à conclusão de que o mundo está melhorando. Doenças foram erradicadas, expectativa de vida idem, evoluções tecnológicas trazem coisas que melhoram a nossa vida. Mas não são para todos.

Na minha opinião, analisar dessa maneira faz sentido sob algum ponto de vista, mas as conclusões são bem limitadas, não consigo afirmar que estamos evoluindo enquanto sociedade, enquanto civilização. Dados do início de 2020 indicam que 2 mil pessoas no mundo têm mais dinheiro do que os 60% (mais de 4 bilhões de pessoas) mais pobres (estudo original em inglêsmatéria em português). Toda essa concentração tem aumentado ao longo do tempo, é absurda e sem sentido, mas nos acostumamos a ela. Nós nos acostumamos quando a enxergamos pelas janelas dos carros, quando olhamos além dos limites dos condomínios. E nesse ano, devido à pandemia, temos grandes chances de sairmos piores ainda nesse sentido. Acho que antes de dizer que estamos melhorando, precisamos aprender não somente a nos indignar mais, mas a possibilitar a implementação de políticas de Estado de proteção social de longo prazo, local e globalmente. E isso não pode esperar. A velha falácia de “primeiro aumentar o bolo, para depois dividi-lo” exige uma espera que quem sofre, quem tem fome, não pode esperar. Não há essa possibilidade. Eventualmente um modelo de ruptura possa nascer, como sugere esse artigo “A alternativa para os próximos 20 anos é uma forma sustentável de capitalismo, que não será vista como capitalismo“. A conferir.

Concluindo, o livro e o ponto de vista nos trazem dados e argumentos, que nos trazem esperança, mas acho que precisam nos fazer pensar. Números podem trazer grandes informações, mas também podem esconder grandes verdades, dependendo de como forem vistos…





Pandemia e quarentena…

5 07 2020

Hoje, 05 de julho, eu completo 110 dias em “modo quarentena”, trancado em casa com a esposa, saindo somente para compras no sacolão do bairro, duas ou três vezes na semana, no máximo, o resto das coisas, tudo online… hoje, depois de 45 dias, acabei me permitindo dar a pedalada de domingo de manhã… Cá estamos, vivendo uma situação que nossa geração jamais imaginou viver… gerações anteriores conviveram, em menor e maior grau, ao passar dos anos, com a possibilidade de uma guerra nuclear potencialmente apocalíptica… os filmes blockbusters refletiam esse medo, na minha infância… na medida que essa possibilidade ficava mais remota, os temas tiveram que se renovar: catástrofes naturais, invasão alienígena, colisão de asteróides, e por aí vai… mais recentemente algumas visões apocalípticas com algum supervírus assassino também começaram a ser mais comuns…

Mas o fato é que a grande maioria das pessoas não imaginava ter que passar pela situação que estamos passando. Muito já se disse sobre isso, do ponto de vista do impacto que teria nas nossas vidas, nosso modo de ver e fazer as coisas, do impacto psicológico (outro dia li uma psicóloga de uma universidade europeia, especialista em traumas, dizendo que esse nosso confinamento é “o maior experimento psicológico da história”. Não tenho conhecimento para avaliar, mas tenho observado muitas das reações ao longo das semanas, nos contatos virtuais com as pessoas (porque contato físico é somente com minha esposa), e têm variado bastante… bom humor, momentos de pânico, desespero… o excesso de informações que o acesso à Internet trouxe não colabora muito para o equilíbrio…

Mas o que eu acho é que de uma maneira geral situações extremas trazem à tona o que existe de pior e melhor nas pessoas, em graus diferentes. Pessoas que têm dificuldade em ter empatia com o próximo, com o diferente, não agem de maneira diferente durante esse período. E é justamente nesse momento pelo que passamos que mais precisamos da empatia, do respeito e entendimento em relação ao próximo. Cada um tem um modo de encarar, uma visão de mundo, cada um tem uma trajetória e uma bagagem única, capacidades e limitações também únicas. Eu tenho o privilégio de conseguir manter uma rotina minimamente equilibrada, não temos filhos, meu trabalho consegue ser feito remotamente com pouquíssimo impacto, eu e minha esposa conseguimos conviver bem, sem grandes problemas… mas há uma infinidade de pessoas que não podem, que têm outras dores, outras demandas e que não podem ser deixadas de lado. Do lado profissional, muitos estão tendo que se readequar, reinventar… as ditas entregas, a forma como você lida com seus prazos, isso tudo teve que mudar. Escrevi um artigo sobre isso no LinkedIn, em especial sobre como os gestores conseguem lidar com essa situação.

A empatia deveria acontecer tanto do lado pessoal quanto profissional. Temos que tomar cuidado para tentarmos sempre nos colocar no lugar do outro, hoje mais do que nunca… e não é excesso de “politicamente correto”, não. É simplesmente ser humano, no sentido mais amplo e simples da palavra… Alguns estão tendo maior capacidade de adaptação do que outros, uns mais facilidades que outros… há aqueles que se aproveitam da situação (no sentido negativo) para relaxarem, trabalharem menos… ninguém pediu essa situação, mas também ninguém sabe como e quando sair dessa situação. As pessoas dizem umas às outras, “Vai passar”, “Sairemos dessa melhores”… Mas na verdade ninguém sabe, ninguém pode afirmar com certeza nada disso…

A falta de empatia, de preocupação com o que é diferente, de entender o diferente, sempre me incomodou… mas nos tempos atuais, tem me irritado muito. Espero que realmente possamos sair de alguma forma melhores de tudo isso, embora eu não esteja lá muito otimista em relação a isso…