“Depois” é um tempo que não existe…

25 04 2021

Há muito tempo atrás li um livro do Richard Bach, chamado “Longe é um lugar que não existe”, de onde tirei a inspiração para o título acima… esse post não tem nada a ver com o livro, qualquer dia escrevo sobre algum dos livros dele, de quem gosto muito como autor.

Mas o que eu queria escrever era sobre as necessidades que temos em fazer as coisas, e na nossa capacidade de postergarmos, inventarmos problemas, desistirmos de coisas, projetos, adiarmos sonhos e metas, por vezes e vezes seguidas, algumas delas indefinidamente… a tal falada procrastinação.

Foto daqui

Estamos atualmente na era das coisas imediatas. Tendo os recursos necessários (tempo, dinheiro), é muito fácil ter acesso a praticamente tudo, quase que instantaneamente. Em alguns casos, realmente de maneira instantânea, num piscar de olhos, num clique de mouse ou no celular. Mas será que essa facilidade toda, que a princípio somente simplifica e facilita a vida, está nos ajudando a realizarmos coisas que realmente nos importam, que realmente nos fazem bem, a nós e aos que nos são importantes? Durante bastante tempo eu deixava alguns planos e projetos de lado por conta de sempre estar esperando o melhor momento, onde desse para fazer as coisas com tranquilidade, da maneira mais perfeita possível. Há muito tempo atrás, lá na terapia, eu acabei entendendo o óbvio: não existe momento perfeito, o que existem são oportunidades, nós as fazemos, as aproveitamos e as perdemos. Desde então, procurei nunca mais deixar de ao menos tentar fazer as coisas que me dessem vontade, que me fizessem bem, mesmo que não houvessem as condições ideais. Dava pra fazer agora, vamos fazer. Não dá pra fazer agora mas dá pra dar um jeito de fazer algo parecido, ou posso me programar para fazer logo mais? Então eu faço de tudo para viabilizar e fazer acontecer. Vejo que as pessoas por vezes adiam as coisas que desejam, e ficam criando empecilhos para viabilizá-las: “Ah, quero fazer uma viagem, mas não tenho dinheiro!”. Então em um determinado momento tem o dinheiro, mas aí não consegue arrumar tempo, ou quer fazer uma viagem mais cara. Se realmente queremos algo e conseguimos colocar como prioridade, não há como não conseguir. Faça uma viagem mais modesta, economiza um pouco daqui e ali, priorize. “Ah, quero voltar a me exercitar, mas não tenho tempo/dinheiro para academia!”. Se realmente quer, qualquer canto pode servir. Caminhar/correr no próprio bairro, numa praça ou parque, comprar alguns equipamentos básicos e fazer algo em casa… Sempre é uma questão de priorizar.

O que temos é somente o hoje, sempre. O ontem já passou, nada que fizemos pode mudá-lo, e o amanhã não existe. Como disse Renato Russo, “se você parar pra pensar, na verdade não há” (o amanhã). Então, porque não parar de adiar aquela visita (depois da pandemia, claro!) ao amigo ou parente de outra cidade que há tanto lhe convida? “Ah, tenho que fazer a revisão do carro, agora não dá.”. Ou aquele café com o colega que não vê há tanto tempo… “Precisamos marcar, vamos ver!”. E esse amanhã pode nunca chegar. Poetas mais diversos já escreveram tanto sobre isso, sobre o tempo que não volta, o que deixamos de fazer e as oportunidades e pessoas se vão, para nunca mais… A certeza de que estaremos vivos amanhã também não existe…

Somos tão condicionados na vida profissional a termos foco, prioridades, sermos cobrados por execuções e entregas a todo momento. Por que razão não fazermos isso com nossas próprias vidas, nossas próprias prioridades pessoais? O hoje está aí para que façamos dele o nosso melhor. E o amanhã, se vier, vai ser fruto de nossas escolhas e prioridades, sempre…

“O hoje é apenas um furo no futuro

Por onde o passado começa a jorrar”

Raul Seixas, em “Banquete de lixo”





Men against fire (Black Mirror)

28 03 2021

Desde a primeira vez que assisti a um episódio de Black Mirror (que realmente eu não me lembro qual foi), achei essa uma das melhores séries de todos os tempos. Embora não seja uma “série” no sentido de ter uma sequência entre os episódios, o futuro distópico é realmente um tema fascinante, ao menos para mim. Tirando um ou dois episódios, achei todos até hoje excelentes, por nos fazer pensar a respeito de tecnologias e comportamentos que podemos ter no futuro (e alguns já estão presentes mesmo hoje). Como sou aficionado por tecnologia desde sempre, para mim é realmente um prato cheio. Geralmente são bastante tensos, e com revelações incríveis ao longo dos episódios, que são em geral curtos e densos o bastante para prender muito a atenção.

O quinto episódio da terceira temporada é um dos que mais me chamou a atenção. O título original em inglês é “Men against fire”, que seria algo como “Homens que são contra atirar” (depois descobri que é o título de um livro de um militar americano, vou comentar mais abaixo), mas a Netflix colocou o título em português como “Engenharia reversa”. Vou tentar separar o post em duas partes, onde na primeira não vou contar nada que estrague a experiência de quem se anime a assistir. Na segunda, já coloco um alerta de spoiler para proteger os incautos, rs

1a parte: Caça às “baratas”

No início é mostrado um soldado iniciante juntando-se a um batalhão, saindo para uma missão em uma vila que havia sido atacada por “baratas” (“roaches”, em inglês). Percebemos que essas tais baratas não são os insetos, mas alguns seres que atacam vilas, roubam comida, fogem… os moradores da vila ficam revoltados, e inclusive queimam a comida que foi deixada, por estar “infectada”. Uma integrante do batalhão chega a dizer que as baratas precisam ser exterminadas, porque transmitem doenças, são sujas, eles não podem deixar que elas procriem, senão vão infestar o mundo inteiro.

Quando finalmente um grupo das baratas é encontrado, nós vemos que são seres quase humanos, mas deformados, que emitem grunhidos ao invés de falar, escondem-se dos soldados e fogem quando encontrados. Via de regra, os soldados os matam sem pestanejar. Nessa parte já fica claro que há uma guerra, uma missão de encontrar e exterminar esses seres que são chamados de baratas, e os soldados são treinados para essa missão específica. Não fica claro de onde vieram, como surgiram, mas a mensagem é clara: a humanidade precisa ser protegida dessa praga que são as baratas, e os soldados têm a honra de cumprir essa missão.

*** Atenção! Alerta de spoiler, só leia abaixo se já assistiu ao episódio, ou se não vai assistir ***

2a parte: Quem são as “baratas”?

Aqui a coisa começa a ficar realmente interessante. Os soldados possuem equipamentos implantados que permitem que eles enviem e recebam mensagens e imagens entre si, enxerguem em tempo real exatamente o que a câmera de um drone está filmando, coisas assim. O soldado iniciante, chamado de Stripe, depois do primeiro contato com algumas baratas, começa a ter alguns problemas com esse seu equipamento implantado, que chamam de “máscara”. Eles fazem alguns exames, mas não acham nada de errado e ele volta à campo para uma nova missão. Aí na missão percebemos a grande jogada da estória: a tal “máscara” implantada no cérebro dos soldados faz com que eles enxerguem determinadas pessoas como as tais baratas. Isso mesmo, as tais baratas eram pessoas, seres humanos normais, o tempo todo, mas os soldados tinham o cérebro “programado” para enxergá-los como seres diferentes, repugnantes, praticamente animais.

Aí podem vir as perguntas: Por que esse grupo de seres humanos vivia se escondendo, roubava comida de outras vilas e eram perseguidos? Simplesmente porque eram perseguidos e segregados, por serem de uma determinada raça ou etnia (não fica claro) diferente daquela “dominante”. Eles foram identificados geneticamente, pelo seu DNA, como um tipo de raça “inferior”, com maior tendência a doenças e outros “problemas”, e alguém tomou a decisão de segregá-los, persegui-los, e, ao longo do tempo, caçá-los e exterminá-los. A tecnologia havia dado acesso a ferramentas que permitiam, em tempo real, segregar essas pessoas, e ainda fazer com que soldados enxergassem neles verdadeiros monstros, para que fosse simples, quase natural, que as matassem. Os soldados que se alistavam voluntariamente concordavam em ter o implante da “máscara” e ter sua memória recente apagada para que não se lembrassem, e achassem natural irem caçar as baratas. Ao perceber isso, o soldado entra em desespero e com uma angústia que é obviamente compartilhada com o espectador.

No exato momento em que o mecanismo todo, e sua justificativa, são percebidos, é impossível – ao menos para mim – não fazer um paralelo com perseguições e segregações que ocorrem na vida real, seja de ordem étnica, religiosa, social, ou qualquer outra. A mais óbvia é a ideia da eugenia, da “raça pura” usada por Hitler para justificar as perseguições na Alemanha nazista, mas existem muitas outras que existiram ao longo da História, e algumas permanecem até hoje. Tornar o “diferente” como “inimigo”, desumanizá-lo ao ponto de que capturá-los, torturá-los, matá-los torna-se normal. Romanos perseguindo povos diferentes, chamados por eles de “bárbaros”, cristãos justificando matar muçulmanos, os “infiéis” nas Cruzadas, a Inquisição Católica queimando os chamados “hereges”, “bruxos”, por não compartilharem de suas fés e dogmas, judeus e árabes disputando territórios e criando abismos entre povos e culturas que poderiam ser tão próximos, brigas entre etnias na África ainda nos tempos de hoje (aliás, se não viu o filme “Hotel Ruanda”, recomendo, mostra um recorte a respeito, numa estória real). Não temos a tecnologia das “máscaras” para transformar os diferentes em monstros, mas temos outros mecanismos, lavagem cerebral, propaganda e comunicação massiva, dentre outros. Como na maioria dos episódios de Black Mirror, fica uma sensação ruim, um gosto amargo na boca, uma mistura de “vontade de que aquele futuro distópico nunca chegue” com “ele já está aqui ao meu lado há tempos”…

Mais recentemente descobri que o título do episódio “Men against fire” é o mesmo de um livro escrito por um militar americano do século XX, que trata justamente do “problema” que ocorria no front de batalha, com uma porcentagem muito grande de soldados que não conseguiam matar os inimigos. Erravam de propósito ou simplesmente não apertavam o gatilho. Esse “problema” teria sido resolvido ou minimizado de alguma forma com a “desumanização” do inimigo para os soldados, de maneira análoga ao vista no episódio de Black Mirror. Não li o livro, não sei como isso teria sido tratado, mas fiquei curioso, quem sabe algum dia procure saber mais a respeito.

Bom, espero que tenha achado interessante, até uma próxima!





Um ano dentro de casa…

21 03 2021
Imagem daqui

Essa semana completei um ano cumprindo o isolamento social, tão falado e tão necessário para o mínimo controle da pandemia do COVID-19.

Um ano que vi pouquíssimas pessoas do meu convívio social, limitei minhas saídas de casa para poucos momentos, ao longo do tempo fomos vendo como nos sentíamos seguros e confortáveis com a situação, saindo para caminhadas no condomínio, na avenida aqui ao lado, andar de bicicleta… De uma maneira geral, tomando cuidados simples individualmente, nos mantivemos seguros. Dentro de casa, adaptação total para home office em tempo integral. Eu já fazia boa parte do trabalho em casa, mas a Laura não. Montamos na medida do possível os dois pontos de trabalho e conseguimos ficar bem.

Mas temos a consciência de que somos privilegiados, e muito mais ainda numa situação como essa: temos condições de trabalhar de casa, empregos que nos permitem isso com um mínimo de adaptação, não dependemos de ficar saindo de casa, utilizando transporte público ou ir a locais com outras pessoas. Mas muita gente não consegue, não pode fazer isso. Por isso acho que o fato de ainda estarmos, depois de um ano, discutindo sobre a necessidade ou não de medidas rígidas para controlar a circulação do vírus mostra muito sobre como fizemos as coisas erradas até agora…

Eu, que sou completamente avesso a julgar os outros, sei que cada um tem seus limites, e acho que as pessoas fazem as suas escolhas e arcam com as consequências delas, para o bem e para o mal. Mas o problema em questão é que as escolhas que as pessoas fazem impactam outras vidas, a partir do momento em que não há mais recursos para atender doentes em quase nenhum lugar do país. É um grande problema coletivo que precisa de contribuições e sacrifícios individuais, e é isso que as pessoas não enxergam, ou não querem enxergar. É ruim não poder circular, não poder fazer o que gostaria? É, mas são limites que a situação nos impõe, sem alternativas. E é pelas pessoas que não têm escolha, que devemos fazer esse esforço. De novo, é um problema coletivo, gigante, que necessita de contribuições e sacrifícios individuais. Talvez se as pessoas conseguissem enxergar dessa maneira conseguiríamos conter o avanço da doença enquanto ainda não temos vacinação em massa.

Ao longo desse tempos todos aprendemos coisas que podemos fazer à distância, reuniões familiares restritas às telas de computadores e celulares, lives dos artistas preferidos, nada disso substitui à altura a vida real, mas como se diz no popular, “é o que temos para hoje”. A minha rotina pessoal nos últimos doze meses tem se restringido a bastante trabalho, estudo, aulas virtuais de Yoga (que têm me ajudado a manter o equilíbrio e a calma), quando estava aberta a academia cheguei a nadar, sempre com distanciamento e com horário marcado, além das caminhadas e pedaladas. E torcendo muito para que a vacinação acelere para que possamos ter um mínimo de normalidade de novo, para que possamos nos abraçar de novo…





Ecdemomania

7 03 2021

Há alguns anos atrás descobri essa palavra, que nem sei se realmente existe na Língua Portuguesa. Mas o conceito me encantou: era exatamente a “doença” que eu tenho, essa vontade de sair por aí, conhecer lugares novos, culturas muito diferentes, lugares de que ouvi falar e só vi em fotos, lugares dos quais nunca ouvi falar e nem vi fotos, enfim… Sempre achei que o mundo era grande demais e nosso tempo por aqui demasiado curto, então deveríamos aproveitar o tempo com coisas que nos fazem bem, coisas das que gostamos. Dentre tantas obrigações, por vezes sem escolhas, que a vida nos traz, no tempo que temos para nós mesmos eu acho que deveríamos dedicar ao que nos faz bem, ao que nos dá prazer. E isso é muito pessoal. Para mim, é viajar.

E não tive, durante a infância, muito incentivo nesse sentido. Não tínhamos muito dinheiro, então as viagens nas férias, feriados eram restritas a locais mais próximos, litoral paulista, interior, essas coisas… a minha primeira viagem mais longa, a primeira de avião, foi aos 18, quase 19 anos, numa excursão escolar para Porto Seguro, na Bahia. Somente depois de formado, já com 25 anos, é que pude começar a experimentar e descobrir realmente essa paixão por viajar, e enfim colocar em prática, planejar, juntar dinheiro e começar a colecionar experiências.

E para mim o que tem mais valor é isso, são as experiências. São coisas que ficam na memória e que, diferentemente de dinheiro ou bens pessoais, ninguém pode tirar de você. Permanecem na memória, pelo tempo que a própria memória permita, para serem revistas, revividas em pensamento, para serem trocadas com outros. São as coisas que mais me motivam, ainda até hoje. Quer me ver feliz e empolgado, é só me chamar para conversar sobre lugares diferentes, viagens que já fiz e que ainda não fiz. Como disse, é muito pessoal, para alguns pode não fazer sentido, não ser racional, e talvez essa tal ecdemomania tire mesmo a razão, vai saber. Já ouvi pessoas dizerem que não precisam ir aos locais, se contentam vendo fotos, lendo relatos de outros, e consideram como se já conhecessem o lugar, e que ir até lá seria um desperdício de tempo, dinheiro e energia… Para mim, não, preciso ir, ouvir os sons, sentir os cheiros, experimentar comida, ouvir pessoas falando, ver ao vivo coisas construídas pela Natureza ou por gerações passadas, é isso que faz sentido, ao menos para mim. Quer me ver feliz? Vamos conversar sobre viagens. Mais feliz ainda? Convide-me para viajar e começar a planejar…

Há uma citação de um personagem de Game of Thrones, chamado Oberyn Martell (veja foto abaixo), que diz o seguinte (tradução livre): “O mundo é grande e lindo. A maioria de nós vive e morre no mesmo lugar em que nasceu e nunca viu quase nada dele. Eu não quero ser como a maioria de nós.”. Essa frase faz muito sentido para mim. Não consigo pensar em passar pela vida sem perambular, passear, viver tudo isso. Ao longo dos anos fui montando listas de lugares, com ordem de preferência, e o prazer de montar essa lista era quase tão grande quando “tirar” algum destino da lista depois que ele já havia sido visitado. São Petersburgo, na Rússia, ocupou o topo da lista por muito tempo… por anos seguidos fiquei adiando por buscar uma forma econômica de ir até lá. Até que em 2013 desisti de procurar o jeito barato, aí acabei indo gastando um pouco mais mesmo… Outro lugar que ficou no topo da lista por bastante tempo foi a região dos Bálcãs, na região da antiga Yugoslávia, que visitei em 2019. E ainda restam muitos lugares na lista, que provavelmente não ficará vazia nunca: China, Índia, Noruega, Canadá, Guatemala, Marrocos, Egito, Irã, Capadócia na Turquia, Equador, Ilhas Maurício, Galápagos, Maldivas, Japão, Tailândia… Na medida em que as oportunidades apareçam, e as finanças assim permitam (o câmbio e a pandemia têm que ajudar também, claro!), espero ainda riscar muitos desses destinos… E, dentro do Brasil, por onde já andei bastante também, ainda há muitos lugares a conhecer. Ainda não estive em 5 dos estados brasileiros: Acre, Rondônia, Pará, Piauí e Amapá. Acredito que Piauí e Pará sejam os próximos da lista, quando as oportunidades aparecerem.

Imagem daqui.

Quando falo sobre os lugares mais diferentes em que já estive, acho que os que mais chamam a atenção e geram curiosidade são sem dúvida o Butão, a Rússia, a Estônia, a Bósnia e Herzegovina, além de Cuba e do Nepal. São lugares distantes, cultural e geograficamente falando, e para os quais a maioria das pessoas jamais pensou em viajar. No Brasil, certamente ter ido para o Monte Roraima, na fronteira com a Venezuela, além das travessias dormindo em barracas nas montanhas, são as que chamam mais a atenção.

Se me pedissem para listar os lugares mais legais onde já estive, eu certamente teria dificuldades em escolher. Lugares distintos, com seus encantos únicos, não deveriam ser comparados. Os grandes monumentos e catedrais européias, com séculos de História, os cânions e cachoeiras da Chapada Diamantina, na Bahia, os mergulhos de superfície nos rios de Bonito, no Mato Grosso do Sul, as trilhas nas montanhas do Himalaia e dos Andes, as cidades históricas de Minas, a arquitetura e gastronomia de Curitiba, as incontáveis mesquitas em Istambul, as praias da Croácia, as de Jericoacoara, Fernando de Noronha, Natal, Maceió, Sergipe, Pernambuco… As marcas da guerra nos prédios e nas pessoas em Sarajevo, As trilhas nas serras de Minas, Rio e São Paulo, as Cataratas do Iguaçu, o Grand Canyon nos EUA, o Jalapão no Tocantins, os Lençóis Maranhenses, as montanhas geladas no Colorado e na Patagônia, as subidas ao Monte Roraima, Pico da Bandeira, Pedra da Mina. Não dá para escolher ou comparar. Cada um desses lugares me deixou marcas, lembranças únicas e insubstituíveis.

E dá pra viajar sem dinheiro?

Quando me perguntam como consigo me planejar financeiramente para conseguir viajar tanto (na verdade nem acho tanto, queria poder viajar mais, na verdade… hehehe), como todos os objetivos que temos, com planejamento e disciplina é possível fazer. Há épocas que dá pra fazer viagens maiores, mais caras, outras a gente se contenta com viagens mais modestas. Ao longo do tempo abri mão de outras coisas porque houveram épocas em que o importante era viajar, em outras o mais importante eram outros projetos. Mas sempre procurei, dentre o dinheiro que poupava, deixar uma parte para financiar as viagens. Claro que cada um tem sua situação particular, obrigações e tudo… mas mesmo em tempos de grana curta eu sempre dava um jeito de dar uma escapada, nem que fosse um final de semana com banho de cachoeira ou uma trilha, ou um bate-e-volta em algum lugar próximo.

Imagem daqui

Para mim, viajar é parte indispensável e indissociável da vida, poder me movimentar, sentir a vida pulsando, estar em contato direto com a natureza, aprender coisas novas, conhecer pessoas e trocar experiências que jamais poderiam ocorrer se eu ficasse sempre no mesmo lugar… Enfim, se algum dia encontrarem a cura para essa tal ecdemomania, eu certamente escolherei não ser curado nunca…

Se chegou até aqui, espero que tenha gostado, hoje foi um texto mais pessoal… até uma próxima!





Terapia é pra quem precisa…

23 08 2020

Durante muito tempo eu não acreditei muito no poder, seriedade ou necessidade de alguém ter que fazer terapia. Eu realmente acreditava que os problemas que qualquer pessoa pudesse ter pudessem ser resolvidos sem esse tipo de ajuda, com uma conversa com um bom amigo, ou consigo mesmo, o que seria fácil e eficiente. Tinha uma opinião muito forte e estabelecida a respeito. Procurar por esse tipo de ajuda seria uma fraqueza, sinal de que a pessoa teria falhado miseravelmente em resolver seus problemas sozinho. Pessoas dignas de pena, portanto. Pensando nisso hoje fico imaginando de onde eu havia tirado isso. Quando somos crianças, as nossas “opiniões” sobre todas as coisas do mundo são formadas a partir do que ouvimos os adultos dizerem. Não por maldade ou má intenção dos adultos, mas por vezes uma colocação fora de contexto, ou mesmo num contexto incompreensível para uma criança que esteja ouvindo, o que foi falado pode ficar com ela por muito, muito tempo… não sei se foi o meu caso, realmente não me lembro.

Mas, o fato é que cresci com esse preconceito junto comigo, e não tinha nenhum problema com ele. Do alto da minha autossuficiência, eu me bastava, eu me resolvia comigo e com o mundo e estava tudo certo… até o dia em que não estava mais… e esse dia chegou. Foi por volta dos meus já longínquos 29-30 anos, não me recordo muito bem. Mas lá estava eu, sem saber como lidar com muitas questões, algumas já guardadas por muito tempo, outras tantas que eu não entendia, e umas ainda que eu nem sabia sequer que existiam. Não foi um momento de desespero ou pânico, eu diria, mas um momento que a necessidade acabou se impondo. Havia algo errado, e isso estava causando sofrimento para mim e para pessoas ao meu redor. E num determinado momento, lá estava eu, em um consultório, diante de uma profissional (extremamente bem recomendada por uma pessoa de confiança e da área), uma menina, aparentemente mais nova do que eu, começamos a conversar e ela simplesmente me pergunta o porquê de eu estar ali. Eu me lembro muito claramente daquele momento, em que eu tive que decidir o que responder e quase – sim, por pouco – fui embora dizendo que na verdade tinha sido um engano. Depois fiquei pensando se algumas pessoas fazem isso, ou se passa pela cabeça de alguém fazer isso… Bom, mas fiquei, comecei a falar, falar, praticamente sem parar por um bom tempo. E ali iniciou-se para mim um processo no qual fui me conhecendo, descobrindo algumas coisas que me incomodavam e que eu nem sabia. Fui construindo uma relação de confiança com a terapeuta, fui descobrindo (eu, curioso sobre tudo) que haviam linhas muito diferentes dentro da psicanálise, fui descobrindo o processo aos poucos. E descobri que num tratamento com um bom profissional, o processo não é dele, é seu. O(a) terapeuta está ali para auxiliar, para “limpar” alguma visão turva, algo pontual que porventura você não esteja enxergando. Ele ou ela não está ali para resolver nada, mas para lhe acompanhar no processo. E, posso dizer pela minha experiência, que é um processo muito enriquecedor. Aprendi que posso fazer coisas, curar feridas, as que não posso curar posso fazer com que não sejam parte central da minha vida, dentre outras coisas… e o mais importante, que a pessoa mais importante de nossa vida, de quem temos que cuidar antes de tudo, somos nós mesmos. Se não estivermos bem, não adianta cuidarmos dos outros, sejam filhos, pais, cônjuges, o que for. É preciso estar bem consigo mesmo para poder cuidar bem dos outros. E isso não significa ser egoísta, mas simplesmente buscar o equilíbrio, sempre, para que saiba bem seus próprios limites e consiga ficar bem consigo mesmo, para ser uma pessoa melhor para si e para os outros. Fiquei alguns anos na terapia, acabei interrompendo por motivos alheios à minha vontade, mas foram ensinamentos a respeito de mim mesmo que foram valiosos por toda a vida.

E por conta disso eu acho que todo mundo deveria fazer terapia? Não, não necessariamente, não mesmo. Uma outra coisa aprendida nesse processo, e também ao longo da vida, é que cada um tem um caminho, uma abordagem ou receita que sirva para si, em seu próprio tempo. O que serve para mim não serve necessariamente para o outro. O que achei na terapia que me ajudou, outra pessoa acha de alguma outra forma de se autoconhecer. As trajetórias, as bagagens de cada um são diferentes, o tempo e a disposição também. O que acho importante é que as pessoas não tenham a resistência que eu tive, e sem a qual eu poderia ter perdido menos tempo e ter descoberto meu próprio caminho mais cedo. As pessoas precisam entender que precisar de ajuda não é sinal de fraqueza ou falha, mas de lucidez e coragem. Somos seres humanos, cheios de fragilidades e incertezas, e não temos a obrigação de darmos conta de tudo o tempo todo. Espero que mais e mais pessoas possam ser mais felizes, levar uma vida mais plena. E lembrando sempre que a felicidade não é a ausência de problemas, mas sim a sua capacidade de lidar com eles. Uns problemas vão, outros vêm, alguns permanecem. Eles fazem parte da vida, e vão continuar fazendo sempre. Cabe a cada um de nós decidirmos o que fazer com eles.