Sobre o tempo…

26 07 2020

“Batidas na porta da frente… É o tempo…
Eu bebo um pouquinho pra ter argumento… Mas fico sem jeito calado, ele ri… Ele zomba do quanto eu chorei… Porque sabe passar, e eu não sei…”

Aldir Blanc, em “Resposta ao tempo”

Eu tenho mania de guardar coisas… algumas úteis, outras nem tanto, outras ainda com potencial de serem úteis em hipotéticas e improváveis situações futuras… Limpando e arrumando algumas coisas nesses dias encontrei algo curioso: o meu primeiro cartão de visitas! Era o ano de 1995, tinha meu diploma de Técnico em Eletrônica pela ETESP no final do ano anterior e decidi sair do emprego de técnico de laboratório na Proceda, após 7 meses de contrato, e resolvi virar freelancer como técnico de campo para equipamentos de informática, fiz o cartão na boa e velha HP DeskJet da mãe. Bons tempos aqueles, ainda morando com a mãe, 18 anos e muita energia para trabalhar, e arriscar…

Na época, era telefone de casa(da mãe!) e PAGER da Mobi

Quando vi o cartão comecei a lembrar da época: comprei um pager (hoje peça de museu, certamente!), prestava serviços para algumas empresas, cheguei a colocar anúncio no jornal (classificados de domingo!), aprendi naquele período como lidar com clientes, cometi os primeiros erros, e enquanto isso estudava à noite no Anglo para prestar o vestibular de Engenharia de Computação na Unicamp. Fui entrevistado pela Folha para o caderno de vestibulares Fovest, numa matéria que dizia “Vestibulandos surfam na rede”(achei essa matéria guardada também, veja abaixo!), já que a Internet era uma novidade, e o Google nem existia… Prestei dois anos seguidos até conseguir a tão sonhada vaga. Em 1996 parei com essa estória de freela e fui trabalhar como técnico na Megaprom Informática, mais uma vez visitando clientes, trabalhando com suporte e manutenção… tempo bom, que não volta mais…

Usar Internet era motivo de matéria no jornal, em 1996. Estou atrás do rapaz de boné.

Graças ao esforço da minha família, que apesar das dificuldades conseguia me ajudar financeiramente, consegui parar de trabalhar e me dedicar integralmente à faculdade de Engenharia de Computação da Unicamp, a partir de 1997. Saindo da casa da mãe, mudando de cidade… Era um dos pouquíssimos da turma que já havia tido alguma experiência profissional. A maioria ali estava com 17 anos, e havia saído imediatamente do segundo grau para lá. Foi, à época, meio estranho para mim, mas por pura falta de informação mesmo… eu era uma exceção, mas antes de entrar achei que não seria.

De lá pra cá, 23 anos se passaram… formatura após 5 anos, fui trabalhar com desenvolvimento na Motorola em Jaguariúna, casei em 2002, e me separei em 2009. Mudei para São Carlos, onde trabalhei também com desenvolvimento na Opto Eletrônica, por quase dois anos. Depois disso, final de 2011, recebi uma proposta na Avnet e voltei para São Paulo, para atuar como Engenheiro de Aplicações de Campo. Depois de 15 anos, voltava finalmente a uma função onde era necessário lidar diretamente com clientes. E só aí me lembrei como gostava disso, e como sabia fazer um bom trabalho. De volta às origens, de certa forma… Em 2015 tive uma proposta para trabalhar em Belo Horizonte, na Unitec. Arrumei as coisas, casei pela segunda vez e lá fomos nós para BH. Ficamos por 3 anos, e desde outubro de 2018 estou de volta a São Paulo, trabalhando na Vermont.

Acho que esse momento de quarentena me fez pensar em tanta coisa pelo que passei nesses anos todos, desde aquele primeiro cartão… Fui construindo uma carreira com a qual fico muito satisfeito. E no lado pessoal, conheci pessoas fantásticas, perdi pessoas, algumas afastadas pela vida, outras pelos acontecimentos, outras sem motivo nenhum… altos, baixos, realizações, frustrações, sofrimentos sentidos e infligidos a outros… Acho que com mais vitórias do que derrotas, mais alegrias do que tristezas, e – faz parte – um tanto de arrependimentos… Uma vez um colega me perguntou sobre uma determinada situação da vida dele que implicava em uma decisão importante a ser tomada… eu disse a ele: qualquer que seja a sua escolha, em algum momento do caminho (talvez mais de uma vez ao longo dele) você irá olhar pra trás e ter a certeza de que a outra escolha teria sido melhor… simplesmente porque a realidade competir com a utopia do que não se realizou não é justo… não tem como ser…

E que venham mais uns 23, 25 anos para que eu possa encontrar coisas antigas, datadas do longínquo ano da pandemia de 2020…

“E o tempo se rói com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
Pra tentar reviver…

No fundo é uma eterna criança
Que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder
Me esquecer…

Adir Blanc, em “Resposta ao Tempo”





Pandemia e quarentena…

5 07 2020

Hoje, 05 de julho, eu completo 110 dias em “modo quarentena”, trancado em casa com a esposa, saindo somente para compras no sacolão do bairro, duas ou três vezes na semana, no máximo, o resto das coisas, tudo online… hoje, depois de 45 dias, acabei me permitindo dar a pedalada de domingo de manhã… Cá estamos, vivendo uma situação que nossa geração jamais imaginou viver… gerações anteriores conviveram, em menor e maior grau, ao passar dos anos, com a possibilidade de uma guerra nuclear potencialmente apocalíptica… os filmes blockbusters refletiam esse medo, na minha infância… na medida que essa possibilidade ficava mais remota, os temas tiveram que se renovar: catástrofes naturais, invasão alienígena, colisão de asteróides, e por aí vai… mais recentemente algumas visões apocalípticas com algum supervírus assassino também começaram a ser mais comuns…

Mas o fato é que a grande maioria das pessoas não imaginava ter que passar pela situação que estamos passando. Muito já se disse sobre isso, do ponto de vista do impacto que teria nas nossas vidas, nosso modo de ver e fazer as coisas, do impacto psicológico (outro dia li uma psicóloga de uma universidade europeia, especialista em traumas, dizendo que esse nosso confinamento é “o maior experimento psicológico da história”. Não tenho conhecimento para avaliar, mas tenho observado muitas das reações ao longo das semanas, nos contatos virtuais com as pessoas (porque contato físico é somente com minha esposa), e têm variado bastante… bom humor, momentos de pânico, desespero… o excesso de informações que o acesso à Internet trouxe não colabora muito para o equilíbrio…

Mas o que eu acho é que de uma maneira geral situações extremas trazem à tona o que existe de pior e melhor nas pessoas, em graus diferentes. Pessoas que têm dificuldade em ter empatia com o próximo, com o diferente, não agem de maneira diferente durante esse período. E é justamente nesse momento pelo que passamos que mais precisamos da empatia, do respeito e entendimento em relação ao próximo. Cada um tem um modo de encarar, uma visão de mundo, cada um tem uma trajetória e uma bagagem única, capacidades e limitações também únicas. Eu tenho o privilégio de conseguir manter uma rotina minimamente equilibrada, não temos filhos, meu trabalho consegue ser feito remotamente com pouquíssimo impacto, eu e minha esposa conseguimos conviver bem, sem grandes problemas… mas há uma infinidade de pessoas que não podem, que têm outras dores, outras demandas e que não podem ser deixadas de lado. Do lado profissional, muitos estão tendo que se readequar, reinventar… as ditas entregas, a forma como você lida com seus prazos, isso tudo teve que mudar. Escrevi um artigo sobre isso no LinkedIn, em especial sobre como os gestores conseguem lidar com essa situação.

A empatia deveria acontecer tanto do lado pessoal quanto profissional. Temos que tomar cuidado para tentarmos sempre nos colocar no lugar do outro, hoje mais do que nunca… e não é excesso de “politicamente correto”, não. É simplesmente ser humano, no sentido mais amplo e simples da palavra… Alguns estão tendo maior capacidade de adaptação do que outros, uns mais facilidades que outros… há aqueles que se aproveitam da situação (no sentido negativo) para relaxarem, trabalharem menos… ninguém pediu essa situação, mas também ninguém sabe como e quando sair dessa situação. As pessoas dizem umas às outras, “Vai passar”, “Sairemos dessa melhores”… Mas na verdade ninguém sabe, ninguém pode afirmar com certeza nada disso…

A falta de empatia, de preocupação com o que é diferente, de entender o diferente, sempre me incomodou… mas nos tempos atuais, tem me irritado muito. Espero que realmente possamos sair de alguma forma melhores de tudo isso, embora eu não esteja lá muito otimista em relação a isso…