Ilusões (livro)

27 06 2021

O que aconteceria se você se encontrasse com um Messias? Um ser iluminado, uma alma elevada que aparentemente soubesse de todas as respostas, todos os segredos da vida e do universo inteiro? Essa é a premissa inicial desse livro, que já perdi as contas de quantas vezes li, desde a primeira vez no final dos anos 1980. Recomendo muito, sempre, para todo mundo, essa leitura.

Poucos livros tiveram uma presença tão marcante e ecoando por tanto tempo para mim ao longo dos anos como esse: “Ilusões – As Aventuras de um Messias Indeciso”, de Richard Bach, escrito em 1977, no ano seguinte ao do meu nascimento. É um livro fácil, gostoso, daqueles para se ler em bem pouco tempo. Trata de questões filosóficas mas de maneira simples, literalmente como uma conversa entre amigos. A ideia passada de que temos total controle sobre nossas vidas, nosso destino, é extremamente atraente e confortante, ainda mais para um adolescente como eu era à época do meu primeiro contato com o livro.

Na estória contada no livro, o autor-narrador, Richard, é primeiro pego de surpresa pelo encontro com Don Shimoda, que seria um Messias que estava, digamos, buscando uma espécie de aposentadoria. Ao longo das conversas, maravilha-se ao compreender algumas coisas, e depois começa a passar por um despretensioso “treinamento” para se tornar um Messias. E é confrontado com explicações simples, porém com uma profundidade chocante. E presencia coisas que entende, coisas que não entende, vê coisas humanas e sobre-humanas na figura do tal Messias. As partes mais deliciosas do livro, na minha opinião, são as frases do “Manual”, além dos lentos passos de aprendizagem de Richard. A parte humana do Messias, numa hora fanfarrão, outra hora completamente enfadado, sarcástico às vezes, traz alguma reflexão sobre nossa própria humanidade, nossos defeitos e nossas qualidades. E a conclusão que o Manual tem instruções que valem para qualquer um, não somente para um Messias…

“Eis aqui um teste para saber se sua missão na terra está cumprida:
Se você está vivo, não está.”

Frase do “Manual do Messias”

Uma outra coisa que chama a atenção, embora não seja o ponto central do livro, é a forma como as pessoas em geral reagem à figura do Messias, fazedor de milagres, “O Salvador”. Será que as pessoas estariam realmente interessadas no que ele teria a dizer? Ou gostariam simplesmente que ele lhes resolvesse todos os problemas assim, num estalar de dedos, que lhes trouxesse todas as respostas num piscar de olhos? Gostariam de aprender e crescer, ou simplesmente tomar atalhos para tal? Como o Messias reagiria a isso? Seria frustrante? Seria temeroso? As explicações estariam todas prontas, mas estariam as pessoas prontas para recebê-las?

Apesar de ter sido escrito há mais de 40 anos, o livro, bem como a sua temática, permanece atemporal. Nossa busca por respostas, o encantamento pelo místico e pelo desconhecido, são coisas intrínsecas à natureza humana. A busca pelo conhecimento, pelo autoconhecimento, é o que nos move enquanto civilização, há milênios, e assim ainda deve permanecer por muito tempo. Particularmente gosto da sensação de que sempre estaremos aprendendo, sempre estaremos sem certezas absolutas, e cada um lida com isso como desejar, pois essa escolha faz parte da nossa liberdade, do nosso livre-arbítrio, do que nos faz humanos, sempre.

“Uma nuvem não sabe por que se move em tal direção e em tal velocidade…
Sente um impulso, é para esse lugar que devo ir agora… Mas o céu sabe os motivos e desenhos por trá
s de todas as nuvens, e você também saberá, quando se erguer o suficiente para enxergar além dos horizontes…”

Minha citação preferida do “Manual do Messias”

Essa frase acima é a minha citação preferida do livro, e me acompanha desde a primeira leitura. Procuro manter (metaforicamente) a cabeça erguida, sempre, para tentar enxergar ao máximo possível além dos horizontes… lá estão explicações, decisões passadas, erros e acertos, que são as minhas nuvens… alguns desenhos já consigo enxergar e entender, outros tantos ainda não… e sigo assim, sem pressa, a passos vagarosos tentando aproveitar a jornada, que, para mim, é o que faz sentido…

Chegou até aqui? Obrigado por ter lido, espero que tenha gostado, se achar interessante, leia o livro, acho que vale bastante…





Grand Canyon, EUA

20 06 2021

Durante um certo tempo eu tive a oportunidade de fazer algumas viagens a trabalho, algumas delas internacionais. Como bom ecdemomaníaco que sou, sempre que dava eu tentava encaixar algum passeio, algum desviozinho para algum lugar que estivesse na lista de locais que eu considerasse que valia a pena ser visitado.

Em 2013, numa dessas oportunidades, ia para a Califórnia, e convidei um amigo que mora nos EUA para que uns dias antes fôssemos ao Grad Canyon. Não era muito o tipo de viagem dele, e ele acabou me convencendo a irmos a Las Vegas (o que não era muito o meu tipo de viagem…), mas falo dessa viagem numa outra oportunidade. A questão é que em Vegas existem alguns passeios para o Grand Canyon, e acabei fazendo um desses passeios. E com um detalhe a mais: foi a minha primeira (e até hoje única) viagem de helicóptero!

Primeiro helicóptero da vida!

O tour contratado me buscou cedo no hotel (cerca de 6 da manhã, pelo que me lembro), fomos de micro-ônibus até um pequeno aeroporto perto da cidade, de onde saem os helicópteros. O processo de check-in inclui a sua própria pesagem, para balancear e distribuir corretamente o peso na arenonave. Ou seja, seu lugar para sentar-se depende do seu peso e do peso dos demais ocupantes. Acabei subindo junto com uma família australiana, um casal com dois meninos adolescentes. O voo de helicóptero, devo confessar, não me deixou muito confortável, prefiro a estabilidade d o avião. Mas, pela vista, compensa e realmente não tem comparação.

Melhor vista do Grand Canyon

Durante o voo de ida, passamos sobre grandes formações, e também sobre o Hoover Dam, uma barragem construída entre as formações rochosas, uma verdadeira obra-prima de engenharia, que eu tinha visitado num outro tour no dia anterior. Vista de baixo ela já é impressionante, mas a vista lá de cima é incrível:

Hoover Dam, na divisa dos estados de Nevada e Arizona, visto do helicóptero
Hoover Dam, visto do helicóptero
Vista de dentro da cabine
Olhando lá de cima, nossas perspectivas de tamanho são relativizadas

A vista lá de cima é realmente impressionante, e já vale o passeio. No meu caso, o passeio contratado incluía um almoço e uma caminhada no Sky Walk, que é uma passarela de vidro em forma de ferradura, que fica em cima de um despenhadeiro de mais de 300 metros. Só que antes de chegar lá tivemos uma parada abaixo, na beira do rio, para deixar a família que ia fazer outro tipo de passeio. Aí depois que eles desembarcaram foram os últimos minutos de helicóptero para chegar lá, subindo praticamente na vertical ao lado de um paredão de pedra praticamente sem fim.

Levantamos voo no fundo do vale, e fomos pousar lá no topo daquele paredão

Lá em cima, fiz a caminhada no Skywalk. Não era permitido tirar fotos, se quisesse fotos por lá tinha que pagar para que o fotógrafo deles tirasse, em tese é um serviço explorado pelos índios da região. Acabei andando sem tirar fotos mesmo, a sensação de vertigem é bem forte, e pra mim, que não gosto muito de altura, não foi lá um das coisas mais confortáveis. O piso é de vidro, justamente para dar a sensação de estarmos “andando no céu”. A foto abaixo foi tirada da Internet, dá pra ter uma ideia da dimensão do negócio.

Foto tirada daqui

Antes do almoço, tive um tempo para passear ao redor e ficar admirando (agora com os pés no chão) aquela que é uma das mais famosas formações criadas pela natureza. As formações lembram bastante a Chapada Diamantina, mas com a ausência do verde que emoldura a imagem com uma beleza espetacular.

A vista não alcança onde os paredões terminam
Admirando o trabalho feito pela natureza ao longo de milhões de anos

Acabei conseguindo conhecer, ainda que muito rapidamente, o Grand Canyon naquela oportunidade. Mas pretendo se possível passar mais tempo por lá, explorar outros pontos que me parecem ser bem legais de se visitar. Quem sabe numa próxima oportunidade.

Por hoje é só, obrigado por ler até aqui, espero que tenha gostado, até uma próxima!





“Causos” de viagem – parte 7

11 06 2021

Sequência de “causos” marcantes ocorridos nas minhas viagens… já publiquei a parte 1, 2, 3, 4, 5 e 6, ainda não leu?

Ficando sem passaporte na fronteira da Estônia com a Rússia

O passaporte, junto dinheiro e cartões, é algo que você não pode perder no meio de uma viagem, pois vai lhe dar muita dor de cabeça e eventualmente estragar sua viagem. Estava eu em 2013, viajando de trem de Tallin, capital da Estônia, para São Petersburgo, na Rússia. Quando passamos pela fronteira, o trem parou, entrou um oficial russo, daqueles do jeito que a gente vê no cinema, em filmes de espionagem da guerra fria… ele obviamente não falava inglês, e foi passando pelos vagões, recolhendo todos os passaportes, um a um, em seguida saiu do trem com literalmente uma pilha de passaportes na mão, e foi até uma sala que fica na estação. Aí fica aquela ansiedade, ele está demorando… como ele vai saber qual passaporte é de quem, se ele não anotou nada. O que acontece se ele simplesmente não devolver o MEU passaporte? Como faço, pra quem eu reclamo? Felizmente depois de alguns minutos que demoraram para passar, ele voltou e foi calmamente devolvendo todos os documentos, um a um, aparentemente sem errar nenhum… Passou o frio na barriga, e seguimos viagem, cheguei são, salvo e com passaporte em São Petersburgo.

Brasileiro querendo saber de outro esporte que não futebol? Pode esquecer…

Em 2012, estava em San Franciso, na Califórnia, em uma viagem de trabalho. Aproveitando a passagem por lá, fui assistir a um jogo de baseball dos Giants. Já tinha ouvido falar que o estádio, na beira da baía, era bem bonito. Conhecimento do esporte, praticamente nulo… Puxo conversa com o taxista, de origem asiática, para saber como está o time na liga. Ele não sabe. Pergunta de onde sou, digo que sou do Brasil, ele começa a discorrer a respeito da seleção brasileira de 86, dando a escalação quase completa… lembra do Sócrates, Careca, Júnior, Zico… Lembra que o Zico perdeu um pênalti contra a França, comenta que a França tinha um time bom, com Platini e Tiganá (meu DEUS! Ele lembrou do Tiganá!!!), disse que morava em Hong Kong na época e que se lembra das pessoas tristes depois que o Brasil perdeu aquele jogo…
E eu fiquei sem saber dos Giants… Mas fui ver o jogo, mas já é outra estória…

Motorista de charrete em Sarajevo, Bósnia e Herzegovina

Essa foi uma daquelas clássicas de problemas de comunicação, nem todo mundo fala inglês. Estávamos numa praça em Sarajevo, onde saíam umas charretes para um parque ali perto (uns 3, 4 km eu acho). Fomos conversar com o senhorzinho, já com certa idade, que conduzia uma das charretes. Ele não falava inglês, lá fomos nós para a mímica. Descobrimos que custava 20 marcos para nos levar (essa parte todo mundo fala em inglês), mas ele parecia preocupado, tentando nos avisar de algo. Apontava para a estrada, e fazia um movimento de “cortar um dedo”, e falava um monte de coisas em bósnio, que eu não entendia. Achei que tinha que tomar cuidado porque alguém tinha cortado o dedo, sei lá. Subimos na charrete, e depois de um bom tempo, a estrada estava interrompida. Ali percebemos que o “dedo cortado” na verdade era estrada interrompida, e portanto a charrete não conseguia passar, tínhamos que fazer o resto do caminho a pé. Foi o que fizemos, mesmo porque não havia alternativa… e para voltar, o caminho inteiro foi à pé, já que as charretes ficavam somente na praça, no início do caminho…





Sociedade dos Poetas Mortos (filme)

6 06 2021

Esse filme do final da década de 1980 foi um dos grandes filmes da minha adolescência, sem nenhuma sombra de dúvida. Não me lembro quando foi a primeira vez que vi, mas revi algumas vezes ao longo dos anos. Gosto muito, até hoje, das mensagens trazidas pela estória, do questionamento ao status quo, do incentivo ao pensamento crítico e autônomo, e, claro, brindado com poesias, citações filosóficas e alguns dramas pessoais.

A estória se passa num internato para garotos extremamente tradicional nos Estados Unidos no final da década de 1950 (antes, portanto, da efervescência dos anos 1960), cujos princípios eram tradição, honra, disciplina e excelência. Nesse contexto, extremamente conservador, surge um professor, Mr. Keating, interpretado pelo fantástico Robin Willians. Esse professor rompe algumas das rígidas regras, estimula seus alunos a ter um pensamento autônomo e crítico, desvencilharem das limitações impostas e a ver o mundo sobre diferente perspectivas. Usando uma citação em latim carpe diem (“aproveite o dia”), desperta ainda nos seus alunos a vontade de descobrirem as próprias paixões, por vezes reprimidas pela sociedade como um todo, e aproveitarem verdadeiramente a vida, pois são confrontados com sua incontestável finitude, o que por vezes é esquecida quando se é jovem. Alguns dos maiores simbolismos dessa transgressão durante o filme são particularmente marcantes: ele mandando os alunos rasgarem páginas dos livros, e ele subindo na mesa para mostrar que sempre poderia haver um ponto de vista diferente sobre tudo.

Para vários adolescentes da minha época, era um sonho termos um professor como o Keating. Em especial para os que gostavam de literatura e poesia, as citações cheias de recados tipo “Apanha os botões de rosa enquanto podes / O tempo voa / E esta flor que hoje sorri / Amanhã poderá estar moribunda.”, de Robert Herrick que ele apresenta logo em sua primeira aula. Ou a citação do poeta e filósofo Henry David Thoreau:

“Eu fui à Floresta porque queria viver livre.
Eu queria viver profundamente, e sugar a própria essência da vida…
Expurgar tudo o que não fosse vida;
E não, ao morrer, descobrir que não havia vivido.”

Thoerau

Com o passar do tempo, alguns dos alunos procuram, em maior ou menor grau, colocar alguns desses ensinamentos “transgressores” em prática. Ficam sabendo de um antigo grupo de leitura de poesias que havia entre estudantes da escola na época em que o professor Keating havia sido aluno – sim, ele havia estudado na mesma escola anos antes, recriam o tal grupo, que dá nome ao filme. O drama do filme mostra também que por vezes enfrentamos as consequências das nossas escolhas (aqui estou eu falando sobre escolhas de novo!), e como tudo na vida, por vezes são boas, outras são ruins, mas são nossas. E que mesmo a noção das escolhas terem sido boas, ruins, terem valido a pena ou não, são perspectivas extremamente pessoais, e por isso, devem sempre ser respeitadas. Quem deve conviver por toda a vida com as consequências de nossas escolhas somos nós mesmos.

É uma bela mensagem sobre como a arte é transgressora sob vários aspectos, sobre a beleza das descobertas a respeito de si mesmo e como tudo pode ser diferente, sempre. O final do filme deixa um gosto amargo na boca, mas nos presenteia com uma das cenas que considero como uma das mais bonitas e cheias de significado que já presenciei no cinema, quando os alunos fazem uma homenagem ao professor Keating, que está se retirando, demonstrando o quanto aprenderam e o quanto aquilo tudo foi importante e fez diferença em suas vidas…

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“Carpe diem. Aproveitem o dia, meninos. Façam suas vidas extraordinárias.”

Professor Keating, em Sociedade dos Poetas Mortos