O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale) – série

8 11 2020
Imagem daqui

Agora, em meio à pandemia, ficamos procurando indicações de séries para assistir. Por sugestão de uma amiga, começamos a assistir a The Handmaid’s Tale, disponível no Brasil pela Globoplay. Em pouco mais de três semanas, assistimos à primeira (2017) e à segunda (2018) temporadas, e estamos nos preparando para a terceira (2019). Por conta da pandemia, a quarta temporada que seria nesse ano foi adiada para 2021. A série é baseada em um livro publicado na década de 80, e pelo que entendi o livro termina da forma como termina a primeira temporada, então as subsequentes não são uma adaptação, e sim roteiros novos.

Vou tentar passar minhas impressões e por que resolvi escrever a respeito, com o mínimo de spoilers quanto possível. Se quiser parar por aqui a leitura, só digo que recomendo muito, é uma estória muito forte, dramática, e que levanta muitos questionamentos atuais, como toda boa estória distópica. Depois que assistir, passa aqui de novo pra terminar de ler.

Aliás, falando em estórias distópicas, assistindo a essa série me remeteu bastante a alguns episódios de Black Mirror, com situações futurísticas catastróficas, apocalípticas, mas, que se analisarmos com um pouco mais de frieza, não estão muito distantes da nossa realidade, por mais assustador que isso seja. Qualquer dia escrevo sobre alguns episódios de Black Mirror também…

Voltando a Handmaid’s Tale, a estória se passa em um futuro não muito distante, onde teria havido um golpe de estado nos Estados Unidos, por um grupo religioso que implementa uma sociedade patriarcal, praticamente medieval, que subjuga as mulheres e que separa a sociedade em castas muito bem definidas. Um dos pilares dessa sociedade é que a maioria das mulheres haviam ficado estéreis, e as poucas que restaram férteis são “treinadas” para serem handmaids (“aias”), para gerarem os filhos dos “comandantes”, os representantes das camadas “superiores” da sociedade, que controlam o governo. As aias moram nas casas de seus comandantes, e mensalmente no seu período fértil são estupradas por seus comandantes em uma “cerimônia”, que conta inclusive com a participação da esposa estéril. E essa “cerimônia” é justificada inclusive por uma passagem bíblica: “Vendo Raquel que não dava filhos a Jacó, teve inveja de sua irmã, e disse a Jacó: Dá-me filhos, senão morro. E ela disse: Eis aqui minha serva Bila, coabita com ela, para que dê à luz sobre meus joelhos, e eu assim receba filhos por ela” (Gênesis 30:1:3)

Uma das partes mais impactantes da série é justamente a realização dessas cerimônias, onde elas deitam na cama do casal, sobre os joelhos das esposas, e são seguras por estas pelos punhos, para que sejam “fecundadas” pelos seus maridos. Há uma ideia plenamente difundida, e justificada “biblicamente” de que as mulheres não têm direito a praticamente nada (não podem ter propriedades, empregos, dinheiro e nem podem sequer LER) e devem se dedicar exclusivamente à família (as “esposas”, mulheres dos aristocratas), aos afazeres domésticos (as “Marthas”, mulheres estéreis mantidas praticamente como escravas), e à procriação (as “Aias”). Inclusive as roupas que elas têm que usar identificam claramente sua posição na sociedade. Em um mundo onde quase todas são estéreis, as Aias possuem um aura de “abençoadas” por ainda serem capazes de engravidar e gerar uma vida.

A “cerimônia”. Imagem daqui.

A atmosfera criada pela fotografia da série ajuda no tom sombrio. Não há cores vivas, não há luz, não há alegria. É tudo sempre muito angustiante, e a trilha sonora colabora também.

Existe, claro, a questão da exploração das mulheres, que foi exaustivamente debatida desde o lançamento da série. É um tema central e extremamente relevante, mas justamente por ter sido muito discutido não pretendo escrever muito sob esse prisma. Não por não o achar relevante, mas justamente por ser o principal ponto de discussão, gostaria de levantar outros que me chamaram a atenção.

A premissa inicial da série é que um grupo fundamentalista cristão autodenominado “Os filhos de Jacó” inicia uma série de atentados nos Estados Unidos e provavelmente conseguem culpar alguma minoria (acho que muçulmanos, não ficou muito claro até agora) e por conta disso justificam a instauração de um estado de sítio com uma escalada gradual da retirada de direitos, em especial das mulheres, até que os EUA mudam até de nome, passam a ser chamados “Gilead” e se tornam uma ditadura teocrata. Ou seja, um governo ditatorial cujos poderes são justificados pela religião. No caso, a cristã. Perseguindo e matando quem não se encaixa ou não concorda com eles, seja por religião, orientação sexual ou comportamento. Isso gera situações que existem em alguns lugares do mundo, hoje, como exilados que formam grupos de refugiados em países vizinhos (no caso, o Canadá). Existem muitos países hoje, em 2020, que recebem refugiados fugindo de regimes ditatoriais, perseguição étnica ou religiosa. Mas já pensou o “tapa na cara” da civilização ocidental ao se dizer que isso poderia acontecer nos EUA? Em tempos de intolerância crescente em que vivemos atualmente, vêm novamente à cabeça a angústia do tipo da série “Black Mirror“: o futuro tão ruim como está sendo descrito está longe de ser real? Talvez não muito.

Como os países reagiriam a isso? Na série, há citações a campanhas ao redor do mundo, sanções econômicas, e dá a entender que ainda existe uma guerra civil em curso, devidamente abafada para se passar internamente uma sensação de paz e tranquilidade para a comunidade de Gilead. No mundo real, há vários países que sofrem sanções, por diferentes motivos. Mas a hipocrisia faz com que os interesses econômicos se sobreponham a quaisquer outros. Existem ditaduras que sofrem com sanções e isolamento, e outras tão “ruins” quanto, mas que não sofrem nada. Se o país em questão tiver um peso econômico grande e/ou um grande poderio militar, ele pode fazer virtualmente qualquer coisa que não sofrerá nada. Fato.

Enfim, é importante que se reflita a respeito do potencial desastroso de darmos poderes a pessoas e grupos que de alguma forma incentivem ou sejam minimamente permissivos com intolerância ou discursos de ódio, de qualquer tipo. Faz-se necessário, mais do que nunca, tomar cuidado com discursos moralistas que pregam maldisfarçadamente intolerância e incitam a violência. Impossível não se lembrar do episódio onde uma menina de 10 anos que era estuprada pelo tio desde os 5 anos, teve seu direito ao aborto garantido pela Justiça, teve que ir para outro estado para poder fazer o procedimento e no próprio hospital foi hostilizada e xingada por grupos evangélicos. Uma vítima de violência, buscando o apoio do Estado para ter seu direito garantido, e ainda sofre essa violência. Estamos doentes como sociedade, a partir do momento que algo assim torna-se corriqueiro ou minimamente aceitável. Onde está o “fazer o bem” pregado pela religião, nessa situação?

Precisamos nos preocupar com perda de direitos, mesmo que não nos afete, pois o pensamento deve ser coletivo, não individualista. Espero sinceramente que possamos fazer isso… Termino citando Bertold Bretch, e esperando que tempos melhores nos aguardem mais à frente…

Primeiro levaram os negros

Bertolt Brecht (1898-1956)

Primeiro levaram os negros

Mas não me importei com isso

Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários

Mas não me importei com isso

Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis

Mas não me importei com isso

Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados

Mas como tenho meu emprego

Também não me importei

Agora estão me levando

Mas já é tarde.

Como eu não me importei com ninguém

Ninguém se importa comigo.





Terapia é pra quem precisa…

23 08 2020

Durante muito tempo eu não acreditei muito no poder, seriedade ou necessidade de alguém ter que fazer terapia. Eu realmente acreditava que os problemas que qualquer pessoa pudesse ter pudessem ser resolvidos sem esse tipo de ajuda, com uma conversa com um bom amigo, ou consigo mesmo, o que seria fácil e eficiente. Tinha uma opinião muito forte e estabelecida a respeito. Procurar por esse tipo de ajuda seria uma fraqueza, sinal de que a pessoa teria falhado miseravelmente em resolver seus problemas sozinho. Pessoas dignas de pena, portanto. Pensando nisso hoje fico imaginando de onde eu havia tirado isso. Quando somos crianças, as nossas “opiniões” sobre todas as coisas do mundo são formadas a partir do que ouvimos os adultos dizerem. Não por maldade ou má intenção dos adultos, mas por vezes uma colocação fora de contexto, ou mesmo num contexto incompreensível para uma criança que esteja ouvindo, o que foi falado pode ficar com ela por muito, muito tempo… não sei se foi o meu caso, realmente não me lembro.

Mas, o fato é que cresci com esse preconceito junto comigo, e não tinha nenhum problema com ele. Do alto da minha autossuficiência, eu me bastava, eu me resolvia comigo e com o mundo e estava tudo certo… até o dia em que não estava mais… e esse dia chegou. Foi por volta dos meus já longínquos 29-30 anos, não me recordo muito bem. Mas lá estava eu, sem saber como lidar com muitas questões, algumas já guardadas por muito tempo, outras tantas que eu não entendia, e umas ainda que eu nem sabia sequer que existiam. Não foi um momento de desespero ou pânico, eu diria, mas um momento que a necessidade acabou se impondo. Havia algo errado, e isso estava causando sofrimento para mim e para pessoas ao meu redor. E num determinado momento, lá estava eu, em um consultório, diante de uma profissional (extremamente bem recomendada por uma pessoa de confiança e da área), uma menina, aparentemente mais nova do que eu, começamos a conversar e ela simplesmente me pergunta o porquê de eu estar ali. Eu me lembro muito claramente daquele momento, em que eu tive que decidir o que responder e quase – sim, por pouco – fui embora dizendo que na verdade tinha sido um engano. Depois fiquei pensando se algumas pessoas fazem isso, ou se passa pela cabeça de alguém fazer isso… Bom, mas fiquei, comecei a falar, falar, praticamente sem parar por um bom tempo. E ali iniciou-se para mim um processo no qual fui me conhecendo, descobrindo algumas coisas que me incomodavam e que eu nem sabia. Fui construindo uma relação de confiança com a terapeuta, fui descobrindo (eu, curioso sobre tudo) que haviam linhas muito diferentes dentro da psicanálise, fui descobrindo o processo aos poucos. E descobri que num tratamento com um bom profissional, o processo não é dele, é seu. O(a) terapeuta está ali para auxiliar, para “limpar” alguma visão turva, algo pontual que porventura você não esteja enxergando. Ele ou ela não está ali para resolver nada, mas para lhe acompanhar no processo. E, posso dizer pela minha experiência, que é um processo muito enriquecedor. Aprendi que posso fazer coisas, curar feridas, as que não posso curar posso fazer com que não sejam parte central da minha vida, dentre outras coisas… e o mais importante, que a pessoa mais importante de nossa vida, de quem temos que cuidar antes de tudo, somos nós mesmos. Se não estivermos bem, não adianta cuidarmos dos outros, sejam filhos, pais, cônjuges, o que for. É preciso estar bem consigo mesmo para poder cuidar bem dos outros. E isso não significa ser egoísta, mas simplesmente buscar o equilíbrio, sempre, para que saiba bem seus próprios limites e consiga ficar bem consigo mesmo, para ser uma pessoa melhor para si e para os outros. Fiquei alguns anos na terapia, acabei interrompendo por motivos alheios à minha vontade, mas foram ensinamentos a respeito de mim mesmo que foram valiosos por toda a vida.

E por conta disso eu acho que todo mundo deveria fazer terapia? Não, não necessariamente, não mesmo. Uma outra coisa aprendida nesse processo, e também ao longo da vida, é que cada um tem um caminho, uma abordagem ou receita que sirva para si, em seu próprio tempo. O que serve para mim não serve necessariamente para o outro. O que achei na terapia que me ajudou, outra pessoa acha de alguma outra forma de se autoconhecer. As trajetórias, as bagagens de cada um são diferentes, o tempo e a disposição também. O que acho importante é que as pessoas não tenham a resistência que eu tive, e sem a qual eu poderia ter perdido menos tempo e ter descoberto meu próprio caminho mais cedo. As pessoas precisam entender que precisar de ajuda não é sinal de fraqueza ou falha, mas de lucidez e coragem. Somos seres humanos, cheios de fragilidades e incertezas, e não temos a obrigação de darmos conta de tudo o tempo todo. Espero que mais e mais pessoas possam ser mais felizes, levar uma vida mais plena. E lembrando sempre que a felicidade não é a ausência de problemas, mas sim a sua capacidade de lidar com eles. Uns problemas vão, outros vêm, alguns permanecem. Eles fazem parte da vida, e vão continuar fazendo sempre. Cabe a cada um de nós decidirmos o que fazer com eles.





Sobre o tempo…

26 07 2020

“Batidas na porta da frente… É o tempo…
Eu bebo um pouquinho pra ter argumento… Mas fico sem jeito calado, ele ri… Ele zomba do quanto eu chorei… Porque sabe passar, e eu não sei…”

Aldir Blanc, em “Resposta ao tempo”

Eu tenho mania de guardar coisas… algumas úteis, outras nem tanto, outras ainda com potencial de serem úteis em hipotéticas e improváveis situações futuras… Limpando e arrumando algumas coisas nesses dias encontrei algo curioso: o meu primeiro cartão de visitas! Era o ano de 1995, tinha meu diploma de Técnico em Eletrônica pela ETESP no final do ano anterior e decidi sair do emprego de técnico de laboratório na Proceda, após 7 meses de contrato, e resolvi virar freelancer como técnico de campo para equipamentos de informática, fiz o cartão na boa e velha HP DeskJet da mãe. Bons tempos aqueles, ainda morando com a mãe, 18 anos e muita energia para trabalhar, e arriscar…

Na época, era telefone de casa(da mãe!) e PAGER da Mobi

Quando vi o cartão comecei a lembrar da época: comprei um pager (hoje peça de museu, certamente!), prestava serviços para algumas empresas, cheguei a colocar anúncio no jornal (classificados de domingo!), aprendi naquele período como lidar com clientes, cometi os primeiros erros, e enquanto isso estudava à noite no Anglo para prestar o vestibular de Engenharia de Computação na Unicamp. Fui entrevistado pela Folha para o caderno de vestibulares Fovest, numa matéria que dizia “Vestibulandos surfam na rede”(achei essa matéria guardada também, veja abaixo!), já que a Internet era uma novidade, e o Google nem existia… Prestei dois anos seguidos até conseguir a tão sonhada vaga. Em 1996 parei com essa estória de freela e fui trabalhar como técnico na Megaprom Informática, mais uma vez visitando clientes, trabalhando com suporte e manutenção… tempo bom, que não volta mais…

Usar Internet era motivo de matéria no jornal, em 1996. Estou atrás do rapaz de boné.

Graças ao esforço da minha família, que apesar das dificuldades conseguia me ajudar financeiramente, consegui parar de trabalhar e me dedicar integralmente à faculdade de Engenharia de Computação da Unicamp, a partir de 1997. Saindo da casa da mãe, mudando de cidade… Era um dos pouquíssimos da turma que já havia tido alguma experiência profissional. A maioria ali estava com 17 anos, e havia saído imediatamente do segundo grau para lá. Foi, à época, meio estranho para mim, mas por pura falta de informação mesmo… eu era uma exceção, mas antes de entrar achei que não seria.

De lá pra cá, 23 anos se passaram… formatura após 5 anos, fui trabalhar com desenvolvimento na Motorola em Jaguariúna, casei em 2002, e me separei em 2009. Mudei para São Carlos, onde trabalhei também com desenvolvimento na Opto Eletrônica, por quase dois anos. Depois disso, final de 2011, recebi uma proposta na Avnet e voltei para São Paulo, para atuar como Engenheiro de Aplicações de Campo. Depois de 15 anos, voltava finalmente a uma função onde era necessário lidar diretamente com clientes. E só aí me lembrei como gostava disso, e como sabia fazer um bom trabalho. De volta às origens, de certa forma… Em 2015 tive uma proposta para trabalhar em Belo Horizonte, na Unitec. Arrumei as coisas, casei pela segunda vez e lá fomos nós para BH. Ficamos por 3 anos, e desde outubro de 2018 estou de volta a São Paulo, trabalhando na Vermont.

Acho que esse momento de quarentena me fez pensar em tanta coisa pelo que passei nesses anos todos, desde aquele primeiro cartão… Fui construindo uma carreira com a qual fico muito satisfeito. E no lado pessoal, conheci pessoas fantásticas, perdi pessoas, algumas afastadas pela vida, outras pelos acontecimentos, outras sem motivo nenhum… altos, baixos, realizações, frustrações, sofrimentos sentidos e infligidos a outros… Acho que com mais vitórias do que derrotas, mais alegrias do que tristezas, e – faz parte – um tanto de arrependimentos… Uma vez um colega me perguntou sobre uma determinada situação da vida dele que implicava em uma decisão importante a ser tomada… eu disse a ele: qualquer que seja a sua escolha, em algum momento do caminho (talvez mais de uma vez ao longo dele) você irá olhar pra trás e ter a certeza de que a outra escolha teria sido melhor… simplesmente porque a realidade competir com a utopia do que não se realizou não é justo… não tem como ser…

E que venham mais uns 23, 25 anos para que eu possa encontrar coisas antigas, datadas do longínquo ano da pandemia de 2020…

“E o tempo se rói com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
Pra tentar reviver…

No fundo é uma eterna criança
Que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder
Me esquecer…

Adir Blanc, em “Resposta ao Tempo”