Meritocracia

4 09 2022
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Meritocracia. Segundo o dicionário, significa “Forma de administração cujos cargos são conquistados segundo o merecimento, em que há o predomínio do conhecimento e da competência”.

Parece um belo conceito, justo, segundo o qual quem merece mais, recebe mais. Seja na vida, seja na escola, seja no trabalho. Fez por merecer, levou. Não conseguiu? Então não se esforçou o suficiente. Mais justo, impossível. Isso seria verdade, ou poderia ser verdade, se as condições iniciais dadas a todos fossem rigorosamente iguais. Será que são?

Fazia bastante tempo que eu estava pensando em escrever algo a respeito. O que me levou a escrever agora foi um fato que ocorreu há algumas semanas. Em um grupo de WhatsApp do qual faço parte alguém chamou a atenção para uma matéria: “Estudante rejeita herança de R$ 22 bilhões: ‘Não poderia ser feliz'”. O que me chocou foram os comentários no grupo: “Que estúpida!”, “Pega o dinheiro e gasta, faz qualquer coisa, monta um museu…”. Fui ler a matéria.

Resumidamente, uma moça rejeitou uma fortuna que a avó desejava deixar para ela, porque ela disse que não poderia receber tamanha quantidade de dinheiro, não se sentia confortável por não ter feito nada para “merecer”, apenas pelo fato de ter nascido numa família bilionária. A moça não fez voto de pobreza, veja bem, ela tem bastante dinheiro, vive uma vida extremamente confortável, e teria abdicado de “apenas” 90% da herança equivalente a R$22 bilhões, ou seja, ainda aceitaria receber cerca de R$ 2.2 bilhões. Por uma questão de MERECIMENTO, ou MÉRITO, do ponto de vista dela, ela não merecia aquele dinheiro. A moça, ainda segundo a mesma matéria, faz parte de um grupo organizado de herdeiros multimilionários que defendem o aumento de impostos para os mais ricos, e me pareceu uma pessoa preocupada com a desigualdade entre as pessoas na sociedade.

Aquilo me pareceu uma questão de visão de mundo com a qual não estamos acostumados a conviver. A nossa sociedade nos acostuma a ver o acúmulo de dinheiro e de bens como um objetivo de todos, para muito além das nossas necessidades. Ao longo do tempo, foi se formando um abismo social, onde as pessoas que possuem muito dinheiro tem mais facilidade para conseguir mais e mais dinheiro, enquanto a imensa maioria das pessoas que têm pouco ou quase nada não têm nenhuma facilidade ou oportunidade para progredir, por mais que se esforcem. Esse estudo da OCDE (Organização pela Cooperação e Desenvolvimento Econômico) mostra que uma família que está entre os 10% mais pobres demora 5 gerações em média para atingir o nível das mais ricas. Ou seja, se você nasce pobre e você, seu filho, seu neto, seu bisneto, seu trineto e seu tataraneto se esforçarem, o filho do seu tataraneto pode nascer em uma família entre as mais ricas. Note que isso é uma média, então, para cada exceção que consegue antecipar várias gerações, há outros tantos que demoram bem mais… O país onde esse tempo é menor é a Dinamarca, onde se levam 2 gerações em média. No Brasil, levam-se 9 gerações. Nos Estados Unidos, “terra das oportunidades”, 5 gerações.

Isto posto, será que realmente faz sentido falar em meritocracia? Nós, enquanto sociedade, estamos fazendo algo para dar condições mínimas de igualdade? Podemos fazer muito nesse sentido, mas aqueles que detêm o poder não fazem, não se interessam por isso. Fico muito incomodado com análises simplistas como aquelas que em geral aparecem nos grupos de WhatsApp, como foi o caso que contei. Eu acabei me lembrando de uma história em quadrinhos (tradução retirada daqui) que reproduzo abaixo:

Vejam bem, nada contra as pessoas que aproveitam as oportunidades, que batalham, que conquistam espaços que em tese poderiam ser de outros. O que incomoda é que pessoas que recebem privilégios, por quaisquer motivos, não enxerguem isso e achem que tudo foi por conta da tal da meritocracia…





Hibernação

24 07 2022

Hibernação. Segundo o dicionário, “Estado de inatividade com diminuição do metabolismo de certos animais durante o inverno, período em que suas reservas de alimentação são utilizadas.”. Período em que alguns animais praticamente “desligam” a maior parte das atividades corporais para poderem sobreviver durante um período de privação de alimentos, notadamente o inverno. E quando se fala de hibernar, normalmente o que nos vem à mente são os ursos…

Urso polar hibernando. Foto: Coffeemill / Shutterstock.com

Esse pode ser considerado o estado desse blog. Voltando para dar notícias após 273 dias, praticamente 9 meses inteiros em estado de dormência, como que economizando energia, juntando forças para um eventual retorno após o “inverno”. Tudo bem que nesse caso o tal inverno começou na primavera e atravessou um verão e um outono inteiros, mas acredito que consegui passar a ideia da metáfora. Ao menos espero ter conseguido.

Nesses últimos tempos, na verdade desde meu aniversário de 45 anos em novembro passado, acabei por deixar um pouco de lado esse espaço em detrimento de outras prioridades, como o trabalho, família, estudar e ler sobre coisas diferentes, terminar uma pós graduação e começar a pensar em seguir uma segunda carreira paralela, ideia que brotou no ano passado e sobre a qual ainda pretendo falar em breve, depois de amadurecer um pouco mais as coisas.

Mas o fato é que esse espaço nunca foi encarado por mim como obrigação, era muito mais um espaço de prazer que pretendo retomar, provavelmente com a frequência semanal que consegui manter no primeiro ano dele, vamos ver como as coisas irão evoluir daqui em diante.

Espero poder continuar com esse espaço e com a presença de vocês, que ainda se dão ao trabalho de vir aqui para saber no que ando pensando… agradeço por ter lido até aqui, aguardem os próximos posts…





1 ano de blog

11 07 2021
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No final de junho do ano passado (o malfadado 2020), no meio da pandemia que ainda não passou, esse blog nasceu. Conforme explicado aqui, é um espaço movido pela minha necessidade de escrever. Acho que escrevo muito mais por essa necessidade, sem grandes pretensões… Colocar em palavras coisas que penso, opiniões, lembranças, impressões… Ainda me divirto vez ou outra lendo o que escrevi há 10, 15 anos atrás no meu outro blog abandonado.

Esse exercício de ter a disciplina e regularidade para escrever aqui tem sido bastante prazeroso. Acho que com uma única exceção nesses pouco mais de 12 meses, consegui publicar conteúdo praticamente toda semana. Mais da metade dos posts foram sobre viagens, e no geral são também os mais lidos. A audiência varia bastante, sei de algumas pessoas que são frequentadores assíduos, vez ou outra comentam, mas tenho também grande curiosidade a respeito das pessoas que leem e que não faço nem ideia de quem são ou como chegaram por aqui. A maior parte dos leitores acessam do Brasil, mas tenho muitos acessos dos Estados Unidos, Canadá, outros espalhados em vários países da Europa, alguns asiáticos (muitos acessos da China, o que me espantou), Nova Zelândia e Austrália.

Espero ainda ter disciplina, tempo e sobretudo coisas minimamente interessantes para continuar escrevendo aqui por um bom tempo. É muito como um monólogo, uma conversa comigo mesmo, e até agora tenho gostado do resultado. Embora siga escrevendo para mim mesmo, por uma necessidade pessoal, é muito legal quando alguém me escreve comentando, ou se inscrevendo para receber atualizações, sinto que alguém está ali do outro lado, “escutando”.

Seja você um(a) leitor(a) assíduo(a) ou não, agradeço por estar aqui nesse espaço totalmente despretensioso, volte sempre que quiser, espero estar aqui por muitos anos ainda…

Abraço, até a próxima!