1 ano de blog

11 07 2021
Imagem daqui

No final de junho do ano passado (o malfadado 2020), no meio da pandemia que ainda não passou, esse blog nasceu. Conforme explicado aqui, é um espaço movido pela minha necessidade de escrever. Acho que escrevo muito mais por essa necessidade, sem grandes pretensões… Colocar em palavras coisas que penso, opiniões, lembranças, impressões… Ainda me divirto vez ou outra lendo o que escrevi há 10, 15 anos atrás no meu outro blog abandonado.

Esse exercício de ter a disciplina e regularidade para escrever aqui tem sido bastante prazeroso. Acho que com uma única exceção nesses pouco mais de 12 meses, consegui publicar conteúdo praticamente toda semana. Mais da metade dos posts foram sobre viagens, e no geral são também os mais lidos. A audiência varia bastante, sei de algumas pessoas que são frequentadores assíduos, vez ou outra comentam, mas tenho também grande curiosidade a respeito das pessoas que leem e que não faço nem ideia de quem são ou como chegaram por aqui. A maior parte dos leitores acessam do Brasil, mas tenho muitos acessos dos Estados Unidos, Canadá, outros espalhados em vários países da Europa, alguns asiáticos (muitos acessos da China, o que me espantou), Nova Zelândia e Austrália.

Espero ainda ter disciplina, tempo e sobretudo coisas minimamente interessantes para continuar escrevendo aqui por um bom tempo. É muito como um monólogo, uma conversa comigo mesmo, e até agora tenho gostado do resultado. Embora siga escrevendo para mim mesmo, por uma necessidade pessoal, é muito legal quando alguém me escreve comentando, ou se inscrevendo para receber atualizações, sinto que alguém está ali do outro lado, “escutando”.

Seja você um(a) leitor(a) assíduo(a) ou não, agradeço por estar aqui nesse espaço totalmente despretensioso, volte sempre que quiser, espero estar aqui por muitos anos ainda…

Abraço, até a próxima!





Jericoaquara

4 07 2021
Pôr-do-Sol em Jeri

O que dizer sobre um lugar que virou sinônimo de paraíso de férias nos últimos anos? A 300 km de Fortaleza, até alguns anos atrás era uma vila de pescadores, sem nenhuma estrutura, e foi sendo descoberta aos poucos pelos turistas que “desbravam” locais diferentes e estavam dispostos a encarar horas de transporte por caminhos sacolejantes. Hoje, embora ainda mantenha o charme das ruas de areia, pouca iluminação e cara de cidade tranquila do interior, já conta com hotéis e restaurantes de alto nível, além de pousadas mais simples. Estivemos por lá em 2015, pouco tempo antes da inauguração do aeroporto(2017), que deve ter colaborado para uma aceleração do turismo por lá. Há algumas pessoas que reclamam que os locais vão ao longo do tempo perdendo sua essência com a exploração turística, mas eu particularmente acredito que faz parte do ciclo natural, inevitável: o lugar é desconhecido, os mochileiros começam a se aventurar por lá, começam a contar para os amigos, a propaganda “boca a boca” vai crescendo (ainda mais em tempo de redes sociais), o turismo começa a chegar lentamente, os locais começam a perceber que precisam melhorar um pouco a estrutura, até para poderem cobrar mais, em seguida chegam investidores de fora, comprando pousadas, montando hotéis, etc… Assim foi com Trancoso, Arraial d’Ajuda, Jeri, só para ficar em poucos exemplos…

Mas, voltando a falar de Jeri, as belezas naturais já fazem valer a pena, no meu entender, qualquer perrengue para chegar lá. No nosso caso, ônibus de turismo, de Fortaleza até Jijoca, e de lá uma jardineira sacolejante até Jeri. Com aeroporto, acaba se perdendo toda essa experiência única… rs

Ficamos na Pousada Maxitália, que fica praticamente no começo (ou final) da praia, quase na altura da famosa Duna do Pôr-do-Sol. Não fica de frente para o mar, mas foi uma excelente relação custo-benefício à época. Durante a noite, várias opções para os mais variados bolsos, vale muito a pena deixar-se perder pelas ruazinhas para escolher onde jantar. Na praça central há o Sambarock, com música ao vivo e um ambiente que é a cara de Jeri.

Durante o dia, os passeios que fizemos, além da própria praia de Jeri, tem o imperdível Pôr-do-Sol na duna, para onde todas as tardes uma verdadeira multidão se dirige para o espetáculo diário.

Praia de Jeri: bonita, água deliciosa, e uma boa estrutura
Praia de Jeri, todos indo para a Duna do Pôr-do-Sol, quase na hora…
O famoso pôr-do-Sol da duna
Foto básica de turista, fazendo graça

Um outro lugar imperdível é a Lagoa Paraíso, vale a pena um passeio para passar o dia por lá. É uma lagoa de águas cristalinas, com cores incríveis. Há bastante estrutura no local, inclusive com redes dentro da água para que possamos relaxar e refrescar ao mesmo tempo… nem preciso dizer que adorei a ideia.

Rede dentro d’água: por que ninguém pensou nisso antes?

Um outro passeio muito legal é o clássico buggy pelas dunas, com direito a passar pela Árvore da Preguiça. É uma árvore na praia, que por conta dos ventos fortes acabou crescendo “torta” e por isso acabou virando ponto turístico. Não acho que valha a pena ir só para ver a árvore, mas, se estiver passando por ali, vale uma foto.

Árvore da Preguiça

Outro ponto bem famoso para ser visto é a Pedra Furada, uma pedra com uma fenda que fica perto do mar. Dá pra ir até andando de Jeri até a Pedra furada pelo mar, no período de maré baixa – a caminhada é linda, com praias pouco movimentadas e pedras diferentes. Eu, que sempre gostei de pedras desde pequeno, gostei bastante da caminhada.

Pedra Furada
Pedra Furada

Para quem quer uma praia menos agitada, mas também sem muita estrutura – ao menos assim era em 2015 – é a Praia da Malhada, bastante frequentada por praticantes do kitesurf, e por quem busca uma praia um pouco mais afastada do burburinho da vila de Jeri.

No geral, é um passeio muito bom para passar uns dias e recarregar as energias. Três ou quatro dias são suficientes para ver os pontos turísticos, mas alguns dias a mais simplesmente para curtir as praias e descansar, parece ser um lugar ideal…

Espero que tenha gostado, obrigado por ler até aqui, até uma próxima!





Peru e Trilha Inca (parte 2)

11 04 2021

Continuação do relato da viagem ao Peru em 2006, a primeira parte está aqui.

Quarto dia de caminhada, quase chegando em Machu Picchu

5o dia: Vale Sagrado

No nosso passeio para o Vale Sagrado, conhecemos a que seria nossa companheira de caminhada, a Celina, também brasileira, de São Paulo. Foi uma outra feliz coincidência, ela era muito legal e nos demos muito bem ao longo dos 6 dias que passamos juntos. No vale sagrado fomos em vários sítios, sendo os principais Pisac e Ollantaytambo, duas grandes ruínas e com destaque para essa última, uma das mais famosas e bonitas que vimos. Curiosamente, não consegui encontrar fotos de Ollantaytambo (já são quase 15 anos da viagem, alguma coisa se perde…), então acabei colocando algumas fotos que achei na rede mesmo para ilustrar aqui, paciência… as que não são minhas têm as fontes indicadas…

Ruínas em Pisac
Ruínas do Templo do Sol, em Pisac

Em Pisac e em Ollantaytambo vimos belos exemplos de terraceamento, que é uma técnica de plantação que criam “escadas” ao longo da encosta para se colocar as plantações. Isso diminui a erosão por chuvas, pois dificulta a àgua a descer com muita velocidade, além de possibilitar plantios em regiões – como aquelas onde os Incas viviam – onde há falta de terrenos planos. Além disso, eram posicionadas de forma a se beneficiar ao máximo do Sol, e feitas de maneira calculada de forma a serem criados microclimas particulares que permitiam o cultivo de diferentes plantações em áreas mais altas ou mais baixas, de acordo com a necessidade de cada planta.

Terraceamento em Pisac
Terraceamento em Ollantaytambo – foto daqui
Muros Incas em Ollantaytambo – foto daqui
Detalhe dos encaixes das pedras no muro em Ollantaytambo (foto minha!)

6o dia ao 9o dia: Trilha Inca

Durante a caminhada toda, pudemos aprender muito sobre a História Inca. Como já disse, nosso guia Jim era formado em História e especialista no assunto. A viagem realmente teria sido outra sem ele. Aprendemos que a Trilha Inca (hoje chamada de Trilha Inca “Clássica”) era um caminho de peregrinação, uma espécie de iniciação espiritual, e não usada no cotidiano para o trânsito de pessoas, animais e mercadorias. Esses iam normalmente pelo vale, região mais plana por onde passa hoje o trem que vai de Cuzco a Águas Calientes, cidade que fica “ao pé da montanha”, logo abaixo de Macchu Picchu. Uma informação que faz bastante sentido.

Existem maneiras diferentes de fazer a trilha, optamos por fazer 4 dias de caminhada, chegando em Machu Picchu no final da tarde, descermos até Águas Calientes para dormir (além de termos o primeiro banho em quatro dias) e deixar o dia seguinte para entrar novamente e visitar Machu Picchu com mais calma. Grande parte dos turistas costumam fazer o último acampamento mais perto do final da trilha, acordar bem cedo e entrar pela Porta do Sol com o Sol nascendo. Uma outra ainda é ir de trem e pegar somente o final da trilha, passando por Wiñaywayna, o conjunto mais completo de ruínas da trilha.

A trilha inicia no km 82 da ferrovia, e fomos até lá de van. Na entrada do parque, um dos carimbos mais queridos que já recebi no passaporte:

Carimbos de entrada na trilha (09/out) e entrada via Águas Calientes (13/out)
Placa de início da famosa trilha

Iniciando a trilha, lá fomos nós para 4 dias de caminhadas, acampando em barracas no meio das montanhas, sem banho, e querendo ver tudo, cada detalhe ao redor. Contamos com o auxílio da equipe de carregadores, que iam na frente com os mantimentos, barracas, mochilas e tudo o mais. A caminhada fica realmente muito mais tranquila, menos preocupação com o peso e pode se aproveitar melhor. Depois dessa viagem fiz algumas trilhas com carregadores e outras sem, carregando tudo, e posso dizer, cada abordagem tem suas vantagens e seu valor próprio.

Início da trilha, ainda no vale


Ao longo da trilha, muitas vistas inesquecíveis, ruínas, um contato direto com a natureza e com a História Inca. Até sobre algumas orquídeas que são endêmicas da região aprendemos um pouco. Há uma em especial que me chamou a atenção, chamada de waqanki, que em Quechua significa algo como “você vai chorar”: há uma lenda Inca sobre um amor impossível de uma princesa com um soldado que teria dado origem a essa flor.

Orquídea Waqanki
Algumas das primeiras ruínas ao longo da trilha

No segundo dia, o trecho mais pesado de caminhada, o chamado Warmiwañuska, que em Quechua significa algo como “o passo da mulher morta”. É a subida para se alcançar o ponto mais alto da trilha, cerca de 4215 metros de altitude. Esse é o dia onde alguns turistas (especialmente os que não fizeram aclimatação, como fizemos em Puno) passam mal com falta de ar. Depois desse dia o Jim contou que tinha um pequeno cilindro de oxigênio na mochila para emergências… felizmente não precisamos.

Vista “ohando pra trás” do alto do Warmiwañuska
Jim levava essa bandeira para tirar fotos com os brasileiros no Warmiwañuska
Na marcação oficial do Warmiwañuska

Após atingirmos esse ponto mais alto, começamos a descida, ainda teríamos mais dois dias de acampamento pela frente. O primeiro num vale, o Vale de Pacaymayu logo após o Warmiwañuska, e o segundo em Puyupatamarca, a partir de onde já pudemos ver os primeiros sinais da Wayna Picchu (“montanha jovem” em Quechua), a icônica montanha da “cidade perdida” de Macchu Picchu. Caminhadas longas mas bem mais tranquilas do que as do dia anterior , com muito verde e água pelo caminho.

Vista do vale no nosso 2o acampamento, em Pacaymayu

E, claro, muitas ruínas ao longo da caminhada, que me deixavam cada vez mais encantado com o nível do trabalho da engenharia civil dos Incas.

Ruínas em Puyupatamarca
Espécie de escada com um orifício de apoio à direita
Detalhe do orifício de apoio

No nosso último acampamento em Puyupatamarca tirei a primeira foto da Wayna Picchu, ainda que bem de longe. Ao acordarmos no dia seguinte, já fomos caminhando para passar por Wyñaywayna, e depois, finalmente, a porta do Sol que nos descortinaria Macchu Picchu.

Wyñaywayna

Wyñaywayna merece ser apreciada. São as ruínas mais bem conservadas de toda a trilha, e a poucos minutos do último acampamento da trilha, que leva seu nome (no qual não ficamos, conforme expliquei no início).

O final do nosso último dia de caminhada e a tão esperada chegada a Machu Picchu ficam para o post da semana que vem, até lá…





“Causos” de viagem – parte 3

27 12 2020
Imagem daqui.

Sequência de “causos” marcantes ocorridos nas minhas viagens… já publiquei a parte 1 e parte 2

Ônibus de excursão errado em Cusco, Peru

Quando contratamos a excursão para passear em Cusco, antes de iniciarmos a Trilha Inca, tínhamos uma espécie de tour privado, com poucas pessoas. Ficou marcado do guia, que havíamos encontrado no dia anterior, ir nos pegar no dia seguinte, no hotel. Importante: na época, não havia celular para falarmos com o guia. No horário marcado, estávamos lá sentados na recepção, aguardando. Entra um guia bem mais novo, falando castelhano super rápido, perguntando meu nome: Cristiano, disse eu. “Ah, venha, venha, estamos atrasados”, ele disse. “Onde está o Jim?”, perguntei, querendo saber do nosso guia. “Venha, venha, depois!”. Desconfiei, mas fomos com ele. Subimos num ônibus grande, cheio de turistas, perguntei ao motorista sobre o Jim, ele também estava todo apressado e me mandou subir. Começamos a sair pela cidade, parando em outros hotéis e pegando mais turistas. A cada parada eu tentava explicar que achava que estava no lugar errado. Até que chegou uma parada e vi o “guia” do lado de fora do ônibus levando um esporro de um casal, e reconheci que era um casal que estava no nosso hotel. Tinham acabado de descobrir que tinham pego o casal errado, no caso, nós. O nome do cara do outro casal era Christian (tremendo azar!). O tal “guia” entrou num carro conosco para nos levar de volta ao hotel. Xinguei ele com todos os nomes que meu castelhano permitia (não pelo erro, mas por não ter me ouvido, o tempo todo dizendo que não devia estar ali e perguntando pelo Jim). Fomos devolvidos ao hotel, e nosso guia de verdade estava esperando… felizmente deu tempo, e tivemos um belo dia de passeios.

Garçom mal-educado em Buenos Aires, Argentina

Estava passando pela frente do famoso Café Tortoni, na não menos famosa Avenida de Mayo. Já havíamos comido, mas pensávamos em voltar ali para tomar um café mais tarde. Achamos que daria para verificar o menu, ter uma ideia do que tinha e dos preços, para voltar mais tarde. Não havia menu na entrada, então entramos e pedimos ao garçom. Ele nos convidou a sentar. Expliquei que voltaríamos mais tarde, agora só queríamos ver o menu. Ele fechou a cara, disse “Se te sientas, te lo daré”, deu as costas e nos deixou ali, parados…

Menino que não sabia usar lápis, no Nepal

Essa foi uma das situações que mais me tocaram em todas as viagens que fiz. Quando fui fazer essa viagem, fui avisado que iríamos passar por vilas com pessoas bem simples, e que as crianças gostavam de receber lápis de cera, livrinhos de pintar, essas coisas, então levei alguns na mochila comigo. Numa vila específica, entreguei um livrinho e um estojinho de lápis para um menino, não tinha mais de 4 anos. Os olhinhos brilharam, ele agarrou os presentes e ficou circulando com eles. Umas turistas que estavam por lá fizeram menção de ajudá-lo, abrir o estojo e o livrinho, ele ficou desesperado, acho que pensou que iam tirar dele. Fiquei com a impressão de que ele jamais tinha visto aquelas coisas, nem sabia o que fazer com elas. Fiquei alguns minutos ali, pensando e observando o menino, e imaginando o abismo entre a realidade dele e a minha, as oportunidades que ele vai ter, em comparação com as crianças no Brasil, ou de outros países. Fiquei pensando o quanto estamos longe de ter um mundo igualitário e justo para todos..

Procurando cerveja na sexta-feira santa em Dublin, Irlanda

Em 2010, peguei duas semanas de “férias” ao sair de um emprego e antes de começar outro. Fui para Barcelona visitar um casal de amigos, Sílvia e Fabiano, que estavam morando por lá. Por sugestão do Fabiano, fui procurar voos low cost para sair de Barcelona, pois eles moravam perto de um aeroporto secundário com muitos desses voos. Acabei achando uma promoção de 30 euros ida e volta Barcelona-Dublin, com limitação de ir numa terça e voltar no sábado de aleluia, sem despachar bagagem. Uma verdadeira pechincha. Topei. A viagem a Dublin foi bem legal, apesar do tempo estar meio frio e chuvoso (a primavera tinha acabado de começar, teoricamente). Mas o engraçado dessa viagem, que deixo para descrever em outro post, foi na minha última noite em Dublin, que era justamente a sexta-feira santa. Eu sabia que a Irlanda era um país bem católico, mas também sabia que era um povo bem festivo e que bebia muito. Mas na sexta-feira santa, por força de lei, era proibido vender bebidas alcoólicas. Fui para o Temple Bar, bairro turístico e boêmio da cidade, e todos os restaurantes estavam com placas indicando isso. A maioria dos bares, fechados, os abertos continham placas semelhantes.
Entrei em um restaurante, pedi uma massa para o jantar, e a garçonete me perguntou o que eu queria beber. “Não posso nem pensar numa Guinness hoje, né?”, perguntei. Ela respondeu séria que não, mas tinham muitos refrigerantes e sucos para eu escolher. Pedi um suco de maçã. “Duplo sem gelo!”, ainda brinquei. E assim minha última noite em Dublin foi completamente sem bebida alcoólica…





O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale) – série

8 11 2020
Imagem daqui

Agora, em meio à pandemia, ficamos procurando indicações de séries para assistir. Por sugestão de uma amiga, começamos a assistir a The Handmaid’s Tale, disponível no Brasil pela Globoplay. Em pouco mais de três semanas, assistimos à primeira (2017) e à segunda (2018) temporadas, e estamos nos preparando para a terceira (2019). Por conta da pandemia, a quarta temporada que seria nesse ano foi adiada para 2021. A série é baseada em um livro publicado na década de 80, e pelo que entendi o livro termina da forma como termina a primeira temporada, então as subsequentes não são uma adaptação, e sim roteiros novos.

Vou tentar passar minhas impressões e por que resolvi escrever a respeito, com o mínimo de spoilers quanto possível. Se quiser parar por aqui a leitura, só digo que recomendo muito, é uma estória muito forte, dramática, e que levanta muitos questionamentos atuais, como toda boa estória distópica. Depois que assistir, passa aqui de novo pra terminar de ler.

Aliás, falando em estórias distópicas, assistindo a essa série me remeteu bastante a alguns episódios de Black Mirror, com situações futurísticas catastróficas, apocalípticas, mas, que se analisarmos com um pouco mais de frieza, não estão muito distantes da nossa realidade, por mais assustador que isso seja. Qualquer dia escrevo sobre alguns episódios de Black Mirror também…

Voltando a Handmaid’s Tale, a estória se passa em um futuro não muito distante, onde teria havido um golpe de estado nos Estados Unidos, por um grupo religioso que implementa uma sociedade patriarcal, praticamente medieval, que subjuga as mulheres e que separa a sociedade em castas muito bem definidas. Um dos pilares dessa sociedade é que a maioria das mulheres haviam ficado estéreis, e as poucas que restaram férteis são “treinadas” para serem handmaids (“aias”), para gerarem os filhos dos “comandantes”, os representantes das camadas “superiores” da sociedade, que controlam o governo. As aias moram nas casas de seus comandantes, e mensalmente no seu período fértil são estupradas por seus comandantes em uma “cerimônia”, que conta inclusive com a participação da esposa estéril. E essa “cerimônia” é justificada inclusive por uma passagem bíblica: “Vendo Raquel que não dava filhos a Jacó, teve inveja de sua irmã, e disse a Jacó: Dá-me filhos, senão morro. E ela disse: Eis aqui minha serva Bila, coabita com ela, para que dê à luz sobre meus joelhos, e eu assim receba filhos por ela” (Gênesis 30:1:3)

Uma das partes mais impactantes da série é justamente a realização dessas cerimônias, onde elas deitam na cama do casal, sobre os joelhos das esposas, e são seguras por estas pelos punhos, para que sejam “fecundadas” pelos seus maridos. Há uma ideia plenamente difundida, e justificada “biblicamente” de que as mulheres não têm direito a praticamente nada (não podem ter propriedades, empregos, dinheiro e nem podem sequer LER) e devem se dedicar exclusivamente à família (as “esposas”, mulheres dos aristocratas), aos afazeres domésticos (as “Marthas”, mulheres estéreis mantidas praticamente como escravas), e à procriação (as “Aias”). Inclusive as roupas que elas têm que usar identificam claramente sua posição na sociedade. Em um mundo onde quase todas são estéreis, as Aias possuem um aura de “abençoadas” por ainda serem capazes de engravidar e gerar uma vida.

A “cerimônia”. Imagem daqui.

A atmosfera criada pela fotografia da série ajuda no tom sombrio. Não há cores vivas, não há luz, não há alegria. É tudo sempre muito angustiante, e a trilha sonora colabora também.

Existe, claro, a questão da exploração das mulheres, que foi exaustivamente debatida desde o lançamento da série. É um tema central e extremamente relevante, mas justamente por ter sido muito discutido não pretendo escrever muito sob esse prisma. Não por não o achar relevante, mas justamente por ser o principal ponto de discussão, gostaria de levantar outros que me chamaram a atenção.

A premissa inicial da série é que um grupo fundamentalista cristão autodenominado “Os filhos de Jacó” inicia uma série de atentados nos Estados Unidos e provavelmente conseguem culpar alguma minoria (acho que muçulmanos, não ficou muito claro até agora) e por conta disso justificam a instauração de um estado de sítio com uma escalada gradual da retirada de direitos, em especial das mulheres, até que os EUA mudam até de nome, passam a ser chamados “Gilead” e se tornam uma ditadura teocrata. Ou seja, um governo ditatorial cujos poderes são justificados pela religião. No caso, a cristã. Perseguindo e matando quem não se encaixa ou não concorda com eles, seja por religião, orientação sexual ou comportamento. Isso gera situações que existem em alguns lugares do mundo, hoje, como exilados que formam grupos de refugiados em países vizinhos (no caso, o Canadá). Existem muitos países hoje, em 2020, que recebem refugiados fugindo de regimes ditatoriais, perseguição étnica ou religiosa. Mas já pensou o “tapa na cara” da civilização ocidental ao se dizer que isso poderia acontecer nos EUA? Em tempos de intolerância crescente em que vivemos atualmente, vêm novamente à cabeça a angústia do tipo da série “Black Mirror“: o futuro tão ruim como está sendo descrito está longe de ser real? Talvez não muito.

Como os países reagiriam a isso? Na série, há citações a campanhas ao redor do mundo, sanções econômicas, e dá a entender que ainda existe uma guerra civil em curso, devidamente abafada para se passar internamente uma sensação de paz e tranquilidade para a comunidade de Gilead. No mundo real, há vários países que sofrem sanções, por diferentes motivos. Mas a hipocrisia faz com que os interesses econômicos se sobreponham a quaisquer outros. Existem ditaduras que sofrem com sanções e isolamento, e outras tão “ruins” quanto, mas que não sofrem nada. Se o país em questão tiver um peso econômico grande e/ou um grande poderio militar, ele pode fazer virtualmente qualquer coisa que não sofrerá nada. Fato.

Enfim, é importante que se reflita a respeito do potencial desastroso de darmos poderes a pessoas e grupos que de alguma forma incentivem ou sejam minimamente permissivos com intolerância ou discursos de ódio, de qualquer tipo. Faz-se necessário, mais do que nunca, tomar cuidado com discursos moralistas que pregam maldisfarçadamente intolerância e incitam a violência. Impossível não se lembrar do episódio onde uma menina de 10 anos que era estuprada pelo tio desde os 5 anos, teve seu direito ao aborto garantido pela Justiça, teve que ir para outro estado para poder fazer o procedimento e no próprio hospital foi hostilizada e xingada por grupos evangélicos. Uma vítima de violência, buscando o apoio do Estado para ter seu direito garantido, e ainda sofre essa violência. Estamos doentes como sociedade, a partir do momento que algo assim torna-se corriqueiro ou minimamente aceitável. Onde está o “fazer o bem” pregado pela religião, nessa situação?

Precisamos nos preocupar com perda de direitos, mesmo que não nos afete, pois o pensamento deve ser coletivo, não individualista. Espero sinceramente que possamos fazer isso… Termino citando Bertold Bretch, e esperando que tempos melhores nos aguardem mais à frente…

Primeiro levaram os negros

Bertolt Brecht (1898-1956)

Primeiro levaram os negros

Mas não me importei com isso

Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários

Mas não me importei com isso

Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis

Mas não me importei com isso

Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados

Mas como tenho meu emprego

Também não me importei

Agora estão me levando

Mas já é tarde.

Como eu não me importei com ninguém

Ninguém se importa comigo.