Monte Roraima (parte 2)

25 10 2020
Monte Roraima, visto do acampamento próximo à sua base

Esse post é continuação do Monte Roraima (parte 1).

Ao terceiro dia de expedição, finalmente era a hora de subir a montanha. O paredão de centenas de metros, para o qual ficamos olhando de longe por dois dias, estava ali pertinho. O dia praticamente inteiro seria de subida (sem escalada) pela trilha na encosta da montanha. Uma coisa que nos chamava a atenção era a frequência com que a neblina cobria e descobria a montanha, e ao longo daquele dia (e dos próximos) sentiríamos aquilo bem de perto.

Como todos os dias, acordamos cedo, arrumamos as coisas, tomamos café da manhã e… começar a caminhar! Aliás, todas as refeições ficavam por conta dos carregadores, uma turma nota 1000, conforme pudemos constatar ao longo dos dias (mais detalhes à frente). Não tenho fotos dessa subida, porque foi o dia em que começamos a sentir na pele – literalmente – o clima da região. Choveu bastante, em praticamente toda a nossa subida. Vários momentos em que eu sentia a água escorrendo pelo pescoço, por dentro do anorak impermeável, descendo pelo corpo todo, molhando até as meias. É daqueles momentos em que você tem certeza de que gosta desse tipo de passeio, ou não. No meu caso, só me dava vontade de continuar caminhando e chegar ao topo. Vinha água do céu, escorria pela lateral da montanha, formando pequenas cascatas, vinha pela lateral quando ventava, enfim, de todos os lados.

Ao terminar a subida fomos premiados por um tempo melhor, com neblina mas sem chuva. A sensação de chegar lá em cima é indescritível. Logo na subida já vimos um helicóptero caído. Explico: qualquer resgate que tenha que ocorrer na região tem que ser feito de helicóptero. Alguns dias antes da nossa chegada um turista havia se acidentado no final da subida, e para seu resgate chamaram o helicóptero. Consta que o piloto oficial estava ausente no dia, e mandaram o reserva. A aproximação do topo é crítica por conta da neblina e ventos. Resultado, o helicóptero caiu e ficaram os dois (turista e piloto) aguardando o próximo. Ficamos sabendo que além daquele haviam mais dois abandonados lá em cima, um do exército brasileiro, e outro da Rede Globo, que caiu com o então apresentador do “Globo Ecologia”, Danton Melo, em 1998. Melhor mesmo é ir caminhando, e não precisar de resgate… Pelo sim, pelo não, eu particularmente havia contratado um seguro viagem que cobria o resgate de helicóptero, pelo qual sem o seguro seriam necessários uns R$ 2 mil, na época.

Primeira foto no alto do Monte Roraima
Turma “explorando” o helicóptero na chegada no monte

Uma vez lá em cima, seguimos caminhando até nosso ponto de acampamento. E a lógica é a seguinte: quem chega primeiro pega os melhores locais. Na medida em que acampamentos vão sendo desmontados e liberados, os guias comunicam-se entre si. Dessa forma, se seus guias são bem relacionados entre os pares, boas chances de conseguir um bom acampamento. Caso contrário… Felizmente, nossos guias eram bem relacionados e conseguimos (segundo nos disseram) um dos melhores pontos, na encosta de uma das formações rochosas lá em cima. Com mais de 30km2 de área, tem bastante lugar para acampar…

As primeiras formações já impressionam e aumentam a expectativa do que está por vir nos próximos dias
Um dos pontos de acampamento, não o nosso (note na “caverna” próxima ao topo)

O visual lá em cima por onde caminhamos é bem diferente da chamada “savana” por onde havíamos passado nos dias anteriores. Muita rocha vulcânica, escura, e vegetação rala. Conforme falei anteriormente, algumas plantas e animais são endêmicos, ou seja, só existem lá em cima e em nenhum outro lugar do mundo. Um famoso habitante que encontramos logo no primeiro dia foi o “sapinho do Roraima” (Oreophrynella quelchii), um sapo pequeno (veja foto) que não salta, e faz a alegria dos turistas para fotos.

Sapinho do Roraima
Oreophrynella quelchii é o nome científico dele
Vista a partir do nosso acampamento, no cair da tarde

Chegamos no local de acampamento no final da tarde (alguns guias já vão na frente para garantir e montar o acampamento), com a proteção parcial de formações rochosas, de frente para o Maverick (ponto mais alto do Roraima) e com a vista para várias pequenas lagoas onde seria o local do banho para aquela noite.

Barraca já montada, tudo certo para o descanso
Claro que tem que ter bagunça no acampamento com a turma
Nascer do Sol no nosso acampamento do topo

Uma vez acampados lá em cima, íamos passar 3 noites. Poderíamos manter o mesmo acampamento ou ir para outros lugares, dependendo do que preferiríamos explorar. Optamos por permanecer no mesmo local de acampamento por todas as noites. Uma coisa curiosa a respeito dessa viagem: para usar o banheiro, nos acampamentos são feitos buracos e depois tampados. No topo isso não é possível por ser tudo de rocha, então é necessário usar sacos (adaptados numa cadeira de plástico furada), juntar cal e fechar o saco, que vai ser levado embora pelos carregadores. Nada pode ser deixado lá em cima…

No primeiro dia explorando o topo, fomos para o chamado Vale dos Cristais, onde o chão é coberto por – adivinhe! – cristais, passamos no marco da Tríplice Fronteira (Brasil, Guiana e Venezuela), e terminamos o dia no chamado “El foso”, um lago com uma pequena cascata. Local de banho, que pode ser acessado pela forma rápida (pulando lá de cima) ou lenta (dando a volta e entrando por baixo. Eu optei pela forma lenta, não estava com pressa… E ao longo do caminho visuais incríveis com formas esculpidas pela natureza ao longo dos anos que nos fazem imaginar animais, figuras humanas ou quaisquer outras que a imaginação permitir.

Consegue ver um elefante?
Pense num trekker feliz…
Formações incríveis ao longo do caminho
Às vezes parece que estamos em outro planeta
No Vale dos Cristais
No marco da Tríplice Fronteira
Chegando em “El Foso”
Dava pra encarar um mergulho lá de cima, mas preferi
dar a volta para o banho lá embaixo
Entrada d’El Foso, por baixo

Nesse dia pegamos um pouco de chuva ao longo das caminhadas, mas nada que atrapalhasse muito. Voltamos ao acampamento cansados, mas com muita energia e expectativa pelo dia seguinte, mais um dia inteiro caminhando pelo topo do Roraima.

Achei que esse relato caberia em 2 posts, mas acabei me estendendo um pouco… termina na parte 3, até lá!





Monte Roraima (parte 1)

18 10 2020

Essa foi uma das trilhas mais fantásticas que fiz até hoje. 8 dias de caminhada, cerca de 11 km por dia em média, na tríplice fronteira Brasil-Venezuela-Guiana, com algumas das paisagens mais diferentes e deslumbrantes que já vi pessoalmente. Fui no Carnaval de 2011, e gostaria muito de voltar lá no futuro. O lugar é um dos poucos no planeta em que quase não há intervenção humana, tudo em um meio natural de beleza exuberante e impressionante. A geografia do local permitiu existir ali um certo isolamento do resto do mundo, o que proporcionou que algumas espécies da fauna e flora sejam endêmicas, ou seja, só existem lá e em nenhum outro lugar do mundo. É indescritível a sensação de ver o imenso paredão se aproximando, e no dia seguinte estar andando sobre uma das montanhas mais antigas da Terra. Essa montanha inclusive inspirou Sir Arthur Conan Doyle (o criador de Sherlock Holmes) a escrever seu romance O Mundo Perdido, onde uma expedição alcança um platô no meio da selva onde ainda existem dinossauros e espécies pré-históricas. Felizmente, essa parte é ficção, ou então eles se escondem muito bem…

No alto do Roraima, com seu “irmão” Kukenán ao fundo

O Monte Roraima é um platô (uma elevação, tipo um planalto no alto de um “paredão” de rocha) de mais de 30km2 de área, cerca de 1000 metros de altura e 2800 de altitude, uma área imensa para explorar. O ponto de “subida” é pelo lado venezuelano, e é possível acampar lá em cima por vários dias, em locais diferentes, de acordo com o que se programar para visitar.

A primeira coisa para uma expedição desse formato é o planejamento. Fui com uma amiga, Fabiana, e fizemos contato diretamente com um operador local, a Roraima Mystic Tours. O serviço foi excelente, embora mais recentemente vi alguns relatos de problemas com essa operadora. As operadoras brasileiras são no geral mais caras, precisam contar com algum suporte local, e no final das contas, acho que as empresas locais sempre merecem o nosso apoio, em qualquer lugar. Claro que é uma decisão pessoal, há questões de confiança, de comodidade envolvidas, etc. Por conta de problemas na economia da Venezuela, não era possível na época fazermos transferência para a reserva, a reserva foi feita “na confiança” por parte do operador local. Outra coisa importante de se decidir é que época ir. Pelo clima do local, lá chove. Sempre. Não tem muito como escapar disso. Consta, conforme nos disseram à época, que fevereiro é das épocas com menos chuva, por isso acho que o Carnaval é uma boa escolha.

Escolhemos fazer o pacote de 8 dias, sendo 2 dias de caminhada até a base do monte, subida do monte no terceiro dia, 3 noites acampando lá em cima, mais dois dias de caminhada de volta. Das coisas que vimos e que deixamos de ver, acho que 3 noites/4 dias lá em cima seria o mínimo para valer o esforço. De novo, é uma opinião pessoal.

A logística para se chegar até lá também demanda preparação, e pode ser considerado o início da aventura… Pegamos um avião em São Paulo, conexão em Manaus e descemos em Boa Vista. Pelos poucos horários de voo, chegamos em Boa Vista no início da madrugada, fomos direto para o hotel (Uiramutam Palace), para sairmos pela manhã. Na manhã seguinte fomos até a rodoviária da cidade e pegamos um táxi para nos levar até a fronteira, que fica na cidade de Pacaraima. Os taxistas de Boa Vista não tinham autorização para ir para a Venezuela, então fizemos esse trecho de pouco mais de 200km nesse táxi. Fui surpreendido positivamente pelo estado da rodovia, meus conceitos pré-estabelecidos esperavam uma estrada de terra, ou esburacada, mas é na verdade uma pista simples, mas (na época, 2011) bem cuidada, então a viagem correu sem percalços. Chegando em Pacaraima, fiz pela primeira vez na vida um cruzamento de fronteira à pé. Primeiro passamos na Polícia Federal, carimbamos os passaportes, aí caminhamos até o outro lado da fronteira, para o posto venezuelano.

Mochileiro na fronteira

Do lado venezuelano, novo carimbo no passaporte, e ficamos esperando por algum carro para nos levar até Santa Elena de Uiarén, a primeira cidade do lado de lá. Lá chegando fomos direto à agência Mystic Tours para fazer o acerto. Fomos orientados pela agência a trocar o dinheiro numa determinada rua (não nas casas de câmbio, pois as taxas eram irreais), mas para tomar cuidado, nos deram direitinho a taxa que deveríamos negociar. O dinheiro (bolivares) já estava extremamente desvalorizado, e acho que deve ter piorado bastante. O nosso pacote completo (guias, carregadores, todas as refeições, barracas, etc) saiu na época por menos de R$ 800.

No início da noite tivemos o briefing na agência para explicar como seria a expedição. Tínhamos a opção de contratar um carregador extra para nossa própria mochila (além dos carregadores que iam levar todo o equipamento e comida para todo o grupo), mas decidimos encarar sem (eu com 17 kg e Fabiana com 12 kg de mochila). Conhecemos também o resto do grupo, todos brasileiros: Tania com seu filho Khalil, Emerson amigo deles, todos de São Paulo, e Marcela e Thiago, de Boa Vista. Como sempre acontece em viagens desse tipo, um pessoal super alto astral, super gente boa, demos realmente muita sorte com o grupo. Dormimos no Hotel Michelle, indicado pela agência. Bem simples, mas com água quente, serviu bem.

Dia seguinte, turma cheia de energia, fomos levados de carro até o local de início da trilha, em Paraitepuy. O primeiro dia são 16km de caminhada quase tudo plano, e fizemos acampamento no Rio Kukenan, já com uma vista para o Monte Roraima, ainda longe. Esse ponto é o último lugar onde é possível comprar cerveja (quente!), em um pequeno quiosque mantido pelos índios, o último sinal de civilização… rs Tive que tomar uma lata ao menos. Ao montar acampamento, tempo para o banho, no rio.

Local de acampamento no Rio Kukenán
No acampamento, já com vista para o Roraima e o Kukenán

No dia seguinte, atravessamos o rio (água pelas canelas) e seguimos por mais 7km até a base da montanha. Já é um dia com bastante subida, uma bela variação de altitude, e vendo a aproximação do nosso alvo, o imenso paredão ficando cada vez maior. Tivemos sorte de não pegarmos chuva, apenas uma garoa refrescante nesses primeiros dois dias de caminhada. Bastante calor, bastante cansaço, mas com uma energia indescritível para nos prepararmos para o próximo dia, finalmente a subida ao topo.

Acampamento no pé do Roraima (à direita), e a vista para o Kukenán (ao fundo)
Vista do Monte Roraima a partir do acampamento
As nuvens ficam permanentemente cobrindo e descobrindo a montanha

Segunda noite de acampamento, mais um dia com banho de rio antes de dormir, da água que corre lá de cima do paredão. A sensação de superação e de contato total com a Natureza são coisas que me movem a fazer viagens como essa. Às vezes as pessoas veem as fotos, ouvem meus relatos e não entendem o que me move. Não sei se há explicação, mas realmente é uma parte da vida sem a qual eu não conseguiria passar, eu acho.

Gostou do relato até aqui? A parte da subida ao topo e os 3 dias de exploração lá em cima ficam para o próximo post, aguarde!

Continua no post Monte Roraima (parte 2).





São Petersburgo (parte 2)

20 09 2020

Segue o post sobre minha visita a São Petersburgo, na Rússia, em junho de 2013… A primeira parte está aqui.

O Hermitage

Um dia tem que ser separado para visitar o Hermitage, um dos museus mais famosos do mundo, consta que tem a maior coleção de pinturas do mundo, e em acervo total só perde para o Louvre, em Paris. O edifício em si é uma peça de arte à parte. Foi construído no século XVIII pela Czarina Catarina, foi usado como Palácio de Inverno dos Czares até a Revolução Russa em 1917. Fotos são restritas (ao menos eram em 2013 quando estive lá), vale a pena dar uma olhada no vídeo oficial abaixo, 4 minutos somente. Visitar um palácio é sempre garantia de uma arquitetura deslumbrante, salas com mobílias da época imperial, uma bela viagem pela História da Rússia, que eu conhecia muito pouco.

Passeio de barco

Como estava no verão, havia passeios de barco pelo rio Neva que corta a cidade. É um passeio diferente, e há muita gente na rua durante a madrugada toda, já que a noite não chega a ficar totalmente escura. O ponto alto do passeio é a abertura da ponte levadiça, toda iluminada. Passeio 100% pra turista, mas eu curti, provavelmente um dos passeios que eu consideraria imperdível estando lá. Mas, esse passeio só ocorre no verão, por motivos óbvios. Provavelmente seriam viagens completamente diferentes se fossem feitas no verão (cheguei a pegar 37 graus durante o dia) ou no inverno (temperaturas negativas, e escuridão 18 horas por dia).

Ponte levadiça no passeio de barco na white night
Foto tirada no passeio noturno de barco
Palácio Peterhof

O Palácio de Verão do Czar Pedro, o Grande, assim como todo o centro histórico de São Petersburgo, faz parte do Patrimônio Mundial da UNESCO. Foi um palácio construído inspirado no palácio de Versailles, morada da família real francesa, na época a referência máxima de requinte, sofisticação e modernidade. A cidade fica a 30 km de São Petersburgo, e fui convidado para uma excursão para lá com uma turma que estava aprendendo russo com uma ucraniana, que se ofereceu como guia. Quem me convidou foi um dos alunos, Roberto, um italiano simpático que estava no mesmo AirBnB que eu. Na turma ainda haviam mais duas holandesas, pelo que me lembro.

O passeio foi muito agradável, o dia estava quente e ensolarado e nos permitiu aproveitar bastante. O único dissabor foi um quase furto que sofri, quando estava no meio de uma aglomeração assistindo a uma apresentação de música tradicional, e senti uma mão tentando entrar no bolso da minha bermuda. Dei um pulo assustado, o rapaz que estava tentando me roubar disfarçou e saiu andando, mesmo comigo gritando em inglês com ele. Finalmente não aconteceu nada, mas fica a lição para ficar atento a esse tipo de coisa, seja qual for o país onde você se encontra.

O Palácio em si e os jardins são lindos, é um passeio que vale muito a pena.

Peterhof
Jardins de Peterhof
Jardins de Peterhof

Museu Militar

Para quem gosta de História, como eu, o Museu Militar de São Petersburgo é uma parada obrigatória. Armas e armaduras medievais, tanques, mísseis, e até o carro militar com o qual Lênin desfilou ao vencer a Revolução Russa no início do século passado.

Besta medieval
Armaduras medievais
Carro usado por Lenin na revolução

Por último, como costumo fazer nas minhas viagens, procuro por restaurantes e lugares em que não haja muitos turistas. Às vezes consigo, às vezes não. Por indicação da minha anfitriã, fui a um lugar chamado Cat Café, de comida georgiana. Sem menu ou atendimento em inglês. Experiência divertida, comida muito boa, valeu a pena. Já em Moscou (fica para outro post) acabei comendo coisas sem saber até hoje do que se tratavam… Meu russo ainda é muito ruim, mas depois de uma semana vendo as placas no alfabeto cirílico, ao menos pronunciar alguma coisa eu já sabia… marcas famosas sendo escritas em russo também ajudam, como pode ser visto nas fotos abaixo. Reconhece?

Pronúncia ocidental, alfabeto cirílico

Espero que tenha gostado do relato, foi uma das viagens mais marcantes que já fiz, e valeu a pena ter esperado tanto para conseguir fazê-la.

Abraço e até uma próxima!





Na natureza selvagem (filme/livro)

7 09 2020

Essa semana me peguei pensando nesse filme, não sei bem o porquê. É um filme de 2007, sobre a estória (real) de um rapaz (Christopher) que no início da década de 90, após se formar, resolve desconectar-se do mundo e da sociedade por completo, e inicia uma jornada para o Alaska, sozinho, após desfazer-se de tudo: dinheiro, identidade, carro, qualquer coisa que pudesse vinculá-lo à sua antiga vida, uma vida em sociedade.

Eu assisti a esse filme algumas vezes, gostei muito, uma fotografia bem feita, uma trilha sonora que é um espetáculo à parte, feita sob encomenda pelo Eddie Vedder, do Pearl Jam (sou suspeito, sou muito fã dele). As letras de duas das músicas em especial passam por muitas situações do filme:

“Sociedade, tenha piedade de mim
Espero que não fique brava se eu discordar
Sociedade, realmente louca
Espero que não esteja solitária sem mim”
– em Society

“De joelhos dobrados não há como ser livre
Levantando um copo vazio, eu pergunto silenciosamente
Se todos meus destinos aceitarão aquele que eu sou
Para que eu possa respirar”
– em Guaranteed

E o filme fala disso, de discordar e não estar conseguindo respirar, viver, na sociedade moderna. Quem tenta “escapar” das regras, é louco. Será mesmo? Ou loucos mesmo seriam aqueles que não questionam? Que permanecem na lógica de estar sempre correndo atrás de tudo, sofrendo a pressão de ter mais, de ser mais, muitas vezes sem se perguntar o porquê… Desde sempre, estamos sendo confrontados com objetivos, metas, expectativas que outros colocam sobre nós. Se não tivéssemos nada disso, será que faríamos as mesmas escolhas?

No caso da estória que inspirou o filme, não consta que o rapaz fosse violento, revoltado… ele estava bastante descontente com as relações familiares, com as coisas que esperavam dele (trabalhar para conseguir dinheiro, dirigir um carro melhor, etc), e simplesmente queria estar à parte daquilo tudo, e assim o fez. Encontrou e encantou pessoas ao longo da sua jornada, fez uma “base” num ônibus abandonado no meio do nada, que ele batizou de “Magic Bus” (Ônibus Mágico), e que posteriormente virou ponto de peregrinação de mochileiros, ocasionando inúmeros acidentes, até ser removido de lá pelo governo local. Ele buscou o seu caminho, e acabou encontrando algumas experiências que não viveria de outra forma, além de ter encontrado também a morte prematura (perdão pelo spoiler, mas é fato conhecido…). Valeu a pena? Só ele poderia responder…

Acho a estória inspiradora, mas não no sentido de seguir os passos dele, mas sim no sentido de dar vazão a esse tipo de inquietação e questionamento, por quanto tempo devemos estar sempre nos dedicando a ter as coisas, a conquistar coisas, sem olhar para nossas próprias necessidades. A sociedade nos pressiona a conquistar, ter resultados, independente de nossas próprias aspirações mais profundas. Expectativas são criadas no nosso nascimento, projeções são feitas em cima de cada um de nós, por vezes enviesadas por frustrações de nossos pais, que podem enxergar na geração seguinte a chance de alcançar o que não lhes foi possível.

Negar tudo isso é difícil, olhar para si e se permitir fazer coisas que fogem das expectativas a seu próprio respeito, não é um exercício fácil. Acho que o caminho do equilíbrio é sempre o melhor, embora nem sempre consigamos enxergá-lo. Cada um é responsável pelo seu próprio caminho (ou deveria ser), pelas suas escolhas, seus erros e acertos. E temos que conviver com eles ao longo da vida, faz parte. Às vezes é difícil enxergar as implicações, mas elas estarão lá. O melhor acontece quando conseguimos levar as coisas com leveza, com a importante serenidade de aceitar o que não pode ser mudado, o que passou, o que já foi. Não se deveria perder tempo com arrependimentos ou descaminhos já escolhidos, eles ficaram pra trás, e ali permanecerão… Talvez em tom de arrependimento, uma das conclusões finais no diário de Christopher – que foi usado para escrever o livro e o filme – diz algo sobre a felicidade, que ele acaba descobrindo no meio da sua aventura solitária:

“A felicidade só é real quando é compartilhada.”

Christopher McCandless

De alguma forma, a busca dele estaria sempre incompleta se ele não pudesse compartilhar, de dividir o sentimento, a completude, a felicidade que ele buscava, e cuja busca não terminou…

Se quiser ouvir a trilha sonora completa: tem no Spotify e também no YouTube, e se quiser se aventurar no livro, tem aqui.

O ônibus mágico…




Sobre o tempo…

26 07 2020

“Batidas na porta da frente… É o tempo…
Eu bebo um pouquinho pra ter argumento… Mas fico sem jeito calado, ele ri… Ele zomba do quanto eu chorei… Porque sabe passar, e eu não sei…”

Aldir Blanc, em “Resposta ao tempo”

Eu tenho mania de guardar coisas… algumas úteis, outras nem tanto, outras ainda com potencial de serem úteis em hipotéticas e improváveis situações futuras… Limpando e arrumando algumas coisas nesses dias encontrei algo curioso: o meu primeiro cartão de visitas! Era o ano de 1995, tinha meu diploma de Técnico em Eletrônica pela ETESP no final do ano anterior e decidi sair do emprego de técnico de laboratório na Proceda, após 7 meses de contrato, e resolvi virar freelancer como técnico de campo para equipamentos de informática, fiz o cartão na boa e velha HP DeskJet da mãe. Bons tempos aqueles, ainda morando com a mãe, 18 anos e muita energia para trabalhar, e arriscar…

Na época, era telefone de casa(da mãe!) e PAGER da Mobi

Quando vi o cartão comecei a lembrar da época: comprei um pager (hoje peça de museu, certamente!), prestava serviços para algumas empresas, cheguei a colocar anúncio no jornal (classificados de domingo!), aprendi naquele período como lidar com clientes, cometi os primeiros erros, e enquanto isso estudava à noite no Anglo para prestar o vestibular de Engenharia de Computação na Unicamp. Fui entrevistado pela Folha para o caderno de vestibulares Fovest, numa matéria que dizia “Vestibulandos surfam na rede”(achei essa matéria guardada também, veja abaixo!), já que a Internet era uma novidade, e o Google nem existia… Prestei dois anos seguidos até conseguir a tão sonhada vaga. Em 1996 parei com essa estória de freela e fui trabalhar como técnico na Megaprom Informática, mais uma vez visitando clientes, trabalhando com suporte e manutenção… tempo bom, que não volta mais…

Usar Internet era motivo de matéria no jornal, em 1996. Estou atrás do rapaz de boné.

Graças ao esforço da minha família, que apesar das dificuldades conseguia me ajudar financeiramente, consegui parar de trabalhar e me dedicar integralmente à faculdade de Engenharia de Computação da Unicamp, a partir de 1997. Saindo da casa da mãe, mudando de cidade… Era um dos pouquíssimos da turma que já havia tido alguma experiência profissional. A maioria ali estava com 17 anos, e havia saído imediatamente do segundo grau para lá. Foi, à época, meio estranho para mim, mas por pura falta de informação mesmo… eu era uma exceção, mas antes de entrar achei que não seria.

De lá pra cá, 23 anos se passaram… formatura após 5 anos, fui trabalhar com desenvolvimento na Motorola em Jaguariúna, casei em 2002, e me separei em 2009. Mudei para São Carlos, onde trabalhei também com desenvolvimento na Opto Eletrônica, por quase dois anos. Depois disso, final de 2011, recebi uma proposta na Avnet e voltei para São Paulo, para atuar como Engenheiro de Aplicações de Campo. Depois de 15 anos, voltava finalmente a uma função onde era necessário lidar diretamente com clientes. E só aí me lembrei como gostava disso, e como sabia fazer um bom trabalho. De volta às origens, de certa forma… Em 2015 tive uma proposta para trabalhar em Belo Horizonte, na Unitec. Arrumei as coisas, casei pela segunda vez e lá fomos nós para BH. Ficamos por 3 anos, e desde outubro de 2018 estou de volta a São Paulo, trabalhando na Vermont.

Acho que esse momento de quarentena me fez pensar em tanta coisa pelo que passei nesses anos todos, desde aquele primeiro cartão… Fui construindo uma carreira com a qual fico muito satisfeito. E no lado pessoal, conheci pessoas fantásticas, perdi pessoas, algumas afastadas pela vida, outras pelos acontecimentos, outras sem motivo nenhum… altos, baixos, realizações, frustrações, sofrimentos sentidos e infligidos a outros… Acho que com mais vitórias do que derrotas, mais alegrias do que tristezas, e – faz parte – um tanto de arrependimentos… Uma vez um colega me perguntou sobre uma determinada situação da vida dele que implicava em uma decisão importante a ser tomada… eu disse a ele: qualquer que seja a sua escolha, em algum momento do caminho (talvez mais de uma vez ao longo dele) você irá olhar pra trás e ter a certeza de que a outra escolha teria sido melhor… simplesmente porque a realidade competir com a utopia do que não se realizou não é justo… não tem como ser…

E que venham mais uns 23, 25 anos para que eu possa encontrar coisas antigas, datadas do longínquo ano da pandemia de 2020…

“E o tempo se rói com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
Pra tentar reviver…

No fundo é uma eterna criança
Que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder
Me esquecer…

Adir Blanc, em “Resposta ao Tempo”