
Hoje, 05 de julho, eu completo 110 dias em “modo quarentena”, trancado em casa com a esposa, saindo somente para compras no sacolão do bairro, duas ou três vezes na semana, no máximo, o resto das coisas, tudo online… hoje, depois de 45 dias, acabei me permitindo dar a pedalada de domingo de manhã… Cá estamos, vivendo uma situação que nossa geração jamais imaginou viver… gerações anteriores conviveram, em menor e maior grau, ao passar dos anos, com a possibilidade de uma guerra nuclear potencialmente apocalíptica… os filmes blockbusters refletiam esse medo, na minha infância… na medida que essa possibilidade ficava mais remota, os temas tiveram que se renovar: catástrofes naturais, invasão alienígena, colisão de asteróides, e por aí vai… mais recentemente algumas visões apocalípticas com algum supervírus assassino também começaram a ser mais comuns…
Mas o fato é que a grande maioria das pessoas não imaginava ter que passar pela situação que estamos passando. Muito já se disse sobre isso, do ponto de vista do impacto que teria nas nossas vidas, nosso modo de ver e fazer as coisas, do impacto psicológico (outro dia li uma psicóloga de uma universidade europeia, especialista em traumas, dizendo que esse nosso confinamento é “o maior experimento psicológico da história”. Não tenho conhecimento para avaliar, mas tenho observado muitas das reações ao longo das semanas, nos contatos virtuais com as pessoas (porque contato físico é somente com minha esposa), e têm variado bastante… bom humor, momentos de pânico, desespero… o excesso de informações que o acesso à Internet trouxe não colabora muito para o equilíbrio…
Mas o que eu acho é que de uma maneira geral situações extremas trazem à tona o que existe de pior e melhor nas pessoas, em graus diferentes. Pessoas que têm dificuldade em ter empatia com o próximo, com o diferente, não agem de maneira diferente durante esse período. E é justamente nesse momento pelo que passamos que mais precisamos da empatia, do respeito e entendimento em relação ao próximo. Cada um tem um modo de encarar, uma visão de mundo, cada um tem uma trajetória e uma bagagem única, capacidades e limitações também únicas. Eu tenho o privilégio de conseguir manter uma rotina minimamente equilibrada, não temos filhos, meu trabalho consegue ser feito remotamente com pouquíssimo impacto, eu e minha esposa conseguimos conviver bem, sem grandes problemas… mas há uma infinidade de pessoas que não podem, que têm outras dores, outras demandas e que não podem ser deixadas de lado. Do lado profissional, muitos estão tendo que se readequar, reinventar… as ditas entregas, a forma como você lida com seus prazos, isso tudo teve que mudar. Escrevi um artigo sobre isso no LinkedIn, em especial sobre como os gestores conseguem lidar com essa situação.
A empatia deveria acontecer tanto do lado pessoal quanto profissional. Temos que tomar cuidado para tentarmos sempre nos colocar no lugar do outro, hoje mais do que nunca… e não é excesso de “politicamente correto”, não. É simplesmente ser humano, no sentido mais amplo e simples da palavra… Alguns estão tendo maior capacidade de adaptação do que outros, uns mais facilidades que outros… há aqueles que se aproveitam da situação (no sentido negativo) para relaxarem, trabalharem menos… ninguém pediu essa situação, mas também ninguém sabe como e quando sair dessa situação. As pessoas dizem umas às outras, “Vai passar”, “Sairemos dessa melhores”… Mas na verdade ninguém sabe, ninguém pode afirmar com certeza nada disso…
A falta de empatia, de preocupação com o que é diferente, de entender o diferente, sempre me incomodou… mas nos tempos atuais, tem me irritado muito. Espero que realmente possamos sair de alguma forma melhores de tudo isso, embora eu não esteja lá muito otimista em relação a isso…

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