Sissi, a imperatriz solitária

7 08 2022

Terminei há alguns dias a leitura desse livro. É interessante ler algo que nos leva para algo completamente distante, alheio do nosso dia-a-dia e da nossa realidade. No caso, para a realidade histórica da Europa do século XIX, o último século das grandes monarquias e impérios. Conhecia muito pouco sobre a vida dela, menos ainda do que sabia sobre o Império Austro-Húngaro. A autora, Allison Pataki, escritora de romances históricos, tem um cuidado enorme em mesclar pitadas de ficção sem fugir dos registros históricos, e inclusive ao final do livro ela cita todos os registros históricos das situações em que foi fiel à realidade. Como boa parte do livro é narrado pela própria imperatriz, obviamente não haveriam registros de seus pensamentos, é a parte onde a licença poética pode atuar. E na minha opinião, atua muito bem, nos aproximando com muita empatia dessa personagem histórica.

Sissi, a imperatriz Elisabeth, era um símbolo máximo da beleza, do luxo e do poder da realeza. Mas na sua intimidade passou boa parte da vida sozinha, refém da sua posição e das obrigações que vinham dela. Casou-se cedo, aos 16 com o já imperador Franz Joseph, de 23, da família dos Hasburgos, a então mais poderosa e tradicional das famílias reais europeias. O imperador estava prometido para a irmã mais velha de Sissi, mas ficou realmente apaixonado pela bela irmã mais nova quando as conheceu, e acabou casando-se com ela. Após tornar-se imperatriz, numa posição de alto poder e influência, sofre muito com a rigidez imposta principalmente pela sua sogra, mãe do imperador. Teve quatro filhos, três meninas e um menino: Teve duas filhas meninas (uma morreu criança ainda) antes de ter o tão desejado príncipe herdeiro, todos os três criados praticamente à sua revelia pela sogra, que a considerava imatura para ser mãe. Somente com sua caçula, que nasceu após o menino, conseguiu conviver e participar de sua criação. Foi se afastando do marido, procurando sempre viajar para lugares diferentes, onde pudesse minimamente sair dos protocolos da corte e eventualmente interagir com plebeus, viver mais livremente e mais feliz. Era muito criticada pela sociedade e pela imprensa por ser tão “independente” e distante de seu marido, mesmo estando com ele quando as obrigações importantes lhe exigiam. Ela teve participação importante na pacificação com os húngaros, em um momento em que a Europa inteira era uma panela de pressão por conta de guerras, intrigas e revoluções que pululavam para desespero dos monarcas de então. Ao longo da vida ela e o imperador acabaram se tornando muito mais parceiros protocolares com respeito mútuo do que marido e mulher. Perderam o filho herdeiro, já adulto, de forma trágica, tragédia essa que além de ter marcado a família, acabou criando situações sucessórias que algumas décadas depois desencadearam no estopim para a I Guerra mundial, com o assassinato do então herdeiro Franz Ferdinand em Sarajevo, que só era herdeiro por conta da morte do primo, filho de Franz Joseph e Sissi.

O que me chama muita atenção na história é a forma como ela conseguiu, naquele momento histórico onde as mulheres eram relegadas a posições sem importância, de certa forma sair do lugar comum de esposa submissa aos caprichos e desejos do marido, e até em certo grau um nível de independência dentro do possível. Sofreu bastante por isso, foi muito criticada e agredida pelas posições que tomava. Mesmo assim, era um modelo de referência de beleza e comportamento que acabava ditando modas em toda a Europa do século XIX. Dentro do contexto histórico e mesmo pessoal – ela se casou ainda adolescente -, pode-se dizer que ali foi forjada uma mulher à frente do seu tempo.

O livro está disponível nesse link da Amazon, em versão impressa ou Kindle. Para quem gosta de História, e gosta de uma boa narrativa, recomendo.





Que horas ela volta? (Filme – 2015)

31 07 2022

Esse é um daqueles filmes que julgo extremamente necessários, em especial pela mensagem que traz, não sem citar as brilhantes atuações do elenco. Bastante premiado no Brasil e fora dele (Sundance e Berlim), mostra um tema que os brasileiros em geral gostam de ignorar ou minimizar: diferença social e luta de classes. Com nossa sociedade construída numa base escravocrata, ainda hoje permeia – de forma às vezes mais velada, às vezes menos – o conceito de que há classes mais favorecidas que merecem ser servidas pelas classes menos favorecidas. E qualquer tentativa de movimento no sentido contrário, de que alguém tente ocupar um espaço que em princípio não seria o seu, é visto como um ultraje, uma afronta, uma tentativa pueril de se imaginar num mundo utópico onde todos podem ter as mesmas oportunidades e ocupar os mesmos espaços.

A estória começa mostrando a vida da Val, uma empregada doméstica nordestina que mora na casa dos patrões em São Paulo, é considerada “parte da família”, inclusive criando um laço afetivo quase maternal com o filho do casal, Fabinho. Laço esse bem maior do que ele aparenta ter com a própria mãe, por exemplo. Tudo na mais perfeita ordem, todos felizes, em seus respectivos lugares e papéis que lhe são designados. Até que aparece a filha da Val, Jéssica, que foi criada por uma parente lá no Nordeste, para prestar vestibular em São Paulo. E a diferença entre a filha e a mãe começam a aparecer logo que a menina chega. Val havia pedido permissão para a patroa, Dona Bárbara, para que a menina ficasse com ela, no quartinho de empregada, por um período curto de tempo, até o vestibular. “Claro, você é família, imagina!”. Só que a noção de “fazer parte da família” da mãe e da filha mostram-se muito diferentes. A menina pede pra ficar no quarto de hóspedes, que está vazio, cria um constrangimento que incomoda muito mais a própria mãe do que a patroa, que também fica incomodada mas acaba cedendo, na verdade muito mais pela intervenção do marido (que se mostra encantado com a moça, aliás). A menina também fica bem à vontade para circular na casa, comer as coisas que estão na geladeira (“Menina, esse sorvete não, esse é de Fabinho!” a mãe a repreende mais de uma vez). O maior desconforto acontece pelo fato de Fabinho e Jéssica serem aproximadamente da mesma faixa etária, e estarem ambos prestando o vestibular.

Ao longo do desenrolar da estória, aparecem as opiniões conflitantes e incompatíveis de Jéssica e Val, pelas oportunidades e principalmente espaços que a filha acredita poder ocupar, e que não fazem sentido para o universo da mãe, para seu modo de entender a vida e o mundo. O ápice, pode-se dizer, é quando a menina é aprovada no vestibular, e Fabinho não. Aparecem então o desconforto (velado) da mãe do menino com a situação, e os sentimentos contraditórios da Val, feliz pela filha que mal conhece e triste pelo filho da patroa, que trata como seu próprio filho. O filme é tocante, sensível e como eu disse no início, acredito ser necessário por trazer esse tipo de reflexão entre diferenças de classe, o que entendemos como sociedade, e – principalmente – o que esperamos que possa ser melhorado enquanto sociedade.

A questão da mobilidade social ser extremamente difícil é um problema que no Brasil é maior do que na maioria dos países. Um estudo da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) de 2018 mostra que no nosso país em média são necessárias 9 gerações para que descendentes de uma família de baixa renda alcançar a renda média da população. Exemplificando, em valores de hoje, uma pessoa é considerada de baixa renda se a renda por pessoa da família é menor do que R$ 600 aproximadamente. E a família de renda média seria aquela com rendimento por pessoa de aproximadamente R$1400. O que a pesquisa afirma é que se alguém nasce em uma família de baixa renda, somente os netos dos netos dos netos dessas pessoas da família de baixa renda (9 gerações, portanto) alcançariam o patamar daqueles que nasceram em uma família de renda média. Isso é uma média, obviamente que existem exceções, mas essa é a regra. Parece assustador, não? Na Dinamarca, essa mesma média é de duas gerações, e nos Estados Unidos, “terra das oportunidades”, quatro gerações, ainda segundo a mesma pesquisa. Algo está errado, pelo menos eu acho…

O filme está atualmente (jul/22) disponível no Globoplay e na Netflix, além de poder ser alugado ou comprado em plataformas como Google Play Movies e Apple iTunes. Recomendo!





Hibernação

24 07 2022

Hibernação. Segundo o dicionário, “Estado de inatividade com diminuição do metabolismo de certos animais durante o inverno, período em que suas reservas de alimentação são utilizadas.”. Período em que alguns animais praticamente “desligam” a maior parte das atividades corporais para poderem sobreviver durante um período de privação de alimentos, notadamente o inverno. E quando se fala de hibernar, normalmente o que nos vem à mente são os ursos…

Urso polar hibernando. Foto: Coffeemill / Shutterstock.com

Esse pode ser considerado o estado desse blog. Voltando para dar notícias após 273 dias, praticamente 9 meses inteiros em estado de dormência, como que economizando energia, juntando forças para um eventual retorno após o “inverno”. Tudo bem que nesse caso o tal inverno começou na primavera e atravessou um verão e um outono inteiros, mas acredito que consegui passar a ideia da metáfora. Ao menos espero ter conseguido.

Nesses últimos tempos, na verdade desde meu aniversário de 45 anos em novembro passado, acabei por deixar um pouco de lado esse espaço em detrimento de outras prioridades, como o trabalho, família, estudar e ler sobre coisas diferentes, terminar uma pós graduação e começar a pensar em seguir uma segunda carreira paralela, ideia que brotou no ano passado e sobre a qual ainda pretendo falar em breve, depois de amadurecer um pouco mais as coisas.

Mas o fato é que esse espaço nunca foi encarado por mim como obrigação, era muito mais um espaço de prazer que pretendo retomar, provavelmente com a frequência semanal que consegui manter no primeiro ano dele, vamos ver como as coisas irão evoluir daqui em diante.

Espero poder continuar com esse espaço e com a presença de vocês, que ainda se dão ao trabalho de vir aqui para saber no que ando pensando… agradeço por ter lido até aqui, aguardem os próximos posts…





Fome de poder (Filme)

24 10 2021
imagem daqui

Esse é um filme bem interessante, que conta a “verdadeira história do McDonald’s”: dois irmãos (os irmãos McDonald) que tinham uma pequena lanchonete e inventaram o conceito de fast food, trazendo os conceitos da produção em série adotados na indústria, e que em se tratando de restaurantes, era algo inédito na época.

Acontece que os irmãos não estavam muito interessados em expandir a rede, e um vendedor de equipamentos (Ray Kroc) para restaurantes se encantou com o sistema, e ficou bastante interessado em entrar como sócio e expandir a rede. Num primeiro momento os irmãos não queriam, mas acabaram cedendo pela insistência dele. Eles acabam montando com ele um contrato extremamente cauteloso, onde Kroc não poderia tomar praticamente nenhuma decisão sem o aval dos irmãos. Or irmãos queriam manter o controle sobre os processos, a qualidade, e estavam preocupados com o crescimento que poderia descaracterizar o estabelecimento e seus produtos. Kroc aceita e começa a expandir a rede. Com o passar do tempo, ele tem muitas ideias para otimizar o negócio, aumentar as margens e acelerar a expansão, mas todas elas são bloqueadas pelos irmãos. Ao longo do tempo ele acaba percebendo que poderia ganhar mais dinheiro com os aluguéis dos terrenos onde as unidades do McDonald’s funcionavam do que com a venda de lanches. Ele foi fazendo mais e mais dinheiro com essa abordagem, até o momento em que se sentiu com poder suficiente para “peitar” os irmãos e passou a implementar decisões sem consultá-los. Ao ficarem sabendo, os irmãos o ameaçam de processo por desrespeitar cláusulas do contrato, ao que ele responde dizendo que ele era muito maior do que eles agora, e que eles jamais ganhariam um processo assim. Xeque-mate.

Ao perceber o que havia acontecido, os irmãos acabam aceitando um acordo onde eles recebem 2.7 milhões de dólares (um valor extremamente baixo para o tamanho e potencial do negócio) e 0.5% de participação nos lucros. Só que essa participação foi feita num acordo verbal, e os irmãos jamais receberam essa porcentagem ou qualquer participação nos lucros da rede.

Uma coisa que me chamou a atenção foram os comentários bastante diferentes a respeito do filme. Como é um filme que conta uma história real, acaba cometendo exageros e omissões, e por vezes enviesado sob um determinado ponto de vista. Vi comentários exaltando a capacidade de visão empreendedora do Ray Kroc, outros comentários falando da falta de caráter e ética dele e da ingenuidade dos irmãos McDonald. Há ainda os que veem na história um exemplo do pior que o capitalismo “selvagem” faz com as pessoas. Na minha opinião, considerando o que foi mostrado no filme e uma ou outra coisa que li a respeito posteriormente, acho que Kroc ultrapassou por várias vezes o limite do que eu considero aceitável em relações de negócios e mesmo pessoais.

De qualquer forma, é um filme interessante sobre a formação de uma das marcas mais valiosas e famosas criadas no século passado. Hoje, esse filme está disponível somente na HBOMax.





Tallinn (Estônia)

12 10 2021

Passei dois dias nessa cidade em 2013, no meu giro pela Europa rumo à Rússia. É uma cidade que tem seu centro histórico da época medieval bem conservado e explorado turisticamente. Gostei do pouco tempo que fiquei por lá, achei que valia um post a respeito.

Vista da Catedral Ortodoxa Alexander Nevsky

Na verdade, eu iria passar um dia a mais na cidade pela minha programação original. Acontece que eu tinha comprado todos os trechos da viagem (avião, navio, trens) com exceção do trecho de Tallin até São Petersburgo, na Rússia. Esse trecho não era vendido online, então fiquei de comprá-lo assim que chegasse à cidade. Foi o que fiz, fiz check-in no Hotel Braavo, e em seguida me dirigi à estação de trens. Mas o problema é que não conseguia me comunicar com a moça no guichê da estação. Ela não falava inglês, e eu não falava estoniano (talvez ela tenha tentado falar em russo ou outra língua, mas pra mim não faria diferença…). Depois de algum tempo e muita mímica, muitos dedos apontados para a tabela de horários e outras tentativas, consegui entender que não havia mais vaga para o trem do sábado que eu queria pegar. Eu teria que ir na sexta, para quando haviam passagens disponíveis. Só que minha hospedagem no AirBnB em São Petersburgo era só pro sábado. Voltei ao hotel onde havia acesso à Internet no wi-fi disponível, para ligar via Skype para minha anfitriã russa para saber se poderia antecipar minha chegada em um dia. Felizmente ela estaria vagando o quarto naquele dia, e então eu poderia ir. Voltei à estação de trens e pude comprar minha passagem, e finalmente começar a explorar Tallin.

Tallin vista de uma das torres da muralha

A coisa mais interessante sobre essa cidade (só fiquei na parte turística/histórica) para mim foi o ambiente medieval que eles criam para os turistas. A arquitetura permite que você realmente sinta-se na Idade Média. As lojas e restaurantes fazem a decoração e eventualmente os uniformes dos funcionários com roupas da época também. Como era verão, havia bastante gente nas ruas, e algumas apresentações teatrais que reproduziam as performances comuns na época medieval também.

Apresentação de teatro ao ar livre

O restaurante que escolhi para comer também era peculiar: a hostess de lá, vestida à caráter como uma respeitável senhora medieva, informou que ali só serviam alimentos que existiam na Europa antes do século XV, ou seja, antes de trazerem os alimentos “descobertos” na América, como milho e batata. Até a cerveja era do tipo e receita da época, e servida em canecas de barro.

A cidade, como todas as da época, era murada, e suas muralhas ainda permanecem parcialmente lá, e abertas para uma caminhada e belas fotos

Parte da muralha da cidade
Caminhando pela muralha
Torre na muralha

Algumas das construções mais famosas da cidade são a Catedral Ortodoxa Alexander Nevsky e a prefeitura (Raekoda), sendo esta uma construção do início do século XV, ostentando uma torre extremamente alta. Normalmente está aberta para visitação, mas na minha rápida passagem por lá acabei não conseguindo ir visitar.

Prefeitura (Raekoda)
Vista da Catedral Alexander Nevsky
Memorial Russalka, em homenagem ao naufrágio do navio russo de mesmo nome

Embora seja uma daquelas áreas bem montada para turistas e explorada como tal, gostei da minha passagem por lá, foram momentos agradáveis, pena que tive que partir logo.

Tallin vista a partir da torre da muralha

Se chegou até aqui, espero que tenha gostado desse curto relato. Abraço e até uma próxima!