Terminei há alguns dias a leitura desse livro. É interessante ler algo que nos leva para algo completamente distante, alheio do nosso dia-a-dia e da nossa realidade. No caso, para a realidade histórica da Europa do século XIX, o último século das grandes monarquias e impérios. Conhecia muito pouco sobre a vida dela, menos ainda do que sabia sobre o Império Austro-Húngaro. A autora, Allison Pataki, escritora de romances históricos, tem um cuidado enorme em mesclar pitadas de ficção sem fugir dos registros históricos, e inclusive ao final do livro ela cita todos os registros históricos das situações em que foi fiel à realidade. Como boa parte do livro é narrado pela própria imperatriz, obviamente não haveriam registros de seus pensamentos, é a parte onde a licença poética pode atuar. E na minha opinião, atua muito bem, nos aproximando com muita empatia dessa personagem histórica.
Sissi, a imperatriz Elisabeth, era um símbolo máximo da beleza, do luxo e do poder da realeza. Mas na sua intimidade passou boa parte da vida sozinha, refém da sua posição e das obrigações que vinham dela. Casou-se cedo, aos 16 com o já imperador Franz Joseph, de 23, da família dos Hasburgos, a então mais poderosa e tradicional das famílias reais europeias. O imperador estava prometido para a irmã mais velha de Sissi, mas ficou realmente apaixonado pela bela irmã mais nova quando as conheceu, e acabou casando-se com ela. Após tornar-se imperatriz, numa posição de alto poder e influência, sofre muito com a rigidez imposta principalmente pela sua sogra, mãe do imperador. Teve quatro filhos, três meninas e um menino: Teve duas filhas meninas (uma morreu criança ainda) antes de ter o tão desejado príncipe herdeiro, todos os três criados praticamente à sua revelia pela sogra, que a considerava imatura para ser mãe. Somente com sua caçula, que nasceu após o menino, conseguiu conviver e participar de sua criação. Foi se afastando do marido, procurando sempre viajar para lugares diferentes, onde pudesse minimamente sair dos protocolos da corte e eventualmente interagir com plebeus, viver mais livremente e mais feliz. Era muito criticada pela sociedade e pela imprensa por ser tão “independente” e distante de seu marido, mesmo estando com ele quando as obrigações importantes lhe exigiam. Ela teve participação importante na pacificação com os húngaros, em um momento em que a Europa inteira era uma panela de pressão por conta de guerras, intrigas e revoluções que pululavam para desespero dos monarcas de então. Ao longo da vida ela e o imperador acabaram se tornando muito mais parceiros protocolares com respeito mútuo do que marido e mulher. Perderam o filho herdeiro, já adulto, de forma trágica, tragédia essa que além de ter marcado a família, acabou criando situações sucessórias que algumas décadas depois desencadearam no estopim para a I Guerra mundial, com o assassinato do então herdeiro Franz Ferdinand em Sarajevo, que só era herdeiro por conta da morte do primo, filho de Franz Joseph e Sissi.
O que me chama muita atenção na história é a forma como ela conseguiu, naquele momento histórico onde as mulheres eram relegadas a posições sem importância, de certa forma sair do lugar comum de esposa submissa aos caprichos e desejos do marido, e até em certo grau um nível de independência dentro do possível. Sofreu bastante por isso, foi muito criticada e agredida pelas posições que tomava. Mesmo assim, era um modelo de referência de beleza e comportamento que acabava ditando modas em toda a Europa do século XIX. Dentro do contexto histórico e mesmo pessoal – ela se casou ainda adolescente -, pode-se dizer que ali foi forjada uma mulher à frente do seu tempo.
O livro está disponível nesse link da Amazon, em versão impressa ou Kindle. Para quem gosta de História, e gosta de uma boa narrativa, recomendo.
















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