1 ano de blog

11 07 2021
Imagem daqui

No final de junho do ano passado (o malfadado 2020), no meio da pandemia que ainda não passou, esse blog nasceu. Conforme explicado aqui, é um espaço movido pela minha necessidade de escrever. Acho que escrevo muito mais por essa necessidade, sem grandes pretensões… Colocar em palavras coisas que penso, opiniões, lembranças, impressões… Ainda me divirto vez ou outra lendo o que escrevi há 10, 15 anos atrás no meu outro blog abandonado.

Esse exercício de ter a disciplina e regularidade para escrever aqui tem sido bastante prazeroso. Acho que com uma única exceção nesses pouco mais de 12 meses, consegui publicar conteúdo praticamente toda semana. Mais da metade dos posts foram sobre viagens, e no geral são também os mais lidos. A audiência varia bastante, sei de algumas pessoas que são frequentadores assíduos, vez ou outra comentam, mas tenho também grande curiosidade a respeito das pessoas que leem e que não faço nem ideia de quem são ou como chegaram por aqui. A maior parte dos leitores acessam do Brasil, mas tenho muitos acessos dos Estados Unidos, Canadá, outros espalhados em vários países da Europa, alguns asiáticos (muitos acessos da China, o que me espantou), Nova Zelândia e Austrália.

Espero ainda ter disciplina, tempo e sobretudo coisas minimamente interessantes para continuar escrevendo aqui por um bom tempo. É muito como um monólogo, uma conversa comigo mesmo, e até agora tenho gostado do resultado. Embora siga escrevendo para mim mesmo, por uma necessidade pessoal, é muito legal quando alguém me escreve comentando, ou se inscrevendo para receber atualizações, sinto que alguém está ali do outro lado, “escutando”.

Seja você um(a) leitor(a) assíduo(a) ou não, agradeço por estar aqui nesse espaço totalmente despretensioso, volte sempre que quiser, espero estar aqui por muitos anos ainda…

Abraço, até a próxima!





Sobre perdas, e sobre momentos que não se perdem…

30 05 2021

Queria sentar aqui hoje e escrever sobre alguma viagem legal, relatar experiências, falar das saudades de poder criar e executar planos de viagens, comentar sobre coisas desse mundão enorme que nos cerca… Mas ontem houve um fato que me fez pensar muito a respeito de escolhas e momentos, sobre os quais já falei no post Depois é um tempo que não existe”, e no post “Questão de tempo (About time)”: Ontem, inesperadamente, um grande amigo, Carlos Cavalcanti (Cal ou Caval, como eu o chamava), partiu dessa vida. Não sou religioso, considero-me simplesmente uma pessoa espiritualizada em constante aprendizado. Nesse sentido, gosto de pensar que em algum outro plano, de alguma forma, iremos nos encontrar novamente… Mas a falta que ele fará aqui é praticamente indescritível, quem teve o privilégio de conhecê-lo sabe disso…

Na frente do nosso alojamento, aos pés do Annapurna, nas altas montanhas do Himalaia (Nepal)

Caval era uma pessoa de quem era muito fácil de gostar, logo de cara. Sempre bem-humorado, sempre disposto a topar qualquer programa, jantar, bar, cinema, o que fosse… excelente companheiro de viagens e trilhas, algumas que tive o prazer de fazer em sua companhia. E foi por isso que ele foi o único amigo (maluco?) que topou o convite para aquela que seria uma das viagens mais marcantes que já fiz, para o Nepal e Butão, em 2014. Nosso testemunho consta na página da agência até hoje.

Essa é a imagem que vou guardar de você: celebrando a vida, a amizade e as conquistas, sempre!

O fato de ele ter aceito aquela viagem naquele momento proporcionou a experiência que tivemos. Eu estava em boa forma, acostumado a fazer trilhas com frequência pelo Brasil e América do Sul principalmente. Mas ele não, não estava no melhor condicionamento para encarar dias de caminhadas de 4, 5, às vezes 8 horas em uma altitude relativamente alta para nós, brasileiros “da planície”, por assim dizer. Ele poderia ter sido bem racional e declinado. Mas ele não era assim. Ele topava, ele encarava. Sofreu durante a caminhada? Sim, um tanto. Em um determinado momento tivemos que dar uma encurtada, diminuir um pouco o ritmo e até mudar os planos no final, nos últimos trechos. Mas, segundo ele próprio, valeu a pena. Valeu a pena cada parte do esforço para estar naqueles lugares, ver aquelas coisas, viver aquela experiência toda. E aí, pensando nisso, tenho o gancho da estória do “deixar pra depois”: quantas vezes deixamos de fazer as coisas esperando pelas condições ótimas, quando estiver tudo perfeito?

Olhando para a trilha que passou, e para a que ainda tínhamos pela frente…

Vale a pena perder oportunidades para deixar para um depois que não sabemos se virá? Ele não teria conhecido o Himalaia, não teria vivido as sensações, cores, cheiros, a vida naqueles lugares. Por mais clichê que possa soar, não posso deixar de dizer: Devemos viver, aproveitar, arriscar, tentar, fazer… e não consigo pensar nele, nessa postura de se permitir viver, não deixar pra depois. E no momento difícil de uma perda como a que ocorreu agora, pra mim fica mais forte ainda a questão das opções e escolhas que fazemos ao longo da nossa caminhada pela vida… arrepender-se de escolhas, sim, mas de não ter tentado, acredito que isso deixa um gosto amargo demais na boca…

E espero ter deixado uma mensagem à sua altura, Caval, nesse pequeno texto que fiz aqui pensando em você, e nos momentos que passamos juntos, e pela experiência de ter tido a honra e o privilégio de ser seu amigo. As lágrimas já se foram, vão secando aos poucos, para que você possa fazer a sua passagem… Vá em paz, qualquer dia a gente volta a se encontrar…

Que sua passagem seja tranquila, amigo…

Vai com os anjos, vai em paz

Era assim todo dia de tarde, a descoberta da amizade

Até a próxima vez, é tão estranho

Os bons morrem antes

Me lembro de você e de tanta gente

Que se foi cedo demais

Legião Urbana, “Love in the afternoon”

Página da nossa viagem de 2014 no Facebook

Álbum de fotos da nossa viagem de 2014 no Facebook





“Depois” é um tempo que não existe…

25 04 2021

Há muito tempo atrás li um livro do Richard Bach, chamado “Longe é um lugar que não existe”, de onde tirei a inspiração para o título acima… esse post não tem nada a ver com o livro, qualquer dia escrevo sobre algum dos livros dele, de quem gosto muito como autor.

Mas o que eu queria escrever era sobre as necessidades que temos em fazer as coisas, e na nossa capacidade de postergarmos, inventarmos problemas, desistirmos de coisas, projetos, adiarmos sonhos e metas, por vezes e vezes seguidas, algumas delas indefinidamente… a tal falada procrastinação.

Foto daqui

Estamos atualmente na era das coisas imediatas. Tendo os recursos necessários (tempo, dinheiro), é muito fácil ter acesso a praticamente tudo, quase que instantaneamente. Em alguns casos, realmente de maneira instantânea, num piscar de olhos, num clique de mouse ou no celular. Mas será que essa facilidade toda, que a princípio somente simplifica e facilita a vida, está nos ajudando a realizarmos coisas que realmente nos importam, que realmente nos fazem bem, a nós e aos que nos são importantes? Durante bastante tempo eu deixava alguns planos e projetos de lado por conta de sempre estar esperando o melhor momento, onde desse para fazer as coisas com tranquilidade, da maneira mais perfeita possível. Há muito tempo atrás, lá na terapia, eu acabei entendendo o óbvio: não existe momento perfeito, o que existem são oportunidades, nós as fazemos, as aproveitamos e as perdemos. Desde então, procurei nunca mais deixar de ao menos tentar fazer as coisas que me dessem vontade, que me fizessem bem, mesmo que não houvessem as condições ideais. Dava pra fazer agora, vamos fazer. Não dá pra fazer agora mas dá pra dar um jeito de fazer algo parecido, ou posso me programar para fazer logo mais? Então eu faço de tudo para viabilizar e fazer acontecer. Vejo que as pessoas por vezes adiam as coisas que desejam, e ficam criando empecilhos para viabilizá-las: “Ah, quero fazer uma viagem, mas não tenho dinheiro!”. Então em um determinado momento tem o dinheiro, mas aí não consegue arrumar tempo, ou quer fazer uma viagem mais cara. Se realmente queremos algo e conseguimos colocar como prioridade, não há como não conseguir. Faça uma viagem mais modesta, economiza um pouco daqui e ali, priorize. “Ah, quero voltar a me exercitar, mas não tenho tempo/dinheiro para academia!”. Se realmente quer, qualquer canto pode servir. Caminhar/correr no próprio bairro, numa praça ou parque, comprar alguns equipamentos básicos e fazer algo em casa… Sempre é uma questão de priorizar.

O que temos é somente o hoje, sempre. O ontem já passou, nada que fizemos pode mudá-lo, e o amanhã não existe. Como disse Renato Russo, “se você parar pra pensar, na verdade não há” (o amanhã). Então, porque não parar de adiar aquela visita (depois da pandemia, claro!) ao amigo ou parente de outra cidade que há tanto lhe convida? “Ah, tenho que fazer a revisão do carro, agora não dá.”. Ou aquele café com o colega que não vê há tanto tempo… “Precisamos marcar, vamos ver!”. E esse amanhã pode nunca chegar. Poetas mais diversos já escreveram tanto sobre isso, sobre o tempo que não volta, o que deixamos de fazer e as oportunidades e pessoas se vão, para nunca mais… A certeza de que estaremos vivos amanhã também não existe…

Somos tão condicionados na vida profissional a termos foco, prioridades, sermos cobrados por execuções e entregas a todo momento. Por que razão não fazermos isso com nossas próprias vidas, nossas próprias prioridades pessoais? O hoje está aí para que façamos dele o nosso melhor. E o amanhã, se vier, vai ser fruto de nossas escolhas e prioridades, sempre…

“O hoje é apenas um furo no futuro

Por onde o passado começa a jorrar”

Raul Seixas, em “Banquete de lixo”





Ecdemomania

7 03 2021

Há alguns anos atrás descobri essa palavra, que nem sei se realmente existe na Língua Portuguesa. Mas o conceito me encantou: era exatamente a “doença” que eu tenho, essa vontade de sair por aí, conhecer lugares novos, culturas muito diferentes, lugares de que ouvi falar e só vi em fotos, lugares dos quais nunca ouvi falar e nem vi fotos, enfim… Sempre achei que o mundo era grande demais e nosso tempo por aqui demasiado curto, então deveríamos aproveitar o tempo com coisas que nos fazem bem, coisas das que gostamos. Dentre tantas obrigações, por vezes sem escolhas, que a vida nos traz, no tempo que temos para nós mesmos eu acho que deveríamos dedicar ao que nos faz bem, ao que nos dá prazer. E isso é muito pessoal. Para mim, é viajar.

E não tive, durante a infância, muito incentivo nesse sentido. Não tínhamos muito dinheiro, então as viagens nas férias, feriados eram restritas a locais mais próximos, litoral paulista, interior, essas coisas… a minha primeira viagem mais longa, a primeira de avião, foi aos 18, quase 19 anos, numa excursão escolar para Porto Seguro, na Bahia. Somente depois de formado, já com 25 anos, é que pude começar a experimentar e descobrir realmente essa paixão por viajar, e enfim colocar em prática, planejar, juntar dinheiro e começar a colecionar experiências.

E para mim o que tem mais valor é isso, são as experiências. São coisas que ficam na memória e que, diferentemente de dinheiro ou bens pessoais, ninguém pode tirar de você. Permanecem na memória, pelo tempo que a própria memória permita, para serem revistas, revividas em pensamento, para serem trocadas com outros. São as coisas que mais me motivam, ainda até hoje. Quer me ver feliz e empolgado, é só me chamar para conversar sobre lugares diferentes, viagens que já fiz e que ainda não fiz. Como disse, é muito pessoal, para alguns pode não fazer sentido, não ser racional, e talvez essa tal ecdemomania tire mesmo a razão, vai saber. Já ouvi pessoas dizerem que não precisam ir aos locais, se contentam vendo fotos, lendo relatos de outros, e consideram como se já conhecessem o lugar, e que ir até lá seria um desperdício de tempo, dinheiro e energia… Para mim, não, preciso ir, ouvir os sons, sentir os cheiros, experimentar comida, ouvir pessoas falando, ver ao vivo coisas construídas pela Natureza ou por gerações passadas, é isso que faz sentido, ao menos para mim. Quer me ver feliz? Vamos conversar sobre viagens. Mais feliz ainda? Convide-me para viajar e começar a planejar…

Há uma citação de um personagem de Game of Thrones, chamado Oberyn Martell (veja foto abaixo), que diz o seguinte (tradução livre): “O mundo é grande e lindo. A maioria de nós vive e morre no mesmo lugar em que nasceu e nunca viu quase nada dele. Eu não quero ser como a maioria de nós.”. Essa frase faz muito sentido para mim. Não consigo pensar em passar pela vida sem perambular, passear, viver tudo isso. Ao longo dos anos fui montando listas de lugares, com ordem de preferência, e o prazer de montar essa lista era quase tão grande quando “tirar” algum destino da lista depois que ele já havia sido visitado. São Petersburgo, na Rússia, ocupou o topo da lista por muito tempo… por anos seguidos fiquei adiando por buscar uma forma econômica de ir até lá. Até que em 2013 desisti de procurar o jeito barato, aí acabei indo gastando um pouco mais mesmo… Outro lugar que ficou no topo da lista por bastante tempo foi a região dos Bálcãs, na região da antiga Yugoslávia, que visitei em 2019. E ainda restam muitos lugares na lista, que provavelmente não ficará vazia nunca: China, Índia, Noruega, Canadá, Guatemala, Marrocos, Egito, Irã, Capadócia na Turquia, Equador, Ilhas Maurício, Galápagos, Maldivas, Japão, Tailândia… Na medida em que as oportunidades apareçam, e as finanças assim permitam (o câmbio e a pandemia têm que ajudar também, claro!), espero ainda riscar muitos desses destinos… E, dentro do Brasil, por onde já andei bastante também, ainda há muitos lugares a conhecer. Ainda não estive em 5 dos estados brasileiros: Acre, Rondônia, Pará, Piauí e Amapá. Acredito que Piauí e Pará sejam os próximos da lista, quando as oportunidades aparecerem.

Imagem daqui.

Quando falo sobre os lugares mais diferentes em que já estive, acho que os que mais chamam a atenção e geram curiosidade são sem dúvida o Butão, a Rússia, a Estônia, a Bósnia e Herzegovina, além de Cuba e do Nepal. São lugares distantes, cultural e geograficamente falando, e para os quais a maioria das pessoas jamais pensou em viajar. No Brasil, certamente ter ido para o Monte Roraima, na fronteira com a Venezuela, além das travessias dormindo em barracas nas montanhas, são as que chamam mais a atenção.

Se me pedissem para listar os lugares mais legais onde já estive, eu certamente teria dificuldades em escolher. Lugares distintos, com seus encantos únicos, não deveriam ser comparados. Os grandes monumentos e catedrais européias, com séculos de História, os cânions e cachoeiras da Chapada Diamantina, na Bahia, os mergulhos de superfície nos rios de Bonito, no Mato Grosso do Sul, as trilhas nas montanhas do Himalaia e dos Andes, as cidades históricas de Minas, a arquitetura e gastronomia de Curitiba, as incontáveis mesquitas em Istambul, as praias da Croácia, as de Jericoacoara, Fernando de Noronha, Natal, Maceió, Sergipe, Pernambuco… As marcas da guerra nos prédios e nas pessoas em Sarajevo, As trilhas nas serras de Minas, Rio e São Paulo, as Cataratas do Iguaçu, o Grand Canyon nos EUA, o Jalapão no Tocantins, os Lençóis Maranhenses, as montanhas geladas no Colorado e na Patagônia, as subidas ao Monte Roraima, Pico da Bandeira, Pedra da Mina. Não dá para escolher ou comparar. Cada um desses lugares me deixou marcas, lembranças únicas e insubstituíveis.

E dá pra viajar sem dinheiro?

Quando me perguntam como consigo me planejar financeiramente para conseguir viajar tanto (na verdade nem acho tanto, queria poder viajar mais, na verdade… hehehe), como todos os objetivos que temos, com planejamento e disciplina é possível fazer. Há épocas que dá pra fazer viagens maiores, mais caras, outras a gente se contenta com viagens mais modestas. Ao longo do tempo abri mão de outras coisas porque houveram épocas em que o importante era viajar, em outras o mais importante eram outros projetos. Mas sempre procurei, dentre o dinheiro que poupava, deixar uma parte para financiar as viagens. Claro que cada um tem sua situação particular, obrigações e tudo… mas mesmo em tempos de grana curta eu sempre dava um jeito de dar uma escapada, nem que fosse um final de semana com banho de cachoeira ou uma trilha, ou um bate-e-volta em algum lugar próximo.

Imagem daqui

Para mim, viajar é parte indispensável e indissociável da vida, poder me movimentar, sentir a vida pulsando, estar em contato direto com a natureza, aprender coisas novas, conhecer pessoas e trocar experiências que jamais poderiam ocorrer se eu ficasse sempre no mesmo lugar… Enfim, se algum dia encontrarem a cura para essa tal ecdemomania, eu certamente escolherei não ser curado nunca…

Se chegou até aqui, espero que tenha gostado, hoje foi um texto mais pessoal… até uma próxima!





Último do ano… e que ano…

31 12 2020
foto daqui

E chegamos a 31 de dezembro de 2020, o ano pelo qual ninguém esperava… que fosse assim como foi… Tudo completamente diferente, inesperado, que brincou com a nossa soberba de achar que temos o mínimo controle sobre qualquer coisa… Um ano que veio para nos mostrar como somos pequenos, frágeis e insignificantes como espécie, e nos lembrar que estamos por aqui de passagem, em todos os sentidos…

Não sou uma pessoa pessimista, procuro sempre olhar as coisas por prismas diferentes, tanto quanto possível. Durante esse ano só tenho a agradecer pela quantidade de privilégios que tenho: estou saudável, mantive meu emprego, meu trabalho e minha rotina me permitiram seguir com o isolamento de forma bem efetiva. Sofro com a distância, com as impossibilidades e limitações impostas de ver e estar com pessoas queridas, mas não posso comparar minha situação com pessoas que não tiveram opção, tiveram seus sonhos adiados ou bruscamente interrompidos, muitos deles em definitivo. Valores tiveram que ser revistos e ressignificados, estórias tiveram que ser suspensas ou reescritas, por vezes brutal e inesperadamente.

Isso acabou trazendo um tom diferente para essa virada de ano, mais cheio de esperança, mas principalmente de uma ansiedade acumulada. Como já disse um texto que circula por aí, por vezes atribuído a Drummond, outras ao jornalista Roberto Pompeu de Toledo, o tempo cortado em fatias e chamar de ano foi uma ideia de gênio, “industrializou a esperança fazendo-a funcionar no limite da exaustão”. Leva-nos todos a crer no milagre da esperança pela renovação pela simples troca da folhinha do calendário. Um dia e uma noite como outros quaisquer ganham um significado monstruoso. E com esse ano, não poderia ser diferente…

Acho que 2020 trouxe às claras o que de melhor e pior existe em cada um de nós. Ninguém se tornou bom ou mau, esperançoso ou pessimista, inteligente ou estúpido por causa do ano. Mas as situações trazidas por ele fizeram sim aflorar o que cada um tem a oferecer, a si próprio e ao mundo de uma maneira geral. Individualismo, ignorância, de uma certa forma estavam vindo numa crescente antes da pandemia. Por outro lado, um sentimento coletivo de que muito precisa ser melhorado, e rápido, para que consigamos manter a vida sustentável nesse nosso único planeta, também vinham ganhando espaço. O ano que se encerra apenas potencializou tudo isso. E cabe a cada um de nós entender o que fazer e – mais importante – o que aprender com isso. Não acho que tenha sido um ano perdido, por mais que tantos tenham sofrido e sigam sofrendo tanto, enquanto sociedade, seguimos. Talvez transformados, mas seguimos. Projetos interrompidos têm que ser substituídos por outros, outras coisas e pessoas virão, melhores ou piores, mas sobretudo diferentes.

E que cada um saiba fazer o “diferente” da melhor maneira para si e para que os cercam, que se olhe mais para o coletivo, para o que possamos entregar para os outros… Este é o meu desejo para a nova “fatia de tempo” que se inicia hoje à meia-noite.

Feliz 2021!