Essa semana completei um ano cumprindo o isolamento social, tão falado e tão necessário para o mínimo controle da pandemia do COVID-19.
Um ano que vi pouquíssimas pessoas do meu convívio social, limitei minhas saídas de casa para poucos momentos, ao longo do tempo fomos vendo como nos sentíamos seguros e confortáveis com a situação, saindo para caminhadas no condomínio, na avenida aqui ao lado, andar de bicicleta… De uma maneira geral, tomando cuidados simples individualmente, nos mantivemos seguros. Dentro de casa, adaptação total para home office em tempo integral. Eu já fazia boa parte do trabalho em casa, mas a Laura não. Montamos na medida do possível os dois pontos de trabalho e conseguimos ficar bem.
Mas temos a consciência de que somos privilegiados, e muito mais ainda numa situação como essa: temos condições de trabalhar de casa, empregos que nos permitem isso com um mínimo de adaptação, não dependemos de ficar saindo de casa, utilizando transporte público ou ir a locais com outras pessoas. Mas muita gente não consegue, não pode fazer isso. Por isso acho que o fato de ainda estarmos, depois de um ano, discutindo sobre a necessidade ou não de medidas rígidas para controlar a circulação do vírus mostra muito sobre como fizemos as coisas erradas até agora…
Eu, que sou completamente avesso a julgar os outros, sei que cada um tem seus limites, e acho que as pessoas fazem as suas escolhas e arcam com as consequências delas, para o bem e para o mal. Mas o problema em questão é que as escolhas que as pessoas fazem impactam outras vidas, a partir do momento em que não há mais recursos para atender doentes em quase nenhum lugar do país. É um grande problema coletivo que precisa de contribuições e sacrifícios individuais, e é isso que as pessoas não enxergam, ou não querem enxergar. É ruim não poder circular, não poder fazer o que gostaria? É, mas são limites que a situação nos impõe, sem alternativas. E é pelas pessoas que não têm escolha, que devemos fazer esse esforço. De novo, é um problema coletivo, gigante, que necessita de contribuições e sacrifícios individuais. Talvez se as pessoas conseguissem enxergar dessa maneira conseguiríamos conter o avanço da doença enquanto ainda não temos vacinação em massa.
Ao longo desse tempos todos aprendemos coisas que podemos fazer à distância, reuniões familiares restritas às telas de computadores e celulares, lives dos artistas preferidos, nada disso substitui à altura a vida real, mas como se diz no popular, “é o que temos para hoje”. A minha rotina pessoal nos últimos doze meses tem se restringido a bastante trabalho, estudo, aulas virtuais de Yoga (que têm me ajudado a manter o equilíbrio e a calma), quando estava aberta a academia cheguei a nadar, sempre com distanciamento e com horário marcado, além das caminhadas e pedaladas. E torcendo muito para que a vacinação acelere para que possamos ter um mínimo de normalidade de novo, para que possamos nos abraçar de novo…
Há alguns anos atrás descobri essa palavra, que nem sei se realmente existe na Língua Portuguesa. Mas o conceito me encantou: era exatamente a “doença” que eu tenho, essa vontade de sair por aí, conhecer lugares novos, culturas muito diferentes, lugares de que ouvi falar e só vi em fotos, lugares dos quais nunca ouvi falar e nem vi fotos, enfim… Sempre achei que o mundo era grande demais e nosso tempo por aqui demasiado curto, então deveríamos aproveitar o tempo com coisas que nos fazem bem, coisas das que gostamos. Dentre tantas obrigações, por vezes sem escolhas, que a vida nos traz, no tempo que temos para nós mesmos eu acho que deveríamos dedicar ao que nos faz bem, ao que nos dá prazer. E isso é muito pessoal. Para mim, é viajar.
E não tive, durante a infância, muito incentivo nesse sentido. Não tínhamos muito dinheiro, então as viagens nas férias, feriados eram restritas a locais mais próximos, litoral paulista, interior, essas coisas… a minha primeira viagem mais longa, a primeira de avião, foi aos 18, quase 19 anos, numa excursão escolar para Porto Seguro, na Bahia. Somente depois de formado, já com 25 anos, é que pude começar a experimentar e descobrir realmente essa paixão por viajar, e enfim colocar em prática, planejar, juntar dinheiro e começar a colecionar experiências.
E para mim o que tem mais valor é isso, são as experiências. São coisas que ficam na memória e que, diferentemente de dinheiro ou bens pessoais, ninguém pode tirar de você. Permanecem na memória, pelo tempo que a própria memória permita, para serem revistas, revividas em pensamento, para serem trocadas com outros. São as coisas que mais me motivam, ainda até hoje. Quer me ver feliz e empolgado, é só me chamar para conversar sobre lugares diferentes, viagens que já fiz e que ainda não fiz. Como disse, é muito pessoal, para alguns pode não fazer sentido, não ser racional, e talvez essa tal ecdemomania tire mesmo a razão, vai saber. Já ouvi pessoas dizerem que não precisam ir aos locais, se contentam vendo fotos, lendo relatos de outros, e consideram como se já conhecessem o lugar, e que ir até lá seria um desperdício de tempo, dinheiro e energia… Para mim, não, preciso ir, ouvir os sons, sentir os cheiros, experimentar comida, ouvir pessoas falando, ver ao vivo coisas construídas pela Natureza ou por gerações passadas, é isso que faz sentido, ao menos para mim. Quer me ver feliz? Vamos conversar sobre viagens. Mais feliz ainda? Convide-me para viajar e começar a planejar…
Há uma citação de um personagem de Game of Thrones, chamado Oberyn Martell (veja foto abaixo), que diz o seguinte (tradução livre): “O mundo é grande e lindo. A maioria de nós vive e morre no mesmo lugar em que nasceu e nunca viu quase nada dele. Eu não quero ser como a maioria de nós.”. Essa frase faz muito sentido para mim. Não consigo pensar em passar pela vida sem perambular, passear, viver tudo isso. Ao longo dos anos fui montando listas de lugares, com ordem de preferência, e o prazer de montar essa lista era quase tão grande quando “tirar” algum destino da lista depois que ele já havia sido visitado. São Petersburgo, na Rússia, ocupou o topo da lista por muito tempo… por anos seguidos fiquei adiando por buscar uma forma econômica de ir até lá. Até que em 2013 desisti de procurar o jeito barato, aí acabei indo gastando um pouco mais mesmo… Outro lugar que ficou no topo da lista por bastante tempo foi a região dos Bálcãs, na região da antiga Yugoslávia, que visitei em 2019. E ainda restam muitos lugares na lista, que provavelmente não ficará vazia nunca: China, Índia, Noruega, Canadá, Guatemala, Marrocos, Egito, Irã, Capadócia na Turquia, Equador, Ilhas Maurício, Galápagos, Maldivas, Japão, Tailândia… Na medida em que as oportunidades apareçam, e as finanças assim permitam (o câmbio e a pandemia têm que ajudar também, claro!), espero ainda riscar muitos desses destinos… E, dentro do Brasil, por onde já andei bastante também, ainda há muitos lugares a conhecer. Ainda não estive em 5 dos estados brasileiros: Acre, Rondônia, Pará, Piauí e Amapá. Acredito que Piauí e Pará sejam os próximos da lista, quando as oportunidades aparecerem.
Quando falo sobre os lugares mais diferentes em que já estive, acho que os que mais chamam a atenção e geram curiosidade são sem dúvida o Butão, a Rússia, a Estônia, a Bósnia e Herzegovina, além de Cuba e do Nepal. São lugares distantes, cultural e geograficamente falando, e para os quais a maioria das pessoas jamais pensou em viajar. No Brasil, certamente ter ido para o Monte Roraima, na fronteira com a Venezuela, além das travessias dormindo em barracas nas montanhas, são as que chamam mais a atenção.
Se me pedissem para listar os lugares mais legais onde já estive, eu certamente teria dificuldades em escolher. Lugares distintos, com seus encantos únicos, não deveriam ser comparados. Os grandes monumentos e catedrais européias, com séculos de História, os cânions e cachoeiras da Chapada Diamantina, na Bahia, os mergulhos de superfície nos rios de Bonito, no Mato Grosso do Sul, as trilhas nas montanhas do Himalaia e dos Andes, as cidades históricas de Minas, a arquitetura e gastronomia de Curitiba, as incontáveis mesquitas em Istambul, as praias da Croácia, as de Jericoacoara, Fernando de Noronha, Natal, Maceió, Sergipe, Pernambuco… As marcas da guerra nos prédios e nas pessoas em Sarajevo, As trilhas nas serras de Minas, Rio e São Paulo, as Cataratas do Iguaçu, o Grand Canyon nos EUA, o Jalapão no Tocantins, os Lençóis Maranhenses, as montanhas geladas no Colorado e na Patagônia, as subidas ao Monte Roraima, Pico da Bandeira, Pedra da Mina. Não dá para escolher ou comparar. Cada um desses lugares me deixou marcas, lembranças únicas e insubstituíveis.
E dá pra viajar sem dinheiro?
Quando me perguntam como consigo me planejar financeiramente para conseguir viajar tanto (na verdade nem acho tanto, queria poder viajar mais, na verdade… hehehe), como todos os objetivos que temos, com planejamento e disciplina é possível fazer. Há épocas que dá pra fazer viagens maiores, mais caras, outras a gente se contenta com viagens mais modestas. Ao longo do tempo abri mão de outras coisas porque houveram épocas em que o importante era viajar, em outras o mais importante eram outros projetos. Mas sempre procurei, dentre o dinheiro que poupava, deixar uma parte para financiar as viagens. Claro que cada um tem sua situação particular, obrigações e tudo… mas mesmo em tempos de grana curta eu sempre dava um jeito de dar uma escapada, nem que fosse um final de semana com banho de cachoeira ou uma trilha, ou um bate-e-volta em algum lugar próximo.
Para mim, viajar é parte indispensável e indissociável da vida, poder me movimentar, sentir a vida pulsando, estar em contato direto com a natureza, aprender coisas novas, conhecer pessoas e trocar experiências que jamais poderiam ocorrer se eu ficasse sempre no mesmo lugar… Enfim, se algum dia encontrarem a cura para essa tal ecdemomania, eu certamente escolherei não ser curado nunca…
Se chegou até aqui, espero que tenha gostado, hoje foi um texto mais pessoal… até uma próxima!
Esse ocorreu na viagem de volta do Nepal, especificamente na conexão em Abu Dhabi. Grande parte dos passageiros que estavam por ali no mesmo voo eram nepaleses que estavam indo aos Emirados para trabalharem, em especial na construção civil. Pessoas simples, na sua maioria. Após passarmos pela imigração (que tem uma estória interessante, aqui), um rapaz veio me abordar, falando em (provavelmente) nepalês e apontando para a etiqueta de bagagem na sua mão. Ele estava visivelmente nervoso, com jeito de perdido. Nessas situações me dá um desespero de não poder ajudar. Imaginei que ele estava preocupado em passar pelo saída do saguão (tinha um ponto de controle de segurança) porque ele esperava pegar sua bagagem primeiro. Mas a sinalização (que provavelmente ele não conseguia ler) indicava a retirada de bagagem fora do saguão. Tentei fazer mímica, gestos, sinalizando para ele que ele poderia passar pelo posto de controle. Ele foi, mas ainda bem desconfiado… Fiquei sem saber o resto da estória, se ele conseguiu pegar sua bagagem e chegar bem. Saí de lá pensando no desespero de ter que sair do seu país por não ter opção, ir para um lugar estranho, onde você não saiba se comunicar, para ter um trabalho sabe-se lá em que condições…
Quase assaltado nos jardins do palácio do Czar
Essa ocorreu quando estava em São Petersburgo, na Rússia, no Palácio Peterhof, residência de verão do Czar Pedro, “o Grande”. Nem todas as lembranças de viagens são agradáveis, e essa não é das melhores. Era um dia de verão, eu estava caminhando pelos jardins lotados, tirando fotos e vendo monumentos. Parei no meio de uma aglomeração de pessoas assistindo a uma apresentação musical de uma banda tradicional russa. Distraído, senti algo na minha coxa, quando olhei, tinha um rapaz ao meu lado colocando a mão no bolso da minha bermuda, na altura da coxa. Quando, vi, instintivamente bati na mão dele, que ficou completamente sem graça, disfarçou simulando que estava batendo na própria perna para limpar algo. Gritei com ele em inglês, bravo, e ele saiu andando no meio da multidão… Boa experiência para lembrar de sermos cuidadosos, em qualquer lugar do mundo pode haver pessoas mal-intencionadas.
E chegamos a 31 de dezembro de 2020, o ano pelo qual ninguém esperava… que fosse assim como foi… Tudo completamente diferente, inesperado, que brincou com a nossa soberba de achar que temos o mínimo controle sobre qualquer coisa… Um ano que veio para nos mostrar como somos pequenos, frágeis e insignificantes como espécie, e nos lembrar que estamos por aqui de passagem, em todos os sentidos…
Não sou uma pessoa pessimista, procuro sempre olhar as coisas por prismas diferentes, tanto quanto possível. Durante esse ano só tenho a agradecer pela quantidade de privilégios que tenho: estou saudável, mantive meu emprego, meu trabalho e minha rotina me permitiram seguir com o isolamento de forma bem efetiva. Sofro com a distância, com as impossibilidades e limitações impostas de ver e estar com pessoas queridas, mas não posso comparar minha situação com pessoas que não tiveram opção, tiveram seus sonhos adiados ou bruscamente interrompidos, muitos deles em definitivo. Valores tiveram que ser revistos e ressignificados, estórias tiveram que ser suspensas ou reescritas, por vezes brutal e inesperadamente.
Isso acabou trazendo um tom diferente para essa virada de ano, mais cheio de esperança, mas principalmente de uma ansiedade acumulada. Como já disse um texto que circula por aí, por vezes atribuído a Drummond, outras ao jornalista Roberto Pompeu de Toledo, o tempo cortado em fatias e chamar de ano foi uma ideia de gênio, “industrializou a esperança fazendo-a funcionar no limite da exaustão”. Leva-nos todos a crer no milagre da esperança pela renovação pela simples troca da folhinha do calendário. Um dia e uma noite como outros quaisquer ganham um significado monstruoso. E com esse ano, não poderia ser diferente…
Acho que 2020 trouxe às claras o que de melhor e pior existe em cada um de nós. Ninguém se tornou bom ou mau, esperançoso ou pessimista, inteligente ou estúpido por causa do ano. Mas as situações trazidas por ele fizeram sim aflorar o que cada um tem a oferecer, a si próprio e ao mundo de uma maneira geral. Individualismo, ignorância, de uma certa forma estavam vindo numa crescente antes da pandemia. Por outro lado, um sentimento coletivo de que muito precisa ser melhorado, e rápido, para que consigamos manter a vida sustentável nesse nosso único planeta, também vinham ganhando espaço. O ano que se encerra apenas potencializou tudo isso. E cabe a cada um de nós entender o que fazer e – mais importante – o que aprender com isso. Não acho que tenha sido um ano perdido, por mais que tantos tenham sofrido e sigam sofrendo tanto, enquanto sociedade, seguimos. Talvez transformados, mas seguimos. Projetos interrompidos têm que ser substituídos por outros, outras coisas e pessoas virão, melhores ou piores, mas sobretudo diferentes.
E que cada um saiba fazer o “diferente” da melhor maneira para si e para que os cercam, que se olhe mais para o coletivo, para o que possamos entregar para os outros… Este é o meu desejo para a nova “fatia de tempo” que se inicia hoje à meia-noite.
Dois jovens durante uma noite em Viena (foto daqui)
A estória de um filme que era para ser um só, virou dois, e acabou sendo três… Antes do Amanhecer (Before Sunset, 1995), Antes do Pôr-do-Sol (Before Sunset, 2004) e Antes da Meia-Noite (Before Midnight, 2013)
O primeiro filme não foi um grande sucesso de bilheteria, mas conquistou ao longo dos anos fãs apaixonados, o que acabou por gerar uma sequência, 9 anos depois, que não havia sido programada. A sequência na verdade foi sendo conversada e construída ao longo dos anos por conversas entre o diretor e os dois atores protagonistas.
Na verdade, se não me falha a memória o primeiro filme que assisti foi o Antes do Pôr-do-Sol, depois fui assistir ao primeiro. Vou começar falando do primeiro, Antes do Amanhecer. Foi um filme que me marcou bastante, pela simplicidade, pela naturalidade com que as coisas vão ocorrendo entre os dois personagens, Céline, uma garota francesa de Paris vivida por Julie Delpie, e Jesse, um rapaz estadunidense vivido por Ethan Hawke. Eles se encontram em um trem na Europa, em algum ano no início da década de 1990, começam a conversar, rola uma empatia, uma conexão entre eles, e Jesse acaba convencendo a moça que desça com ele em Viena (Áustria), porque seria a última noite dele na Europa antes de voltar aos Estados Unidos, e ele adoraria a companhia dela. Ela reluta um pouco mas aceita. O filme todo se desenrola com eles passeando pela cidade, conversando sobre praticamente tudo. O futuro, o Universo não tinha limites para seus sonhos, devaneios, seus ainda poucos anos de vida e para a infinidade de perspectivas que se abriam diante de seus olhos.
O filme vai passando, a estória se desenrolando, e (ao menos para mim foi assim) não se percebe o tempo passar. A forma como é fácil se identificar com os personagens lhe coloca muito dentro da estória. Quem nunca pensou em “saltar em outra parada” ao longo da vida? Tomar um rumo diferente, premiar seus desejos impulsivos, ainda que por pouco tempo, ainda que por uma vez ou outra? Uma inconsequência rápida, tola, como geralmente elas são. Mesmo que depois você possa retornar ao seu trem, ao seu destino anteriormente planejado. O filme todo envereda pela poesia, pelos sonhos de nossas próprias juventudes, por tudo que poderia ter sido mas não foi.
Durante toda a noite que passam juntos perambulando pelas ruas de Viena, eles acabam se envolvendo intensamente, e até que chega o inexorável nascer do Sol que dá nome ao filme, Before Sunrise, “Antes do nascer do Sol” em tradução literal. O nascer do Sol, o amanhecer que traria a realidade de volta, levaria cada um ao seu caminho e a vida que seguiria.
Se você ficou com vontade de ver o filme e quer evitar spoilers, sugiro que pare por aqui, e (por favor!) volte para ler o resto depois que assistido ao filme. Ele está disponível no YouTube para alugar, aqui. Não sei se está disponível em outras plataformas.
Passado o alerta de spoiler, voltemos ao filme…
No final, eles haviam combinado de realmente não se encontrarem novamente, e deixar para cada um a lembrança daqueles momentos juntos. Sem trocar telefones, endereços, nada (lembre-se, década de 1990, sem facilidades de smartphones e Internet). Jesse acompanhou Céline até a estação onde ela tomaria o trem, e Jesse em seguida iria pegar seu avião de volta pra casa. No último instante, num último impulso, eles marcam um encontro para ocorrer naquela estação, naquele mesmo local, dali a 6 meses. Sem contato, sem conversas até lá. Naquele momento rápido eles entenderam o quanto queriam se ver de novo, e o quanto receavam que o outro não quisesse. E o filme acaba exatamente assim, com eles se despedindo, com cenas vazias e silenciosas dos locais por onde eles haviam passado ao longo das últimas horas, e deixa para cada um imaginar o que teria sido esse reencontro, o que teria sido da vida desses dois jovens…
Nove anos depois, em 2004…
Cena de “Antes do Pôr-do-Sol”, de 2004. Foto daqui.
Como eu disse anteriormente, não era um filme com grande orçamento, não era um filme para ter uma continuação, era uma estória que, embora ficasse em aberto, terminava ali. Ao longo dos anos, o roteirista e diretor Richard Linklater e os dois atores principais seguiram conversando sobre possibilidades para a continuação do filme. Em 2004, eles decidiram que era tempo de continuarem contando a estória dos jovens, o que teria acontecido, e para delírio dos fãs, filmaram “Antes do Pôr-do-Sol”, também disponível para alugar no Youtube, aqui. A partir daqui, vou contar coisas dos filmes e não vou mais dar alertas de spoilers, se quiser volte para ler depois de assistir aos 3 filmes… recomendo muito.
Esse segundo filme começa com Jesse, em Paris, fazendo o lançamento do seu livro, que conta justamente a estória vivida por ele e Céline, nove anos antes. Ele não diz explicitamente que teria vivido pessoalmente a tal experiência, deixa “no ar”… Enquanto ele está dando uma entrevista em uma pequena livraria, Céline aparece por lá. Fica óbvio que eles não tinham se visto desde a despedida em Viena, 9 anos antes. Jesse tem um avião para pegar dali a menos de duas horas. Então novamente eles têm muito pouco tempo juntos, e saem novamente caminhando pela cidade, mas dessa vez, temos Paris como pano de fundo. O filme se passa durante essa hora e meia de caminhada e conversas. Ficamos sabendo dos fatos que levaram ao reencontro marcado não ter ocorrido, eles conversam sobre como haviam vivido suas vidas desde então. Jesse tem uma família, mulher e filho nos Estados Unidos, Céline está sozinha. A conversa vai migrando de algo corriqueiro, desimportante, para à volta ao sentimentos da juventude… ao final do filme, Jesse vai postergando sua ida ao aeroporto, atrasando, correndo o risco de perder o avião, e pela segunda vez o roteirista do filme nos deixa com um final em aberto: ele teria realmente perdido o avião? Ele ficou com ela em Paris? O que teria acontecido?
Esse segundo filme é um passeio pela experiência de reviver o passado, repensar escolhas, divagar e imaginar o que poderia ter sido e não foi, o que nossas escolhas ao longo da vida nos custam… Mais uma vez, eu acho que é uma narrativa com a qual as pessoas conseguem se identificar facilmente, como no primeiro filme. Quem nunca se pegou pensando em como teria sido sua própria vida se determinadas escolhas tivessem sido diferentes? Quem nunca comparou a realidade crua com a utopia de uma vida diferente, que poderia ter sido iniciada em uma determinada encruzilhada?
Outros nove anos se passaram, e em 2013…
Casal maduro, em Antes da Meia-Noite (2013). Foto daqui.
Outros nove anos se passaram, e voltamos a nos encontrar com Céline e Jesse, em . Eles ficaram juntos após o segundo filme, vivem em Paris com duas filhas que tiveram. Eles vão passar férias na Grécia, e o filme mostra como foi a vida que construíram juntos… Um excelente fechamento para a estória de amor, na minha opinião. Mostra como a vida real é, em contraposição com a utopia dos sonhos, do que “poderia ter sido e não foi”. Sonhos frustrados, amadurecimento, resiliência… as coisas boas e ruins que vêm com o tempo, em qualquer relacionamento. Mais uma vez nos leva a pensar sobre escolhas, sobre a vida, sobre o amor.
Ali vemos que a comparação da utopia de uma vida “que não foi” com a vida possível, como ela é de fato, é uma comparação injusta. O que poderia ter sido pertence ao mundo dos sonhos, pode ser perfeito. A realidade não. Uma vez um colega de trabalho veio me pedir um conselho, ele estava morando em uma cidade e a noiva em outra. Ele conheceu outra moça e começou um relacionamento, estava indeciso sobre qual escolha deveria fazer. Pensei um pouco e fui enfático: “Qualquer escolha que você faça vai ser cheia de coisas boas, mas inevitavelmente em algum momento você vai se arrepender, olhar pra trás e pensar que deveria ter escolhido diferente. Porque quando os problemas da vida real aparecerem, a comparação vai ser com a vida perfeita que potencialmente teria havido em função daquela escolha…”. Acho que isso é humano, e pensar, refletir, permitir-se viver, tudo isso faz parte… Não é por que um relacionamento eventualmente acaba que ele “deu errado”. Deu “certo” pelo tempo que foi bom, pelo tempo que pode ser, nem mais nem menos. No geral há muitas coisas boas, mas dessas as pessoas acabam se esquecendo quando as coisas terminam…
E na vida real…
Uma curiosidade adicional sobre os filmes: O primeiro filme foi escrito por Richard Liklater baseado em uma estória pessoal, com uma moça, Amy, que ele conheceu por acaso em 1989 e acabaram passando a madrugada juntos. Ele inclusive chegou a comentar com ela que poderia escrever um filme a respeito daquela noite. Eles mantiveram contato por um tempo, mas depois a relação foi esfriando e eles perderam contato. O diretor conta que por algum tempo fantasiou que ela poderia aparecer em alguma estreia de “Antes do Amanhecer” (da mesma maneira que Céline aparece no lançamento do livro de Jesse), mas isso não ocorreu. Ele só tornou pública essa estória no lançamento do terceiro filme(2013), quando contou que em 2010 ficou sabendo que Amy havia falecido em decorrência de um acidente, semanas antes do lançamento de “Antes do amanhecer”. O terceiro filme é dedicado à ela nos créditos finais.
Essa foi uma estória que me marcou bastante, e foi para a lista dos filmes da vida, pela estória, pela delicadeza, pelos diálogos, pelas cidades mostradas nos filmes… enfim, filmes para serem revistos algumas vezes ao longo da vida.
Espero que tenha gostado, caso tenha tido a paciência de ler até aqui… até uma próxima!
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